Estabelecer a ponte entre a dimensão artística e a social, tendo como públicos-alvo segmentos populacionais em situação de exclusão e/ou vulnerabilidade, não é, de todo, tarefa fácil, antes um desafio gigantesco para todos os seus intervenientes. Em conversa com o VER, Hugo de Seabra, gestor do PARTIS, regressa ao início desta aventura original, recorda os seus principais marcos e dores de crescimento e acredita, que dois anos passados sobre o arranque efectivo da 1ª edição e com a segunda já no terreno, a aposta no risco e na experimentação tem valido, literalmente, a pena. E são muitas as histórias que o comprovam
POR HELENA OLIVEIRA

Tendo como base a ideia de que a arte é um motor, por excelência, de inclusão e mudança social, e no âmbito do Programa de Desenvolvimento Humano da Fundação Calouste Gulbenkian, o “PARTIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social” nasceu com o objectivo de apoiar projectos que “trabalhassem a arte com propósitos sociais”. Mas e apesar de o público em geral conhecer alguns dos seus projectos-bandeira, como é o caso das Orquestras Juvenis Geração, em expansão por todo o país, ou, mais recentemente, o Ópera na Prisão, que colocou reclusos a cantar a famosa ópera de Mozart, Dom Giovanni, o PARTIS é muito mais do que estes “produtos de sucesso”. Com uma primeira edição em 2014, que reuniu 17 projectos, em áreas tão díspares como a música, a fotografia, o cinema, o circo ou a dança, envolvendo grupos igualmente distintos que integram desde jovens institucionalizados, a surdos, refugiados ou crianças de etnia cigana, este programa que “não quer ser mais do mesmo” e que privilegia um não tão fácil cruzamento entre a dimensão artística e a social, é também uma história de risco e experimentação ou, e apesar de “estafado” o conceito, de verdadeira inovação social. Com um orçamento de um milhão de euros para um período de três anos – o mesmo valor atribuído à sua segunda edição que teve início já em 2016 – o PARTIS visa, para Hugo de Seabra, promover “encontros improváveis” (v. Caixa). Numa conversa com o VER, o gestor do Programa revisita o seu arranque, desde o processo de candidatura à efectivação dos projectos no terreno, fala de expectativas e objectivos, traça as dificuldades de avaliação de um formato tão díspar, seja a nível de públicos, de intervenções ou de metodologias de avaliação de impacto, e confessa que os próximos dois anos serão cruciais para se comprovar o sucesso adivinhado daquele que ousou acreditar que a arte é uma linguagem comum que liga pessoas diferentes.

Até nascer oficialmente, o PARTIS teve um significativo período de incubação e experimentação (2007-2012), com a abertura do primeiro concurso em 2013, e com arranque efectivo a 1 Fevereiro de 2014. Que marcos por excelência marcaram esta aventura entre o mundo das artes e a dimensão social?

Embora eu seja gestor de subsídios na Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) desde 2009, nunca tinha gerido um concurso. Ou seja, começámos por criar um regulamento e um formulário de candidatura, como processo de selecção transparente e independente e solicitámos a colegas de outras áreas da FCG, nomeadamente especialistas na área artística, para nos ajudarem na selecção. E sublinho o formato “concurso” como a forma mais democrática através da qual uma Fundação pode exercer o seu apoio, na medida em que o mesmo é acessível a qualquer organização que, em pé de igualdade com todas as outras, pode candidatar-se ao financiamento do PARTIS, com um conjunto de projectos que se vão iniciar na mesma data.

E tudo isto porque quisemos resumir tudo numa só palavra: “autonomia”. A nossa pretensão foi, e é, trabalhar com pessoas que estão em situações de maiores dependências e fragilidades, no sentido de as tornar o mais autónomas possível. Não se aplica a 100% dos projectos que temos em mãos, mas talvez se aplique a 80 ou 90% dos mesmos.

E como decorreu esse primeiro processo de selecção?

