É normal que um povo que resiste com resiliência a uma tripla catástrofe cause perplexidade. Mesmo sabendo que esse povo é conhecido pela sua enorme estoicidade, por não demonstrar publicamente as suas emoções e por ter uma obsessão pela ordem. Mas, para quem não está familiarizado com a cultura japonesa, esta aparente “apatia” é muito difícil de compreender. O VER foi à procura destes traços culturais e, face a um país desgovernado, tentar retirar lições úteis para lidarmos com os nossos comparativamente insignificantes tremores de terra internos
POR HELENA OLIVEIRA

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“A paciência dos japoneses é definida como a atenção ao som dos silêncios”.
Haruki Murakami, reconhecido escritor japonês

Nas muitas imagens que o mundo presenciou relativas à altura em que a terra começou a tremer no Japão, houve uma, entre muitas, bastante elucidativa e filmada no interior de uma loja: numa prateleira repleta de facas, um empregado de imediato encostou o seu corpo às mesmas para que estas não começassem a “voar”. Quem se lembra de facas quando a terra treme violentamente debaixo dos seus pés? O empregado japonês que, simplesmente, estava a fazer o seu trabalho.

A forma calma como o povo japonês reagiu e, aparentemente, continua a reagir face ao desfile de catástrofes de que tem sido vítima desde o dia 11 de Março tem dado origem a uma onda de admiração global que, em muitos casos, roça a absoluta incredulidade.

Sem nos determos nas imagens de serenidade que foram transmitidas na altura do terramoto e consequente tsunami, o ambiente pós-catástrofe é igualmente um mistério para os demais habitantes do Planeta Terra que não conseguem perceber este estado de ordem perfeccionista existente num abusivo caos.

Logo a seguir à primeira tragédia, no metropolitano de Tóquio, as pessoas esperavam sossegadamente pela sua vez para poderem telefonar às famílias. Nas filas de abastecimento, um a um, os japoneses esperam pacientemente pela sua ração de comida ou água. Nas ruas, as caixas de mantimentos estão cuidadosamente ordenadas. Nos centros de acolhimento, grupos de jovens ostentam cartazes com números e a palavra “MULHERES”. A ideia é levarem grupos de mulheres, de acordo com os seus grupos etários, às instalações onde tomam o seu banho diário. Nestes mesmos centros, os trabalhadores continuaram com as suas actividades diárias, “oferecendo-as” gratuitamente. Os médicos tratam de doentes, os que consertam bicicletas continuam a faze-lo, os veterinários doam caixas para animais de estimação “traumatizados” com os acontecimentos. Com zonas completamente devastadas, os registos de roubos ou pilhagens são praticamente inexistentes. À noite é possível ver os sobreviventes a passearem os seus cães enquanto os camiões de lixo fazem uma criteriosa selecção dos resíduos biodegradáveis ou não que estão ordeiramente expostos às portas dos centros para refugiados.

Os que foram submetidos a testes de radioactividade também esperaram calmamente a sua vez. E, como o mundo inteiro já sabe, os que ainda se encontram na central nuclear de Fukushima estão simplesmente a cumprir o seu dever. Nenhum membro das suas famílias se queixou publicamente de que os seus pais ou maridos se encontravam em perigo de vida. Talvez porque em japonês as palavras “sociedade” (shakai) e “empresa” (kaisha) são representadas por dois caracteres japoneses muito similares. E porque o povo japonês sabe que primeiro vem o bem-estar do país, depois o do grupo ou da comunidade e, só em último, o individual.

É normal que um povo que resiste com resiliência a uma tripla catástrofe – um terramoto, um tsunami e uma ameaça nuclear – cause uma enorme perplexidade aos que assistem, em directo, à sua reacção. Mesmo sabendo que esse povo é conhecido pela sua enorme estoicidade, por não demonstrar publicamente as suas emoções e por ter uma quase obsessão pela ordem. Mas, para quem não está familiarizado com a cultura japonesa, esta aparente “apatia” é muito difícil de compreender. Principalmente quando comparada aos cenários que envolvem catástrofes similares.

O VER foi à procura destes traços culturais e, face a um país desgovernado, tentar retirar lições úteis para lidarmos com os nossos comparativamente insignificantes tremores de terra internos.

