Apesar de ser ainda prematuro termos a noção das mudanças e consequências que advirão do surto pandémico que mudou a vida tal como a conhecíamos, existem já várias tendências em curso que, e indubitavelmente, trarão alterações significativas a nível laboral, educacional, nos cuidados de saúde, nas transacções comerciais e, é claro, nas interacções sociais. Como ponto de ligação entre todos estes domínios está a tecnologia, para o bem e para o mal, e foi a partir deste mote que mais de 900 especialistas de várias áreas responderam a um exercício de “futurologia”, partilhando a sua visão sobre como (ante)vêem o mundo em 2025, sublinhando não só um conjunto de preocupações, mas também de esperanças
POR HELENA OLIVEIRA

Normalmente, quando existe um surto pandémico, os seus impactos acabam por alterar, por vezes de forma irreversível, várias estruturas críticas da sociedade. No caso da Covid-19, e tendo em conta que é a primeira pandemia verdadeiramente global de que há memória, alguma dessas alterações são já bem visíveis, esperando-se, contudo, outro tipo de consequências ainda difíceis de prever.

E foi a partir desta incógnita que o Pew Research Center, em conjunto com o Imagining the Internet Center da Universidade de Elon, pediu a mais de 900 especialistas em tecnologia, mudanças sociais e comunicação que fizessem um exercício “futurista” e partilhassem quais as principais mudanças, para o bem e para o mal, que previsivelmente podemos esperar que aconteçam no mundo pós-Covid, com 2025 a ser considerado como o limite temporal a ter em conta. As respostas vieram de um conjunto diversificado de domínios, que inclui inovadores, líderes empresariais e políticos, investigadores de várias áreas e activistas.

No geral, a conclusão que maior unanimidade gerou assenta na ideia de que a relação das pessoas com a tecnologia aprofundar-se-á – e todos nós estamos já a testemunhar essa realidade – à medida que segmentos cada vez maiores da população aumentarem os seus níveis de confiança nas ligações digitais, seja a nível laboral, educacional, nos cuidados de saúde, nas transacções comerciais diárias e, é claro, nas interacções sociais. Na verdade, vários dos inquiridos estão já a utilizar o termo “tele-tudo” para definir este fenómeno crescente.

Adicionalmente, uma parte significativa dos respondentes antevê alterações similares, tanto negativas quanto positivas, das quais se destacam as seguintes, respectivamente:

  • Um agravamento da desigualdade económica na medida em que aqueles que estão mais “ligados” e com um nível mais elevado de conhecimento tecnológico “passarão à frente” dos que têm menor acesso – ou nenhum – às ferramentas digitais, bem como menor formação ou aptidão para as explorar, não esquecendo a eliminação de empregos fruto dos avanços da tecnologia;
  • O aumento do poder das grandes empresas tecnológicas à medida que exploram as suas vantagens de mercado em conjunto com a evolução da Inteligência Artificial (IA), cujos mecanismos parecem susceptíveis de diminuir ainda mais a privacidade e a autonomia dos seus utilizadores;
  • A multiplicação da propagação da desinformação, com muitos dos inquiridos a demonstrarem a sua preocupação com a manipulação aparentemente imparável da percepção, emoção e acção pública através da desinformação online, assente em mentiras e discursos de ódio deliberadamente forjados para disseminar preconceitos e medos destrutivos, o que inevitavelmente trará danos significativos à estabilidade e coesão social;
  • A possibilidade do aparecimento de novas reformas que visem a justiça racial e a equidade social como resposta aos actuais acordos económicos – e ao próprio capitalismo – ganhando o apoio e a atenção dos decisores políticos;
  • A melhoria da qualidade de vida de muitas famílias e trabalhadores como consequência das medidas de maior flexibilidade implementadas no local de trabalho e com tendência a tornarem-se permanente, com as comunidades a ajustarem-se e adaptarem-se às mesmas;
  • A produção de avanços tecnológicos particularmente relacionados com a realidade virtual, a realidade aumentada e a IA que permitirão às pessoas viver vidas mais seguras e produtivas, possibilitadas em muitos casos por “sistemas inteligentes” em áreas chave como os cuidados de saúde, a educação e a vida em comunidade.

Estes seis grandes temas foram os que maior expressão tiveram nas respostas dos especialistas quando lhes foi pedido para considerarem as mudanças que foram obrigatoriamente postas em marcha em 2020 pelo surto da Covid-19 e descreverem como poderia ser o “novo normal” em 2025.