[pull_quote_left]Sempre dissemos que o PARTIS nunca poderia ser uma mera ocupação de tempos livres: pelo contrário, queremos e temos direito a ambicionar uma excelência de intervenção social, mas também uma excelência de intervenção de práticas artísticas[/pull_quote_left]Fomos muito rigorosos no processo de selecção, na medida em que não nos limitámos a ter uma 1ª fase de candidatura, em papel, como é normal em muitos projectos. Desde o início e porque há muita gente especialista a preparar candidaturas, mas também muita gente que, não sendo especialista, pode ter “qualquer coisa”, foi sempre nossa intenção conhecer as pessoas. Obviamente que na ocasião, e depois de mais de 200 candidaturas recebidas, tivemos de fazer uma short-list, com 22 projectos, mesmo sabendo que não teríamos a possibilidade de os apoiar a todos. E esse conhecimento das pessoas que estão por trás de uma candidatura, ajudou-nos – e ajuda-nos – também na própria gestão das nossas expectativas. Ao longo de dois dias e com a ajuda de uma entidade de formação externa, que trabalhou connosco para preparar um dia e meio de capacitação – fizeram-se perguntas difíceis e tocou-se nas “feridas de cada projecto”. Cada um dos 22 projectos foi analisado à lupa, por nós e por esta mesma entidade que, hoje em dia, é a mesma que faz a avaliação externa do Programa PARTIS, tendo sido identificados os pontos de interrogação de cada candidatura, os quais eram obviamente diferentes para cada um dos projectos pré-seleccionados, em conjunto com a avaliação de partes da candidatura que eram mais “frágeis” ou que continham noções que gostaríamos de ver desenvolvidas em trabalho connosco.

Quer destacar alguma memória ou situação desse mesmo processo?

Sim, existiram situações extraordinárias. Tivemos projectos que “arriscaram” trazer uma pessoa da organização e uma pessoa da comunidade [a ser intervencionada]. Por exemplo, o teatro IBISCO resolveu trazer consigo um rapaz da comunidade, sem formação académica alguma, e que acabou o pitch a dizer: “se eu não estivesse no teatro IBISCO, a esta hora estaria a roubar”. E esta mera frase teve um impacto extraordinário. Sendo que o que poderia ser “teatro”, não foi, pois dois anos passados, vemos o quanto tem sido importante a intervenção do teatro IBISCO para aquele contexto complicadíssimo junto dos jovens e dos adultos que o integram.

Então é possível afirmar-se que a gestão de expectativas começa logo nesse momento…

Sim, este processo de selecção tem uma exigência acima do que é habitual, porque reúne não só o tal conjunto de perguntas difíceis que são feitas no período da capacitação, mas também um pitch, de uma exigência extraordinária, de 3 minutos – no qual o objectivo é a apresentação do compromisso e empenho das entidades candidatas e, de alguma forma, traduzir o porquê da mais-valia da Fundação apoiar aquele projecto em concreto e não outro – terminando depois com mais um conjunto de questões formuladas pelo júri. O que foi bastante complexo para muitas organizações, pois é preciso não esquecer que o PARTIS mistura organizações da área artística com organizações da área social, com o objectivo de trabalhar a arte com propósitos sociais.

E quais eram, na generalidade, os objectivos iniciais deste Programa?

[pull_quote_left]A nossa pretensão foi, e é, trabalhar com pessoas que estão em situações de maiores dependências e fragilidades, no sentido de as tornar o mais autónomas possível[/pull_quote_left]Os nossos objectivos na altura do arranque resumiam-se, basicamente, a errar o mínimo possível, ou seja, a acreditar que no final dos primeiros 12 meses, 24 ou 36 – consoante a duração prevista dos projectos – não tivéssemos uma taxa de insucesso muito relevante nos objectivos estabelecidos nas duas dimensões – artística e social. É preciso não esquecer que estamos a trabalhar dois mundos que, em Portugal, não têm sido assim tão trabalhados. Por outro lado, não nos podemos esquecer que o Programa de Desenvolvimento Humano “é” a área social da Fundação Calouste Gulbenkian e acreditamos que o PARTIS promove o encontro de três dos quatro pilares que o senhor Gulbenkian definiu para a Fundação, no seu testamento: que esta devia intervir em educação, nas artes, na ciência e na caridade. E se a ciência não está aqui contemplada, qualquer um dos três outros pilares estão perfeitamente imbuídos dentro do PARTIS. Assim, e enquanto Programa de Desenvolvimento Humano, a nossa prioridade terá sempre de ser dada à dimensão social. Adicionalmente, sempre dissemos que o PARTIS nunca poderia ser uma mera ocupação de tempos livres: pelo contrário, queremos e temos direito a ambicionar uma excelência de intervenção social, mas também uma excelência de intervenção de práticas artísticas e aspirar a que existam produtos que, no limite, possam ser apresentados em espaços como os da FCG, apesar de não ser um “requisito obrigatório” nem o nosso principal propósito.

E recorda-se de potenciais receios que vos tenham “assaltado” no início desta aventura?

