Para o vereador da Câmara Municipal de Torres Vedras, Sérgio Matias Galvão, “a actual política de aplicação ‘cega’ de regras, sem ter em atenção os municípios cumpridores, não serve o tecido empresarial e é perniciosa para a economia”. Defendendo que mesmo “com óbvias limitações”, as autarquias devem funcionar como “instrumento motivador da economia local”, o vereador de Pelouros como o das Finanças e o de Empreendedorismo do município deu um passo à frente, e quer dotar a gestão pública e as empresas de instrumentos e boas práticas de liderança responsável
POR GABRIELA COSTA

O município de Torres Vedras tem sido um dos mais activos na colaboração com a ACEGE e com o seu núcleo Lisboa|Oeste. Qual é a razão desta aposta e que importância dão ao programa AconteSer – Liderar com Responsabilidade?

Sérgio Matias Galvão, Vereador dos Pelouros de Administração, Finanças, Recursos Humanos, Empreendedorismo, Tecnologias de Informação e Comunicação e Qualidade da Câmara Municipal de Torres Vedras
Sérgio Matias Galvão, Vereador dos Pelouros de Administração, Finanças, Recursos Humanos, Empreendedorismo, Tecnologias de Informação e Comunicação e Qualidade da Câmara Municipal de Torres Vedras

A colaboração com a ACEGE resulta numa parceria feliz entre a Associação Cristã de Empresários e Cristãos, a Câmara Municipal de Torres Vedras e o CAERO (Centro de Apoio ao Empresário da Região Oeste).

O município de Torres Vedras tem a noção de que, embora com óbvias limitações, as autarquias devem funcionar como instrumento motivador da economia local, pelo que sentiu a necessidade de promover junto do mundo empresarial diversas temáticas relacionadas com formação e desenvolvimento pessoal, com o objectivo de melhorar a excelência organizacional das nossas empresas. Queríamos chegar aos empresários e aos seus colaboradores de uma forma directa, simples e esclarecida. O CAERO tinha o local e a mesma vontade.

A ACEGE, para além de ter também essa missão, tinha, e tem, os meios ideais para atingir este objectivo comum. Dotar as empresas de instrumentos de gestão responsável, de boas práticas de gestão, numa constante melhoria contínua, aumenta significativamente a competitividade das nossas empresas. Foi esta a nossa aposta. É este o objectivo do Programa AconteSer.

Tendo assumido pessoalmente os objectivos do AconteSer, a que se deve o alargamento deste programa a objectivos concretos que quer atingir nos próximos anos, e envolvendo os seus directores, que foram testemunhas do seu compromisso com uma liderança responsável?

Identifico-me com o Programa AconteSer e tentei adaptar algumas ideias à Administração Local, onde as regras, as restrições e as limitações são diferentes do sector privado. Ao estar presente numa formação “motivacional” que promovemos entre eleitos locais e dirigentes, senti a necessidade de assumir este compromisso.

Achei que seria a altura ideal para me comprometer, para dar o exemplo. Estávamos também a terminar o plano estratégico do município até 2017 e precisava de vincar a importância desse plano, assumindo a liderança do projecto e, ao mesmo tempo, comprometendo todos – autarcas e dirigentes – para o cumprimento do mesmo.

Um dos objectivos do compromisso da autarquia é “pagar a tempo e horas aos fornecedores”. Qual é o prazo médio de pagamento de facturas, e de que modo tencionam reduzir esse prazo para 45 dias, até Agosto de 2015?

A 31 de Dezembro de 2104, o prazo médio de pagamentos do município de Torres Vedras era de 77 dias. Desde que se desencadeou a crise, em 2008, passámos por momentos muito complicados. Os anos de 2009, 2010 e 2011 foram muito difíceis, e nessa altura começámos logo a tomar medidas.

[pull_quote_left]É perfeitamente possível atingirmos um prazo médio de pagamentos do município de 45 dias[/pull_quote_left]

A quebra das receitas foi enorme e abrupta, tendo sido imperiosa essa tomada de medidas mais drásticas. De 2009 para cá, os orçamentos foram elaborados com regras muito específicas para a despesa, com opções estratégicas: redução de 20% ao ano, durante dois anos, de diversas rubricas orçamentais com peso significativo no orçamento; reestruturação interna de colaboradores permitindo dispensar a aquisição de serviços externos; e redução dos apoios a associações e juntas de freguesia foram algumas das medidas tomadas.

