Não temos forma de saber se a velocidade que imprimimos às transformações vai ser suficiente para evitar a catástrofe a nível climático. Mas o acelerar dos Estados Unidos em direcção ao endereçamento das alterações climáticas e à chamada “Economia Verde” vem-se consolidando como uma nova tendência: recentemente, os cinquenta maiores empregadores privados do país não só assumiram publicamente a sua preocupação com as alterações climáticas, como também apresentaram estratégias para reduzir as suas emissões de carbono e de gases com efeito de estufa
POR Ricardo Ribeiro de Oliveira*

No passado mês de Outubro de 2012 era publicada por Ron Loch (Managing Director da unidade de Sustentabilidade da consultora de comunicação Gibbs & Soell) uma análise, na qual se dava conta de um facto algo surpreendente: 49 dos cinquenta maiores empregadores privados dos Estados Unidos assumiam publicamente a sua preocupação com as alterações climáticas. De facto, a análise dos relatórios de Sustentabilidade e websites institucionais destes cinquenta gigantes, revelou que os mesmos – à excepção da holdingBerkshire Hathaway – não referiam apenas essa preocupação, como também apresentavam estratégias para reduzir as suas emissões de carbono e de gases com efeito de estufa (GEEs). Deste grupo de empresas analisadas, quarenta apresentavam planos concretos de mitigação das alterações climáticas, bem como o progresso anual dos respectivos resultados nos seus relatórios de Sustentabilidade. Adicionalmente, 34 referiam-se às alterações climáticas como um “desafio chave” em termos ambientais e económicos a enfrentar.

Um mês mais tarde, um grupo de redes internacionais de investidores institucionais emitia uma carta aberta conjunta endereçada aos governos das maiores economias mundiais sobre o mesmo tema. Este grupo, de que faziam parte o Institutional Investors Group on Climate Change (Europa), a Investor Network on Climate Risk (América do Norte), o Investor Group on Climate Change (Austrália e Nova Zelândia), o Asia Investor Group on Climate Change e o United Nations Environment Programme Finance Initiative, representavam, à data, investidores institucionais responsáveis por activos no valor de 22,5 triliões de dólares americanos.

Nessa carta aberta, lançada em antecedência à Conferência sobre Alterações Climáticas das Nações Unidas em Doha, os investidores destacam a manutenção do aumento das emissões de GEEs a nível global e o aumento da frequência de eventos climáticos extremos a que se vem assistindo, tendo como consequência efeitos nefastos dramáticos nas comunidades e economias locais, nas empresas e nos investimentos. Consideram que as políticas actuais dos governos onde as maiores reduções de emissões de GEEs são necessárias são insuficientes para responder aos impactos das alterações climáticas, e que demoras adicionais nessas respostas representam risco acrescido para os investimentos e poupanças de milhões de cidadãos.

Nesta carta, os investidores apelam a:

  • Políticas claras, consistentes e previsíveis que encorajem “investimentos de baixo carbono”;
  • Partilha de conhecimento entre os governos no que toca a políticas eficazes sobre o clima e energias limpas, potenciando as boas práticas existentes a nível nacional e regional;
  • Acordos internacionais mais fortes, que enviem sinais claros aos mercados no que respeita a políticas climáticas e reduções de emissões de GEEs.

Os investidores referem estarem já a agir no que toca a esta problemática, nomeadamente ao considerar os riscos climáticos nos seus investimentos, ao privilegiar investimentos em tecnologias limpas e energias renováveis e de baixo carbono, ao encorajar as empresas a reduzir as suas emissões de GEEs e aumentarem a sua eficiência energética, ao medir e divulgar as emissões dos seus portfolios de investimentos, e ao persuadir as entidades reguladoras a exigir às empresas a divulgação dos impactos das alterações climáticas nos negócios.

Baseando-se na sua experiência, este largo grupo de investidores avança ainda alguns pontos que consideram ser chave para uma política de alterações climáticas e energia limpa bem sucedida, que leve à atracção de investimentos de baixo carbono:

  • Objectivos de redução de emissões de GEEs a curto, médio e longo prazos;
  • Prazos para atingir estes objectivos, acompanhados de mecanismos legais que os façam cumprir;
  • Incentivos e medidas que desviem a atractividade do binómio risco/recompensa dos investimentos com alto teor de carbono para investimentos em baixo carbono (por exemplo, acabar gradualmente com os subsídios aos combustíveis fósseis, que permanecem seis vezes maiores do que os subsídios às energias renováveis, ao mesmo tempo que se apoiaria a transição das comunidades afectadas).

O consolidar de uma tendência
Apesar de poderem ser surpreendentes para alguns, as duas iniciativas descritas surgem como exemplos na linha de uma tendência que vem sendo consolidada de algum tempo para cá – o facto das empresas privadas liderarem a expressão da preocupação com as alterações climáticas e outros temas da Sustentabilidade, bem como a concretização de acções que endereçam essas preocupações, quando comparadas com os Estados nacionais. Tal foi notório também em Junho de 2012, no RIO+20, com várias empresas e associações de privados a apresentarem compromissos voluntários para com a Sustentabilidade, ao passo que os Estados ficaram bem aquém dessa pró-actividade e das expectativas que muitos tinham para os resultados desta cimeira.