Existiram alguns, sim. Por um lado, a inexistência de uniformização, na medida em que os projectos são muito díspares, com objectivos igualmente dispares e em que o único ponto de contacto é o de se estar a trabalhar práticas artísticas. Mas quando se pensa que temos pessoas a trabalhar fotografia, vídeo, teatro, um coro de surdos, entre outras variadíssimas temáticas, – ou seja, nada é uniforme e mesmo para os avaliadores acaba por ser muito complexo – a verdade é que estamos perante um desafio extraordinário pois, na sua maioria, outros projectos com intenções similares até podem funcionar em geografias distintas, mas as intervenções são do mesmo tipo e muito comparáveis entre si. No caso em concreto do PARTIS, é comparar alhos com bugalhos: se formos comparar reclusos com refugiados, ou com jovens autistas, são sempre situações muito díspares. É uma aventura na qual, tal como disse e muito bem, fomos ganhando algum calo com experiências anteriores.

Na medida em que o programa cobre uma panóplia alargada de práticas artísticas (música, teatro, cinema, fotografia, vídeo, dança e circo) – e é dedicado a segmentos populacionais em situações de exclusão e/ou vulnerabilidade, que principais critérios têm maior peso na fase de avaliação das candidaturas?

[pull_quote_left]A inexistência de uniformização, na medida em que os projectos são muito díspares, com objectivos igualmente díspares e em que o único ponto de contacto é o de se estar a trabalhar práticas artísticas, foi um dos nossos receios iniciais[/pull_quote_left]Um equilíbrio entre a intervenção social e a ambição da dimensão artística é para nós fundamental. A maior parte das organizações que apoiámos já trazia um track record em alguma das duas dimensões. Mas as parcerias são extremamente importantes para nós. Ou seja, a Fundação, através do seu Conselho de Administração, tem dado indicações explícitas para que não haja uma dependência absoluta do nosso financiamento nos projectos que apoiamos. Assim, o PARTIS estabeleceu um limite – até 60% do orçamento geral – para apoio. Portanto, pelo menos um parceiro é obrigatório trazer e essa dimensão é muito importante para nós. Já o era na primeira edição, comprovou-se claramente na segunda e temos percebido que os parceiros público-locais são centrais em muitos casos. Na esmagadora maioria das vezes, é a parceria com a autarquia, com a junta de freguesia ou com o município, que se tem revelado particularmente importante porque, no limite, e apesar de a FCG ter direito e autonomia para escolher onde quer intervir, a autarquia é que é o território, ou seja, aquelas pessoas “são” dela. Portanto, a dimensão “parceria” tem sido muito importante.

E que outro tipo de “descobertas” têm vindo a ser feitas no decorrer dos projectos?

Existe um elemento igualmente importante que é a dialéctica entre o processo e o produto. Muita gente está focada na existência de um produto, que seja partilhável, que tenha qualidade. Obviamente que nós temos essa ambição, mas o processo é tão ou mais importante. Por exemplo, até o projecto Ópera na Prisão ter algo para apresentar, foram necessários (e ainda são) meses e meses de trabalho de bastidores. E é isso que é o processo: esta capacidade, neste caso, de conseguir que reclusos tenham hábitos de trabalho colectivo, que leiam pautas durante os ensaios, mas também ao longo da semana, de “arriscarem”, nas celas, a cantar ópera, para se sentirem mais apurados quando finalmente têm as suas horas semanais para estarem frente a frente com o seu tutor. Este processo de construção, de aumento de auto-estima, de respeito pelo próximo, de saber quando é que é o seu momento de brilhar, de apoiar, são tudo elementos fundamentais para uma vida em sociedade – e dou o exemplo do Ópera na Prisão, mas poderia dar muitos mais, pois tudo isto vai-se adquirindo ao longo do processo. Obviamente que o produto é relevante, é importantíssimo que “se mostrem” em momentos específicos, que haja marcos em que se faz a apresentação, seja ao financiador, seja ao público em geral, do trabalho que se tem vindo a desenvolver, mas o processo leva tempo, e esse tempo é fundamental para ajudar as pessoas a moldarem, ou a readquirirem, ou a transformarem as suas formas de estar, de sentir e de fazer.

Quer acrescentar outros critérios decisivos na fase de avaliação das candidaturas ou ao longo acompanhamento dos projectos?

Uma outra questão importante prende-se com algo que já referi anteriormente, e que está relacionada com o nível de risco e da experimentação, ou seja a dimensão da inovação, mesmo sabendo que a palavra, de tanto ser proferida, já se encontra um bocadinho “queimada”. Mas identificar áreas nas quais o seu apoio faça a diferença tem sido uma constante no trabalho da Fundação e, em particular, no PARTIS. Ou seja, identificar áreas ou projectos que não sejam uma duplicação ou uma replicação de algo que já está a ser desenvolvido no contexto nacional. Apesar de estarmos abertos ao facto de as pessoas não terem de inventar a roda – e a Orquestra Geração é um bom exemplo disso – e de não nos opormos a uma ideia que já tenha sido apresentada noutros contextos e que com algumas adaptações possa ser aplicada no contexto nacional, a verdade é que a dimensão inovadora – que é muito fácil de encontrar em processos criativos e de práticas artísticas – é muito importante.

