Não será o fim do mundo em 2012, mas a viagem ao longo de este ano não será fácil. E, a nível global, os principais problemas que assolaram a humanidade neste complexo 2011 continuarão a existir e, muito provavelmente, a intensificar-se. O Fórum Económico Mundial publicou, na passada semana, um relatório com os principais desafios para o ano que está prestes a iniciar-se. Identificados os problemas, que o VER aqui resume, são urgentes soluções globais. Mas e essencialmente, uma conjugação de (boas) vontades
POR HELENA OLIVEIRA

São muitas as questões perturbadoras relacionadas com a economia política global. O Ocidente está a lutar com uma crise económica que dura há três anos, enquanto a Ásia está a tentar a gerir a sua ascensão em simultâneo com um conjunto de micro problemas gerados por um crescimento rápido. Por seu turno, várias regiões do Médio Oriente estão a enfrentar alterações políticas perturbadoras. Quanto a África, continua com as suas habituais contendas tanto a nível económico como político e, não sendo novidade, com enormes desafios humanitários. Em todas as frentes – desde a economia, à política, ao ambiente ou à tecnologia – a agenda global para 2012 está repleta de questões que exigem soluções globais.

A curto prazo, o que se afigura é demasiado sombrio. Todavia, e porque é necessário existir um mínimo de optimismo, a humanidade enquanto um todo encontra-se no meio de um “golpe de sorte”. A população mundial cresceu mais seis vezes comparativamente ao ano de 1800, a esperança de vida mais do que duplicou e os rendimentos reais multiplicaram-se mais do que nove vezes. Desde 1995, um indivíduo médio ganha três vezes mais dinheiro, come um terço mais e pode esperar viver mais de um terço comparativamente ao ano em causa. Os optimistas vêem 2012 como uma  importante conjuntura histórica na medida em que esperam que, finalmente, se possa vir a moldar uma estrutura adequada para se enfrentar o século XXI. Este será um ano em que se espera que o mundo compreenda os novos termos económicos, políticos e económicos que exigem, mais do que nunca, novas abordagens para a resolução de problemas, modelos inovadores para a condução das questões humanitárias e novas formas de nos relacionarmos num mundo que todos partilhamos. Se pretendemos florescer enquanto uma comunidade global de quase 10 mil milhões de pessoas – a projecção populacional até 2050 – estes novos modelos não são opcionais, mas sim uma necessidade absoluta.

The Outlook on the Global Agenda 2012, produzido pelo Fórum Económico Mundial (FEM) e que o VER aqui resume, constitui uma chamada de atenção para o actual estado do planeta. O documento foi produzido por um grupo de 1500 especialistas mundiais e apresentado em Outubro último na Cimeira Anual que teve lugar nos Emiratos Árabes Unidos. As discussões foram dominadas pela crise do euro, a par de um impasse político que assombra os maiores mercados do mundo tanto nos Estados Unidos como na Europa; a perda crítica de confiança em muitas sociedades, no que respeita às liderança e governo das suas instituições, sem esquecer a escassez de recursos, os desafios demográficos e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos, estiveram também presentes na discussão em causa. O relatório que se segue, sumarizado pelo VER, resulta na compilação de muitas destas preocupações que, ao que tudo indica, continuarão a fazer parte da agenda global para 2012.

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1. A perspectiva económica global
O mundo continua a sofrer disrupções económicas e corre um enorme risco de uma complexa recessão. A crise da dívida que se abate sobre a zona euro, a dívida norte-americana, os crescentes desequilíbrios no comércio, o desemprego crescente e a distorção dos mercados financeiros em tudo contribuem para uma péssima fotografia do ano prestes a terminar, sem perspectivas de novos coloridos para 2012. O conjunto de crises que se têm vindo a avolumar ao longo dos últimos anos, em conjunto com as respostas dos governos às mesmas, evidenciaram a ausência de confiança na liderança tanto no sector público como no privado. Mas esta crise de confiança tem vindo a ser construída há várias décadas na medida em que a ordem imposta a seguir à segunda guerra mundial se tornou obsoleta e incapaz de lidar com questões e tendências complexas, inter-relacionadas e globais. Com o aumento das desigualdades de rendimentos e das tensões sociais um pouco por todo o mundo, um profundo descontentamento com a situação económica actual é óbvio.

Uma oportunidade para mobilizar esforços

Passados três anos sobre a erupção da frise financeira global, a verdade é que o mundo continua ainda a apanhar os cacos. Na economia global inter-relacionada, bem como no sistema financeiro internacional, o impacto de uma crise, mesmo numa economia relativamente pequena como é a da Grécia, originou consequências enormes em todo o mundo, tais como a volatilidade dos mercados, as flutuações das moedas, as percepções do risco e a confiança dos investidores na economia real.

