Com os bolsos “cheios de canções, histórias, piadas, adivinhas, truques de magia e bolhas de sabão”, os Doutores Palhaços levam, há já uma década, doses de alegria às crianças hospitalizadas. Em entrevista ao VER, a presidente e fundadora da Operação Nariz Vermelho, Beatriz Quintella, dá conta de tudo o que move esta “Operação” em constante crescimento, onde o grande desafio é “brincar em Serviço”. Porque fazer rir é um assunto muito sério
POR GABRIELA COSTA

Oficialmente constituída em 2002, a Operação Nariz Vermelho (ONV) é o resultado de um longo processo iniciado por Beatriz Quintella, fundadora da Associação que dá vida ao projecto, e actual presidente da ONV.

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Beatriz Quintella, presidente da Operação Nariz Vermelho
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Foi em 1993, depois de ler um artigo que relatava o trabalho dos Doutores Palhaços que visitavam crianças hospitalizadas nos Estados Unidos, que esta actriz, palhaço e contadora de histórias voluntária, se ofereceu para levar a sua personagem de palhaço aos meninos acamados do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. Na altura, “não havia nada parecido em Portugal”.

Beatriz Quintella trabalhou oito anos como voluntária, sempre sozinha. À medida que começava a trabalhar em outras pediatrias visitou dois projectos estrangeiros: o projecto fundador da ideia do Doutor Palhaço, o Big Apple Circus, em Nova Iorque, e os Doutores da Alegria, no Brasil.

Já em Setembro de 2001 convidou dois amigos para ajudarem na criação do programa e o projecto assumiu um carácter profissional, estabelecendo-se no Hospital Santa Maria, no Instituto Português de Oncologia e no Hospital Dona Estefânia, todos na capital. Hoje a ONV é levada a cabo por 24 doutores que trabalham semanalmente em 12 hospitais, com uma média anual de 40 mil crianças visitadas.

O reconhecimento da Associação está patente nos vários prémios que conta no seu portfólio: em 2005 foi distinguida com o prémio Serviços Sociais, atribuído pelo Hospital do Futuro. Em 2006, recebeu o Diploma de Reconhecimento de Mérito pela Ordem dos Médicos e, em 2009, recebeu na Assembleia da República o Prémio de “Direitos Humanos”.

Para a presidente fundadora do projecto, estas distinções não representam mais do que o reconhecimento de “um movimento natural”, já que “nada é mais definitivo da expressão do que é humano do que a arte, na sua essência”, e esta dimensão assume particular importância num hospital, onde “seres humanos cuidam de seres humanos”.

A missão de transformar momentos difíceis em alegrias reparadoras da confiança e da auto-estima das crianças hospitalizadas prossegue, de boa saúde, com novos hospitais a aguardar a visita dos Doutores Palhaços às suas unidades pediátricas.

A Operação Nariz Vermelho comemora a sua primeira década de existência. O que motivou a criação do projecto e que balanço faz da missão desenvolvida a nível nacional, nestes dez anos?
Completar uma década faz com que paremos um pouco para reflectir. Afinal foi há dez anos que invadimos os Hospitais com os nossos Doutores Palhaços. Com os bolsos cheios de canções, histórias, piadas, adivinhas, truques de magia e bolhas de sabão, e com o coração repleto de ternura e esperança.

É chegada a hora de avaliarmos com seriedade o nosso trabalho e os resultados obtidos nesta primeira década de existência. É chegada a hora de olhar o caminho percorrido e reafirmar o nosso destino. O nosso desafio? É o de melhorar sempre, mantendo em mente tudo o que fazemos, cada cêntimo que recebemos, cada gesto, tudo o que move esta sempre crescente “Operação” com uma única motivação: levar alegria à criança hospitalizada, aos seus pais e a todos os profissionais de saúde.

Como se adaptam os palhaços profissionais ao meio hospitalar e que importância tem o trabalho voluntário para a prossecução dos vossos objectivos?
Os nossos artistas têm formação especializada no meio hospitalar e trabalham em estreita colaboração com os profissionais de saúde, realizando actuações adaptadas a cada criança e a cada situação.