A área social foi das poucas que não levou cortes uma vez que, infelizmente, as situações foram-se multiplicando. Ainda hoje, todos os vereadores e o presidente validam as requisições das suas áreas, e eu, como vereador responsável pela área financeira, valido as requisições todas. Dá muito trabalho e torna-se um processo mais moroso, uma vez que estamos a falar de um orçamento que varia entre os 45/50 milhões ano. Porém, só assim se conseguiu recuperar.

É perfeitamente possível atingir os 45 dias em Agosto do corrente ano. Para que este prazo depois seja consistente e melhorado, é preciso que tudo o que referi no sentido de garantirmos a estabilidade financeira do município aconteça.

Que avaliação faz do actual prazo médio de pagamento por parte do sector público, particularmente das autarquias?

O sector público ainda está longe de ter o prazo de pagamento ideal, e deveria ser o primeiro a dar o exemplo mas, infelizmente, não é. Segundo os dados que vão sendo publicados, as autarquias têm dado um passo significativo na redução da dívida, diminuindo substancialmente o prazo médio de pagamento. Isso prova que o poder local tem dado o exemplo, embora algumas autarquias se encontrem numa situação muito complicada e estejam a ser intervencionadas.

Haverá sempre diferenças e são essas diferenças que devem ser analisadas. Têm que existir restrições e penalizações para quem não cumpre, mas quem cumpre não pode ser penalizado nem colocado num ‘colete de forças’, como estão todos os municípios neste momento. A actual política de aplicação “cega” de regras (muitas delas questionáveis), sem ter em atenção os municípios cumpridores, não serve o tecido empresarial local e, portanto, é perniciosa para a economia nacional.

Quando é que a Câmara de Torres Vedras pretende aderir ao Compromisso Pagamento pontual?

Ainda é cedo para podermos assumir esse compromisso. Compromissos desta natureza assumem-se para serem inequivocamente cumpridos.

[pull_quote_left]Os gestores precisam de ferramentas objectivas e práticas, porque o tempo e a oportunidade são vectores críticos da gestão[/pull_quote_left]

Neste momento, ainda há alguns constrangimentos por via de influência/dependência externa no que se refere a verbas que iremos receber, uma vez que estamos no fim de um quadro comunitário de apoio e a iniciar outro. Por outro lado, ainda existem as habituais incertezas quanto aos prazos de pagamento de verbas que vêm da Administração Central, relacionadas com delegações de competências.

Quando esta situação estiver devidamente clarificada (logo, resolvida) e o município conseguir, através dos seus próprios recursos financeiros, garantir esta estabilidade, estaremos em condições de assinar o compromisso. Até lá, estamos muito dependentes dos meses de Maio, Agosto e Dezembro, que são os meses de concentração de maior receita.

A Câmara pretende também elaborar um Código de Ética. Como está a equipa de trabalho responsável pela elaboração do documento a dinamizar este projecto, que visa promover a gestão ética e a transparência da autarquia, e para quando é esperada a sua publicação?

O trabalho sobre um código de conduta com princípios éticos para os trabalhadores da CM de Torres Vedras irá ser desenvolvido no biénio em curso (2015-2016) e será feito através de uma metodologia de auscultação de vários grupos de trabalhadores para promover o debate interno sobre estas questões, e daí resultar um quadro de conduta no qual as pessoas se revejam.

É um trabalho importante, dado que também é um dos requisitos da NP 4427, norma portuguesa no âmbito da qualidade na gestão de recursos humanos. Embora a Câmara não tenha no horizonte a certificação, a curto prazo, pretendemos ir desenvolvendo trabalho na direcção dos requisitos da norma.

Outra ambição que expressou foi a de a autarquia atribuir prémios de desempenho aos seus colaboradores. Acredita que o reconhecimento do mérito contribui para o exercício de uma liderança responsável?

O reconhecimento do mérito, feito de forma genuína, é uma condição fundamental para o exercício de uma liderança responsável. Os trabalhadores só reconhecem como líder alguém que os ouve, que se preocupa com eles, que lhes dá oportunidades de crescer e que os estimula e reconhece.

Esse reconhecimento pode ser feito de várias formas, assistindo-se nos últimos anos a uma mudança de paradigma nos aspectos que as pessoas mais valorizam no trabalho, desde que o vencimento salvaguarde as suas necessidades básicas. O paradigma actual passa menos por questões relativas a aspectos remuneratórios (na função pública está tudo congelado) e mais por desenvolver um trabalho com sentido e propósito, ter oportunidades de desenvolvimento profissional (formação e/ou experiências de desenvolvimento pessoal). Portanto, as organizações, em geral, devem focalizar-se em criar este contexto para que o bem-estar das pessoas no trabalho seja uma realidade diária.

