No próximo dia 31 de Outubro e de acordo com estimativas das Nações Unidas, o mundo acolherá um bebé que ficará na História como o habitante número 7 mil milhões. Em pouco mais de uma década, o planeta albergou mais mil milhões de pessoas. Se existem progressos civilizacionais inegáveis, não existem boas notícias no que respeita às enormes desigualdades que continuam a subsistir. E, ou se estabiliza a população, ou a espécie humana caminhará para uma situação perigosamente fora de controlo
POR HELENA OLIVEIRA

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Apenas 12 anos passados sobre o nascimento do bebé número seis mil milhões e o mundo prepara-se para receber o seu habitante número sete mil milhões. As Nações Unidas elegeram o dia 31 de Outubro para o evento, apesar de e obviamente, as estimativas não serem uma ciência exacta. De qualquer das formas, apenas o acto de se imaginar e de se verificar que em pouco mais de uma década, nasceram mais mil milhões de pessoas num mundo cujos recursos estão em significativo estrangulamento, dá origem a um conjunto de novas (e velhas) questões.

Este novo número figura num relatório publicado a 26 de Outubro pelo Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), intitulado “O Estado da População Mundial em 2011” e que foi lançado, em simultâneo, em mais de 120 países. E, ainda mais preocupante, é o facto de se estimar igualmente que, em 2050, o planeta Terra possa (ou não) vir a albergar mais de 9 mil milhões de pessoas, chegando, ao final do século às 10,1 mil milhões de pessoas.

Mais do que a questão que atormenta a humanidade desde tempos imemoriais – de onde vimos -, existe a outra – para onde vamos? – que está no centro da discussão.

Espera-se que, nos próximos 50 anos, o mundo seja testemunha de alterações gigantescas no seu equilíbrio geopolítico, que assista a um declínio significativo do número de filhos por mulher, a agregados familiares mais pequenos mas em maior quantidade, a uma população cada vez mais envelhecida e ao crescimento desmesurado das suas cidades.

Mais ainda, e à medida que a população cresce, o consumo aumenta, o que representa um esforço desmesurado nos recursos naturais, desde as reservas de água, à quantidade de terra disponível para a agricultura, à existência de peixes nos oceanos, sem esquecer as alterações climáticas e a sua estreita relação com a queima desmedida de combustíveis fósseis.

Como afirmou ao The Guardian o antigo embaixador britânico das Nações Unidas, Sir Crispin Tickell, considerado agora como um guru ambiental, “somos, neste momento, uma espécie fora de controlo”.

O VER analisa, neste artigo, as principais questões demográficas que se colocam num mundo sobrepovoado e sobrelotado, não só a partir de dados do estudo agora publicado, mas também a partir da perspectiva de vários especialistas da área.

As perguntas pertinentes
Poderá o planeta sustentar sete mil milhões e os três mil milhões adicionais que, estima-se, habitem a Terra no final do século? Será que os enormes progressos a que assistimos no número de agregados, nas cidades, no consumo e nos resíduos são compatíveis com a dignidade, a saúde, a qualidade ambiental e a libertação de situações de pobreza? As perguntas são formuladas por Joel E. Cohen, um biólogo matemático, responsável pelo Laboratório de Populações das universidades Rockefeller e da Colúmbia e autor do livro “How Many People Can the Earth Support?” que, num artigo de opinião publicado no The New York Times, coloca em causa a velha teoria que afirma que o crescimento populacional é sinónimo de poder e prosperidade.

Se tivermos em conta alguns dos dados disponibilizados pelo estudo, para além da nossa própria observação do estado do mundo, a resposta é, invariavelmente, dúbia.

A dimensão recordista da população humana pode ser encarada, e de várias formas, como um sucesso para a humanidade. A esperança média de vida não pára de aumentar e as taxas de mortalidade infantil acusam declínios significativos. Todavia e como é sobejamente conhecido, nem toda a gente beneficia destes enormes avanços ou dos elevados níveis de vida em que este progresso se traduz. As disparidades em termos de direitos e oportunidades não só existem entre e nos próprios países, como entre homens e mulheres e rapazes e raparigas. E, como afirma o director executivo da UNFPA, Babatunde Osotimehin, traçar um caminho – agora – para um desenvolvimento que promova a igualdade, ao invés de exacerbar ou reforçar as desigualdades, é mais importante do que nunca e poderá constituir a diferença fulcral entre o sucesso ou o fracasso da espécie humana.