O gaman ou a força e o estoicismo
De acordo com os especialistas, apesar de existir obviamente um limite para o que cada indivíduo consegue aguentar, as características culturais de uma sociedade podem influenciar a sua resiliência psicológica. E, no Japão, para os sentimentos de força e estoicismo existe uma única qualidade, profundamente enraizada nas mentes dos seus habitantes desde a infância, que é o conceito de “gaman”. De acordo com Robert Brasch, presidente da Pacific Partners Inc., um japonês nascido na América, tal significa “que é necessário sofrer, aguentar e não deixar transparecer”, ou, mais simplesmente “aguentar no duro, ao mesmo tempo que se é duro”. Em declarações ao Los Angeles Times, Roland Kelts, professor na Universidade de Tóquio e autor do livro “Japanamerica”, o estoicismo está profundamente enraizado na cultura japonesa que, ao longo de toda a sua história, se habituou a ser “visitada” por vulcões, terramotos, tsunamis e invasões. Aliás, no folclore e nas suas lendas, os japoneses incluem normalmente os desastres e as calamidades e, de acordo com o professor, “existe um enorme sentimento de orgulho na ideia de que o Japão é, há muita, uma nação sofredora”. E que sempre se ajudou a si própria. Apesar de o gaman ser amplamente visível no período que se seguiu à segunda guerra mundial, esta qualidade poderá estar cimentada por séculos de cooperação necessária enquanto o povo se esforçava para construir uma indústria agrícola bem-sucedida em terrenos irregulares e acidentados e nos quais os sistemas de irrigação tinham de ser obrigatória e milimetricamente coordenados. Todas as aldeias tinham que trabalhar em conjunto, sem existir lugar para benefícios próprios e, para muitos os que estudam a sociedade nipónica, esta ideia da importância do todo ser muito maior que as partes continua a subsistir nos japoneses da actualidade.

A capacidade de saber lidar com as adversidades está igualmente patente num outro conceito – o “wa” – que significa harmonia ou o desejo de manter a homeostase a qualquer custo. Num artigo publicado na organização FamilyMatters, duas psicólogas fizeram uma comparação interessante entre o estoicismo japonês versus a histeria árabe, partindo do pressuposto que as diferentes atitudes (pese embora o facto de as situações serem, obviamente, distintas) estão simplesmente relacionadas com uma questão de tolerância ou da sua negação. No que respeita ao conceito de “wa”, as psicólogas dão como exemplo os “exteriores” do Japão onde a ordem está patente, por exemplo, nos seus jardins e lagos e em tudo o que possa provocar a tranquilidade da paisagem. E este desejo de manter a harmonia e a ordem é perfeitamente visível nos centros de refugiados que, sob o signo de laços estreitos de entreajuda e listas de tarefas criteriosamente cumpridas, procuram o mais perto que existe da perfeição.

Como referem as psicólogas no seu artigo, o perfeccionismo é um traço absolutamente dominante na cultura japonesa. O caos e a desordem nas coisas é sinónimo de conflito, daí tudo obedecer a uma ordem quase obsessiva, mesmo, ou sobretudo, em época de catástrofe: nos centros, as caixas de mantimentos estão meticulosamente arrumadas em filas, as casas de banho brilham de tão limpas, sendo que sabonetes e champôs se alinham igualmente de forma ordeira e, na entrada dos mesmos, listagens com nomes e respectivas tarefas a cumprir anunciam os responsáveis pela cozinha, pela distribuição de mantimentos ou quem deverá cortar a lenha.

Apesar de a maioria dos japoneses afirmar que não existem razões para se preocuparem, visto que o governo sabe o que deve fazer, têm vindo a ser sussurradas criticas relativamente ao papel das autoridades no que respeita ao subestimar da gravidade da situação relativa ao perigo nuclear. Mas, mesmo neste caso, a ideia é travar o conflito. Como afirma numa entrevista à BBC Peter Berton, professor de Relações Internacionais na Universidade do Sul da Califórnia, existem, no Japão, muitas formas de dizer “não”, onde o “sim” significa “não” e vice-versa, com vista a manter a coesão do grupo. Os japoneses são igualmente fervorosos adeptos dos conceitos de “honne” – que representa o “eu privado” – e de “tatameo” – o “eu público” -, este último o “aconselhado”, ou seja, aquele que o mundo vê quando olha para os nipónicos e não os vê expressar qualquer tipo de emoção publicamente.

O professor David Matsumoto, um reconhecido autor e psicólogo americano, tenta responder à questão que tanto intriga os observadores internacionais: têm os japoneses uma maior imunidade no que respeita às emoções negativas do que o resto do mundo? “A questão não reside no facto de os japoneses não serem emotivos. A diferença é que eles contextualizam as suas emoções. Quando sentem que as pessoas estão a observá-los, regulam as suas emoções e ajustam-nas de forma a obedecer aos seus valores culturais”, afirma. É igualmente necessário recordar que, apenas há 150 anos, os japoneses eram ainda uma sociedade feudal e significativamente hierárquica, na qual a não adesão às tradições de respeito e decoro eram punidas com severidade. E, apesar de muita coisa ter mudado desde então, a demarcação entre a esfera pública e privada, no que respeita à expressão de emoções, continua a fazer parte integrante da cultura japonesa.

