«Dou-lhe o exemplo desta casa, a Pinto Basto. Tem 250 anos por uma única razão: a forma como trata as pessoas. Não se chega a esta longevidade pelo que decorre nas alturas boas, mas por ultrapassar as alturas más. Nas alturas más não é o gestor quem resolve, são as pessoas que aguentam, e apenas aguentam as pessoas que se sentem verdadeiramente parte integrante da empresa.»
POR PEDRO COTRIM

Boa tarde, Dr. Bruno Bobone. Obrigado por este acolhimento e por esta disponibilidade. Temos uma enorme estima pelas suas reflexões e talvez comece por lhe perguntar: tudo é economia?

Boa tarde e o gosto é meu. Respondo-lhe antes que é tudo pessoa, pois é a pessoa que importa sempre. A evolução da economia afastou-se dessa preocupação essencial e foi necessário que os empresários se unissem e que trabalhassem para voltar a trazer a economia para o caminho certo.

União de empresários. O senhor tem estado em muitas associações que a promovem. Podemos começar pela ACEGE?

Certamente. Fui vice-presidente da ACEGE, que resultou da necessidade de nós, gestores, voltarmos a um caminho que faça verdadeiramente sentido e em que se coloca a pessoa no centro da economia. A ACEGE é uma organização muito importante, porque permite aos gestores manterem a linha de desenvolvimento num diálogo orientado para o objectivo que se pretende. Creio que é uma das associações mais importantes do mundo empresarial.

Quando o senhor chegou à ACEGE, a associação mudou de nome. Mudou mais alguma coisa?

A mudança ultrapassou a designação. Chamava-se UCIDT – União Católica dos Industriais e Dirigentes do Trabalho. A mudança, contudo, não deteriorou a sua essência. Cheguei à ACEGE nos anos noventa, muito depois do 25 de Abril, mas a associação enfermava dos problemas estruturais de uma sociedade que se tinha revolucionado. Carecia de vitalidade, de dimensão e de presença no mercado e foi necessário recriá-la. Como nós somos pessoas de empresas, sabemos como se tratam estes assuntos. Era preciso relançar uma instituição que falava dos valores de Cristo na empresa, o que na altura era quase impensável. Aliás, era quase absurdo.

Porque o afirma desta forma tão categórica?

Porque sucedeu numa altura em que as pessoas não queriam, de modo algum, associar a Igreja ao trabalho. A crença era lá para casa, não para a empresa. A empresa era para ganhar dinheiro. Pegámos na ACEGE num momento em que praticamente não existia e temos hoje em dia 1200 associados. É extraordinário que isto suceda num país que, segundo se diz, está cada vez pior em termos de crença católica e em que as pessoas não vão à missa. Há 1200 empresários cristãos que sentem a importância da ACEGE, e haverá certamente muitos que partilham estes valores mas que não pretendem qualquer tipo de associação.

E de que modo foi tudo isto conseguido?

Recriámos a ACEGE com critérios de gestão, mas sempre focados no grande objectivo já mencionado – recentrar a economia na pessoa. Fizemos um rebranding, elaborámos um plano estratégico, dividimos tarefas, criámos uma estrutura de trabalho, procurámos fundos e financiamento e projectámos novamente a ACEGE. Foi um trabalho de uma equipa muito boa. Contratámos na altura o Jorge Líbano Monteiro, que acompanhou profissionalmente a estrutura da organização.

Uma grande equipa aliada à experiência do senhor, que entretanto ficou na liderança da UNIAPAC.

Eu gosto mais de dizer que sou o presidente mundial dos empresários cristãos. Acho que «empresários cristãos» define o conceito sem eufemismos e transmite às pessoas o que pretendemos. Mas digo-lhe que a UNIAPAC deveria também mudar de nome. Devia passar pela fase do rebranding e de relançamento porque todas as organizações, ao fim de um tempo, deviam renascer. É uma das grandes qualidades do Cristianismo – cada vez que nos confessamos, renascemos. É uma oportunidade extraordinária e nunca tem fim.

E na sua perspectiva faz perfeito sentido, pois no fundo, como está a pessoa no centro, a organização deverá ter um percurso semelhante. Como chegou a este meio e a estas responsabilidades?