As implicações de um mundo com mais mil milhões de pessoas são simultaneamente desafiantes e complexas. As regiões do planeta que contribuem com menos de um quinto dos resultados económicos globais serão as mesmas que assistirão a cerca de 73% do crescimento populacional que se espera atingir em 2050 e que incluem o Afeganistão, a República Democrática do Congo, a Etiópia, o Iraque, a Nigéria e o Paquistão. De acordo com um outro estudo, publicado em Julho de 2011 pela revista Science, em 2050 a Índia terá ultrapassado a China enquanto país mais populoso do mundo – de 1, 24 mil milhões para 1, 69 mil milhões e com o declínio da China de 1,35 mil milhões para 1, 3 mil milhões -, sem esquecer a população africana, cuja duplicação se prevê para o mesmo período.

Por outro lado, e se a população continua a atingir um crescimento recordista nos países mais pobres do mundo – e que convivem também com as condições ecológicas mais frágeis – tal significa que, na ausência de um crescimento económico vigoroso, um número ainda maior de pessoas irá enfrentar condições desadequadas de nutrição, habitação e ausência de acesso à saúde, à educação, à água e à energia. E estes desafios não serão restringidos somente ao mundo em desenvolvimento, na medida em que a desigualdade crescente, agravada pelas más condições económicas e pelas consequências das alterações climáticas, irão forçar ondas migratórias, com um potencial aumento de conflitos e ameaças crescentes à segurança global.

Jeffrey Sachs, o director do The Earth Institute, da Universidade de Colúmbia e cujo último livro se intitula “The Price of Civilization”, alertou, na passada semana num debate online promovido pela CNN que, a não ser que a população estabilize ao longo do século XXI, as consequências para a humanidade poderão vir a ser cruéis. E, com cerca de 75 milhões de nascimentos anuais acima do número de mortes, esta rápida ascensão não parece ter fim à vista. Como afirma o conceituado professor e conselheiro das Nações Unidas, “este crescimento populacional coloca pressões demasiado grandes num planeta que se encontra já à beira de uma catástrofe ambiental. Fornecer alimento, roupa, abrigo e energia a 7 mil milhões de pessoas é uma tarefa de proporções gigantescas”. E o mesmo defende Robert Martin, presidente do conselho de administração da organização Population Matters, e que defende que “o planeta está a aproximar-se perigosamente de uma tempestade perfeita que inclui o crescimento populacional, as alterações climáticas e o pico da produção petrolífera”.

Com algumas diferenças entre si, os especialistas em demografia são unânimes numa questão: por cada mil milhões de pessoas “novas” no planeta, mais próximo de uma bomba prestes a explodir estamos. Como afirmou o demógrafo de um grupo de investigação de Nova Iorque denominado Population Council, “será este o fim do mundo? Não. Seremos capazes de alimentar 10 mil milhões de pessoas? Provavelmente. Mas seríamos um mundo muito melhor com uma população significativamente mais pequena”.

O choque dos números
No artigo já citado escrito por Joel E. Cohen, o especialista apresenta uma perspectiva histórica da relação entre crescimento populacional e crescimento económico, que vigorou ao longo de toda a história da Humanidade e que, ainda hoje, é defendida – erradamente, a seu ver – por muitos economistas. E se essa visão poderia fazer sentido em sociedades sujeitas a mortalidades catastróficas derivadas da fome, das epidemias e das guerras, há muito que está ultrapassada. Num tom muito próximo do sarcasmo, Cohen afirma, contudo, que com a globalização do trabalho, os incentivos existentes para os donos do capital ignorarem o crescimento célere das populações mais pobres permanecem iguais aos dos senhores de outrora: salários mais baixos para trabalhadores, independentemente das suas funções ou competências, representam um superávit económico demasiado interessante para não ser capturado. Todavia, Cohen alerta também que se as teorias pró-natalidade são injustificadas, também o são as profecias de Thomas Malthus e dos seus seguidores que acreditavam que o crescimento populacional exacerbado só poderia conduzir à morte em massa pela fome.