Cerca de 47% dos respondentes afirmaram que a vida será, na sua generalidade, pior para a maioria das pessoas em 2025 do que era antes da pandemia, contra 39% que acreditam que a mesma será melhor e com 14% a defenderem que as coisas não serão assim tão diferentes do que viriam a ser caso não tivesse surgido o surto pandémico. E entre os 86% que expressaram que a pandemia provocará algum tipo de mudança, os pontos positivos e negativos da evolução digital foram eleitos como a mais provável alteração.

De sublinhar que esta sondagem não retrata nenhuma “amostra científica”, mas sim as opiniões dos indivíduos que nela participaram por escrito e que elegeram temas abrangentes e variados sobre as formas como indivíduos e grupos se estão a ajustar à crise global, descrevendo as oportunidades e os desafios mais prováveis que surgem à medida que os humanos aceleram as suas utilizações e aplicações das tecnologias digitais em resposta a esta nova realidade. De notar igualmente que as respostas foram recolhidas no Verão de 2020 e ainda antes, como sabemos, da aprovação de qualquer tipo de vacina contra a Covid-19. Todavia, e dada a heterogeneidade dos especialistas inquiridos, muitos dos cenários previstos estão em linha tanto com a evolução da própria pandemia, como das mudanças laborais, sociais e económicas que temos vindo a testemunhar ao longo deste último ano.

Novos termos para definir a realidade e os céleres avanços tecnológicos

Como faz notar o Pew Research Center e com base na reflexão sobre os acontecimentos recentes e as suas possíveis consequências por parte dos participantes inquiridos, um conjunto particular de expressões mereceu destaque nas suas respostas, de que são exemplos termos como “ponto de inflexão”, “equilíbrio intercalado”, “escala impensável”, “processo exponencial”, “perturbação maciça” e “desafio sem precedentes”. Os especialistas destacaram igualmente mudanças que poderão reconfigurar realidades fundamentais, tais como a “presença” física das pessoas com outras e as suas próprias concepções de “confiança” e “verdade”, questionando igualmente se os seres humanos serão capazes de lidar eficazmente com mudanças de tão grande alcance, dado que são obrigados a funcionar com “emoções paleolíticas, instituições medievais e tecnologia semelhante a Deus”, nas palavras do reconhecido entomologista e biólogo E.O. Wilson.

Entre as muitas mudanças que antevêem, é sublinhada a emergência de uma “Internet de Coisas Médicas” com sensores e dispositivos que permitam novos tipos de monitorização da saúde dos pacientes; máquinas de ondas milimétricas inteligentes para diagnosticar pessoas com determinados sintomas de doença; avanços na biologia sintética e na virologia computacional com capacidade para melhorar os testes relacionados com fármacos, bem como terapias direccionadas para um conjunto de doenças; rastreios de diagnóstico que cobrem a dieta, os genes e o microbioma de uma pessoa e, por último, a ascensão de uma nova classe de trabalhadores de “tele-cuidados”.

Adicionalmente, muitos dos peritos prevêem igualmente a criação de sistemas de comunicação social 3D, os quais permitirão uma interacção humana mais rica (por vezes através de avatares holográficos); agentes “interdigitais” que irão assumir, e de forma gradual, tarefas repetitivas e que consomem muito tempo; uma “Internet Voadora das Coisas” à medida que os drones se tornarem mais prolíficos nas tarefas de vigilância e entrega; uma realidade aumentada omnipresente; uma economia “gig” [a denominada “economia do biscate”] em expansão construída em torno de freelancers a trabalhar a partir de casa; “agricultura urbana” que poderá atingir uma escala industrial; avanços na confiança relativa às criptomoedas que permitirão um maior número de colaborações peer-to-peer; fabrico local, a pedido e customizado; cadeias de fornecimento “locais em espírito e locais na prática”; um mercado robusto de opções educativas que permitirão aos estudantes aceder a conteúdos de aprendizagem personalizados; avanços na “tele-justiça” com o objectivo de ajudar os tribunais a tratar de um grande número de casos remotamente; protocolos de “avaliação da verdade” que diminuirão o apelo à desinformação; e reactores nucleares pequenos e mais seguros para a produção de energia.

