De acordo com Ian Bremmer, especialista em ciência política e presidente da reconhecida consultora Eurasia Group, “pela primeira vez em 70 anos, vivemos sem uma liderança global”. Na sua mais recente obra, Bremmer afirma que longe vão os tempos em que existia o G7 ou, mais recentemente, o G20, cujos membros tentavam trabalhar em conjunto e procurar soluções para os problemas transnacionais. Hoje vivemos no mundo G-Zero, no qual não existe qualquer tipo de liderança eficaz ou consistente. Um período que o autor considera como transitório, mas que poderá servir como uma perigosa “incubadora de catástrofes”
POR HELENA OLIVEIRA

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“Este não é o mundo do G-20. Ao longo dos últimos meses, o grupo alargado de economias líderes passou de uma concertação ideal de nações para uma cacofonia de vozes concorrenciais (…). Nem sequer existe um G2 viável – uma solução Estados Unidos-China para os mais prementes problemas transnacionais – pois Beijing não tem interesse algum em aceitar os fardos que vêm em conjunto com a liderança internacional. Nem existe uma alternativa para um G-3, um agrupamento entre os Estados Unidos, a Europa e o Japão que poderia conduzir à salvação.

Hoje, aos Estados Unidos faltam os recursos para continuarem como o principal fornecedor de bens públicos globais. A Europa está, no momento, totalmente ocupada em salvar a zona euro. Por outro lado, o Japão está amarrado aos seus complexos problemas políticos e económicos domésticos. Nenhum destes poderes governamentais tem o tempo, os recursos ou o capital político doméstico necessário para um novo período de levantamento de pesos internacional. Entretanto, não existem respostas credíveis para desafios transnacionais sem o envolvimento directo de poderes emergentes como o Brasil, a China e a Índia. Mas, na verdade, estes países estão demasiado concentrados no seu desenvolvimento doméstico para darem as boas-vindas aos fardos que são inerentes a novas responsabilidades além-fronteiras.

Estamos actualmente a viver num mundo G-Zero, onde nenhum país ou bloco de países possui a alavancagem politica e económica – ou a vontade – para prosseguir uma verdadeira agenda internacional. O resultado será um conflito intensificado no palco internacional em torno de questões vitalmente importantes, tais como uma coordenação macroeconómica internacional, uma reforma regulatória financeira, políticas de comércio e alterações climáticas. Esta nova ordem possui implicações de longo prazo para a economia global, à medida que as empresas em todo o mundo se sentam em cima de enormes pilhas de dinheiro, à espera que a actual era de incerteza política e económica passe. E muitas delas podem ter pela frente de uma espera prolongada”.

Este é um excerto de um artigo, publicado na revista Foreign Affairs, há pouco mais de um ano e escrito pela dupla Ian Bremmer e Nouriel Roubini (o economista conhecido como Dr. Desgraças) e que esteve na origem da publicação do livro Every Nation for Itself: Winners and Losers in a G-Zero World, o título de mais uma obra assinada pelo presidente do Eurasia Group, a reconhecida firma de consultoria em riscos políticos globais. Bremmer tenta, neste livro, mapear o presente e o futuro de uma “ordem mundial no qual nenhum país, por si só, ou uma aliança durável de países, é capaz de ir ao encontro dos desafios de uma liderança global”.

Na semana em que delegados de 193 países das Nações Unidas se reúnem no Rio de Janeiro para discutir o futuro do planeta e mesmo antes de ter inicio o denominado Rio+20, o vaticínio era já o esperado: o documento final que resultará do encontro não passará de uma desilusão. Ou mais um exemplo que vai ao encontro do que propõe Ian Bremmer com a sua tese de um G-Zero: “pela primeira vez em 70 anos, vivemos sem uma liderança global”. Ou seja, cada vez mais e num mundo globalizado, os países estão crescentemente voltados para o seu umbigo e as tentativas de se apresentarem soluções globais para problemas globais é cada vez mais uma miragem. E, retomando-se o exemplo da passagem de vinte anos sobre a Cimeira da Terra, o que emerge agora é mais uma declaração de princípios, do que um tratado com objectivos claramente quantificados, tal como foi a Cimeira do Clima em Copenhaga, em 2009, e as inúmeras reuniões congéneres que juntam líderes mundiais que não se chegam a entender.

“Este G-Zero poderá durar apenas uma década ou coisa parecida mas, no entretanto, será uma incubadora de catástrofes”, acrescenta o famoso especialista em ciência política.

Problemas sem fronteiras
Quando o artigo já mencionado foi publicado (o VER publicou, na altura, uma entrevista a Ian Bremmer ), foram muitas as vozes de discórdia que se fizeram ouvir. Mas a verdade é que, mais de um ano passado, as previsões de Bremmer e Roubini parecem fazer mais sentido do que nunca. No mundo do “cada um por si”, podem-se multiplicar as cimeiras, as reuniões de líderes ou as conferências mundiais, mas o planeta parece estar numa absoluta deriva.

“O G7 é história e o G20 é mais aspiração do que organização”, afirmou Bremmer numa recente apresentação do seu novo livro, elencando as várias crises de consequências globais como as alterações climáticas, o ciber-terrorismo transfronteiriço, a escassez de alimentos ou a dificuldade de acesso a água potável como situações inevitáveis e sem soluções coordenadas à vista.

E como foi possível chegarmos a este G-Zero? Bremmer responde.

