Estimular “o pensamento crítico”, aumentar o nível de “competência digital e literacia mediática” e desenvolver maior compreensão e capacidade de resposta “à diversidade social, étnica, linguística e cultural” são partes essenciais da resposta à crise de refugiados na Europa e à resistência “a todas as formas de discriminação e doutrinação”. O cinema “pode e deve” ser utilizado para quebrar estereótipos negativos, e é o que faz o projecto RefugeesIN, cujo Festival de Cinema realizado na semana passada, em Lisboa, distinguiu o documentário português “Daud”
POR GABRIELA COSTA

O RefugeesIN– Cinema para a Inclusão Social de Refugiados é um projecto europeu coordenado pela AidLearn, em Portugal, e desenvolvido por organizações parceiras da Alemanha, Itália, Eslovénia, Irlanda e Grécia. No culminar de dois anos de trabalho intenso, que originou a produção de 12 documentários curtas-metragens (cuja versão completa ficará disponível no final deste mês) e de um conjunto de recursos e metodologias, nas seis línguas oficiais do projecto, destinados prioritariamente a entidades da educação de adultos (refugiados) e a organizações da sociedade civil especialistas em inclusão social, incluindo um catálogo de 12 longas-metragens seleccionadas, Lisboa acolheu nos passados dias 22 e 23 de Novembro, uma conferência internacional e um Festival de Cinema– o qual distinguiu a curta portuguesa “Daud”, de Ângelo Oliveira, Ana Moreira, Marisol Carmelino e Valéria Gomes, como melhor documentário, premiando ainda a longa-metragem“Lampedusa in Berlin”, de Mauro Mondello (2015), como melhor filme seleccionado, a curta eslovena “Marijana”, como a história mais inspiradora, e os realizadores da curta grega “Nasruddin”.

A reflexão e o debate dinamizados ao longo do projecto enfatizaram o papel essencial da “discussão crítica centrada em histórias reais de vida bem-sucedidas de inclusão em sociedades europeias […] na desconstrução de estereótipos, preconceitos e discriminação relacionados com os refugiados”. E, como sublinha, em entrevista ao VER, a coordenadora do projecto RefugeesIN, Maria Helena Antunes, deixaram clara a capacidade desta discussão crítica para “potenciar um processo pelo qual se transforma modelos de referência problemáticos em outros mais inclusivos, diferenciados, abertos, reflexivos e emocionalmente capazes de mudar”.

Como surgiu a oportunidade de realizar um ciclo de cinema para a Inclusão Social de Refugiados? Em que medida resulta o projecto de um contexto de crise humanitária no qual é emergente adoptar medidas para a integração dos refugiados nas sociedades europeias?

Maria Helena Antunes, sócia-gerente da AidLearn e coordenadora do projecto RefugeesIN

O ciclo de cinema para a Inclusão Social de Refugiados resulta de um esforço conjunto feito pela parceria europeia do projecto RefugeesIN, o qual significa oportunidades para a aprendizagem de adultos para a inclusão social, através de análise crítica do cinema europeu e da produção de documentários inspiradores sobre histórias de vida de refugiados.

O cinema pode e deve ser utilizado para quebrar estereótipos negativos acerca dos refugiados e servir também como ferramenta de reflexão crítica.

O objectivo principal foi contribuir para combater os desafios identificados nas iniciativas da Europa 2020, assim como da Agenda Europeia para a educação de adultos, onde se salienta a necessidade de criar sociedades mais coesas e inclusivas na União Europeia. Também o programa ERASMUS+ tem um foco claro na coesão social e na integração dos refugiados nas sociedades europeias, onde estamos a viver uma crise humanitária de proporções históricas, com indivíduos que diariamente enfrentam processos de adaptação extremamente complexos e dolorosos às sociedades europeias.

Não podemos esquecer que um refugiado é uma pessoa que, quando chega a um país de acolhimento, vem acompanhado de uma história, muitas vezes dramática, e ao chegar tudo é praticamente novo, culminando num enorme choque cultural e um sentimento de vulnerabilidade e dúvidas, apreensão e receio. A educação desempenha um papel crucial para ajudar os refugiados a se instalarem nos novos países, sendo parte da solução durante todo o processo de integração.

Estamos a viver uma crise humanitária de proporções históricas, com processos de adaptação extremamente complexos e dolorosos

Estimular o pensamento crítico, aumentar o nível de competência digital e a literacia mediática (media literacy), particularmente no uso da Internet e das redes sociais, e desenvolver maior compreensão e capacidade de resposta à diversidade social, étnica, linguística e cultural são partes essenciais da resposta à crise actual e para se desenvolver a resistência a todas as formas de discriminação e doutrinação.

Que balanço faz ao nível dos objectivos do projecto, no que respeita a metodologia aplicada (cinema aplicado a profissionais que trabalham com refugiados e a refugiados), e as actividades educativas e de aprendizagem de adultos desenvolvidos? Que ações destaca?