Fascino-me pela organização mundial desde muito jovem, e no meu contacto com a ACEGE, na tal altura em que ainda tinha uma expressão muito reduzida, tive a sorte de ir a um congresso da UNIAPAC no Rio Grande do Sul. Fiquei maravilhado por ver que aquilo que tinha como essencial para a ACEGE – juntar as pessoas para lhes mostrar que não estão sós e que podem em conjunto descobrir o caminho – já sucedia na UNIAPAC. Percebi que no mundo inteiro há pessoas com as mesmas preocupações que nós e que efectivamente se trabalha no sentido de trazer a vida de Cristo para dentro da empresa; também que no mundo inteiro as pessoas estão em entreajuda para conseguirem transformar a economia. Juntos sabemos melhor é um grande motto da humanidade.

Humanidade que entretanto se guerreia, e agora com cristãos contra cristãos.

A guerra não é dos russos contras os ucranianos. É um projecto imperial do senhor Putin e que quer chegar a algum lado e já todos concluímos que não vai conseguir, graças a Deus. Envolve pessoas das igrejas, como o patriarca de Moscovo. Que é uma pessoa, mas a igreja é uma coisa diferente, e os seus fiéis são seguramente pessoas com valores e preocupações, mas numa situação de guerra as pessoas normalmente defendem o seu país. Portanto não faço aqui um juízo de valores; aliás, o que se julga nas guerras são os crimes, não a actuação de soldados. A guerra é horrível e todos devemos manifestar veementemente a nossa condenação e fazer os possíveis para que acabe.

Esta guerra está a merecer condenação unânime por parte do mundo ocidental.

Unânime. Pela primeira vez, desde que eu me lembro, a Europa uniu-se num acto de solidariedade numa dimensão que ninguém podia imaginar. Creio que Deus Nosso Senhor conhece sempre o desafio que nos coloca, e se calhar a Europa também precisava de um desafio. No entanto, eu acho que como cristãos temos de olhar para lá do lado mau. Já o vimos, temos de ajudar ao máximo e defender aquelas pessoas sempre que for possível, mas esta guerra também nos permitiu encontrar esta solidariedade extraordinária e que já quase não conhecíamos.

Quer elaborar um pouco este conceito de solidariedade?

Certamente. Temos de mudar a economia para aquilo que importa. Viemos de uma economia que foi desenvolvida de um modo muito alicerçado no liberalismo económico, concebido por Adam Smith, que afirmava que o interesse individual deve ser o foco, e que se cada um investir no seu próprio interesse individual, a sociedade vai desenvolver-se melhor. Ou seja, uma proposta de individualismo e egoísmo que resultou no consumismo.

Um modelo com mais de duzentos anos.

Sim, em certos aspectos, Adam Smith tinha razão, e além disso foi um homem do século XVIII. Era professor de filosofia moral, considerando a moral como um facto presente, não discutível. Pretendeu dar-nos uma ideia de que era necessário retirar a moral dos negócios para se poder desenvolver a economia. Na sua perspectiva, a moral estava excessivamente presente nas decisões da actividade económica, e deste modo entende-se a sua reflexão.

Que na altura até gerou desenvolvimento.

Gerou desenvolvimento mas fez colapsar o mercado. No princípio a moral estava presente na sociedade, que se foi adaptando a uma nova realidade que criou desenvolvimento, sem dúvida alguma, e daí nasceu uma economia baseada no preço mais baixo, que é uma democratização de acesso ao produto. À partida parece um esboço acertado, pois baixando o preço, aumenta-se o mercado e o caminho é possível. O problema é a chegada ao limite do mercado, pois resta apenas uma forma de baixar ainda mais o preço: baixar o salário, o que gera um círculo vicioso negativo que originou crises brutais.

Crise, essa palavra nossa de cada dia…

E que tentámos levar «para lá». A primeira forma foi fingir que o salário só era importante no nosso mundo, e portanto fomos produzir onde não importava o salário nem as condições que exigimos. O que sucede é que, como não se consegue vender, baixa-se o ordenado do trabalhador, mas também se perde o cliente. E como se resolveu o assunto? Foi-se para a China, pois aí não nos importa nada o que se paga aos trabalhadores, e portanto conseguimos ir baixar o salário na China; só que nos esquecemos que assim também baixamos o salário na Europa.

O mundo está globalizado.