[pull_quote_left]Um equilíbrio entre a intervenção social e a ambição da dimensão artística é para nós fundamental[/pull_quote_left]Depois, tenho de admitir, quer na 1ª edição, quer na 2ª edição, que a questão do claro desenho de objectivos, intermédios, a médio e a longo prazo, é para nós fundamental. Na 2ª edição foi contratualizada, com a equipa que faz a capacitação, monitorização e avaliação do PARTIS, uma primeira visita logo no arranque dos projectos para o desenho da teoria da mudança dos mesmos. Isto não aconteceu na 1ª edição, mas e como também temos a obrigação de aprender no caminho que vamos trilhando, nesta 2ª edição e em todos os 16 projectos aprovados, foi feito um trabalho presencial de construção da respectiva teoria da mudança onde se estabelece claramente onde estamos, para onde queremos ir e os vários passos intermédios: ou seja, é desenhar o caminho – mesmo sabendo que muitas vezes não é exactamente aquele que idealizámos – mas que nos ajuda a balizar, a identificar o ponto de partida e onde se gostaria de chegar.

Com já dois anos de implementação, que balanço faz do PARTIS I, nomeadamente ao nível do impacto social dos 17 projectos que o integra(r)am?

O PARTIS tem vários propósitos. Se num país de 10 milhões dissermos que estamos a impactar, em números redondos, seis mil pessoas, pode parecer curto. Mas se nos agarrarmos à tal dimensão de experimentação, de correr o risco, de ensaiar, de documentar, de acompanhar, de avaliar e de monitorizar, associado a um propósito paralelo do PARTIS – que passa por fazer alguma advocacia e lóbi junto de outras instâncias que poderão, estas sim, criar linhas permanentes e contínuas de apoio a este tipo de iniciativas – então penso que existem duas formas de vermos o impacto ou não impacto destes primeiros dois anos do projecto. Ou seja, nos cerca de seis mil participantes directos e nos cerca de 15 mil indirectos – aqueles que estão no círculo mais próximo dos intervencionados, família e comunidade, mas também em outros intervenientes, como os formadores ou os artistas, por exemplo, associados aos projectos. Por exemplo, e retomando o exemplo da Ópera na Prisão, os guardas prisionais – que nunca foram um target nem classificados como participantes directos no projecto, mas que estão certamente nos indirectos, pois, neste caso em particular, funcionam como uma espécie de família – têm sido tão impactados pelo projecto quanto os reclusos. E porquê? Porque temos guardas prisionais a subirem com os reclusos ao palco, como também temos o próprio director da prisão a fazer de solista num dos papéis e ninguém lhe pediu isso. O que me parece um bom exemplo de como um projecto pode chegar a uma escala destas.

E no que respeita às mudanças efectivas nos grupos intervencionados?

A esmagadora maioria dos projectos que temos apoiado tem-nos dado provas que algum impacto fica. E em alguns deles não temos a maior dúvida que o impacto é muito significativo, sendo que noutros é mais contido e mais moderado. E uma aprendizagem que retirámos dos projectos de menor duração é que deviam ter tido mais tempo, principalmente o projecto da Associação InPulsar – Daqui p’ra cá, com a comunidade cigana e a comunidade de classe média de Leiria.

[pull_quote_left]O apoio não tem sempre de passar por uma injecção de financiamento, podendo assumir o formato de um trabalho de bastidores que viabiliza determinadas situações. A participação da Fundação Calouste Gulbenkian, em qualquer que seja o projecto, vai muito além do financiamento[/pull_quote_left]Depois temos projectos que é o caso do Sons à Margem, que embora muito bem desenhados e com uma ambição muito positiva e muito forte, acabam por sofrer imprevistos e se complicar [o entrevistado está a referir-se a problemas de violência ocorridos entre os dois grupos de jovens intervencionados, pertencentes a bairros e territórios sensíveis dos concelhos de Loures e Seixal], sendo que essas situações em sede de candidatura não podem, obviamente, ser previstas. E se em alguns casos são contornáveis, noutros não são, principalmente em projectos de curta duração. Esse é também um dos motivos que nos levou, nesta nova edição, a aumentarmos a duração dos projectos a um limite mínimo de 18 meses, sendo que só um tem essa duração. E as organizações agradecem, principalmente porque não estão habituadas a ter apoios a três anos (o limite máximo estabelecido para os projectos do PARTIS).