O projecto foi um sucesso, sem dúvida. A realização dos 12 documentários sobre histórias de vida de refugiados permitiu criar uma aproximação e dar voz a um grupo, a quem, muitas vezes, é negada a sua humanidade. Os protagonistas dos documentários narram as suas histórias de vida, e, de certa forma “emprestam” a cara a uma luta conjunta, já que, apesar dos filmes terem sido realizados nos seis países da parceria, é possível encontrar vários pontos em comum, como é o caso da importância em aprender a língua do país de acolhimento. A história de um refugiado é uma história de aprendizagem para todos nós e para outros refugiados, que passaram ou vão ainda passar por circunstâncias semelhantes. Convém salientar que se acredita que a utilização de histórias de refugiados socialmente integrados nas sociedades da UE onde vivem podem servir de role models (modelos) para a inclusão de novos refugiados.

O projecto é composto por actividades que se encontram interligadas e que resultam na produção de um Pacote constituído por recursos e metodologias que podem ser utilizados por educadores e entidades da educação de adultos, profissionais e organizações da sociedade civil, disponível gratuitamente no website do projecto em português, alemão, italiano, esloveno, grego e inglês.

O Pacote integra uma Brochura – 26 histórias reais de refugiados; um Catálogo de Filmes – com lista de 12 longas-metragens seleccionadas e 12 documentários curtas-metragens RefugeesIN; e um Curso (com Currículo e Manual) e um Guia – apresenta o racional e a abordagem do RefugeesIN, e exemplifica como usar, de forma flexível, os recursos existentes no mesmo.

A realização dos 12 documentários sobre histórias de vida de refugiados permitiu dar voz a um grupo a quem, muitas vezes, é negada a sua humanidade

No cruzamento entre a investigação, o cinema e a educação de adultos, o Curso RefugeesIN está ancorado por processos criativos e interacções, propondo um novo processo de aprendizagem multicultural mediado pelo cinema e pela prática cinematográfica, concentrando-se em narrativas de inclusão social. Durante o workshopde cinema, os profissionais participantes têm a oportunidade única de pesquisar, escrever, produzir e dirigir os seus próprios documentários curtas-metragens em estreita colaboração com os seus principais “clientes”: os requerentes de asilo e refugiados. Esta experiência é acompanhada pela possibilidade de testar as próprias capacidades em, pelo menos, uma função cinematográfica. Estes profissionais destacaram a inovação e o entusiasmo por estas novas ferramentas e abordagens, que poderão utilizar no futuro.

Os 12 documentários RefugeesIN – © RefugeesIN

Em que medida conseguiu o projecto desconstruir estereótipos e promover a inclusão social através da análise crítica de cinema europeu e da realização de documentários sobre histórias de vida inspiradoras de refugiados?

Nos dois anos de duração do projecto, e pelo impacto que o RefugeesIN tem tido, já foi possível perceber o potencial positivo dos recursos produzidos e/ou seleccionados.

De destacar que o Guia é um recurso central a este respeito, uma vez que fornece directrizes e sugestões para a utilização flexível dos diferentes recursos produzidos. Fornece directrizes para gestores de formação e facilitadores usarem e implementarem o Curso RefugeesIN. Já este, que é constituído por seis módulos, pode ser implementado como um todo, ou cada módulo pode ser realizado separadamente. Delinearam-se planos de sessão para cada um deles, disponíveis neste Guia, de forma a facilitar a implementação do Curso.

O Guia sugere ainda como utilizar os componentes do Pacote em outras actividades de aprendizagem, bem como em eventos públicos. Finalmente, o Guia inclui um Glossário que estabelece uma abordagem comum à terminologia e conceitos-chave usados no Pacote.

Uma resposta comum tem vindo a ser seriamente dificultada por alguns estados-membros que não aceitaram o programa de distribuição e recolocação de refugiados

Acreditamos que as actividades propostas, incluindo a discussão crítica centrada em histórias reais de vida bem-sucedidas de inclusão em sociedades europeias, podem ter um papel importante na desconstrução de estereótipos, preconceitos e discriminação relacionados com os refugiados, e potenciar um processo pelo qual se transforma modelos de referência problemáticos em outros mais inclusivos, diferenciados, abertos, reflexivos e emocionalmente capazes de mudar.

O cinema europeu que aborda tópicos de inclusão social é também um dos principais contribuintes para e do projecto. Permite igualmente fomentar discussões em grupos multiculturais, tendo uma linguagem adequada para estabelecer ligações entre os refugiados e os cidadãos locais.

Como articulou a AidLearn a coordenação do projecto com os outros cinco países envolvidos, no âmbito da sua actuação?

Foi um trabalho de equipa, ao longo de dois anos de intensa actividade, com todos os parceiros activa e responsavelmente envolvidos na concepção dos diferentes produtos finais. Um grupo multicultural diverso, com profissionais de diferentes áreas e altamente qualificados, com equilíbrio entre a investigação e a experiência directa com o público-alvo e familiaridade com a educação de adultos, aprendizagem multicultural e aprendizagem baseada em filmes. Realizaram-se cinco reuniões transnacionais que ajudaram à tomada conjunta de decisões em momentos críticos do desenvolvimento do projecto.