E bem se viu na pandemia, mas a situação veio trazer-nos um momento extraordinário. Pela primeira vez, fomos mesmo obrigados ao que se julgava impossível: pusemos a pessoa à frente da economia. Fechámos as empresas e mandámos as pessoas para casa para as salvar. Afinal não é verdade que tenhamos que andar com a pessoa atrelada à economia; a economia pode funcionar para a pessoa. E começamos a pensar: vale a pena a teoria do preço baixo? Não é preferível que em vez de se poder comprar sem parar, se possa ganhar um salário melhor que permita fomentar o desenvolvimento cultural, profissional, pessoal? No fundo tornar-se uma pessoa melhor? É um caminho para a felicidade, que no fundo é o objectivo da pessoa, não é ganhar dinheiro.

Mas ganhar dinheiro ajuda…

Para ganhar dinheiro a empresa tem de se aguentar. Dou-lhe o exemplo desta casa, a Pinto Basto. Tem 250 anos por uma única razão: a forma como trata as pessoas. Não se chega a esta longevidade pelo que decorre nas alturas boas, mas por ultrapassar as alturas más. Nas alturas más não é o gestor quem resolve, são as pessoas que aguentam, e apenas aguentam as pessoas que se sentem verdadeiramente parte integrante da empresa. Da família, se quiser. É a única solução para vencer as dificuldades e manter ou aumentar a produtividade. Dedicar-nos às pessoas não significa esquecer a gestão nem a criação de riqueza, mas fazê-lo sempre com a pessoa em primeiro lugar. Nos momentos em que precisamos delas não se vão embora, tal como nas nossas famílias as pessoas não se vão embora. É isto que faz a diferença.

Aplaudo o raciocínio.

Então permita-me que recomende um artigo que escrevi com Esther Lynch, presidente da confederação dos sindicatos europeus: Courage to change, no qual eu abordei a parte da mudança que as empresas têm de fazer e ela abordou a parte da mudança que os sindicatos e empregados têm de fazer. Da parte dela, a dedicação, a motivação, o cuidado e o respeito, e nós o cuidado pela pessoa, a distribuição da responsabilidade e a inclusão na decisão.

Intenções que não serão exactamente a regra…

Os empresários sabem há muito que a pessoa é o mais importante. Arrisco-me a afirmar que, por medo, uns noventa por cento não põem em prática este princípio. Têm medo de atribuir às pessoas capacidade de decisão, autonomia, mesmo a própria liderança por temerem actos contrários à essência da empresa. É uma característica das empresas portuguesas e para mim trata-se de um erro tremendo. Se os empresários acreditarem e não temerem, aumentam a produtividade, aumentam a felicidade, vão ter mais pessoas capacitadas para os ajudar a decidir bem, vão ter mais diversidade de opiniões, o que é uma tremenda mais-valia. Vão ter pessoas capazes de defender a sua própria empresa.

Que vejo que é um dos pilares das organizações que dirige.

Sem dúvida. Nesta pandemia, toda a gente abdicou do que ganhava para poder dar aos outros. O problema agora é a memória dos homens, que é muito curta, mas nós temos um momento extraordinário para esta mudança e que cabe à UNIAPAC. Apenas a nível nacional não resultará. A UNIAPAC, com o apoio de todos os membros do mundo, com a ajuda da igreja, tem uma força extraordinária para operar esta mudança. Até porque os que não são cristãos estão dispostos a esta mudança, pois viveram a pandemia e a guerra como nós, e sabem que se pode pôr a pessoa à frente da economia. E também sabem que a solidariedade – há muitas pessoas não-cristãs que foram muito mais solidárias que muitos cristãos – é mais importante que o sucesso individual.

Bem sabemos…

Mas os cristãos não parecem felizes. Conto-lhe a proverbial história do cristão que sai da missa e vê o agnóstico cá fora, que lhe diz «se ser cristão é isto é melhor eu não ir lá». Nós não saímos da igreja com um sorriso e temos de sair com um sorriso. Temos de partir para o mundo a falar destas coisas: não a dizer o que está mal, mas a enaltecer o que está bem. E as pessoas seguem-nos, porque as pessoas seguem exemplos. Repare no que fez Cristo quando veio à Terra. Todos eram contrários ao que dizia. Podia ter reclamado «Mas esta gente não percebe nada! Estou aqui há anos no meio desta malta e ninguém entende nada!». Mas não o disse, mostrou antes o que tinham de fazer. E é esse o caminho que temos de trilhar.