Uma outra dinâmica própria dos japoneses está expressa no conceito de “mato-damashi” ou o denominado “espírito” nipónico. Ou seja, a noção de responsabilidade tem de estar em conformidade com o grupo e não com o indivíduo. Em termos puramente racionais, existe uma lógica subjacente a este traço: o maior medo que os japoneses têm é o de vocalizarem qualquer sentimento de pânico, pois, caso este exista, a situação será ainda mais atemorizadora e a ordem pública poderá entrar em disrupção, afirma o Professor Jeff Kingston, da Universidade de Temple em Tóquio, num artigo publicado no The Independent. “No Japão, as pessoas sorriem com as suas faces, ao mesmo tempo que choram no interior”, acrescenta.

Ver para além dos estereótipos
Ulrike Schaede é professora de gestão japonesa na Universidade de San Diego e vive metade do ano no Japão. Questionada pela Time sobre a reacção calma das vítimas desta tripla catástrofe, sublinha que o facto de a região ter um imenso historial de catástrofes naturais acabou por dar origem a uma capacidade de se lidar com situações súbitas de caos. Mas refere igualmente que tal não significa que as pessoas não tenham medo ou se sintam devastadas. “Os japoneses são pessoas extremamente sensíveis e emotivas em privado”, diz. “Mas desde crianças que aprendem que existe uma forma adequada de agir: partilhem-se as opiniões e os sentimentos junto da família e dos amigos, em privado; guardem-nas para si próprios quando estão em público”. E acrescenta: “as pessoas por vezes gozam com as estruturas sociais rígidas do Japão e com a ênfase que é colocada nas aparências e nos rostos sem expressão dos seus habitantes, mas isso é apenas um estereótipo”, afirma. Em alturas como esta, acrescenta a professora, “é assim que eles vão buscar a força necessária que, na verdade, se transforma numa característica extremamente útil”.

Mas nem todos os especialistas que têm vindo a comentar a situação no Japão estão completamente de acordo com a visão simplista de existir uma linha “recta” entre a herança cultural dos japoneses e a sua reacção face a esta tragédia em particular. Shinobu Kitayama, director do Programa de Cognição Cultural na Universidade de Michigan e nascido no Japão, aponta o dedo à falta de informação proveniente do governo e às declarações repetitivas de que tudo está sob controlo. Para Kitayama, este é o lado negativo da denominada coragem nipónica. “Tenho a impressão de que o Japão está num estado de negação colectiva”, afirma. Uma das áreas de estudo deste professor comprova que os americanos, por exemplo, possuem níveis de auto-estima e de felicidade muito superiores a outras nações, Japão incluindo. “Comparados com os americanos, os japoneses são muito mais depressivos e pessimistas, e usam esta estratégia para conseguirem lidar com os seus problemas”, afirma, acrescentando ainda que é muito possível que o povo venha a sofrer de desordens pós-traumáticas e de depressão.

Este pessimismo encarado com estoicismo parece ser um contra-senso face ao que temos assistido. Mas a verdade é que a noção de fatalismo está igualmente enraizada na cultura japonesa. O escritor americano David Mitchell possui uma visão interessante no que respeita a esta questão: “o facto de os japoneses não poderem confiar no chão que pisam torna-os fatalistas”, afirma. E opinião semelhante tem o Professor John Lie, da Universidade de Berkeley: “é possível afirmar que existe uma tendência para o fatalismo na vida contemporânea dos japoneses e que tem raízes no ditado “shou-ga-nai” – nada pode ser feito. Mas, por outro lado, é igualmente verdade que os japoneses têm uma fé inabalável nas estruturas de segurança do seu país, para além de se orgulharem delas, e que sabem que alguma coisa pode ser feita”, sublinha.

É verdade que atribuir rótulos e qualidades a uma nação inteira com base em generalizações culturais pode resultar na emergência de estereótipos grosseiros e até perigosos. Mas, com as devidas cautelas, poderá abrir portas para o mundo perceber melhor uma nação “estrangeira” quando comparada com as demais formas de reagir a catástrofes desta magnitude.

E, como também afirma o escritor Haruki Murakami, cuja citação abriu este texto, “no Japão, a necessidade não é a mãe da invenção, mas de uma prodigiosa paciência”.

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