Os governos e os partidos políticos, prisioneiros habituais dos processos e ciclos eleitorais, não têm manifestado a inquietação e o foco nas questões da Sustentabilidade e alterações climáticas que a sua importância para a sociedade humana global justificava plenamente. Na Europa, seguimos concentrados na crise económica (e bem, embora o pudéssemos fazer de forma não exclusiva), enquanto na campanha presidencial americana pudemos, por exemplo, assistir a Mitt Romney a defender o aumento de centrais energéticas a carvão enquanto se dirigia aos mineiros desempregados.

Ecos a Oeste e a Este da nova arena competitiva 
Por seu lado, o presidente e candidato Obama referiu várias vezes na sua campanha a necessidade de apostar em energias e tecnologias limpas – até como forma de caminhar no sentido da maior independência energética do país – e que este seria um sector importante para o crescimento do emprego – referindo-se aos chamados “green jobs”.

“Sistemas complexos como o Clima aguentam sofrer pressões consecutivas em determinado sentido, até que um ponto crítico é atingido, e uma mudança irreversível ocorre no sistema” .
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Já reeleito, no discurso sobre o estado da união de Fevereiro deste ano, Obama abordou claramente a questão das alterações climáticas, sublinhando que se haviam conseguido progressos, tais como a duplicação da eficiência de combustível dos motores dos automóveis e da quantidade de energia gerada por fontes renováveis no país, criando milhares de empregos no processo. Apesar de mencionar também o decréscimo das emissões de carbono nos últimos quatro anos, o presidente reforçou que era necessário fazer mais – pelas gerações vindouras – para combater as alterações climáticas, apontando o aumento da frequência e intensidade dos fenómenos extremos recentes como sintomáticos. Exortando à acção antes que seja tarde demais, o presidente propôs-se a tomar acções que reduzam a poluição, preparem as comunidades para as consequências das alterações climáticas e acelerem a transição para fontes de energia e tecnologias mais limpas. Culminou com a proposta de utilizar parte das receitas geradas pelos combustíveis fósseis para financiar a investigação de soluções energéticas para automóveis que libertassem estes – bem como as famílias e empresas americanas – da dependência do petróleo; e com o objectivo ambicioso de reduzir para metade o desperdício energético dos lares e empresas americanas nos próximos vinte anos.

Obama destacou também que, há alguns anos atrás, outros países lideravam o mercado das energias limpas, mas que os Estados Unidos estavam já a mudar essa realidade, salientando ainda que a China estava a investir nestas áreas.

De facto, também a nova liderança chinesa declarou já o “progresso ecológico”, onde se inclui a mitigação das alterações climáticas, como prioridade, e indicou o caminho do investimento de baixo carbono. Apesar do uso de carvão para fins energéticos continuar a aumentar na China, segundo o Center for American Progress,a quota das energias não geradas por combustíveis fósseis no país situou-se acima dos 9% em 2012, estando planeado que atinja os 11,4% em 2015.

Do discurso do presidente Obama e do comportamento das maiores empresas americanas descrito no primeiro parágrafo deste texto, sobressai aquela que se vem consolidando também como uma nova tendência: o acelerar dos Estados Unidos em direcção ao endereçamento das alterações climáticas e à chamada “Economia Verde”, definida pelas Nações Unidas como uma economia em que o crescimento dos rendimentos e do emprego é impulsionado por investimento público e privado – bem como reformas políticas e regulamentação – que conduzem à redução das emissões de carbono e GEEs, ao aumento da eficiência energética e no uso dos recursos naturais, prevenindo e evitando a degradação e a perda da biodiversidade e dos serviços dos ecossistemas naturais. Esta é apontada pela organização como o caminho para a competitividade através de serviços de alto valor acrescentado, para a conservação do Capital Natural e para uma maior inclusão social e emprego.

Uma questão de velocidade
Apesar destas tendências serem “boas notícias”, elas significam que outros países estão já no encalço da Europa, que tem liderado quer os compromissos no combate às alterações climáticas, quer a perseguição da Economia Verde como modelo competitivo. Desta forma, do ponto de vista competitivo, é muito importante que nesta hora, nós europeus – e portugueses – empresas ou entidades públicas -, não abrandemos o ritmo e o ênfase colocados nestes temas.

Como cidadãos deste planeta único, não temos forma de saber se a velocidade que imprimimos às transformações vai ser suficiente para evitar a catástrofe a nível climático. Apenas sabemos que sistemas complexos, não lineares – como o Clima – aguentam sofrer pressões consecutivas em determinado sentido, até que um ponto crítico é atingido, e uma mudança irreversível ocorre no sistema. Metaforicamente, a dinâmica é por vezes ilustrada como um frasco de ketchup, em que o ketchup vai sendo acumulado na boca do frasco, até que sai de repente.

Curiosamente, os investidores conscientes citados acima, chegam mesmo a referir no comunicado de imprensa de divulgação da sua carta aberta, que “alterações catastróficas e irreversíveis ao ecossistema global” podem ter lugar, a verificar-se a previsão de aumento de temperatura global em 3,6º C, apontada no World Energy Outlook 2012, publicado pela Agência Internacional de Energia.

A impressão final que fica é que as notícias e a acções, apesar de positivas e oriundas de actores cada vez mais diversos e insuspeitos, continuam a ter lugar de forma demasiado paulatina.

Ricardo Ribeiro de Oliveira

Consultor de Sustentabilidade e Responsabilidade Social da Organizações. É fundador e Managing Partner da Big Marble Consulting, empresa especializada em consultoria estratégica nestas áreas de actuação