Quando nasceu, deram-lhe poucas horas de vida e um atestado de “futuro vegetativo” que nunca aceitou. Lutadora desde os primeiros minutos de existência, Rita é a rapariga das tranças, portadora de paralisia cerebral e a heroína desta história. Não porque é diferente, mas porque nos obriga a pensar de maneira diferente. E porque nos inspira a sermos pessoas mais bonitas. Tal como ela é…
POR HELENA OLIVEIRA

No dia em que contactei a Rita a perguntar-lhe se teria disponibilidade para me responder a umas questões, ela tinha acabado de se inscrever no último ano do mestrado em Argumento e Televisão, na Escola de Artes da Universidade Católica do Porto. Com um argumento e a tese para escrever nas férias, acedeu prontamente a conversar comigo. A Rita Silva, Rita Cuca para os amigos, tem 24 anos, escreve, pinta, desenha, edita, projecta e sonha. Algo comum a alguns jovens da sua idade, com a diferença de que Rita é portadora de paralisia cerebral, uma disfunção com origem no cérebro que, no seu caso, afecta em 97% a sua capacidade motora. A Rita fala com os olhos e com o sorriso, sempre pronto, e tem a ajuda inestimável de um computador que lhe permite comunicar com o exterior, ou melhor, para quem faz questão de não a entender, porque falar e fazer ouvir a sua voz é com ela.

Dizer que Rita Cuca é um caso de coragem e determinação, para além de parecer linguagem de senso comum, não traduz o seu mundo. De forma alguma. Ela própria diz: “Quando nasci davam-me poucas horas de vida, mas a minha vontade de viver venceu e já lá vão 24 anos de luta e vitórias”. Grávida de oito meses, a mãe teve um descolamento total da placenta, o que lhe provocou o nascimento prematuro. Depois de ter estado mais de 20 minutos em anóxia à espera de uma equipa médica para realizar o parto, as 48 horas seguintes e as primeiras da vida de Rita, foram passadas em convulsões, o que causou a morte das células responsáveis pela coordenação motora. No entanto, “ a deficiência não me impede de ter uma vida perfeitamente normal”, escreve Rita.

Normal é um termo que irá aparecer várias vezes ao longo deste artigo. Mas nem sempre com o significado que lhe costumamos atribuir. É que depois de entrar um pouco no mundo colorido de Rita, tudo aquilo que tomamos como certo no nosso acaba por dar origem também a convulsões. É o caso da frase repetida por vários especialistas na altura em que a Rita nasceu quando as dúvidas sobre o seu futuro se acumulavam na mente e no coração da sua mãe: “o tempo fará destas crianças o que tiver de ser feito”. Ou seja, uma espécie de atestado prévio que ditava que a vida de Rita seria vegetativa e não florida como afinal é.

Não, o mundo de Rita não é feito de flores. Mas a sua capacidade de transformar dificuldades em oportunidades faz dela não só uma inspiração para todos nós – os ditos normais – como um hino de esperança para muitos pais que têm filhos nas mesmas condições e que se podem atrever a sonhar com um futuro mais digno para eles e para si próprios. Aliás, “contribuir para um mundo melhor” é o desejo que Rita expressa não só na conversa que tivemos, como nos dois blogues que assina, aquele onde apresenta a sua arte e outro onde expõe o seu olhar do mundo.

Apesar da falta de informação sobre a doença e a sua incidência em Portugal, as estatísticas apontam para que em cada mil bebés que nascem, dois sofrem de paralisia cerebral. O termo paralisia cerebral remete igualmente para muito desconhecimento. Como Rita afirma, na altura em que nasceu era “um monstro desconhecido”, contudo esse desconhecimento continua bem instalado na nossa sociedade. De acordo com as palavras de José de Barros, médico e presidente da Federação Portuguesa da Associação de Paralisia Cerebral, “ a paralisia cerebral é uma deficiência motora e grande parte das pessoas é intelectualmente capaz, (…) pode é ter associado outro tipo de deficiência, como mental, visual ou auditiva”.

O que não é o caso de Rita, que afirma até que “o meu problema não é a deficiência, mas a forma ignorante e egoísta como a sociedade olha para mim”.

“Até onde poderei sonhar?”
O intertítulo acima foi o nome que Rita Cuca deu à sua terceira exposição de pintura, onde estiveram expostas 43 obras, vídeos e textos da sua autoria. Longe vão os tempos em que a sua aventura académica tem inicio, com sete anos: “depois de várias escolas me rejeitarem, consegui, com muito esforço por parte da minha mãe, ser aceite numa escola primária, como todas as crianças”, recorda. Mas tal só foi possível “graças às inúmeras batalhas que a minha mãe travou e venceu contra a DREN e o Ministério da Educação”, daí a mágoa expressa por Rita no que respeita à sociedade portuguesa: “somos um povo muito comodista e pouco aberto à novidade. A tudo o que seja novo, que implique mudança e dê um pouquinho de trabalho, o português diz logo um “não” automático. Muitas vezes, nem sequer nos deixam dizer nada, olham para nós e espetam-nos logo com o “não”! E é assim que, todos os dias, se violam os direitos dos cidadãos portadores de deficiência”, acusa.

