Em menos de 15 minutos, a curta “A Instalação do Medo” transpõe para a tela toda a tensão do universo distópico da narrativa de Rui Zink, publicada em plena ‘ocupação’ da troika em Portugal, e mais actual do que nunca, na sociedade da eminente ‘nova ordem mundial’. O filme de Ricardo Leite foi o vencedor do Prémio Sophia Estudante, atribuído na semana passada pela Academia Portuguesa de Cinema, e o VER conversou com o jovem realizador sobre os complexos contornos do poder subversivo
POR GABRIELA COSTA

“Cartas da Guerra”, de Ivo M. Ferreira – © O Som e a Fúria

A Academia Portuguesa de Cinema atribuiu a 22 de Março os Prémios Sophia 2017, numa cerimónia que reuniu no Centro Cultural de Belém mais de mil convidados, incluindo muitas personalidades da cultura e do cinema nacional, entre actores, realizadores e membros da Academia.

Nesta 5ª edição da gala que distingue os melhores filmes e desempenhos nas diversas categorias profissionais da actividade cinematográfica, o grande vencedor foi o filme “Cartas da Guerra”, do realizador Ivo M. Ferreira, que arrecadou nove das 21 estatuetas atribuídas ao longo da noite, incluindo as de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado, melhor Direcção de Fotografia e Melhor Direcção Artística. O drama com produção de O Som e a Fúria e baseado na obra biográfica de António Lobo Antunes, “D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra”, retrata a violência da guerra colonial através da história de um jovem que, em 1971, vê a sua vida brutalmente interrompida quando é incorporado no exército português, para servir como médico numa das piores zonas do conflito, o Leste de Angola. E que sobrevive graças às cartas que troca com a sua mulher.

Com 13 nomeações, “Cinzento e Negro”, de Luís Filipe Rocha, conquistou três troféus, incluindo o de Melhor Actor Principal, atribuído a Miguel Borges. Ana Padrão conquistou o prémio de Melhor Actriz Principal pela sua interpretação em “Jogo de Damas”, enquanto Manuela Maria venceu na categoria de Melhor Actriz Secundária, e Adriano Carvalho na de Melhor Actor Secundário, ambos em “A Mãe é que Sabe” – outro dos filmes mais nomeados. Realizado por Gonçalo Galvão Teles e Luís Galvão Teles, “Gelo”, com dez nomeações (apenas menos uma que “Cartas de Guerra”) foi o derrotado da noite, sem nenhum troféu conquistado.

A ‘fotografia de família’ do Presidente da República com os vencedores dos Prémios Sophia 2017 – © Academia Portuguesa de Cinema

Nas curtas, destaque para a já esperada vitória de “A Balada de um Batráquio”, de Leonor Teles, na categoria Melhor Curta-Metragem de Documentário. Já o Melhor Documentário em Longa-Metragem foi “Mudar de Vida, José Mário Branco, vida e obra”, de Nelson Guerreiro e Pedro Fidalgo, realizado em crowdfunding.

Na gala este ano dedicada à temática “Cinema e Televisão”, num tributo ao 60º aniversário da RTP, Ruy de Carvalho foi distinguido com o Prémio Mérito e Excelência pelos seus 75 anos de carreira. O actor foi um dos homenageados por Marcelo Rebelo de Sousa, esta segunda-feira, num almoço promovido pela Presidência da República no Palácio da Cidadela, em Cascais. De forma inédita, o Chefe de Estado quis associar-se à Academia Portuguesa de Cinema para celebrar o cinema português e entregar os Prémios Sophia Carreira, que distinguem em 2017 a actriz Adelaide João e o director de fotografia Elso Roque.

O convite estendeu-se aos vencedores de todos os Prémios Sophia e aos membros da direcção da Academia. Para o seu presidente, Paulo Trancoso, a iniciativa marca “um ponto de viragem na forma como o público se relaciona com o cinema português”, já que “o prestígio e a popularidade do Presidente contribuirão para sensibilizar a opinião pública para a importância económica e cultural” que a indústria do cinema tem no País.

