O mercado de investimento de impacto está a posicionar-se na linha da frente do combate às grandes mudanças sociais através do alinhamento de objectivos entre sectores e com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, constituindo também um poderoso instrumento para a recuperação económica e social pós-pandémica. No futuro próximo, espera-se assistir à consolidação da narrativa e da prática indutora do impacto social e ambiental em todo o mundo, visando transformações sistémicas da sociedade que melhorem a forma como vivemos e protejam os ecossistemas naturais
POR FILIPE ALMEIDA

Na História da Humanidade, todas as épocas foram marcadas por mudanças ou rupturas em relação ao tempo anterior, com reflexos nos estilos de vida, na arte e na organização política e económica das sociedades. O desenvolvimento tecnológico, a democracia e o acesso massificado à educação são marcas e conquistas do século XX, processos especialmente acelerados na sua segunda metade. A preocupação com a sustentabilidade do planeta e o debate público sobre as alterações climáticas iniciaram, no final desse século, uma mudança de paradigma nas relações políticas, sociais e industriais em todo o mundo que se consolidou já no século XXI.

A par com estas mudanças, vem-se consolidando também na última década um conceito que está a provocar uma revolução mais silenciosa, mas potencialmente mais transformadora, do que a tecnológica: o impacto. Este “impacto” refere-se à mudança social e ambiental provocada por actividades, políticas ou investimentos, tendo vindo a tornar-se o critério de referência para a sua decisão e avaliação. Ele tem um potencial de transformação sistémica porque pressupõe a alteração do estado de coisas, influenciando práticas de intervenção, padrões de avaliação e decisões de investimento. Essa alteração concreta que está na base dos novos critérios de decisão tem como horizontes o combate a desigualdades sociais, a promoção da autonomia dos mais vulneráveis, o fortalecimento de relações sociais, o reforço da participação cívica e democrática, a sustentabilidade ambiental, a protecção da Natureza e a promoção geral do desenvolvimento humano colectivo.

As repercussões desta mudança de paradigma estão a fazer-se sentir ao nível das administrações, principalmente entre startups, Fundações e Governos. E está a mudar fundamentalmente a forma como se abordam os problemas sociais, como se investe, como se criam políticas públicas, como são feitos donativos e, principalmente, a forma como se escolhe ou se constrói uma carreira, agora mais do que nunca baseada na busca de um propósito, de uma causa, do impacto positivo no Outro. O impacto social é um factor determinante para as novas gerações e, em muitos aspectos, definidor do seu estilo de vida. A geração comummente designada de millenials, nascida entre 1981 e 1996, em breve representará a maioria da força de trabalho, o que significará um aumento da procura de empregos com impacto e foco no propósito, do seu poder de compra e da sua influência no mercado.

Neste sentido, as práticas de investimento não respondem apenas reactivamente às tendências de mercado, mas têm também um papel activo na sua transformação. O termo investimento de impacto foi criado em 2007 pela Fundação Rockefeller que procurou assim dar um nome aos investimentos feitos com a intenção de conciliar o retorno financeiro com impacto social e/ou ambiental, tendo-se depois generalizado ao sector privado e instituições financeiras, incluindo fundos de investimentos, que passaram a criar fundos e produtos dedicados à criação de impacto. Este investimento de impacto tem vindo a afirmar-se como subcategoria no conjunto mais vasto do investimento sustentável e responsável. Neste, a par com o investimento de impacto, incluem-se outras subcategorias, tais como os critérios ESG (Environmental, Social e Corporate Governance), que implicam a adoção explícita de critérios ambientais, sociais e de governança nas decisões de investimento, ou o negative/exclusionary screening, que implica a exclusão de empresas e sectores considerados social ou ambientalmente nocivos dos portefólios elegíveis de investimento.

Segundo o relatório Global Sustainable Investment Review, publicado pela Global Sustainable Investment Alliance, em 2018 o mercado global de investimento sustentável era de 30,7 triliões de dólares, representando um crescimento de cerca de 35% face a 2016. A Europa representava 46% deste mercado, abrangendo 49% de todos os ativos sob gestão profissional, com destaque na região para a prática de negative/exclusionary screening, a par com a adoção de referenciais internacionais como critério de análise e decisão (por exemplo normas da OCDE, OIT ou ONU). Já os EUA representavam 39% do mercado, abrangendo 26% da totalidade do investimento, destacando-se como a região com adoção mais ampla dos critérios ESG e também com maior crescimento no campo do investimento de impacto.

De facto, a adopção acelerada em todo o mundo de critérios sociais e ambientais como referenciais dominantes reflecte a visão de um novo paradigma de investimento. Em relação especificamente ao investimento de impacto, segundo o Annual Impact Investor Survey 2020, publicado pelo Global Impact Investing Network (GIIN), o mercado global de investimento de impacto era, em 2020, de 715 mil milhões de dólares, registando um crescimento assinalável nos últimos quatro anos (508B USD em 2019, 228B USD em 2018 e 114B USD em 2017).