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Para este biólogo, o mundo é fisicamente capaz de alimentar, abrigar e enriquecer um número significativo de pessoas a curto prazo. Como refere “entre 1820, no início da era industrial, e 2008, na altura em que a economia mundial entrou em recessão, o output económico por pessoa aumentou onze vezes.

E os números que Cohen apresenta no seu artigo, apesar de apresentarem os dois lados da moeda, são impressionantes:

A esperança média de vida triplicou, no último milénio, para uma média global de 70 anos; o número médio de filhos por mulher baixou, em média, de 5, em 1950, para 2,5 na actualidade; a população mundial está a crescer cerca de 1,1 % ao no, um valor que baixou para metade se tomarmos em consideração o pico da taxa nos anos de 1960 – sendo que esta taxa mais baixa de crescimento permite às famílias e às sociedades concentrarem-se no bem-estar dos seus filhos em detrimento da sua quantidade. Quase dois terços das mulheres com idades inferiores a 50 anos, casadas ou em algum tipo de união, utilizam alguma forma de contracepção, o que salva a vida de mães que, de outra forma, morreriam no parto e evita milhões de abortos todos os anos – uma boa notícia tanto para os que defendem como para os que se opõem à interrupção voluntária da gravidez.

Mas os números negativos também existem e em maior quantidade. Quase metade da população mundial vive com dois ou menos dólares por dia: na China, o número atinge os 36%, ao passo que na índia chega aos 76%. Mais de 800 milhões de pessoas vive em bairros de lata e aproximadamente o mesmo número, especialmente mulheres, são iletradas.

Cerca de 850 a 925 milhões de pessoas lidam diariamente com situações de fome ou de malnutrição crónica. Em grande parte das regiões africanas e do sudeste asiático, mais de metade das crianças é raquítica (com peso significativamente abaixo do ideal para a sua idade) como resultado de fome crónica. E enquanto o mundo produziu -entre 2009 e 2010 -, 2,3 mil milhões de toneladas de grãos de cereais – calorias suficientes para alimentar entre 9 a 11 mil milhões de pessoas – apenas 46% desta quantidade foi utilizada na alimentação humana. Os animais domésticos deram conta de 34% das colheitas e 19% foi direitinho para utilizações industriais como os biocombustíveis, amidos e plásticos. O que explica a razão de Joel E. Cohen há muito afirmar, e em diversas, ocasiões, que “o mundo prefere alimentar as suas máquinas e animais domésticos do que as suas pessoas”.

Os cenários possíveis
De acordo com os números do estudo agora divulgado, dos 7 mil milhões de pessoas do mundo, 1,8 mil milhões são jovens com idades compreendidas entre os 10 e os 24 anos. Globalmente, as pessoas estão cada vez mais jovens e simultaneamente cada vez mais velhas. Em alguns dos países mais pobres, as elevadas taxas de fertilidade travam o desenvolvimento e perpetuam a pobreza, ao passo que nos países desenvolvidos, as baixíssimas taxas de natalidade – como é o caso de Portugal que, também de acordo com o estudo terá, nos próximos quatro anos, a terceira mais baixa taxa de fecundidade do mundo, com apenas 1,3 filhos por mulher, apenas ultrapassado pela Bósnia-Herzegovina e por Malta – e um número crescente de desempregados jovens estão a gerar preocupações crescentes no que respeita às perspectivas de um crescimento económico sustentado e à viabilidade dos sistemas de segurança social.

Por outro lado, a questão do desemprego que já alastrou a um número considerável de países industrializados, está a abrir portas a novas vagas de migrações, forçadas, que se juntam às já registadas nos países em desenvolvimento, que têm testemunhado muitas fronteiras encerradas à sua entrada e às competências que poderiam oferecer.

No que respeita aos cidadãos mais velhos, um outro fenómeno preocupante está a emergir: em muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento, os familiares mais jovens estão a migrar das zonas rurais para as cidades, ou para outros destinos onde as perspectivas de emprego são mais animadoras, deixando os familiares mais velhos para trás e, muitas vezes, sem o apoio necessário para prosseguirem com as suas vidas quotidianas.

