Mais cedo ou mais tarde teremos de mudar de estratégia: primeiro fomos obrigados a esconder-nos do vírus, agora teremos de aprender a partilhar o mesmo espaço com ele. Com a pandemia a dar alguns sinais de enfraquecimento, vários são os países – Portugal incluído – que programam o regresso à vida possível pós-Covid. E se para o bem da economia e da nossa saúde mental tal representa uma boa notícia, a verdade é que não temos forma de saber a dimensão do monstro que se encontra lá fora. Muita cautela e uma tomada de medidas eficazes para proteger a população são cruciais para que não deitemos tudo a perder
POR HELENA OLIVEIRA

À medida que o novo coronavírus foi ganhando território numa corrida de fundo em todo o mundo, com mais ou menos urgência todos os países foram obrigados a adoptar medidas duras para minimizar a sua disseminação e não sobrelotar os serviços de saúde. Todos acabaram por ser obrigados a carregar no botão da pausa das suas economias e das vidas dos seus cidadãos, fechando-se empresas, escolas, eventos desportivos, serviços religiosos e outros tipos de reuniões sociais. Neste momento, e em cerca de 188 países, os estabelecimentos de ensino estão de portas trancadas, o que afecta a vida de mais de 1,5 mil milhões de estudantes. As fronteiras estão fechadas e os negócios esperam por dias menos cinzentos.

Mas, e entretanto, apesar de serem vários os países que continuam a ver os seus casos a aumentar de forma preocupante, outros – primeiro na Ásia e agora também na Europa – têm conseguido gerir a pandemia, bem como o achatamento da famosa curva que, de um dia para o outro, começou a fazer parte do nosso “léxico visual”. E, ansiosos por desbravar um caminho ainda repleto de inúmeras e assustadoras incógnitas, governos de todo o mundo são obrigados a triangular a saúde dos seus cidadãos, as liberdades das suas populações e os constrangimentos das suas economias. Podem as escolas ser reabertas? E os restaurantes? Irão as pessoas voltar aos seus escritórios? Vamos poder ir à praia? “As diferentes formas de aliviar o confinamento constituem um tema em torno do qual não existe consenso científico”, afirma a epidemiologista Caroline Buckee num artigo publicado pela revista Science. E a maioria dos investigadores concorda que a reabertura da sociedade, ainda que muito gradual, será uma viagem de longo curso, marcada por tentativa e erro.

Em Portugal, e se entretanto se mantiverem as condições que têm marcado os últimos dias, o estado de emergência cessará a 2 de Maio e, lentamente, o país começará a sair deste isolamento obrigatório. Mas e tal como António Costa já avisou, “até haver uma vacina, temos de manter normas para conviver com o vírus, que vai andar por aí. Este é ainda o momento para manter um grande rigor e disciplina no que respeita à contenção e afastamento social”.

Tal como tudo o que se refere a matéria de Covid-19, a incerteza é dona e senhora de qualquer que seja a possibilidade e, apesar de todos os dias sabermos um pouco mais do comportamento deste vírus, a sensação é a de que o que está ainda por saber ultrapassa o já apreendido. O que não nos confere sossego algum, antes pelo contrário, em particular quando parece faltar pouco para termos permissão para abandonar as nossas casas e regressar ao normal possível. Que o normal já não existe é das poucas certezas que temos. E que nunca mais nada será como antes também. Como afirma também uma investigadora de doenças infecciosas da Universidade de Nova Iorque, Megan Coffee, “tudo o que fizermos terá de ser feito em passinhos de bebé”. E é, obviamente, por causa de tudo isto que nos sentimos “amarrados” e angustiados e que a economia está a colapsar: porque não é possível prever o que nos será permitido fazer ou não, seja nas próximas semanas, meses ou até anos. O que significa que temos de nos preparar para mundo no qual não existe, e muito provavelmente não existirá, qualquer cura ou vacina durante muito tempo. Sim, existirão sempre formas de vivermos neste novo ambiente sem estarmos permanentemente fechados dentro de portas. Aliás, não existe mesmo alternativa. Mas, e mais uma vez, não será um regresso ao normal, mas sim uma reaprendizagem de viver com novas regras de comportamento e de organização social, algumas delas, e muito provavelmente, a persistirem mesmo depois de a crise ter terminado.

Num paper publicado a 14 de Abril último por parte de investigadores da escola de saúde pública da Universidade de Harvard afirma-se que “distâncias sociais prolongadas ou intermitentes poderão ser necessárias até 2022”, data que é igualmente apontada por muitos especialistas como a mais provável para existir uma vacina, mesmo que existam notícias que dão conta de alguns “milagres” precoces. E sim, o que mais interessa saber às pessoas é uma data, nem que seja para, tal como os prisioneiros, podermos ir riscando os dias até lá. Contudo e se existe algo que tenhamos aprendido ao longo destes cerca de dois meses, e apesar de a maioria de nós esperar que algum alívio nos seja permitido muito antes disso, é que não é possível confiar em data alguma, que planos não podem ser feitos, e que, no geral, continuaremos à mercê do comportamento errático de um vírus invisível. E como vai ser viver com isso?

