Só uma sociedade civil organizada, convicta, activa e inconformada poderá enfrentar, em conjunto com governos e empresas éticas, e com responsabilidade humana, os desafios mais prementes da humanidade, como a pobreza, as alterações climáticas ou os conflitos
POR FERNANDO NOBRE

Sou daqueles que sempre acreditaram que um outro mundo era possível. Um mundo mais humanizado, com mais ética, mais regras, mais tolerância e abertura, mais aceitação, se os cidadãos assim o quisessem. Sou daqueles que sonharam com a existência de uma cidadania global solidária de todos os habitantes da Terra e até mesmo do universo. E, por isso, em 1984 tomei a decisão de fundar a AMI, uma organização não-governamental portuguesa, que pretendia intervir com equipas médicas expatriadas, primeiramente nos PALOP, mas que deveria estender-se a outros países do mundo, inclusive Portugal, e em outras áreas para além da saúde, nomeadamente educação, prevenção de catástrofes, segurança alimentar, água e saneamento, acção social, diálogo intercultural, emprego e promoção dos direitos humanos.

Foi uma decisão ponderada, mas não foi uma decisão fácil. O desafio de fundar a AMI levou-me a trocar Bruxelas, onde vivia e estava integrado há 20 anos, por Portugal. Porém, 30 anos depois, com acções desenvolvidas em perto de 80 países, onde marcaram presença centenas de voluntários, e com a abertura de 17 equipamentos e respostas sociais em Portugal, é com um grande orgulho e satisfação que encaro o trabalho desenvolvido pela AMI em Portugal e no mundo. Esse trabalho permitiu construir, de facto, um futuro melhor para milhares de pessoas, e é com gratidão que me dirijo a todos aqueles que, ao longo destas três décadas, contribuíram para que isso fosse possível.

Por essa razão, a AMI decidiu assinalar a efeméride com a realização de várias actividades entre Dezembro de 2014 e Dezembro de 2015, como a iniciativa “Há várias formas de abraçar”, que decorreu em vários pontos do País, como forma de homenagear o voluntariado; a exposição Futurospetiva, um dos pontos altos das celebrações, idealizada pela agência de publicidade Y&R e que teve como objectivo contar a história da AMI e alertar para os quatro grandes desafios da humanidade: Pobreza e Exclusão Social, Migrações, Alterações Climáticas e Cidadania; o Colóquio de Jornalismo contra a Indiferença, uma edição especial do Prémio AMI – “Jornalismo Contar a Indiferença”, onde foi possível debater três temas de grande actualidade, designadamente, “Jornalismo em Cenário de Guerra”, “Questões Éticas no Jornalismo” e “Limites da Liberdade de Expressão”; e a 3ª edição da iniciativa “Encontros Improváveis”, este ano dedicada ao tema “Direitos Humanos: Desafios Actuais na Europa e no Mundo”, que contou com a presença de alguns dos parceiros internacionais da AMI, nomeadamente do Afeganistão, Bangladesh, Brasil e Gana, abordando três temas na ordem do dia: “Trabalho Infantil: Economia Mundial e Direitos Humanos”, “O papel da Mulher no Desenvolvimento” e “Alterações Climáticas, Migrações e as Crises Humanitárias”.

[pull_quote_left]Mais do que nunca, é fundamental falar de paz, de diálogo, de pontes entre os povos[/pull_quote_left]

Já quase no encerramento das comemorações, foi lançado o livro “Toda a Esperança do Mundo”, da autoria do fotógrafo Alfredo Cunha e do jornalista Luís Pedro Nunes, numa viagem com a AMI ao longo de dois anos que constitui um verdadeiro “monumento” que dá conta do trabalho desenvolvido em países como a Roménia, o Níger, o Bangladesh, a Guiné-Bissau, Portugal, o Sri Lanka, o Iraque, o Haiti e o Nepal. A obra alerta para alguns dos desafios mais prementes da humanidade, como a pobreza, as alterações climáticas ou os conflitos, que só uma sociedade civil organizada, convicta, activa e inconformada poderá enfrentar, em conjunto com governos e empresas éticas, e com responsabilidade humana, com vontade, sensibilidade e determinação.

Sou um sonhador, acredito no ser humano, e é por isso que me sinto envergonhado perante a pobreza e a fome. Não me canso de dizer que esses dois flagelos são a vergonha colectiva da humanidade, mas entristece-me ter que o repetir incessantemente perante uma humanidade que teima em fazer “ouvidos moucos”. É, pois, de um novo paradigma civilizacional que o nosso mundo carece e urgentemente! Neste novo paradigma, que a bem ou a mal se imporá, o humanismo, a inteligência e o bom senso terão que prevalecer.

É urgente que se estabeleça um diálogo intercultural e religioso eficaz, que se criem pontes de diálogo que levem ao conhecimento e à aceitação do outro na sua legítima diversidade. É preciso que se obtenha um equilíbrio satisfatório para todos entre a democracia representativa e a democracia participativa, permitindo aos cidadãos exprimir-se, quando matérias de relevo nacional, europeu e mundial estiverem em causa. A sociedade civil pode, deve e tem que exigir e obter o quanto antes o fim da pobreza, das grandes guerras e da corrupção! É prioritário e indispensável que os próximos 15 anos possam consolidar e até concluir o trabalho iniciado com os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio no ano 2000. É a última oportunidade de se estancar o desespero e os conflitos e, ipso facto, as maciças correntes migratórias que poderão pôr em causa as já sobressaltadas democracias no Ocidente, Médio Oriente e Ásia.

E nós, sociedade civil responsável e participativa, temos o dever de fazer tudo para que a nossa voz seja ouvida e que essa aspiração venha a ser concretizada por e para seres humanos como nós. Daí a AMI ter decidido iniciar as comemorações do seu 30.º aniversário com um alerta para os grandes desafios da humanidade, e encerrá-las a 10 de Dezembro, Dia dos Direitos Humanos, com um Concerto pela Paz e Concórdia, com Rao Kyao, Pedro Jóia e Vox Soul, na Igreja de São Domingos, em Lisboa.

Mais do que nunca, é fundamental falar de paz, de cultura, de diálogo, de ecumenismo, de entendimento, de pontes entre os povos, de inclusão. Sem paz, muito dificilmente o mundo poderá alcançar desenvolvimento e democracia durável para todos. Porque a paz é, e sempre foi, o mais imperioso e absoluto direito, assim como a maior aspiração, desejo e sonho do ser humano.

Após 31 anos com o ser humano no centro das suas preocupações, a AMI sente orgulho na sua actuação, ainda que esta não esteja terminada, porque a missão continua. Em Portugal e no mundo.