Naquilo que Rita considera um percurso académico normal, apesar de “mesmo, mesmo muito difícil, ao ponto de ter que recorrer ao Apoio à Vitima e ameaçar o Ministério com uma queixa ao Tribunal Europeu”, Rita nunca chumbou, nunca adiou um exame nem foi a um recurso e teve sempre notas entre os 15 e os 18 valores. Este “normal” não é, mais uma vez, para todos, sendo que a “única regalia que davam e dão é mais tempo para fazer os exames”.

O que não é definitivamente normal é a (não) resposta do Estado a pessoas como a Rita ou com outro tipo de deficiência. Como afirma, “basicamente, os apoios são nulos e a lei é pura fachada”. Principalmente para aqueles que pretendam seguir os seus estudos no ensino superior. Com a voz da experiência, Rita garante “essa história dos currículos adaptados é uma valente armadilha para que os alunos cheguem ao 9º e ao 12º ano e não tenham capacidade para avançar para o Ensino Superior. A legislação nem sequer abrange o aluno deficiente no Ensino Superior”.

Quando Rita terminou o 12º ano, com média de 17 valores, decidiu ir para o curso de Som e Imagem da Escola das Artes da UCP no Porto. “Uma deficiente em artes, no nosso país, era e é uma coisa impensável, praticamente”, exclama. Mas, habituada a remar contra marés várias, Rita conseguiu, como aluna ouvinte, ingressar no curso pretendido. Contudo,”foram precisos três meses de experiência, para chegarem à conclusão de que eu era perfeitamente capaz de fazer a licenciatura”. E, findo esse ano, “depois de fazer seis cadeiras, todas com sucesso”, a sua matrícula não estava simplesmente oficializada. País normal? Pois não parece. Pior que tudo, “o prazo de validade das específicas estava a terminar e eu corria o risco de ter que repetir os exames de 12º ano. Só oito dias antes das datas dos exames, já com tudo preparado, é que a Universidade decidiu oficializar a minha matrícula”. E Rita livrou-se dos exames! No entanto e como alerta,” há inúmeras mentes brilhantes fechadas em lares ou sítios degradantes, porque o nosso país não lhes dá condições para progredirem. Faz questão de fechar os olhos aos direitos dos cidadãos”. Normal? De todo.

Terminada a licenciatura, está neste momento a preparar-se para ter o mestrado na mão, em Televisão e Argumento, com especialidade neste último. É que “embora também pinte, filme, edite e faça um pouco de todas as artes, a escrita sempre foi uma grande paixão e é a área em que eu me sinto completamente à vontade para trabalhar”, conta.

Essa paixão vem de longa data: “mesmo antes de saber ler já inventava histórias através das ilustrações dos livros ou das figuras que via nas nuvens durante as viagens de carro. Criava inclusivamente amigos imaginários, que ainda hoje dou por mim a falar com eles!”, afirma.

E se em pequena Rita se entretinha a ouvir muita música, a desenhar ou a pintar e a criar histórias, hoje que já é “grande”, tem um já longo currículo que integra todas essas formas de arte que sempre a acompanharam. Autora do cartaz do Torneio de Desporto Adaptado do Boavista Futebol Clube, durante os anos consecutivos de 1995 e 1996, participou em simultâneo em diversos concursos literários para jovens. Em 1995, recebe, por um conto da sua autoria, uma menção honrosa atribuída pela editora Caminho.

Rita não pára nunca. Foi protagonista de um dos episódios da mini-série documental “Andar com as próprias pernas” e em 2006, é co-autora da curta-metragem “A Normal Diferença”(v.caixa 1) e da banda desenhada Era uma vez…, que comemora os 10 anos de existência do Centro de Atendimento de Toxicodependentes de Matosinhos. Desde 2007 e até agora, vai já na terceira exposição das várias artes que domina. Normal? Longe disso. Diferente? Com certeza e com todo o orgulho.

“Tornar possível o impossível”
“Roubo” as palavras de Rita para escrever os intertítulos desta história, desta feita de uma das suas exposições de pintura. Rita pinta a vida com as cores certas e não se coíbe de lhe dar os tons mais negros quando é necessário. É o que acontece quando diz que “não basta falar dos deficientes, está na hora de falar de quem cuida deles”. E chegamos à questão dos apoios, escassos, tardios e, muitas vezes, inexistentes. Tanto no que diz respeito aos equipamentos que podem conceder um grau de independência sem preço a quem deles precisa – um simples andarilho pode chegar aos 1000 euros – já para não falar das cadeiras de rodas ou de outros equipamentos que constituem uma ajuda técnica necessário e não um luxo. Em entrevista ao DN, José de Barros lamenta o facto da “dotação orçamental ser insuficiente e chegar tardiamente” (existem alguns equipamentos que são feitos à medida do corpo e das necessidades do portador da deficiência e que, com o crescimento, acabam por deixar de servir) e que sem o apoio da Segurança Social, são muitas vezes as IPSS que acabam por dar alguma ajuda – a que podem – às famílias.