De uma forma muito sintética, o paper em causa, publicado na Science, conclui que um único confinamento não será suficiente para controlar a pandemia e que picos secundários poderão ser ainda mais graves do que o actual, caso não se mantenham restrições continuadas. Poderá ser possível aliviar as medidas de distanciamento periodicamente ao mesmo tempo que os casos se mantenham num número passível de ser controlado pelos serviços de saúde, mas os riscos graves para a saúde decorrentes da infecção para algumas pessoas serão exactamente os mesmos até que uma vacina ou tratamentos eficazes estejam disponíveis. Os autores dizem-se absolutamente conscientes das consequências severas do distanciamento social em termos económicos, sociais e educativos e que o seu objectivo não é o de defender uma política específica. Mas sublinham “o fardo potencialmente catastrófico previsto para os sistemas de saúde se o distanciamento for pobremente eficaz e/ou não mantido durante o tempo suficiente”.

Novos tratamentos, uma vacina ou o aumento da capacidade de cuidados poderão aliviar a necessidade de um distanciamento físico rigoroso, afirmam os cientistas que assinam o paper, mas, “na ausência destes, a vigilância e o distanciamento poderão ter de ser mantidos até 2022”, concluem os autores.

E até lá?

Quando todo o cuidado é (muito) pouco

Tendo em linha de conta que as portas têm de começar a abrir-se, a União Europeia (UE) exortou os seus Estados-membros a coordenarem, de forma estreita, as suas medidas de alívio ao confinamento, ao mesmo tempo que a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem vindo a alertar, continuamente, que todos os passos a serem dados para este regresso têm de ser dados com uma enorme precaução e avaliados criteriosamente.

Ansiosa por evitar o caos que se instalou quando os governos da UE começaram a impor medidas individuais e não concertadas para conter a pandemia, a Comissão Europeia avisou igualmente que o levantar das restrições irá inevitavelmente corresponder a um aumento de novos casos. E nos países em que o surto de encontra razoavelmente controlado, os líderes estão a enfrentar decisões de dificuldade inimaginável no que respeita ao levantar das medidas de confinamento para estimular a economia e evitar uma recessão devastadora, sem poderem deixar de pensar na possibilidade de existir uma segunda onda de infecções.

Se é verdade que já existem indicações que alguns países podem já ter atingido o pico da pandemia, realisticamente demorará ainda algum tempo antes de termos a certeza de que esta não é apenas uma supressão temporária, pois e como sabemos, existem possíveis atrasos nos dados relativos aos números de infectados e mortes até agora reportados. E não é possível esquecer que ao mitigarmos a disseminação do vírus com as actuais medidas de distanciamento social, não estamos só a evitar que mais mortes ocorram, como estamos também a comprar tempo precioso para que os cientistas aprendam mais sobre a doença e sobre o seu padrão de disseminação e para que possam produzir a tão desejada vacina.

Epidemiologistas e especialistas em pandemias são unânimes em alertar para a dificuldade de se aliviar as medidas de contenção ao mesmo tempo que se continua a combater a Covid-19, e serão necessárias gigantescas doses de liderança, coordenação e muito sacrifício. Todavia, as tácticas pelos mesmos aconselhadas não são propriamente desconhecidas, figurando nos livros de epidemiologia. A grande diferença residirá na escala em que estas deverão ser postas em prática, que terá de chegar a níveis jamais vistos. “Se apenas voltássemos à forma como as coisas estavam antes de a pandemia ocorrer, as transmissões recomeçariam de novo com a mesma intensidade, assegura, à revista Vox, Caitlin Rivers, professora no Johns Hopkins Center for Health Security. “É muito difícil conviver com tantas restrições e adversidades e sentirmos que as coisas podem não funcionar. Mas temos de ser pacientes e reconhecer que estamos a fazer o que está certo”, acrescenta.

O mundo está igualmente de olhos postos na cidade de Wuhan, onde a pandemia de coronavírus teve início e que está, actualmente, a aliviar gradualmente as suas medidas de contenção. Depois de 76 dias em isolamento, a cidade chinesa começou a deixar sair os seus residentes numa base limitada. Mas, e muito importante, foi a combinação deste alívio com um programa massivo de rastreio para testar pessoas com risco elevado de contraírem a doença ou qualquer pessoa que tivesse estado em contacto com pacientes infectados. Tal permitiu às autoridades conter o contágio e reduzir o número de casos em 90%.