Os especialistas inquiridos acreditam também que existirão mais avanços em tecnologias de reconhecimento da fala, reconhecimento facial (incluindo o “discernimento” de sentimentos a partir de expressões faciais), tradução de línguas em tempo real, capacidade de legendagem e autocorrecção imediata, roupa “sensorial”, pesquisa de vídeo robusta, sensores de movimento corporal, óculos 3D, bases de dados multimédia e uma maior largura de banda de rede que permitirá experiências virtuais 3D completas, em conjunto com desenvolvimentos na IA que permitirão servir melhor as necessidades das pessoas.

Altos e baixos da vida digital, preocupações e esperanças

Do conjunto das mais de 900 respostas recebidas, o Pew Research Center destacou as alterações, positivas e negativas, da vida crescentemente digital, que mais consenso geraram entre os inquiridos.

  • O “tele-tudo” será “normalizado”. A ampla adopção de processos “remotos” – teletrabalho, telemedicina, escola virtual, comércio electrónico e muito mais – está a crescer. Em 2025 haverá mais pessoas a trabalhar a partir de casa, mais interacções sociais e de entretenimento virtuais e menos incursões em público do que nos últimos anos.
  • O anseio dos seres humanos pela conveniência e segurança alimentará a dependência das ferramentas digitais. A pandemia reforçou os incentivos para que os consumidores estejam mais dispostos a procurar gadgets, aplicações e sistemas inteligentes. Esta realidade irá acelerar a adopção de novas plataformas de educação e aprendizagem, reorganizar os padrões laborais e os locais de trabalho, alterar a vida familiar e melhorar as estruturas comunitárias.
  • O melhor e o pior da natureza humana serão amplificados. A crise está a reforçar a interconexão digital que gera empatia, bem como uma maior consciência dos males que a humanidade enfrenta e uma acção pública mais positiva. Mas e por outro lado, alguns indivíduos, cidades e estados-nação tornar-se-ão mais insulares e competitivos, à medida que o modo de sobrevivência se for instalando. A xenofobia, o fanatismo e as comunidades fechadas irão igualmente aumentar.

As preocupações

À medida que a pandemia global avança, os especialistas temem a crescente desigualdade social e racial, o agravamento das questões relacionadas com a segurança e com a privacidade e uma maior disseminação da desinformação

Enquanto os privilegiados continuarão a gozar ainda de mais vantagens, os desfavorecidos ficarão ainda mais para trás. Esta é uma previsão pouco surpreendente, na medida em que a estamos já a testemunhar. E, de acordo com a esmagadora maioria dos inquiridos, as preocupações centram-se particularmente no poder crescente das empresas tecnológicas. Muitas das soluções sugeridas funcionarão como uma espada de dois gumes, porque apesar de poderem contribuir para a resolução de alguns desafios, podem, em simultâneo, ameaçar as liberdades civis. Adicionalmente, e não sendo igualmente um fenómeno novo ou não previsto, a automação poderá retirar muitos seres humanos da equação do trabalho. E a disseminação de falsidades através dos meios de comunicação social e, em particular, das plataformas digitais é susceptível de prejudicar ainda mais todos os sistemas sociais, políticos e económicos. Assim:

  • A desigualdade e a injustiça sofrerão um aumento substancial. A aceleração da utilização de sistemas digitais expandirá as fileiras dos desempregados, dos que não têm acesso a sistemas de segurança social e dos mais desfavorecidos. Os desequilíbrios de poder entre os privilegiados e os desprotegidos estão já a ser ampliados por sistemas digitais supervisionados pelas grandes tecnológicas e à medida que estas exploram o Big Data e a tomada de decisão através de algoritmos frequentemente tendenciosos. E um número preocupantemente crescente de pessoas será empurrado para uma existência precária que carece de previsibilidade, segurança económica e bem-estar.
  • À medida que o risco aumenta, a segurança também terá de crescer, com custos na privacidade e com um aumento do autoritarismo. A crise de saúde provocada pela pandemia e a dependência mais alargada que as pessoas têm da Internet aumentam igualmente as ameaças de actividades criminosas, como os ciberataques e outros riscos similares, ao mesmo tempo que a optimização das soluções de segurança poderão reduzir ainda mais a privacidade e as liberdades civis dos indivíduos. É ainda provável que assistamos a uma expansão significativa da vigilância em massa, uma vez que os Estados autoritários usarão “ a desculpa da crise” como uma oportunidade para silenciar, ainda mais, a dissidência e o abuso das liberdades individuais dos cidadãos.
  • A automação, a inteligência artificial, a robótica e a globalização poderão intensificar as ameaças ao trabalho tal como o conhecemos. Para sobreviver, as empresas estão já a reconfigurar sistemas e processos para automatizar o maior número possível de aspectos. Enquanto a inteligência artificial (IA) e a robótica irão melhorar algumas vidas, também prejudicarão outras, uma vez que uma crescente quantidade de trabalho será assumida pelas máquinas. Por seu turno, os empregadores poderão subcontratar mão-de-obra ao proponente com a oferta mais baixa a nível mundial e aos empregados poderá ser exigido que façam o seu trabalho por muito menos. Adicionalmente, poderão mesmo ser obrigados a abandonar o seu regime contratual de trabalho, trabalhando em modo “gig”, fornecendo o seu próprio equipamento, ao mesmo tempo que poderão ser vigiados em casa pelos empregadores.
  • A desinformação seguirá, muito provavelmente, um caminho crescentemente desenfreado. A propaganda digital será imparável e a rápida expansão das tecnologias baseadas na nuvem terá tendência a dividir o público, a deteriorar a coesão social e a ameaçar a deliberação racional e a elaboração de políticas baseadas em provas.
  • A saúde mental das pessoas poderá constituir um desafio de proporções significativas. Se a vida digital já era um enorme stress para algumas pessoas antes do necessário isolamento social provocado pela pandemia, a mudança para o “tele-tudo” diminuirá ainda mais o contacto pessoal e constrangerá os sistemas de apoio do mundo real dos utilizadores da tecnologia, bem como as suas ligações sociais.

As esperanças

À medida que a pandemia global se desenrola, os especialistas exortam a que os apelos à justiça social sejam atendidos e que o progresso tecnológico se concentre no bem-estar humano

Apesar de as previsões não serem famosas, existe ainda a possibilidade de alguns males se transformarem em bem. Caso exista vontade, estaremos perante a oportunidade de ser possível reconfigurar grandes sistemas como a estrutura do capitalismo, a educação, os cuidados de saúde e os locais de trabalho. Os avanços em tecnologias como a inteligência artificial, as cidades inteligentes, a análise de dados e a realidade virtual poderão tornar todos os sistemas mais seguros, mais humanos e mais produtivos. Uma melhor comunicação de informação mais correcta e de confiança poderá melhorar drasticamente as respostas de emergência em crises e aliviar o sofrimento. Assim:

  • A justiça social poderá transformar-se numa prioridade. O despertar dos movimentos cívicos para a justiça social e para a igualdade económica poderá originar sistemas governamentais e sociopolíticos mais sensíveis e mais sintonizados com a diversidade, equidade e inclusão. E tudo isto acompanhado por um enfoque na diminuição das clivagens digitais.
  • O bem-estar das pessoas poderá prevalecer sobre o lucro. As empresas poderão optar por valorizar o serviço ao bem comum em detrimento de objectivos típicos do capitalismo de mercado, o que poderá dar origem a novas políticas para financiar redes de segurança mais amplas, tais como os cuidados de saúde “para todos”, o rendimento básico universal e a banda larga como um “bem” básico.
  • A qualidade de vida irá melhorar. A transição para o trabalho remoto contribuirá para a redução da poluição, em particular nas zonas urbanas, bem como para a diminuição da sobrelotação e o congestionamento da rede de transportes. Estas mudanças contribuirão para melhorar a qualidade de vida, em particular no que respeita a um melhor ambiente para a vida familiar.
  • A IA, a RV, a RA, o ML e o PNL produzirão bons resultados. A inteligência artificial, a realidade virtual, a realidade aumentada, o machine learning e o processamento de linguagem natural farão com que os espaços virtuais pareçam muito mais reais, presenciais, autênticos e eficazes.
  • Serão criados sistemas mais inteligentes. Os serviços municipais, rurais, estatais e independentes, especialmente no sector da saúde, serão modernizados para melhor lidar com futuras crises, identificando e respondendo rapidamente às ameaças emergentes e partilhando informações com todos os cidadãos de forma mais atempada e útil.

Nota: As respostas dos especialistas convidados para este inquérito podem ser acedidas na íntegra, estando dividas entre as preocupações e as esperanças para 2025.