Por outro lado, existem também projectos, como o da Orquestra Geração, que demonstram que existem outras formas de apoiar. E a verdade é que a Fundação pode estar a apoiar financeiramente um projecto hoje e amanhã andar a fazer lóbi junto de parceiros chave para que o projecto continue a existir. Ou seja, o apoio não tem sempre de passar por uma injecção de financiamento, podendo assumir o formato de um trabalho de bastidores que viabiliza determinadas situações. A participação da Fundação Calouste Gulbenkian, em qualquer que seja o projecto, vai muito além do financiamento.

Gerir, numa primeira fase 17 projectos e agora, com o PARTIS II, mais 16, apresenta-se como tarefa hercúlea. Em termos de avaliação e monitorização, como é feito o processo de acompanhamento dos mesmos?

Há duas dimensões de acompanhamento: o do gestor do processo da FCG que, para além dos óbvios pagamentos, passa por um diálogo com alguma regularidade com os promotores do projecto e por algo que é muito frequente e que consiste na aprovação de algumas alterações que, com a entrada no terreno, são necessárias fazer depois da candidatura aprovada, como por exemplo, o desbloquear de possíveis ligações, com parceiros óbvios. Adicionalmente, existem ainda dois encontros anuais que promovemos com todos os projectos, com o objectivo de criar uma “comunidade PARTIS”. A ideia é proporcionar o encontro entre os vários projectos, permitindo que partilhem os seus sucessos, mas também as suas dores, que documentem tudo aquilo que têm vindo a desenvolver e que possa ser partilhável com terceiros, mesmo aqueles que estão fora da comunidade PARTIS por agora. A ideia é totalmente contrária à noção de algo que é imposto a terceiros: ou seja, o conceito de ownership, no sentido de apropriação daquilo que é o caminho que se vai fazendo e daquilo que são os produtos que vão apresentando – consequência deste processo participado – é totalmente diferente de algo que é apresentado como algo fechado ao beneficiário ou ao participante directo. É, ao invés co-construído.

E em termos de avaliação externa?

Existe uma equipa externa, que é a Logframe, que foi contratada para capacitar as organizações, monitorizar e avaliar o trabalho que vai sendo desenvolvido. No quadro desta dimensão de capacitação, a grande inovação em relação ao projecto anterior, é desenhar muito bem, e desde o início, o quadro de referência para o projecto, criar num “A3” o desenho do caminho, do ponto de partida até ao ponto de chegada, sendo que o ponto de chegada muitas vezes extravasa, em muito, o final do financiamento por parte da FCG. Ou seja, um projecto que dura três anos, provavelmente só irá ter impactos efectivos a quatro, cinco ou seis anos. Ainda no quadro deste trabalho da Logframe, existem duas recolhas anuais de dados, quantitativos e qualitativos, que nos vão permitindo acompanhar todo o processo.

Mas dado que existe número considerável de projectos, e à sua enorme variabilidade, como se encontra uma métrica de avaliação de performance e impacto que sirva como “bitola” comum a todos eles?

A Logframe, na primeira reunião em que veio discutir o “PARTIS Monitorização & Avaliação” [que inclui um relatório anual dos dados de execução dos projectos e os resultados das visitas de acompanhamento], trouxe um esqueleto. E posso-lhe dizer que foi necessário quase um ano e meio – e também num processo participado com as organizações – para fechar o que, hoje em dia, constituem a bateria de indicadores e perguntas abertas que são alvo, a cada semestre, de resposta por parte dos projectos integrantes do PARTIS.

[pull_quote_left]A ideia da ‘comunidade PARTIS’ é proporcionar o encontro entre os vários projectos, permitindo que partilhem os seus sucessos, mas também as suas dores, que documentem tudo aquilo que têm vindo a desenvolver e que possa ser partilhável com terceiros[/pull_quote_left]Tentando responder especificamente à pergunta que fez, que devia ser talvez dirigida à Logframe – o que eu sei que está a acontecer é que o desafio imenso que está a ser avaliar este programa neste formato tão díspar, seja a nível de públicos, seja a nível de intervenções, seja a nível de metodologias de avaliação, constitui também um processo enorme de aprendizagem para a própria entidade formadora. A “ferramenta de avaliação” tem servido para abrir caminho, tem sido apresentada em vários congressos internacionais sobre monitorização e, em algumas universidades internacionais, tem sido também apresentada como um caso de estudo. Ou seja, porque todos temos dúvidas, temos tentado também aproveitar alunos universitários, para eles próprios sugerirem formatos de optimização do modelo já desenhado até agora para o PARTIS. Ou seja, também nesta dimensão, estamos numa experimentação, apesar de acreditarmos, pelo feedback que temos recebido da Administração da FCG que, no essencial, existe um conjunto de indicadores que não têm levantado alerta e que nos fazem sentir que estamos no caminho certo.

