Intitulado “Ethos”, estreou esta semana, num qualquer ecrã de computador perto de si, um documentário que não foi estritamente concebido para mostrar aos espectadores o que está errado no mundo, mas sim para que os motive a alterar as “anomalias” do sistema que está a envenenar o bem comum. E a resposta poderá estar no apoio total às empresas que realmente fazem negócios de forma social e ambientalmente responsável
POR HELENA OLIVEIRA

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Está aberta a Caixa de Pandora e dela saltam questões sistémicas que garantem o fracasso de quase todos os aspectos das nossas vidas: do ambiente à democracia, sem esquecer a nossa liberdade individual; dos inimagináveis conflitos de interesses na política ao poder empresarial não regulado, a par dos meios de comunicação que estão nas mãos de conglomerados poderosíssimos ou, ainda, o complexo industrial militar que é “dono” de muitos políticos que elegemos.

Este é o ponto de partida do recém-lançado documentário Ethos, cujo download pode ser feito gratuitamente a partir do site com o mesmo nome e que conta com entrevistas a personalidades tão distintas como o filósofo e activista Noam Chomsky, ao entretanto falecido historiador Howard Zinn, os políticos Richard Palmers e John McCain, a congressista Cynthia McKenny ou ao polémico cineasta Michael Moore, entre muitos outros.

Como explica em entrevista à Alternet o realizador, Peter McGrain, “a verdadeira revolução será antes uma evolução. Não coberta de sangue, mas assente no senso comum, pois às pessoas basta-lhes que conheçam os factos para agirem em concordância com eles. Não é uma visão romântica, mas eficaz e sustentável”.

O progresso do “senso comum” é exactamente a ideia que o documentário agora estreado espera partilhar com as audiências. Apresentado como o “filme sobre a responsabilidade do consumidor”, assenta na premissa de que os gigantes empresariais estão a tomar conta do mundo – com controlo total sobre os grupos de media e até da Casa Branca – e analisa os diferentes e intricados tentáculos do poder.

Se não existem dúvidas que as empresas trouxeram bens inestimáveis à sociedade – desde produtos, tecnologias e, mais importante que tudo, emprego para as massas – elas também têm o seu lado negro. A motivação para o lucro acelerou a era industrial, permitindo-lhe dar o grande salto para o novo milénio e, talvez por isso, nem sempre é fácil, para o comum dos mortais, reconhecer os efeitos negativos de um sistema que nos conferiu inúmeras e inegáveis formas de melhorar as nossas vidas.

Contudo e de acordo com o documentário, muitos consumidores simplesmente não sabem que as empresas foram estruturadas, através de um conjunto de decisões legais, para legitimarem uma característica perturbadora: a elas se exige, por lei, que coloquem os interesses dos accionistas à frente de tudo o resto, mesmo do bem comum. Esta discussão não é, de todo, inovadora e já fez correr muita tinta e muitas imagens por esse mundo fora. Mas é intenção deste documentário analisar os resultados lógicos de um sistema que coloca o lucro à frente de qualquer outra coisa.

Mas a forma como o documentário coloca o lado negativo deste sistema “nos ombros” dos consumidores é interessante, dando pistas para o contornar, a partir da análise dos padrões e hábitos de consumo.

O consumidor todo-poderoso
Como escreveu, em editorial, na cswire.com, Sal Cirnigliaro, a espiral de relações que têm origem neste aspecto da nossa sociedade, acaba por a ludibriar. E expõe, da seguinte forma, o seu raciocínio:

Para fazerem mais dinheiro, acto a que estão legalmente obrigadas, as empresas têm de vender mais produtos. Para venderem mais produtos, têm de consumir mais recursos. Para obterem estes recursos, que são cada vez mais escassos, e para manter o controlo sobre as suas cadeias de fornecimento, as empresas têm de “invadir” outros países.

E, seguindo a lógica: para venderem mais produtos, os profissionais de marketing têm de convencer os consumidores que estes são um fracasso, a não ser que tenham os últimos modelos de gadgets e afins. O que conduz ao endividamento de muitos.

Por outro lado, de forma a assegurar que não são multadas ou responsabilizadas pelos danos ambientais que geram – com os custos que tal representaria – as empresas fazem generosos donativos aos líderes políticos para caírem nas suas boas graças. Mais ainda e particularmente nos Estados Unidos (de onde o documentário é oriundo), a privatização da indústria militar gera gigantes empresariais que colocam quantidades astronómicas de dinheiro em qualquer que seja o sítio onde existam cenários de guerra.

E, ao se ser dono de um grupo de media e de acordo com os relacionamentos certos, é possível controlar e colocar uma rolha no que realmente está a acontecer no mundo. E, assim, o chamado quarto poder comete o “adultério” necessário.

Desta forma, e seguido os efeitos provenientes do trilho do dinheiro, torna-se fácil perceber por que motivo o nosso planeta está envenenado, por que se continuam a travar guerras intermináveis e quais as razões subjacentes ao facto de a democracia não servir os verdadeiros interessed dos cidadão. E tudo por causa do simples desejo de se ganhar dinheiro.

Contudo e de forma irónica, numa sociedade de consumo, o consumidor é “o” todo-poderoso. E se reconhecer os efeitos do seu próprio comportamento e começar a utilizar o seu poder de compra de forma inteligente, poderá mudar o mundo.

Em suma, compreender a responsabilidade que todos partilhamos na condução da máquina do consumo é o objectivo deste filme. Com uma chamada de atenção para o facto de ser possível encontrar novas formas de construir e moldar as empresas do novo milénio, apoiando aquelas que fazem negócios de forma social e ambientalmente responsável.

Se bem que um pouco utópico, o extenso material apresentado no documentário cumpre a sua função: obriga a reflectir. E, quem sabe, poderá realmente contribuir para que se mude o mundo. Nem que seja só um bocadinho.

 

Helena Oliveira

Editora Executiva