É responsabilidade da Operação Nariz Vermelho formar e manter a alta qualidade dos artistas. O trabalho dos artistas é remunerado e este serviço é oferecido gratuitamente aos hospitais. Os voluntários são muito importantes, pois trabalham em campanhas de angariação de fundos ou oferecendo os seus serviços em tarefas administrativas.

Como gere a equipa da ONV esta formação dos artistas no âmbito do seu programa de intervenção dentro dos serviços pediátricos dos hospitais portugueses?
É possível um artista ser genial no palco, mas quando este entra no hospital pode perder totalmente a graça. É como se precisasse da linha imaginária entre o próprio e o público. O Doutor Palhaço tem o foco no paciente: o palco onde o espectáculo começa e acaba.

O artista recebe formação especializada de higiene, psicologia infantil, coping (conceito que em psicologia aborda, sobretudo na relação com o stress, a “tentativa ou empenho para lidar com exigências externas – do ambiente – ou internas – do próprio sujeito – que sobrecarregam os recursos da pessoa”) e muitos outros temas. O objectivo é que se sinta à vontade e se adapte ao hospital.

A Associação tem vindo a ser reconhecida de ano para ano, pela originalidade do seu trabalho. Como comenta este reconhecimento, face ao objectivo primordial de intervir nos serviços pediátricos de uma forma divertida, para proporcionar algum conforto e esperança às crianças acamadas?
O reconhecimento é importante mas traz mais responsabilidade! Fechamos esta primeira etapa com a reconfortante certeza de que cada minuto que os nossos Doutores Palhaços passaram com as crianças hospitalizadas foi um momento precioso. Abrimos o novo capítulo com a determinação de proporcionar a essas crianças, aos seus pais e aos profissionais de saúde muitos mais momentos de alegria.

Prova desse reconhecimento são os vários prémios que a ONV conta já no seu portfólio. Enquanto fundadora do projecto, que significado assumem estas distinções, e em que medida vêm contribuindo para intensificar a vossa acção?
Como disse, o reconhecimento é muito positivo pois prova que estamos a fazer um trabalho sério e necessário. Mas também traz a responsabilidade de manter a alta qualidade do projecto, com um crescimento sustentável e com responsabilidade.

De que modo conseguiram, ao longo destes anos, alargar o vosso âmbito de actuação a unidades de saúde de vários pontos do País? E com que apoios?
Começámos com três Doutores Palhaços em três hospitais e hoje somos vinte e quatro, em doze hospitais. Temos apoios de empresas e particulares. Fazemos campanhas e trabalhamos muito. Investimos na formação e no profissionalismo. A nossa actuação abrange os hospitais da Grande Lisboa (Hospital Santa Maria, Hospital Dona Estefânia, Hospital São Francisco Xavier, IPO de Lisboa, Hospital Garcia de Horta, em Almada, Hospital Fernando Fonseca -Amadora Sintra, Centro Hospitalar de Cascais e Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão); de Coimbra, no Hospital Pediátrico de Coimbra; do Porto, no IPO do Porto e no Hospital São João; e em Braga (no Hospital de Braga).

A juntar a todos estes, temos actualmente quatro hospitais em lista de espera. Crescemos com o apoio de empresas e particulares que acreditaram em nós e no nosso trabalho e que nos apoiam financeiramente. E também com o apoio dos profissionais de saúde que, por acreditarem na nossa missão, são uma ajuda insubstituível para a nossa actividade.

Quais são as próximas metas a atingir para reforçar a vossa missão?
Queremos manter a qualidade do que fazemos e apoiar, cada vez mais, os profissionais de saúde nos hospitais onde trabalhamos. Queremos também ajudar outros grupos que queiram fazer um trabalho semelhante ao nosso.

“A Operação Nariz Vermelho criou alguns selos, que segmentam as inúmeras formas como cada empresa pode ajudar” .
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Para assinalarem o vosso 10º aniversário estão a lançar uma campanha institucional (em televisão, imprensa, rádio e online). O que visa transmitir esta campanha elaborada a partir de inúmeras histórias inspiradoras para as crianças hospitalizadas e seus familiares?
Nos últimos dez anos a presença dos artistas dentro dos hospitais cresceu consideravelmente. Hoje são vários os grupos de músicos, contadores de histórias, artistas plásticos, palhaços e animadores que têm vindo a conquistar as enfermarias ao trazer, para dentro do hospital, a sua arte. Este é, na verdade, um movimento natural. Um hospital é, essencialmente, um local onde seres humanos cuidam e tratam de outros seres humanos, e nada é mais definitivo da expressão do que é humano do que a arte, na sua essência.