No que respeita também aos grupos-alvo dos projectos, as crianças e jovens em situação de risco, ou mesmo institucionalizados, são aqueles que mais projectos estimulam. Isso deve-se ao facto de ser mais fácil – e até mais “produtivo” em termos de futuro – “moldar” e preparar os mais novos para uma melhor inserção na sociedade ou é porque, realmente, são dos segmentos mais vulneráveis a que o país tem de dar mais atenção. Ou, ainda, porque existem mais projectos para estes públicos?

Eu acredito que é uma feliz coincidência. Se consultar o regulamento do PARTIS, verá que não existem qualquer tipo de quotas. Não há qualquer tipo de ambição de privilegiar o interior em relação ao litoral, ou de privilegiar determinados segmentos ou problemáticas, como a deficiência ou a reclusão ou os refugiados. O júri sempre nos referiu: o principal, para nós, é a qualidade, a proposta de intervenção e quem está associado a essa proposta.

Acaba, sim, por ser uma consequência de existirem mais projectos dirigidos a crianças e jovens e de muitas desses projectos terem a dita qualidade – mas também acredito que muitos projectos existem porque estão realmente a olhar para o futuro do país – razão pela qual o PARTIS está mais focado dos 0 aos 24 anos. E também estamos muito confortáveis com isso porque a Fundação, através do seu Programa de Desenvolvimento Humano, sempre teve como um dos seus grupos prioritários as crianças e jovens em risco.

Reparei também e contudo, que nos projectos aprovados agora para a segunda edição do Programa, existe um maior número dedicado a cidadãos com deficiência, de várias idades. Sabemos que a pessoa com deficiência em Portugal tem pouquíssimos apoios e que existe uma lacuna vergonhosa em apoios ou políticas pensadas para esta população. Isso pesou, de alguma forma, no apoio a estes projectos em particular?

Na verdade, existe uma diferença clara entre 2013 e 2015 – ou seja, os dois anos em que os concursos foram abertos – no que toca a organizações que trabalham com pessoas com deficiência. Em 2013 foram muitas as candidaturas com pouca qualidade. E, em 2015, e para agrado meu, porque tenho testemunhado o quanto é relevante esta intervenção junto destes públicos, no PARTIS que arrancou agora em 2016, aumentou a qualidade dos projectos na área das deficiências, até na saúde mental. Passámos, assim, a ter projectos nesta área com ambições fortes, mais estruturados e que nos deixam bastante satisfeitos, por termos também alargado mais o leque de problemáticas com as quais o PARTIS se está a associar.

Que maiores lições tem aprendido, enquanto gestor do Programa, com as “inevitáveis dores de crescimento” que existem sempre em qualquer que seja o projecto, em particular neste que é, pelo menos em Portugal significativamente inovador? Para além do que já referiu relativamente `duração dos projectos, que já referiu, existe mais alguma coisa que gostasse de referir?

[pull_quote_left]O júri sempre nos referiu: o principal, para nós, é a qualidade, a proposta de intervenção e quem está associado a essa proposta[/pull_quote_left]O caminho que tem sido feito é interessantíssimo. Eu entrei para a FCG como especialista em migrações e com um propósito muito específico: apoiar a realização de um conjunto de seminários durante o cinquentenário da Fundação, essencialmente iniciativas públicas ao longo de um determinado período de tempo. Depois começámos a perceber que era importante ir ao terreno e ensaiar alguns projectos com os migrantes e apontámos a dois targets: um dos altamente qualificados – um projecto de reconhecimento das habilitações académicas de médicos e enfermeiros imigrantes e outro para iniciativas de pessoas menos qualificadas, que era diverso, mas que pelo meio teve também a Orquestra Geração. Ou seja, a Orquestra Geração é a primeira semente do meu percurso enquanto gestor de subsídios na FCG e daquilo que hoje em dia é o core do que eu faço. Depois fomos somando peças: através da fotografia, do teatro, da dança, fomos criando uma base, essencialmente com comunidades onde a participação imigrante era forte, fomos criando um conjunto de conhecimento e convicções que nos levaram até onde estamos hoje. Mas se me perguntar – entrei para a FCG já com 10 anos de trabalho pós-universidade – se alguma vez, ao longo dos meus primeiros 15 anos de trabalho, eu pensei que o core do meu trabalho estaria ligado às artes, teria de admitir que eu era uma pessoa muito desligada do meio artístico e “contaminado” para a dimensão social. Ou seja, eu entro em virgem para a parte artística e isso possibilita-me ver as coisas de uma forma totalmente diferente do que alguém que vem do meio artístico e que de repente quer incorporar também esta dimensão social. Acho que há vantagens para os dois lados. E, sinto, no feedback que recebo das organizações nas quais vou trabalhando, que uma aposta que não foi totalmente consciente da FCG – a minha pessoa para gerir isto – não é um insucesso [risos]. E, para mim, enquanto crescimento pessoal e de abertura de mundo, tem sido realmente um privilégio. Porque, no limite, eu sou pago para fazer algo tão extraordinário.