E, à medida que a crise continua a desenrolar-se, o contágio decorrente dos riscos inter-relacionados permanece uma das grandes preocupações. É cada vez mais difícil criar muros que previnam esse contágio num mundo com interconexões e integrações cada vez mais profundas. Adicionalmente, o risco de uma recessão que chegue aos dois dígitos na economia mundial aumenta a urgência da resolução dos desafios macroeconómicos.

Assim, urge que o enfoque seja colocado na promoção da colaboração e no aumento da confiança através da construção de coligações sólidas de vontades, no consenso relativamente às normas globais e regionais que são efectivas e vinculativas, e, obviamente, no aumento da qualidade da governação em qualquer que seja a economia em causa.

A crise deve, assim, ser aproveitada como uma oportunidade para os líderes globais unirem esforços no que respeita ao fortalecimento dos modelos económicos e financeiros.

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2. As transferências do poder global e os mercados emergentes
2012 irá testemunhar a consolidação de tendências que desafiam o modelo de centralização do mundo, com os Estados Unidos e os seus aliados posicionados no centro do poder global. E, à medida que o ano for passando, a influência sofrerá uma deslocação dos poderes tradicionais para as hegemonias regionais, tais como a China, a África do Sul e o Brasil, e dos sistemas cêntricos das Nações Unidas para mecanismos de cooperação descentralizados.

A legitimidade do G20 como o mecanismo por excelência da governança global sofrerá um escrutínio ao longo do ano quando, em Junho, na cimeira dos mais fortes, que terá lugar em Los Cabos e com o México como porta-voz das preocupações dos países em desenvolvimento, serão envidados todos os esforços para a demonstração de resultados depois de cinco anos de “high-profile”. Adicionalmente, novas redes de actores, coligações de forças dispersas mas com opiniões similares e parcerias inesperadas irão continuar a desafiar a capacidade de liderança do estado-nação.

Adicionalmente, é de todo expectável que as economias emergentes e os actores privados irão consolidar a sua quota de influência na economia mundial. O seu contributo para o crescimento global irá ultrapassar, de longe, o das economias do norte, enquanto estas se continuarão a debater com as crises da dívida e com um crescimento estagnado.

Novos paradigmas de crescimento

A corrida pelos recursos naturais irá aumentar a atractividade e influência de players relativamente fracos, sendo que muitos destes são estados frágeis abençoados com minerais, ouro, diamantes, gás ou petróleo. Os players das economias emergentes irão reforçar a sua consolidação e procurar novos investimentos para os seus recursos fora das suas fronteiras. As empresas originárias do Brasil, China,  África do Sul e Índia irão competir com as economias ricas, colocando as denominadas relações extractivas já estabelecidas em questão.

Estas novas multinacionais oferecem um quadro com “tintas misturadas” – enquanto umas operam aparentemente sem qualquer tipo de escrúpulos, outras abraçaram modelos únicos de responsabilidade corporativa e práticas de negócio sustentáveis. As evidências sugerem que a sua presença no mercado dos recursos poderá melhorar as oportunidades para o tão almejado crescimento verde.

Esta alteração económica poderá originar questões fundamentais no que respeita aos modelos de crescimento e aos paradigmas actuais da prosperidade económica. Enquanto a desigualdade se apresenta como o maior dos temas em debate em torno das políticas económicas na Europa e nos Estados Unidos, nas economias emergentes em crescimento esta poderá posicionar-se como um subproduto tolerável do sucesso económico – pelo menos por agora.

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3. Crescimento inclusivo e criação de emprego
A ideia do crescimento inclusivo tem como base a premissa de que o crescimento alargado proporciona os fundamentos para o ritmo e sustentabilidade do crescimento dos rendimentos. Mas, o crescimento do rendimento com base em oportunidades desiguais enfraquece sobremaneira o crescimento de longo prazo ao asfixiar os incentivos para faixas alargadas da população, ao mesmo tempo que semeia conflitos e instabilidades.

No actual clima económico, muitos países – do Paraguai à Índia – estão a ostentar taxas de crescimento impressionantes. Contudo, os benefícios para os escalões mais baixos da sociedade são praticamente inexistentes. A desigualdade, se abandonada à deterioração contínua, constituirá uma ameaça à estabilidade económica e política.

Os fundamentos para o crescimento inclusivo residem no emprego. Todavia, e enquanto o Ocidente se debate com as suas crises fiscais e muitos países do Médio Oriente enfrentam desafios estruturais no que respeita ao pleno emprego, é o desemprego que, e infelizmente, ocupa o lugar cimeiro nas preocupações para 2012.