Nada toca e regenera mais o espírito do que a harmonia das notas musicais, a magia das cores sobre a tela, as palavras mágicas de um conto tradicional ou a boa gargalhada de uma criança quando encontra um palhaço. A nossa campanha visa partilhar com o público essa nova profissão e pedir a ajuda de todos para continuarmos.

Com que fundos oferecem depois gratuitamente este serviço de intervenção dirigido a reforçar a auto-estima e confiança das crianças hospitalizadas?
Os fundos são angariados em campanhas e programas de parceria com empresas e privados. As empresas podem contribuir de inúmeras formas, desde o “Voluntariado empresarial”, à venda de narizes, captação de doadores regulares, captação de donativos pontuais e promoção cruzada com produtos da empresa.

Depois a Operação Nariz Vermelho criou alguns selos, que servem para segmentar a forma como cada empresa pode ajudar: “Ofereça um Sorriso” (com produtos ou serviços desenvolvidos especificamente para oferta em datas especiais como o Dia da Mãe, Pai, Criança e Natal); Campanhas de angariação on-line (nas redes sociais, por exemplo); “Empresas Solidárias” (de que fazem parte empresas e particulares que contribuem para a “saúde” do nosso projecto, por exemplo doando tempo e equipamento, prestando serviços e cedendo espaços); “Clube Nariz Vermelho” (com as empresas a contribuírem anualmente com uma quota fixa para a continuação da Operação Nariz Vermelho); “Adoptar um Palhaço” (ao financiarem as 84 visitas anuais de um Doutor Palhaço); “Abraçar um Hospital” (ao financiarem as 84 visitas anuais de uma dupla de Doutores Palhaços); e o selo “Parceiro da Alegria” (que é atribuído às empresas que colaboram com a Associação para o seu bom funcionamento, através da prestação de serviços a longo prazo).

Temos ainda criações artísticas, como o Dia do Nariz Vermelho e o DesConcerto de Natal; palestras “Eu brinco em Serviço” que alia informação e entretenimento, focando o humor e os benefícios do brincar para a saúde e desenvolvimento pessoal e profissional; e workshops “À procura do seu palhaço interior” dado pelo formador Mark Mekelburg (um dos fundadores da Associação) que têm como objectivo, através da mistura de jogos tradicionais e teatrais, criar um ambiente que encoraje, inspire e  liberte a criatividade e a imaginação.

A par das empresas, como podem os particulares contribuir para a causa da ONV?
Através de doações ou fazendo-se sócios da Associação. Realizamos, como disse, o Dia do Nariz Vermelho, que é focado na comunidade escolar, desde os mais pequenos aos Universitários. A Associação inovou ao criar uma oportunidade para os alunos, num movimento nacional, se envolverem directamente em acções de angariação de fundos essenciais para a continuidade do trabalho desenvolvido nos hospitais pelos Doutores Palhaços. E, mais  uma vez, temos programas de apoio para empresas e doadores regulares.

O número 760 305 505, com um custo de chamada de 0,60€ mais IVA, é também uma forma de apoiar a Operação Nariz Vermelho, cuja missão, campanhas e formas de contribuição estão disponíveis no nosso site.

Dez anos a receitar alegria
© DR

A Operação Nariz Vermelho precisa de apoios para continuar a procurar o sorriso das muitas crianças hospitalizadas que visita todo o ano.

Com apenas 12 euros é possível contribuir “para que o Doutor Boavida e a Doutora Tutti Frutti tornem a estadia dolorosa e difícil destas crianças mais terna e feliz”.

Contribua aqui para a campanha de angariação de fundos no Facebook desta “Operação” que anda há dez anos a receitar alegria aos mais pequenos, quando estes mais precisam.

Gabriela Costa

Jornalista