Por exemplo, aliado ao sistema de avaliação de desempenho, poderão estar ofertas / vouchers com oportunidades relacionadas com equipamentos detidos pela Câmara ou em que a Câmara é parceira. A Pousada da Juventude de Santa Cruz é um bom exemplo disso.

A actual conjuntura tem sido encarada por nós também do ponto de vista das oportunidades: a impossibilidade de reconhecermos os bons desempenhos através de aumentos ou prémios remuneratórios levou-nos a centrar a nossa análise em outras formas de reconhecimento, aproximando-nos da tal mudança de paradigma. Os momentos de crise têm a virtude de nos conduzirem ao essencial e a essência de uma organização são as pessoas. É a partir delas que temos que desenhar as nossas estratégias e políticas. É este o caminho que estamos a fazer no domínio da gestão das pessoas.

Na sua perspectiva, de que modo o Programa AconteSer constitui uma ferramenta de gestão efectiva no relacionamento com os stakeholders, contribuindo para reforçar o relacionamento transparente com os mesmos, desenvolver as aptidões dos colaboradores da Câmara, aumentar a sua exigência quanto a uma gestão de excelência e, principalmente, potenciar a competitividade da autarquia no actual contexto socioeconómico?

O Programa AconteSer é um instrumento muito prático com ideias poderosas para os gestores. Está organizado em torno de um tema central para uma liderança responsável, contendo propostas de boas práticas. Estas boas práticas partem de ideias simples, que podemos implementar no nosso dia-a-dia de gestores e visam ter um impacto positivo nas organizações e criar uma rede de conhecimento e partilha.

É um trabalho em progresso, porque a função de liderança obriga-nos a olhar, de forma integrada e global, para o interior da nossa organização, para os nossos recursos humanos, para a comunidade que nos rodeia, fornecedores e clientes. Mas, não basta “olhar”, é necessário interagir com a sociedade, no seu sentido mais amplo, ou seja, é necessário ser competitivo mas entender que os nossos recursos humanos têm uma vida, familiar e de lazer, para além da organização, e é necessário perceber que os nossos fornecedores e clientes também têm uma vida, para além das relações comerciais existentes.

O AconteSer é um instrumento que ajuda a simplificar esta realidade tão complexa do dia-a-dia das organizações. É de facto um modelo simples e transparente e que, também por isso, reúne todas as condições para o sucesso. Os gestores precisam de caixas de ferramentas objectivas e práticas, porque o tempo e a oportunidade são vectores absolutamente críticos no domínio da gestão empresarial e pública.

Acredita que o compromisso pessoal dos líderes é essencial para a transformação das empresas e das organizações?

É imprescindível! O poder inspirador e agregador dos líderes é determinante da capacidade de mudança de qualquer organização. A presença de um líder de forma genuína, rigorosa, entusiasta e contagiante tem um efeito catalisador em qualquer grupo ou organização. Isso é observável até em pequenos grupos e já todos nós passámos, certamente, por situações na vida pessoal e/ou profissional que ilustram esse facto.

O exemplo tem que vir de quem toma as decisões. Como posso exigir algo de um colaborador, de um munícipe, de um fornecedor, se eu não der o exemplo? Terei sempre que me colocar do outro lado. Se conseguir ter sempre esta preocupação julgo que terei atingido o compromisso a que me propus: liderar com responsabilidade.

Que conselhos daria a outros líderes empresariais para incrementarem uma gestão pautada pela liderança responsável?

Que se deixem entusiasmar pela sua veia empreendedora. Qualquer líder empresarial tem esse sangue a correr pelas veias.

Promovam o que têm de melhor, inspirem as pessoas à vossa volta, os stakeholders em geral (clientes, colaboradores, fornecedores, comunidade), comuniquem muito com as pessoas que colaboram convosco e dêem-lhes feedback sobre o seu desempenho e a qualidade das suas intervenções. E, por fim, ponham os vossos propósitos por escrito (ajuda-nos a clarificá-los e a interiorizá-los) e façam-no de forma que os vejam diariamente. Se quiserem, dêem mais um passo, e peçam aos vossos colaboradores mais próximos para testemunhar o vosso compromisso.

Gabriela Costa

Jornalista