E é exactamente sobre isso que Rita fala: “Os pais têm que alterar a vida toda para que os filhos possam progredir, têm que deixar o emprego, por exemplo. No entanto, os apoios e o respeito por esses pais não existem. Deste modo, como poderão eles comprar, para o filho, o material adaptado que custa centenas e milhares de euros, fazer as obras em casa e dar-lhe a atenção que ele necessita?”. A pergunta é normal, a resposta, não. Mas é assim, num país que Rita diz estar atrasado pelo menos dois séculos.
Para quem não se sente nem nunca se sentiu diferente dos outros, Rita obriga-nos, na verdade, a pensar de forma diferente. “Vejo a minha deficiência como uma característica normal, não me consigo imaginar de outra forma, é como ser loira, negra, gorda, alta, magra, etc. Se as diferenças existem, é porque fazem parte e são necessárias na Natureza. Por isso, só temos que olhá-las com naturalidade e respeitá-las”.

E até onde poderá Rita sonhar? “Daqui para frente, quando terminar o mestrado, espero arranjar um emprego. Sei que não vai ser fácil, mas espero que me julguem pelo meu trabalho e não pela minha aparência”. Com o talento de Rita, estamos convictos que será disputada por vários empregadores. Contudo, a menina das tranças, de lindos olhos azuis e de sorriso aberto, tem um sonho ainda maior: “o meu sonho é ajudar os outros e contribuir para um mundo melhor, através da minha arte. Fá-lo-ei sempre que puder!”. E depois de tudo o que já fez, não existem dúvidas de que o fará.

“A Normal Diferença”
Experimentar passar um dia na pele de um deficiente motor, cumprindo diversas tarefas, foi um convite efectuado a pessoas “ditas normais” e que deu origem ao documentário “A Normal Diferença”. A ideia partiu de Rita que, em conjunto com o seu colega de curso, Richard Solal, foi posta em prática. Rita conta como foi, sem esquecer a ajuda preciosa de todas as instituições que o ajudaram a tornar-se realidade.“ ‘A Normal Diferença’, realizado em parceria com o meu amigo Richard Solal, no ano lectivo 2005/06, foi um trabalho um pouco ambicioso, uma vez que, na altura, ainda frequentávamos o 2º ano da licenciatura e tínhamos muito pouca formação. Apesar de algumas deficiências técnicas, o nosso esforço resultou num documentário, cuja mensagem é bastante forte.A APPC do Porto e Mobilitec emprestaram-nos capacetes (como o que eu uso para escrever e pintar) e cadeiras de rodas eléctricas de vários tipos (algumas vieram de propósito da Alemanha!). A Universidade Católica cedeu-nos o material de filmagem (mini-dvd, micros, etc) e contámos também com a Produtora Ideias e Conteúdos que nos ajudou incansavelmente na pós-produção. Foram 3 dias de filmagens, onde pessoas normais, de várias idades e estratos sociais, experimentaram passar um dia na pele de um deficiente motor, tendo que cumprir as diversas tarefas que lhe foram atribuídas. Coisas simples como desenhar no computador ou escrever o nome, tornaram-se, para os “ditos normais”, uma verdadeira odisseia, que nem ao fim de várias horas, conseguiram superar… Os deficientes, com todas as suas limitações conseguem encontrar forma de superar as dificuldades. Os normais desistem à mínima dificuldade. E agora, quem é normal?”

 

Auto-retrato num momento de reflexão
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© http://maodarterita.dyndns.org/.

Quem sou eu?
Tenho um olho bem aberto
Para o mundo à minha volta.
O outro olho está fechado
Sempre atento ao que se passa cá dentro.
No meu interior é tudo um pouco confuso,
Mas o coração faz questão
De iluminar a escuridão
Com a verde luz da esperança!
Sorrio.
Esta é a principal função a minha boca.
Às vezes, um sorriso ajuda mais do que falatório
As palavras podem ser traiçoeiras,
Podem incomodar o sonho da criança,
Ou o descanso de um doente.
Prefiro pintar, escrever, cantar…
Transformar as palavras em arte
Tornando-as mais belas e imortais.
É para isso que servem as minhas duas tranças,
Para segurarem o velho capacete
Que substitui as minhas mãos.
O meu nariz concentra-se em respirar o ar fresco
Sentir o cheiro das flores, do mar… da memória
Os meus ouvidos servem para ouvir a música
Ou a voz da natureza.
Ambas são extremamente belas!
Tudo o resto é entulho para perturbar o silêncio interior.
Não sou perfeita, nem quero ser!
Sou alguém que procura a simplicidade da vida,
Ajudando os outros como sei e como posso,
Porque só assim é que encontrarei paz e felicidade.

Rita C.M. Silva
3/11/2007

© 2009 – Todos os direitos reservados. Publicado em 28 de Julho de 2009