E o caminho que o senhor trilhou levou-o recentemente ao Papa Francisco.

Uma ocasião extraordinária! Tive a oportunidade de estar com o Papa Francisco em Novembro passado. Estou convencido que esta oportunidade surgiu pela circunstância de eu defender seriamente o salário digno, por envolver os empregados nas decisões das empresas e creio que pela forma feliz de ser cristão. O Papa Francisco é uma pessoa muito terra a terra e recebeu-me de um modo muito caloroso. Estivemos a conversar durante quarenta minutos. Falou-me da sua eleição, da de Bento XVI, contou-me uma anedota, ofereceu-me um livro que procurou numa estante. Acabou por não ser uma reunião formal. Foi uma conversa, atrevo-me a dizer, entre dois amigos.

Inesquecível para qualquer pessoa.

Verdadeiramente! Toda a gente diz que este papa é de esquerda e que não gosta das empresas nem dos empresários. Achei que não se podia ter esta imagem, uma vez que o Papa Francisco fala sobre a doutrina social da igreja e nos coloca desafios interessantes. Achei que era importante sair da visita com uma mensagem de que o papa gosta dos empresários. Afirmei-lhe que os empresários estavam com ele, ao que me retorquiu que não era inteiramente verdade. No final disse-lhe que gostaria de fazer dois pedidos. Olhou-me com a graça daquele sobrolho franzido que simula desagrado e disse «dois?». Pedi-lhe uma mensagem aos empresários. Propus-me filmá-lo e acedeu. Em dois minutos enviou uma mensagem extraordinária, em que afirma que os empresários são quem pode tirar o mundo da crise, são os grandes criadores, são quem traz a esperança a todos. Nunca se sai igual de uma crise; sai-se melhor ou pior.

Temos realmente estas ferramentas poderosíssimas, que me permitem a mim chegar a si, que lhe permitem a si chegar ao Santo Padre e colocar aqui um vídeo da conversa. Infelizmente, é a tecnologia que nos está a instrumentalizar, e não o contrário. Eu tenho uma visão pessimista do que está a suceder.

Acho que o erro é nosso, não dos outros. A coisa melhor do mundo é ter a culpa. Se eu tiver a culpa posso mudar; se não a tiver não posso mudar. Eu gosto de ter a culpa, mas as pessoas têm dificuldade em assumir a culpa. Sou eu quem tem de fazer a mudança, não os outros. Se tenho de fazer a mudança terei de ser eu a mudar.

Mas essa noção de culpa pesa.

Não tem nada que pesar. Nós somos cristãos. Temos de ser optimistas e positivos, não temos de ser negativos nem críticos. Temos de descobrir soluções, não de dizer o que está mal. Temos naturalmente de fazer uma avaliação, mas apenas devemos falar sobre o que podemos fazer de positivo. Não devemos falar sobre o que está mal. Não está certo e é prejudicial aos outros. Temos de ver o que podemos fazer. Existe o facebook, óptimo. O que podemos então fazer no facebook? Temos de procurar programas interessantes promovidos por cristãos em vez de ver a má-língua e a crítica. «Digam bem de nós, digam mal de nós, mas falem de nós». Se formos grandes vão dizer mal de nós. Quando mais Cristo foi conhecido, mais gente o repudiou. Também havia mais conversões, mais adesão, mais continuidade. Não podemos olhar para o lado contrário.

Mas vemos a Igreja envelhecida. É inegável.

E que investimento estamos a fazer junto dos jovens para os convidar para a missa? Repare nos jesuítas e no que têm feito pelos jovens. É possível, portanto. E não apenas os Jesuítas. É preciso investir mais. Mas somos nós, que graças a Deus temos a culpa, a ter de fazer mais.

A noção de culpa era pesada no colégio de inspiração religiosa que frequentei há quase quarenta anos. O ensino era formidável, muito virtuoso, mas pouco adaptado às pulsões.

Eu, como estive na escola antes do 25 de Abril, também apanhei o ensino separado. Adaptamo-nos e não temos remédio. São circunstâncias e não são elas a criar-nos o problema, pois o problema está dentro de nós. As circunstâncias ultrapassam-se; se não fossem essas seriam outras. Há sempre obstáculos a ultrapassar, por isso não há obstáculos, no fim de contas. Há trabalho, dedicação, exemplo, persistência, resiliência.