Em primeiro lugar, existem mais países no tabuleiro do que antes. E quanto maior for o número de interlocutores numa conversa, mais difícil se torna chegar a um acordo. O problema não é, como afirma, “a ascensão dos restantes”, mas antes a “ascensão dos diferentes”. Os países em desenvolvimento não têm as mesmas prioridades do que os seus pares desenvolvidos, nem deveriam, mas a verdade é que esta diferença na ordem das prioridades torna muito mais difícil chegar a um consenso.

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De seguida, existe a questão da experiência. O resto do mundo simplesmente não tem o mesmo tipo de experiência que os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão coleccionam no que respeita à gestão de problemas a uma escala global. Mas e talvez mais preocupante, é o facto de não existir vontade para enfrentar problemas de tão grande envergadura: os americanos já não desejam que a América seja a líder do mundo livre com o mesmo entusiasmo que os caracterizou anteriormente e muitos dos seus cidadãos deixaram de acreditar que o país beneficia realmente deste tipo de liderança. Por último, os aliados da América estão a braços com os seus problemas domésticos e sem qualquer disposição para tomar em mãos problemas alheios.

O resultado, de acordo com Ian Bremmer, é um mundo no qual “toda a gente está à espera de outrem para acender o fogo”. Os países “novos e diferentes” não se contentam em sentar-se à mesa, antes pretendem refazer as regras do jogo, apesar de não quererem assumir os riscos e fardos que vêm em conjunto com esta potencial quota de liderança global.

Apesar de reafirmar que este G-Zero não durará para sempre, Bremmer alerta que, enquanto existe, o mundo continuará a ser dividido entre perdedores e vencedores. O reputado consultor aposta em países e organizações que mantêm o mais alargado conjunto de potenciais aliados, incluindo “estados-pivots” de que são exemplo a Turquia, o Canadá ou o Brasil, ou seja, aqueles que têm mantido relações saudáveis com os mais poderosos. Já no que respeita aos perdedores, serão aqueles que dependem demasiado da protecção americana, como o Japão ou o Taiwan, e os denominados “estados-sombra”, como o México ou a Ucrânia, que se agarram obstinadamente às fortunas dos seus vizinhos. Todavia, o autor afirma que “os vencedores aceitam o mundo tal como ele é”, e prevê que “os bancos, os hedge funds ou os private equity funds irão mover as suas operações para os mercados emergentes para evitar as reformas regulatórias ocidentais e globais”.

A força do músculo económico
No que respeita ao mundo G-Zero, o autor conclui que “será o músculo económico, e não o militar, que determinará o equilíbrio internacional de poderes”. Mas também avisa que a incapacidade para se coordenar a cooperação de 20 estados não deverá ser entendida como uma exclusão de uma cooperação benéfica de, por exemplo,  cinco países. Ou seja, para Bremmer , grupos de trabalho mais pequenos poderão constituir o caminho a seguir para se solucionar alguns dos problemas internacionais modernos.

Uma outra lição que o G-Zero poderá dar ao mundo consiste na questão da adaptabilidade. Um mundo G-Zero exige inovação e flexibilidade, a capacidade e a vontade de olhar para uma situação tal como ela é e mudá-la de forma adequada. Mas quando falamos no aquecimento global, na proliferação de armas nucleares ou na regulação da Internet, a sua dimensão é tão astronómica que parece impossível serem apenas clubes com poucos membros a definirem uma qualquer solução. Bremmer já tinha alertado, aquando da publicação do seu artigo na Foreign Affairs, que o novo clube económico iria produzir conflitos e não cooperação.

No que respeita ao declínio da América, as opiniões dividem-se. Será que o fim do domínio americano significa o seu declínio? No último capítulo do seu livro, o autor não deixa de prestar homenagem aos músculos que os Estados Unidos ainda ostentam: grande parte do mundo ainda pretende ficar de mãos dadas com a América, que continua, apesar de tudo, a ser o jogador mais forte neste tabuleiro de xadrez global. E, em muitos casos, escreve, a América continua a ser a potência mais bem preparada para lidar com um mundo sem liderança global. Os seus valores democráticos, o seu poderio militar e o facto de continuar a ser o mais bem-sucedido berço da inovação e do empreendedorismo conferem-lhe ainda o estatuto de outrora.

Mas e para os que advogam a sua queda, Bremmer devia ter tomado em consideração outros factos ilustrativos da sua perda de pontos na tabela mundial e que nada têm a ver com o G8 ou com a China: a desigualdade de rendimentos que grassa no país é maior do que em qualquer outro país desenvolvido, os níveis de mortalidade infantil, de inscrições no primeiro ciclo escolar e de esperança de vida estão igualmente em queda quando comparados com outras grandes democracias desenvolvidas e, enquanto país, é aquele que tem uma maior taxa, per capita, de prisioneiros no mundo.

Por seu turno, a China, a segunda maior economia mundial, em conjunto com uma vasta rede de laços comerciais que advêm desta pujança, não tem ainda condições para liderar: os seus aliados são demasiado cautelosos e preferem a intervenção americana ao poder chinês.

O livro de Ian Bremmer constitui, assim, uma análise da queda dos gigantes na geopolítica, do vazio de poderes que teve origem a seguir à Guerra Fria, do peso das dívidas e dos défices que está a estrangular muitas nações e do cluster de novos poderes que não estão ainda preparados para policiar um sistema internacional estável e aberto. Estamos, assim, a viver num mundo global governado por uma desordem igualmente global.