O balanço dos dois primeiros anos do Programa está feito. Que sentimento é expresso, por si, actualmente, face ao “estado de graça” do PARTIS e que expectativas têm para o seu futuro?

Sinto que o óbvio está a ser alcançado e a possibilidade de quem visitar, daqui a 10 anos, a história do PARTIS, numa perspectiva de onde partiu e onde gostaria de chegar numa perspectiva de ambições moderadas, encontrará uma história de sucesso. E sinto também que este ano e o próximo, no âmbito do PARTIS II, serão decisivos, para aquilo que é, para mim, a ambição da extinção do Partis.

O que quer dizer com essa” ambição da extinção”?

[pull_quote_left]Aquela que tem sido a imagem de marca da FCG, mas que também é a ambição de qualquer fundação, não é apenas e só posicionar-se no que é seguro, no espaço de segurança de sucesso garantido, mas sim na tal perspectiva do risco, da experimentação e da inovação[/pull_quote_left]No dia em que o PARTIS for irrelevante a nível de apoios para estas organizações terem projectos de inclusão social através de práticas artísticas, estará na altura da FCG descobrir uma nova área para activar. E é para chegar aí que penso que precisamos de trabalhar mais, seja no programa de fundos comunitários Cultura para Todos, seja junto de financiadores ou promotores mais municipais. O nosso impacto não irá muito além destes seis mil, 10 mil beneficiários directos. O PDH trabalha com um orçamento muito próximo todos os anos, portanto, para se conseguir seleccionar um milhão de euros a 3 anos, algo teve de chegar ao seu fim e, acreditamos, com uma história de sucesso. E, por incrível que possa parecer, porque é aqui que eu me sinto bem e realizado, gostaria que dentro de três anos, eu esteja a fechar o PARTIS, ou daqui a seis, quem sabe, com mais uma edição. Ou seja, que estejamos a fechar o PARTIS porque já conseguimos passar, para um nível superior, esta ambição de apoiar organizações que querem, através das práticas artísticas, ter impacto social. E estes próximos dois anos serão determinantes.

Mas tem noção que isso é muito difícil de atingir, certo?

Sim, tenho noção que é difícil de atingir, mas tenho indícios muito interessantes, entre eles o Cultura para Todos, que é um envelope de 20 milhões de euros, até 2020, para injectar em projectos aparentemente semelhantes aos do que o PARTIS tem apoiado. Garantidamente estaremos com o PARTIS até 2018, com compromissos assumidos nesse sentido. E aquela que tem sido a imagem de marca da FCG, mas que também é a ambição de qualquer fundação, não é apenas e só posicionar-se no que é seguro, no espaço de segurança de sucesso garantido, mas sim na tal perspectiva do risco, da experimentação e da inovação. A partir do momento em que sentirmos que já não estamos a “provocar” e que estamos só a dar a roda à manivela, acredito que estará na altura da Fundação se questionar se está a fazer a diferença ou não. Por muito que me apeteça estar a fazer isto para o resto da vida.


“É obrigação das fundações arriscar” ou porque o PARTIS provoca encontros improváveis

Hugo de Seabra, num encontro provável, com o seu filho mais novo, num workshop criativo na Fundação Calouste Gulbenkian
Hugo de Seabra, num encontro provável, com o seu filho mais novo, num workshop criativo na Fundação Calouste Gulbenkian

No vídeo de apresentação que consta da página do PARTIS, Hugo de Seabra afirma que “o grande propósito deste Programa passa por provocar, através dos projectos que apoia, encontros improváveis”. Questionado sobre o significado dessa provocação, que vai muito mais além de um encontro entre a intervenção social e as práticas artísticas, o responsável começou por sublinhar que o “PARTIS nunca quis ser mais do mesmo” e que “se não forem as fundações a arriscar em novas metodologias, em novos formatos, então ninguém o vai fazer”. Tendo como objectivo inverter o que se passa na generalidade dos projectos desta natureza, em que “a propensão para o risco é muito pequena, optando-se quase sempre por ‘repetições’”, o “risco da experimentação” foi e continua a ser uma das imagens de marca do PARTIS. E o gestor do Programa optou por dois exemplos distintos, para traduzir o que, a seu ver, significam estes “encontros”, muitas vezes inesperados e, outras tantas, potencialmente impossíveis.