Fala em resiliência, resistência. Há pouco tempo celebrámos mais dias em democracia que em ditadura…

Tenho as minhas dúvidas. Hoje em dia vivemos uma ditadura da opinião pública, que por não ser institucional é mais perigosa. Há um policiamento do pensamento absoluto, que é pior no sentido que é menos estruturado. E mais perigoso, sem dúvida, ainda por cima com recursos que permitem divulgar estes pensamentos sem os refrear. Eu diria que não vivemos propriamente em liberdade.

Tanta inclusão acaba por ser exclusiva…

É verdade. Tenta-se dividir o que não é divisível. Devemos preocupar-nos com as pessoas, não com os que as caracteriza. Liberdade é liberdade. Para mim os valores da direita tradicional, cristã, são transversais à sociedade e seria fácil pô-los em prática, só que não foram desenvolvidos da forma correcta; permitiu-se que a economia tomasse conta dos programas. Mais uma vez temos culpa, pois em vez de confrontar a opinião contrária, aceitámos esta ditadura do politicamente correcto.

O que podem fazer então as empresas portuguesas?

As empresas portuguesas não são a única razão para Portugal não melhorar. Uma grande parte da razão para o desenvolvimento reduzido tem a ver com a pouca seriedade com que se governa este país, e afirmo-o sem apontar directamente partidos políticos. Acho que o sistema de partidos que vivemos na democracia portuguesa precisa de ser reformulado para que o interesse do país esteja à frente do interesse das partes. Trata-se de uma revolução dentro da sociedade portuguesa. Como é que as empresas podem ajudar? Não se tornando tão dependentes do estado. A maioria dos empresários tem uma facilidade muito grande em estabelecer como estratégia uma parceria com o estado, com uma dependência muito grande dos projectos que o estado desenvolver. Devíamos mudar este paradigma, tornando-nos autónomos e levando o estado a fazer o que achamos que é importante, mas tentando não ir a correr para o estado à procura da solução. Aí teremos uma economia versátil e competitiva e o estado vai adaptar-se à economia, não a economia ao estado. É um erro comum nas empresas, mas também na sociedade. Temos demasiada deferência pelas pessoas que aparentemente estão bem e acabamos por dar palco de forma injusta, e é extremamente prejudicial porque pode haver pessoas capazes de fazer avançar o país. Só que não têm voz.

Falta boa elite no estado?

Falta. No estado, nas empresas, na economia e na sociedade. É isso que caracteriza a nossa falta de capacidade em formar pessoas que possam avançar na resolução de problemas.

Muitos emigram…

Não é esse o problema. Há muitas empresas, mas os empresários não aparecem. Há partidos políticos, mas os políticos não são de categoria. Há muitas faculdades, mas os professores não têm a categoria que apresentavam há uns anos. O problema não são os que emigram, pois já sucede há muito tempo.

Mas quem emigra hoje em dia tem pouco a ver com quem emigrava há trinta ou quarenta anos.

Os que emigram são sempre bons. São sempre bons…

Podemos ficar aqui a falar horas que seria um gosto e uma recolha em que teremos de pensar. O tempo alongou-se, tal com na conversa do senhor com o Santo Padre, e será impossível um registo escrito demasiado longo. Para concluir esta agradabilíssima conversa, e com pena o faço, peço-lhe umas palavras sobre os 70 anos da ACEGE.

É um orgulho chegar aos 70 anos. Significa essencialmente que tem uma relevância reconhecida e isso é fundamental, e também é extraordinário chegar aos 70 anos com uma juventude fora do comum. É provavelmente uma das associações de empresários cristãos mais activas e mais fortes em todo o mundo. A ACEGE está de parabéns pelo fantástico trabalho. E gostava que a UNIAPAC fosse o representante verdadeiro da ACEGE nos seus 70 anos e que tivéssemos a ambição de fazer no mundo a reconversão da economia na linha do que tem sido o desafio do papa, na linha daquilo que sabemos que é fundamental: centrá-la nas pessoas, tornando-as mais felizes e produtivas.

Pedro Cotrim

Editor