Esta evolução de paradigma é também confirmada pela dinâmica crescente de movimentos e grupos internacionais como o GSG (Global Steering Group for Impact Investment), uma associação de 33 países, incluindo Portugal, criada em 2015 para dar continuidade ao trabalho da Social Impact Investment Taskforce criada durante a presidência inglesa do G8, que visa atualmente promover um ecossistema global de impacto para melhorar a vida das pessoas e do planeta através da inovação e do investimento responsável. Ou a EVPA (European Venture Philanthropy Association), a principal rede de organizações filantrópicas e de investidores de impacto europeia e uma das mais relevantes do mundo, criada em 2004 e constituída actualmente por mais de 320 membros de cerca de 30 países, reunindo fundações corporativas e não corporativas, fundos de investimento de impacto, organizações filantrópicas, investidores sociais, investidores de capital, doadores, consultores, bancos e escolas de negócios.

Em Portugal, o investimento de impacto também revela sinais evidentes de crescimento, com fundos de capital de risco mais mobilizados, fundações corporativas mais interessadas, e uma iniciativa pública pioneira na Europa como a Portugal Inovação Social que catalisa o mercado criando pontes e promovendo parcerias estratégicas entre empreendedores de impacto e investidores. Com a alavancagem de 84 milhões de euros de financiamento europeu gerido pela Portugal Inovação Social, no âmbito do Acordo de Parceria Portugal 2020, foram já mobilizados cerca de 40 milhões de euros de investimento social de 668 entidades investidoras, entre municípios, fundações, empresas e fundos de investimento.

Para além da filantropia estratégica (donativo), este investimento inclui também o financiamento de Títulos de Impacto Social (TIS), um modelo de investimento inovador baseado na contratualização de resultados sociais mensuráveis, que coloca o risco do lado do investidor privado, o qual é integralmente reembolsado se esses resultados forem atingidos. A contratualização de resultados com o Estado pode efectivamente ser também um motor do investimento de impacto, mediante a adopção de indicadores do potencial de poupança de despesa pública (o portal One Value é já um primeiro passo nesse sentido e mais um bom exemplo do pioneirismo português). Segundo dados do Government Outcomes Lab, da Universidade de Oxford, Portugal é o país da União Europeia com maior número de TIS contratualizados (21), seguido da Holanda (11) e da França (9), e o quarto com maior volume de capital mobilizado para o efeito (10M€), superado pela Finlândia (com cerca de 20 M€) e pela França e a Holanda (com cerca de 13 M€).

Por seu lado, o Fundo para a Inovação Social (FIS), constituído como fundo público autónomo pelo Decreto-Lei n.º 28/2018, de 3 de Maio, co-investe com investidores privados no capital de PME que desenvolvem projectos inovadores para responder a problemas sociais, visando assim colmatar uma falha de mercado no acesso a financiamento por parte de organizações sociais e startups de impacto. Actualmente foram já aprovadas as primeiras nove operações de co-investimento, representando 10,5 M€ de investimento total, com o FIS a alavancar 4,6 M€ de investimento privado, onde se destaca o Fundo Bem Comum como investidor em quatro destas primeiras 9 operações. Assim, a par com os TIS, o FIS é um instrumento financeiro que promove o investimento privado e potencia a inovação com impacto social.

Estas experiências tornaram Portugal um país pioneiro no financiamento da inovação social e um lugar especialmente atractivo para investidores de impacto, ao mesmo tempo que se multiplicam por todo o território projectos de incubação e de capacitação de empreendedores sociais que criam um pipeline relevante de soluções e de iniciativas empreendedores alinhadas com os exigentes critérios do investimento de impacto.

Destacam-se, neste contexto, a Casa do Impacto, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, ou a aceleradora de impacto AMPlifica criada pela Área Metropolitana do Porto em parceria com a MAZE. O pioneirismo da Fundação Calouste Gulbenkian no apoio à inovação social foi também inspirador do actual paradigma de investimento de impacto em Portugal, mantendo-se como principal investidor privado neste campo e uma das referências internacionais na promoção de soluções inovadoras de investimento social.

Este movimento virtuoso tem vindo a provocar mudanças também nas entidades sem fins lucrativos, entidades da Economia Social, que começam a adaptar e a integrar nos seus modelos de intervenção métricas e indicadores de resultado (em vez de apenas indicadores de realização de actividades), com o objectivo de definir e medir impactos sociais e atrair assim também o setor filantrópico e os investidores de impacto.

O mercado de investimento de impacto está a posicionar-se na linha da frente do combate às grandes mudanças sociais através do alinhamento de objectivos entre sectores e com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, constituindo também um poderoso instrumento para a recuperação económica e social pós-pandémica. No futuro próximo, espera-se assistir à consolidação da narrativa e da prática indutora do impacto social e ambiental em todo o mundo, visando transformações sistémicas da sociedade que melhorem a forma como vivemos e protejam os ecossistemas naturais. Sir Ronald Cohen, presidente do GSG, afirmou em Fevereiro de 2021 durante uma conferência no Tony Blair Institute for Global Change que são já 43 triliões de dólares que estão a ser utilizados como investimento de impacto, com foco em potenciar a criatividade e eficiência de empreendedores que canalizam para o mercado soluções, produtos ou serviços inovadores adequados a um mundo cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo. As novas gerações estão comprometidas com a inovação e com o impacto e exigem de todos um comportamento consistente com esses valores.

O nosso futuro comum está ameaçado. Conhecemos os perigos. O caminho é evidente e urgente. Nenhum decisor tem desculpa e o investimento de impacto terá com certeza um papel decisivo na salvação e (re)construção desse futuro.