Realizou-se, em cada país-parceiro, um seminário promocional, a meio da vida do projecto, e uma Conferência & Festival de Cinema no final, momentos fundamentais para se apresentar o mesmo, a metodologia prosseguida e os produtos.

Que receptividade teve o RefugeesIN junto dos vários públicos-alvo e quando será apresentado o relatório final com os resultados do projecto?

Houve um grande envolvimento por parte de todos os intervenientes do projecto, assim como dos participantes nos eventos promocionais (seminários e conferência).

Os resultados e produtos do projecto destinam-se principalmente a educadores de adultos (de refugiados), profissionais de educação de adultos, profissionais e organizações da sociedade civil, especialistas em educação de adultos e inclusão social e especialistas em cinema europeu.

O projecto também visou aumentar a tomada de consciência pública sobre sociedades coesas e inclusivas, o papel do cinema na promoção de representações de inclusão social e sobre como as comunidades de refugiados podem ser acolhidas como parte de um processo de inclusão social geral.

Os profissionais e os protagonistas dos diferentes documentários demonstraram um grande entusiasmo, do princípio ao fim do processo de realização, o que lhes permitiu, também, adquirir novas competências, necessárias para a produção cinematográfica.

Envolver os refugiados foi um grande desafio e várias iniciativas foram desenvolvidas para a sua concretização. Existem vias de inclusão social que podem ser facilitadas por meio de actividades de aprendizagem não formal, por meio de actividades participativas directas, promovidas por entidades várias e pelas comunidades locais. A educação para a cidadania e a inclusão social podem ser mais eficazes se reforçadas por um ambiente de apoio, onde são experienciados valores e princípios do processo democrático e inclusivo em acção.

O relatório final será apresentado no final de Fevereiro 2019.

Os 12 filmes seleccionados pelo projecto – © RefugeesIN

Está prevista a continuidade do projeto?

A abordagem inovadora do RefugeesIN inclui um blog, uma secção interactiva e aberta, após registo, para a publicação de novos recursos, como histórias e narrativas em primeira mão e memórias de refugiados e requerentes de asilo. Continuará aberto à colaboração de todos e apela-se à disponibilização onlinede novos recursos, ilustrando as conquistas dos refugiados nos seus esforços para sobreviver e integrar-se nas sociedades europeias.

Que ideias saíram da Conferência Internacional e Festival de Cinema do RefugeesIN, realizados a 22 e 23 de Novembro?

Em primeiro lugar, e face à vaga de refugiados, foi reafirmada a necessidade de estabelecer políticas comuns de forma a enfrentar, de forma mais eficaz, os sérios desafios de ordem política, económica, social e cultural com que a UE se defronta. Esta resposta comum tem vindo a ser seriamente dificultada por alguns estados-membros que não aceitaram o programa de distribuição e recolocação de refugiados pelo espaço comunitário.

Portugal é um país aberto ao acolhimento de refugiados mas tem conhecido a saída de cerca de 30% das pessoas acolhidas

Este continua a ser um debate central na Europa, sendo que os valores fundamentais da UE, ao nível da defesa dos direitos humanos e do respeito pela individualidade de cada cidadão, exigem a resolução desta crise e a adopção de um plano coerente de acolhimento de refugiados, o que ainda está longe de acontecer.

Depois salientou-se a situação de Portugal, que embora sendo um país aberto ao acolhimento de refugiados através do programa de recolocação da União Europeia, tem conhecido a saída de cerca de 30% (estimativa do Serviço de estrangeiros e Fronteiras) das pessoas acolhidas, em grande parte motivada pelo seu desejo de reencontrar familiares ou as suas comunidades noutros países europeus. A demora da concessão do estatuto de refugiado também reforça, nalguns casos, essa decisão.

Finalmente, realçou-se o poder que a cultura tem em transformar vidas e contribuir para a inclusão e a coesão social, promovendo o conhecimento, o diálogo, a tolerância e o respeito. Diferentes estratégias e modalidades foram apresentadas para a inclusão de refugiados, disponibilizando ferramentas úteis (mediadas pelo cinema, pelo teatro, pela narração de histórias, etc.) que favorecem a reflexão, uma prática mais sustentada e o empoderamento de profissionais e organizações de educação de adultos e da sociedade civil que trabalham com refugiados.

Que testemunhos foram transmitidos através dos dois filmes portugueses integrados no RefugeesIN?

Trata-se de duas histórias distintas mas com muito em comum. Dificuldades, adversidades mas, e sobretudo, esperança e sonhos. Ambos os protagonistas dos documentários portugueses passaram por momentos extremamente difíceis, mas com a ajuda daqueles que os acolheram e com a sua força interior, criaram uma nova vida e com uma renovada vontade de viver, sendo hoje indivíduos integrados na sociedade portuguesa e que lutam diariamente por um futuro melhor.