Não saber “quem é quem”

O Ensemble Juvenil de Setúbal junta em placo três universos muito distintos: é composto por 22 “músicos” – a maioria deles alunos de classe média do Conservatório de Setúbal e que nunca seriam o alvo prioritário do Programa de Desenvolvimento Humano -, em conjunto com alguns jovens, que não sabendo ler música, são muito bons na percussão, provenientes do Bairro da Bela Vista, um dos bairros mais complicados não só da zona de Setúbal, mas até mesmo do país, misturados ainda com um 3º grupo de jovens autistas. Todos trabalham em conjunto e apresentam-se de forma plenamente igualitária, sendo que nas apresentações que fazem é impossível saber “quem é quem”, na medida em que funcionam como uma família, como um grupo onde não há diferenças.

No momento em que três grupos tão distintos se encontram, trabalham em conjunto e se começam a apresentar como um só (…) no momento em que passamos a saber que o Luis, autista, é uma das peças mais importantes deste agrupamento, porque é quem coordena todo o ritmo do ensemble… estamos já perante um encontro improvável.

Mas a verdade é que temos outros encontros improváveis sobre encontros improváveis. Por exemplo, jovens compositores nacionais que escrevem para este ensemble ou adaptam peças, como “As Quatro Estações de Vivaldi”, para o mesmo. Ou ainda a adopção de um novo instrumento musical, o Skoog, que consiste numa peça com cinco botões, ligada a um sintetizador e computador, que viabiliza que pessoas com deficiências complicadas, até motoras, possam tocar com o cotovelo, com o punho, e que permite duetos, por exemplo, entre jovens sem qualquer problema e os seus pares com deficiência. É outro encontro improvável.

Mas há outros. Basta pensar que, não sendo os jovens de classe média o target destes projectos, a verdade é que a mudança de perspectiva face aos que com eles partilham o palco, permite-lhes também perceberem as problemáticas que habitualmente não lhes entram porta adentro. Ou seja, automaticamente, estes jovens de classe média acabam por influenciar também o seu seu núcleo mais próximo, que é a sua família, e que, por arrasto acaba por influenciar também todos os que os rodeiam ao nível das suas redes pessoais.

A pirâmide invertida

A propósito de um concerto aberto ao público em geral da Fundação da Orquestra Sinfónica Juvenil de Caracas, em Maio de 2012, os clientes habituais da temporada de música Fundação Calouste Gulbenkian – caracterizados, na generalidade, por uma classe média-alta – “misturou-se” com jovens pertencentes à Orquestra Geração da zona de Lisboa, os quais não tinham “roupa especial” para se apresentarem na Fundação e que ocuparam essencialmente as laterais devido a um acordo realizado com o serviço de música para aquele concerto em concreto. De uma forma muito resumida, assisti à entrada na sala do público habitual, o qual manifestava um ar preocupado, porque algo de “diferente” estava a acontecer, questionando o que se estava passar, pois tinham pago bilhete e a sensação que tinham era que algo não iria ‘correr bem’. O maestro, que mal chegou ao palco, pediu à orquestra que estava a reger que começasse por elogiar os jovens do “projecto-irmão” em Portugal que estavam também na plateia, deu origem a uma inversão extraordinária de papéis.

Se imaginássemos uma estrutura piramidal, no topo estaria a orquestra, porque era o motivo pelo qual todos estavam ali, depois teríamos o público habitual da Fundação e, na base, as “borlas” dadas aos jovens da Orquestra Geração. E de repente os que estão “em baixo” ganham o protagonismo máximo porque a orquestra os reconhece como um projecto exemplar.

O que aconteceu é que, durante duas horas, assistimos à prova que, no final, todos somos feitos do mesmo sangue e que todos partilhamos o mesmo direito de usufruir de uma mesma experiência ou espaço. E isso é também um encontro improvável que estes projectos podem provocar, embora totalmente inesperado e não pensado.


Este artigo faz parte integrante do Especial PARTIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social