O relacionamento entre a lógica financeira dominante e a lógica dos investimentos socialmente responsáveis deixa de ser de complementaridade para passar a ser concorrente à medida que a lógica financeira se torna mais prevalecente na sociedade e o seu objectivo de maximização de lucro é tomado como garantido”. Esta é a conclusão de um paper recente divulgado pela Stanford Social Innovation Review
Traduzido e adaptado por HELENA OLIVEIRA
© Stanford Social Innovation Review

O investimento socialmente responsável (SRI, na sigla em inglês) tem vindo a crescer em popularidade ao longo dos últimos 50 anos. Os fundos que investem em objectivos sociais, como o ambiente, a justiça social ou a saúde pública são lançados com regularidade e estão disponíveis um pouco por todo o mundo. Mas, e invariavelmente, enfrentam uma tensão entre duas lógicas concorrentes: a lógica de gerar dinheiro e a lógica social que visa promover valor não monetário. De que forma é que os investidores resolvem estas duas lógicas concorrentes e quais os factores que informam as suas decisões? E quão importante é a lógica prevalecente da economia e da sociedade nas quais estes fundos são lançados?

Em particular, será que os fundos de investimento socialmente responsáveis prosperam mais em países com economias financeiramente avançadas? Esta é a questão colocada num novo paper realizado pelos professores de Gestão Shipeng Yan, da City University of Hong Kong, em conjunto com Fabrizio Ferraro e Juan (John) Almandoz, da IESE Business School em Barcelona.

Os países com economias elevadamente financeirizadas, de que são exemplo os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, possuem mercados financeiros mais sofisticados e um enfoque mais acentuado nos lucros para as suas respectivas sociedades. E faz sentido que economizas avançadas como estas possam oferecer terreno fértil para o lançamento de muitos fundos socialmente responsáveis. Todavia, estes mesmos fundos podem também enfrentar forças opositoras mais fortes decorrentes da lógica predominantemente financeira vigente nestas sociedades.

Todavia, quando os investigadores olharam para o número de fundos socialmente responsáveis lançados em 19 países entre 1970 e 2014, concluíram que os países mais ricos não estavam na vanguarda deste movimento. “Foi em países com níveis de financeirização moderados que encontrámos as maiores taxas de fundos socialmente responsáveis”, afirma Yan. “O que não deixa de ser surpreendente”.

Estes resultados apontam para uma nova compreensão de “como uma lógica dominante interage com lógicas alternativas para promover ou reprimir a mudança institucional”, escrevem também os investigadores. Quando a lógica financeira é predominante na economia de um país, o número de fundos socialmente responsáveis expande-se no início, para se contrair de seguida, num padrão em U inverso. Tal deve-se, em parte, aos princípios de organização concorrentes entre aqueles que têm fins pró-sociais, como “os sindicatos, as instituições religiosas e os partidos políticos verdes” e aqueles com fins financeiros. Paradoxalmente, a financeirização oferece não só os meios para criar SRI como também a fonte para a sua anulação. Quando mais um país avança no sentido da financeirização, mais as “lógicas alternativas” pró-sociais retrocedem.

“A nossa proposta, e de acordo com as nossas conclusões, é a de que o relacionamento entre a lógica financeira dominante e a lógica dos SRI deixa de ser de complementaridade para passar a ser concorrente à medida que a lógica financeira se torna mais prevalecente na sociedade e o seu objectivo de maximização de lucro é tomado como garantido”, escrevem os autores.

Para considerar esta questão, o paper analisa apenas os novos fundos e não aqueles que foram, entretanto, renomeados com uma etiqueta de “socialmente responsáveis”. De acordo com Ferraro, tal evita o problema do “whitewashing”, segundo o qual um fundo de investimento já existente sem um enfoque social forte altera o seu marketing para publicitar princípios de SRI.

E o maior contributo do paper para a área da sociologia económica é o seu encorajamento para que os académicos olhem para a financeirização enquanto meios e fins separados, afirma Ferraro, especialmente na medida em que a maximização do lucro causa muitos dos problemas económicos do mundo. “E é por isso que descobrimos estas relações em forma de U invertido” entre o nível de financeirização e o estabelecimento de fundos socialmente responsáveis, explica.

Os investigadores também concluíram que os sindicatos dos trabalhadores impulsionam a taxa de fundos socialmente responsáveis num determinado país. “Se os sindicatos são poderosos num país, os mercados financeiros tendem também a desenvolver fundos relacionados com questões que interessam a esses mesmos sindicatos”, acrescenta Ferraro.

O trabalho de pesquisa do paper é importante devido à sua amplitude e variedade, comparativamente a outros trabalhos que envolvem apenas alguns países ou um período de apenas alguns anos, afirma Marc Ventresca, professor de Gestão Estratégica na Saïd Business School da Universidade de Oxford.

O trabalho relaciona-se com um debate alargado entre académicos sobre como incluir dados relativos a resultados ambientais, sociais e de governança nos relatórios financeiros das empresas, afirma Vantresca. E também se pronuncia contra a ideia de que a lógica financeira se encontra numa marcha inexorável para se tornar cada vez mais arraigada nas economias avançadas. Ao invés, esta pesquisa e outros trabalhos estão a sublinhar a existência de disparidades na forma como a financeirização funciona no interior das sociedades e a desafiar a narrativa de que o progresso social num país significa, necessariamente, um maior nível de lógica financeira, acrescenta.

“A parte comparativa que é mais importante neste caso é a de que diferentes países possuem regras radicalmente diferentes no que respeita a títulos e mercados financeiros, sendo assim difícil manter a ideia ficcional de que existe uma lógica financeira única e homogénea”, remata Vantresca.

Traduzido com permissão de “The Paradox of Socially Responsible Investing. © Stanford Social
Innovation Review 2019

PAPER: Shipeng Yan, Fabrizio Ferraro, and Juan (John) Almandoz, “The Rise of Socially Responsible Investment Funds: The Paradoxical Role of the Financial Logic,” Administrative Science Quarterly, 2018.