Como Marcelo disse aos jornalistas na ocasião, a sua homenagem aos actores, realizadores, produtores e demais profissionais do cinema distinguidos com os Prémios Sophia representa “um gesto simbólico de agradecimento por aquilo que tem sido feito com poucos meios”. Ciente do valor, para o País, de muitos talentos nacionais neste sector já serem “celebrados lá fora”, o Presidente da República recordou que “em muitos casos não há o Estado ou não há mecenas e, portanto, não há apoios para quem ganha prémios internacionais e projecta o nome de Portugal”. À voz de Marcelo juntou-se a de Ruy de Carvalho que, no mês em que completou 90 anos, continua preocupado com a falta de emprego que atinge os artistas: “há muita gente com talento à espera de trabalho”, disse o veterano do teatro, cinema e televisão, condecorado pelo Presidente com Grã-Cruz da Ordem de Mérito a 1 de Março, dia do seu aniversário.

“A Instalação do Medo”, de Ricardo Leite – © Academia Portuguesa de Cinema

“Bom dia, minha senhora. Viemos para instalar o medo”

Uma mulher sozinha em casa – e que poderia ser qualquer um de nós – abre a porta. Dois técnicos apresentam-se: “viemos para instalar o medo. Não foi avisada? Minha senhora, o progresso não pára. E isto é pelo bem do País… ou é contra o progresso?”.

Adaptando o livro de Rui Zink publicado em 2012, pela Teodolito, “A Instalação do Medo” foi o filme vencedor dos Prémios Sophia Estudante 2017. O VER esteve na cerimónia dos ‘Óscares’ portugueses e, a propósito daquele que é um dos desafios globais eminentes na actualidade – o poder subversivo – conversou com Ricardo Leite, o realizador desta curta-metragem.

O filme foi um dos vencedores dos prémios da Academia Portuguesa de Cinema dirigidos ao público jovem que estuda cinema, tendo sido seleccionado, na categoria Ficção, entre os quatro nomeados aos Prémios Sophia (ao lado de “Marvin’s Island”, de António Vieira, Filipa Burmester e Pedro Oliveira, “Post-Mortem”, de Belmiro Ribeiro e “Pronto, era assim”, de Joana Nogueira e Patrícia Rodrigues). Candidatado pela ESMAE – Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (actual ESMAD) do Instituto Politécnico do Porto, onde Ricardo Leite fez um Mestrado em Produção e realização audiovisual, o filme foi também seleccionado para um festival internacional, o Berlin Student Film Festival, que terá lugar a 12 de Abril.

A concluir uma formação em escrita criativa  na Academia RTP no Porto, o jovem cineasta fez teatro amador, foi assistente de realização na curta-metragem “A Glória de Fazer Cinema em Portugal”, de Manuel Mozos, e realiza actualmente videoclips. Há cerca de três anos, leu o livro de Rui Zink e sentiu que poderia adaptá-lo ao cinema, através de uma curta. A ideia para o argumento, da sua autoria, foi desenvolvida a partir de um “processo demorado”, com base no livro do escritor, de 180 páginas.

Em apenas 15 minutos, Ricardo Leite transpôs para a tela o essencial da narrativa de Zink, a qual, escrita em pleno período de ‘ocupação’ da troika em Portugal, recorre à meta-linguagem para criticar o modelo civilizacional assente nos mercados, esse “papão que tudo comanda, tudo assusta”, como refere Isabel Lucas. O tema “pede muito mau humor”, nas palavras do próprio escritor e é, pois, num tom cru e despido da ironia que o caracteriza que a escrita se desenrola. “No mesmo fôlego, o leitor entra na espiral construída por Rui Zink, sente o incómodo, sente-se vítima”, remata a crítica literária.

Na curta de Ricardo Leite, muitos elementos desta história “tiveram de ficar de lado”, até porque não cabiam no guião de 14 páginas mas, fiel ao argumento do livro, o filme constrói-se em tensão permanente, explorando de forma mordaz a vulnerabilidade humana a partir da intimidação, mas também a coragem e a determinação que, eventualmente, se evidenciam com a solidão.