As consequências desta bomba demográfica são tantas e tão diversificadas que é impossível nomeá-las todas. Mas a verdade é que todas elas estão intimamente interligadas, a nível social, económico, ambiental, educacional e político. E tal como os desafios se multiplicam, o mesmo acontece com as possíveis soluções defendidas.

No debate em que Jeffrey Sachs participou, em conjunto com outros colegas, para discutir as principais consequências desta nova marca na população mundial, o reconhecido professor apresentou aquele que considera ser o desafio a ser abordado com a maior urgência possível: o que é necessário para manter um planeta no qual cada cidadão tenha a oportunidade de ter uma vida próspera e produtiva, e garantir, em simultâneo, que os recursos do planeta sejam suficientes para acolher as gerações futuras?

A resposta tem duas partes e ambas implicam uma jornada complexa ao longo de várias décadas. A primeira exige uma alteração profunda na tecnologia – tanto na agricultura, como na energia, na indústria, nos transportes e na construção. A transição da era da dependência dos combustíveis fósseis para as energias de baixo carbono tem de ser rápida, mas exigirá um grau de cooperação global sem precedentes. A segunda chave para o desenvolvimento sustentável é, sem dúvida, a estabilização da população global. Esta é uma realidade que já está a ocorrer em alguns países de rendimentos médios e elevados, que optam por ter um ou dois filhos em média, mas a redução da taxa de fertilidade tem de ser verdadeiramente encorajada nos países pobres. E o sucesso desta redução depende da manutenção das raparigas nas escolas, assegurar que as crianças sobrevivem e facilitar o acesso ao planeamento familiar.

A aposta na educação feminina é igualmente referida pelo director executivo da UNFPA, Babatunde Osotimehin, como a chave para o desenvolvimento das sociedades que, historicamente, têm vindo a marginalizar as mulheres.

Já Jamais Cascio, investigador no Institute for the Future em Palo Alto e que fez parte também de um debate organizado pelo The New York Times sobre a forma como “vai o mundo acomodar este crescimento”, acredita que só se a dieta ocidental e o consumo pós-industrial sofrerem alterações significativas, é que o planeta conseguirá ganhar esta batalha. O investigador refere igualmente a urgência de uma mudança radical na utilização de recursos, nos comportamentos e na aplicação criteriosa de tecnologias emergentes.

Para David Bloom, em entrevista à revista Science, o professor de economia e demografia da Harvard School of Public Health, para além dos desafios da contracepção, da mortalidade infantil e das políticas de reformas, o futuro permanece demasiado incerto para se poderem arriscar soluções que não sejam dinâmicas. “Uma visão global é extremamente complicada na medida em que envolve um conjunto de incertezas tão díspares como doenças infecciosas, guerras, progressos científicos, alterações políticas e, principalmente, a nossa capacidade para a cooperação global”.

É que num mundo com 7 mil milhões de habitantes, a tendência é e infelizmente, para que cada um continue a olhar para o seu umbigo e esquecer-se que vivemos todos numa única e grande casa. Que está prestes a ficar sobrelotada.

Portugal e o triângulo invertido
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Apesar de figurar como o 3º país a registar a mais baixa taxa de fecundidade do mundo, com apenas 1,3 filhos por mulher (um valor muito aquém dos 2,1 necessários para a reposição das gerações), Portugal está bem posicionado na maior parte das categorias que integram o Relatório sobre a Situação da População Mundial 2011 e que inclui 188 países. Em termos de mortalidade até aos cinco anos, ocupa a 11ª posição, com 3,7 crianças falecidas por cada mil que nascem e, na esperança média de vida, ocupa um dos mais elevados lugares da tabela, com 83 anos para as mulheres (apenas atrás de 13 países e em cujo índice o Japão lidera com 87 anos) e 77 para os homens que nasçam até 2015, sendo que neste item não se encontra tão bem colocado, visto existirem 22 países com esperança média de vida superior e que ascende aos 80 anos para países como a Suécia, Suíça, Austrália, Islândia, Japão e Israel.

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Helena Oliveira

Editora Executiva