Usar cercas não é uma opção

Novos modelos de crescimento inclusivo são urgentemente necessários para capacitar o desenvolvimento económico no sentido de se disseminar por todos os sectores da sociedade, unindo as nações em vez de as dividir. Ao mesmo tempo, o desemprego está a tornar-se enraizado em muitos países, representando o mais significativo impedimento para a estabilidade política e desenvolvimento económico. Os distúrbios sociais e a instabilidade política estão a obrigar os líderes a concentrarem-se no aparentemente insolúvel problema do desemprego.

A curto prazo, os governos têm de se unir às empresas e à sociedade civil para a implementação de soluções tangíveis. A longo prazo, os decisores políticos terão de pensar em termos mais equilibrados sobre a relação existente entre emprego e crescimento: será que o crescimento cria emprego ou vice-versa? Estas questões não podem ser abordadas separadamente – os laços que as unem são críticos e exigem uma abordagem “multistakeholders”. “A cerca” não poderá nunca ser a solução. O problema é de todos.

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4. Escassez de recursos naturais e alterações climáticas
Em Outubro de 2011, partes da cidade de Banguecoque ficaram devastadas devido a fortes cheias, estimando-se que o seu crescimento económico para este ano seja afectado entre 1% a 1,7%. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas sofriam (e sofrem) de uma crise de fome, a par de secas significativas no Corno de África. Em muitos outros países, Paquistão, Índia, China, Estados Unidos, França ou Suíça – a escassez de água forçou as autoridades a reduzir a capacidade de geração das suas fábricas hídricas.

Em Novembro de 2011, a Agência Internacional para a Energia (IEA) reportou que as emissões de carbono ao longo de 2010 foram as mais elevadas de sempre. E concluiu que, sem uma alteração transformativa imediata, o mundo poderá contar com um aquecimento global na ordem dos cinco graus centígrados até ao final do século. Há mais de 10 milhões de anos que o planeta não está sujeito a temperaturas tão elevadas. Dos vários especialistas que contribuíram para este documento, todos partilham a percepção de que os riscos económicos, sociais e ambientais são demasiado importantes para manter o actual status quo. Sem uma alteração profunda de direcção, o mundo caminhará para um desastre económico, social e ambiental, devido ao impacto das condições climáticas extremas e do aumento da escassez dos recursos naturais como a água, a energia e os alimentos. 2012 poderá ser um importante catalisador para uma agenda de crescimento eficiente dos recursos e de políticas de baixo carbono. Em Junho, os líderes mundiais reunir-se-ão no Rio de Janeiro para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) com o objectivo de “assegurar um compromisso político renovado para o desenvolvimento sustentável, analisar os progressos realizados até à data e os gaps remanescentes na implementação de uma agenda de desenvolvimento para a sustentabilidade”.

Renovar o compromisso internacional

As instituições do século XXI deverão permitir um diálogo de alto nível sobre a segurança dos recursos naturais para abordar o magistral desafio de se atingir um crescimento económico e um desenvolvimento humano significativos num contexto de escassez preocupante dos recursos naturais essenciais. São urgentes novas instituições que trabalhem em rede, com todos os stakeholders e que abracem inovações tecnológicas para partilha de conhecimento, construção de capacidades e para uma toma de decisão informada para responder a este desafio. 2012 pode ser um ano importante no qual a comunidade internacional deverá exercer a sua liderança no sentido de um compromisso renovado para as questões das emissões e da escassez de recursos.

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5. A revolução digital
A Internet transformou-se num pilar chave da prosperidade global. O trabalho, o lazer, o consumo, as decisões políticas, as cadeias de fornecimento, os sistemas de segurança e as comunicações, ou seja, todos os aspectos da vida moderna, são moldados pela contínua evolução do mundo digital.

O maior acesso à informação cresceu e aumentou as exigências relativamente à responsabilização por parte dos governos, das organizações e de outros actores. Esta realidade torna a democracia mais forte, a educação e o conhecimento mais disseminados e concede voz às minorias.

O cidadão digital está a influenciar a opinião pública, não só como consumidor mas também como produtor de informação. Todavia, esta explosão em termos de activismo encerra alguns riscos: inflama o extremismo e a “desobediência” civil. O mundo digital está a desafiar a legitimidade das estruturas de governança existentes e a soberania dos estados.

Novos modelos precisam-se

A Internet ocupou um lugar no centro da sociedade humana sem um mandato legal ou de governança. Apesar de uma rede complexa de estruturas pseudo-autonómas e semi-responsáveis, a Internet permanece como o seu próprio mestre. Assim, 2012 será igualmente o ano em que novos modelos de governança para a Internet começarão a emergir.

Fonte: Outlook on the Global Agenda 2012, World Economic Forum