Ao longo da instalação do medo, os dois técnicos ‘do regime’ – protagonizados por Nuno Janeiro (na personagem de um dominador pela força psicológica, que espalha o medo impondo-se quase fisicamente à mulher aparentemente indefesa) e o seu assistente, Cândido Ferreira (que reage física e manualmente ao apelo deste domínio) – e a mulher, frágil e isolada do mundo, numa intensa interpretação de Margarida Moreira, percorrem “o catálogo dos medos”, como lhes chama Inês Pedrosa, na sua crítica à obra de Zink.

Todo o filme decorre entre a sala e a casa de banho de um pequeno apartamento, propositadamente degradado, diríamos. Apartamento esse que foi cedido pela Câmara Municipal de Espinho para as filmagens e que, juntamente com o financiamento atribuído pela ESMAE aos filmes de mestrado e o mecenato de algumas entidades de Espinho, onde o realizador reside, permitiu concretizar o projecto. O espaço era, de resto, fundamental, como explica Ricardo Leite: “tratando-se de um filme com características distópicas, tínhamos de ter uma casa onde pudéssemos construir esse universo e construir o nosso cenário”.

O prémio de 5 mil euros conquistado com o Sophia Estudante será, como foi anunciado pelo presidente da Academia Portuguesa de Cinema, aplicado no próximo projecto do jovem realizador.

No universo distópico do poder

“A Instalação do Medo”, de Ricardo Leite – © DR

O tema do domínio pelo medo não é novo, e remete-nos, por exemplo, para o “1984” de George Orwell. E, de facto, o ambiente desta obra foi “um das nossas influências, e creio que também o foi para o Rui quando escreveu o livro”, confirma ao VER Ricardo Leite, sublinhando: “quisemos transpor o universo distópico do filme”. Questionado sobre a mensagem que quis transmitir, nomeadamente a nível político, face ao regresso da tendência para regimes totalitaristas, o cineasta explica que em “A Instalação do Medo” está subjacente a ideia de que “é preciso ter muito cuidado com as ideias de alguns líderes políticos, e infelizmente têm surgido vários ultimamente”.

Na história desta curta, partiu-se “do pressuposto que o governo decidiu instalar a máquina do medo, um conceito absurdo”, mas cuja cultura “está muito enraizada”, o que percebemos “se olharmos bem a nossa volta”, diz, exemplificando: “lembro-me de ouvir pessoas a comentarem que estavam com medo de marcar viagens porque poderia haver um atentado, e esta incerteza e instabilidade obriga a sociedade a fechar-se cada vez mais para si, o que pode ser perigoso”. O livro de Rui Zink “remete-nos para um passado recente em que o País teve a presença de instaladores do medo, que durante a sua estadia nos intimidavam e nos ditavam o rumo a seguir”, conclui.

No actual contexto global, dominado pelo receio do controlo e repressão eminentes na ‘nova ordem mundial’, a consciencialização do medo a que esta curta nos  remete, e que nos obriga a sentir incomodados, ganha especial relevância. Para o jovem cineasta, “um dos papéis do cinema é alertar para os problemas que nos rodeiam”. Foi isso que a equipa da curta vencedora do Prémio Sophia Estudante – consciente que “só uma sociedade informada pode não cair nos mesmos erros que foram cometidos no passado – tentou fazer, alertando e questionando o espectador “sobre o momento que vivemos, em que cada vez temos mais noticiários que difundem o medo e dão tempo de antena a quem o propaga e o incute”.

© DR

Mas o medo, esse sentimento que mina a existência humana, “pouco a pouco torna-se virtualmente a única realidade”, como esclarece Zink na sua ficção mais que verdadeira. E se é capaz de dominar a consciência e colher a dignidade dos que, na cadeia do poder, são o elo mais fraco, também se pode tornar no seu melhor aliado, e atingir os seus próprios instaladores, pois também estes “têm medo da estratégia do medo”, e “pasmam de o ver tão eficaz”, como sugere Inês Pedrosa.

É neste contexto que a trama de suspense criada por Ricardo Leite se enche de complexidade, fazendo prevalecer no desfecho da história a rebelião da mulher, cidadão anónimo, agora no papel de dominador. Porque, como conclui o jovem, “da mesma forma que nos incutem o medo, o jogo pode inverter-se quando e onde menos se espera”. E quando assim é, “o que pode acontecer?”

Cuidado, porque “o medo está instalado”.

Gabriela Costa

Jornalista