O que significa um nível considerável de vigilância e controlo social para o qual a maioria dos países ocidentais não está preparada – nem interessada -, apesar de existirem formas de o fazer com menor intrusão. Para muitos especialistas, a capacidade de testar massivamente a população poderá ser a única forma para relaxar as regras de distanciamento social, sendo que os testes deverão ser “duplos” ou seja, capazes de detectar as pessoas que estejam infectadas mesmo que assintomáticas, como também testar os anticorpos, para se encontrar os que já tiveram a doença e estão agora imunes (apesar das incógnitas que também continuam a subsistir nesta matéria). Aos que testarem positivo para os anticorpos poderão ser atribuídos “passaportes de imunidade” ou certificados que lhes permitirão mover-se livremente. A Alemanha e o Reino Unido já fizeram saber que estão a considerar a emissão deste tipo de documentos, sendo que as pessoas que testem negativo para o vírus poderão igualmente circular, mas na condição de serem submetidas a novos testes com regularidade e concordarem em terem os seus telemóveis rastreados, para que possam ser alertados se entrarem em contacto com alguém que esteja infectado.

De qualquer das formas, este controlo rigoroso irá criar ou exacerbar divisões entre “os que têm e os que não têm”. Ou seja, e como alerta um artigo muito interessante publicado na Technology Review, do MIT, entre os que têm trabalho que pode ser feito a partir de casa e os que não têm, entre aqueles a quem será permitido circular livremente e os que não o poderão fazer e, em muitos países, entre os que têm acesso a bons cuidados de saúde e os que não têm. Esta nova ordem social será impensável em muitos países “livres”, mas como também temos vindo a aprender nos últimos dois meses, uma mudança pode tornar-se normal se as pessoas a aceitarem voluntariamente.

Piores notícias, contudo, vêm da ilha japonesa Hokkaido, a qual foi considerada um exemplo de sucesso nas medidas de contenção tomadas e que, em meados de Março, viu os seus casos diminuírem consideravelmente para um ou dois por dia. Animadas pelos resultados, as autoridades resolveram levantar o estado de confinamento, permitindo às pessoas saírem de casa e reabrindo as escolas. Mas e cerca de um mês depois, a 16 de Abril último, Hokkaido viu-se obrigada a retomar o estado de emergência, devido ao surgimento de um número significativo de novos casos de infecção, sem indícios de que o vírus tenha sido contraído fora do Japão, ao contrário do que aconteceu na primeira vaga. Situação similar está a ocorrer igualmente em Singapura, considerada como um excelente exemplo de governação em tempos de pandemia por Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da OMS, e que se confronta igualmente com uma segunda vaga de casos 20 dias depois de ter dado a situação como controlada e ter aliviado as medidas de contenção.

O que só contribui para que toda a atenção seja pouca no que respeita às estratégias de “reabertura da sociedade”.

Reaprender a viver no mesmo espaço em que circula um vírus que pode ser mortal

Se todos nós reconhecemos que vivemos tempos muito estranhos, parecem existir outros tantos que continuam a acreditar que esta é apenas uma fase passageira e que, mais cedo ou mais tarde, as nossas vidas voltarão ao que já foram em período pré-pandemia. Mas é unânime a ideia de que tal não voltará a acontecer, pelo menos nos meses e/ou anos mais próximos.

É possível afirmar que o coronavírus é revolucionário não só devido ao sofrimento que já causou, e que continua(rá) a causar, mas porque, tal como outras doenças como a peste bubónica, a malária ou o HIV, tem o poder de reformular as normas sociais vindouras. E a verdade é que estas normas mudam a uma velocidade surpreendente. Quem é que iria imaginar, há apenas dois meses, que ficar fechado em casa acabaria por se transformar numa rotina para a maioria de nós?

Mas a verdade é que, e nunca é demais voltar a sublinhar, até que os cientistas descubram uma vacina ou que sejam desenvolvidos fármacos eficazes no tratamento da Covid-19, as pessoas em todo o mundo terão de voltar a trabalhar, socializar e a partilhar o mesmo espaço com um vírus que mata. E o ano ou anos que se seguirem ao aliviar das medidas de confinamento não será, decerto, caracterizado por uma verdadeira retoma. Na melhor das opções, e como se escreve num artigo da revista The Atlantic – com o assustador título de “Depois do distanciamento social, um estranho purgatório nos aguarda”, o que é mais provável acontecer será a existência de uma retoma adaptativa, na qual aprendermos a viver com o vírus será a nossa única alternativa. E já há quem esteja a passar por essa nova experiência. Para além da utilização generalizada de máscaras, talvez tenhamos de nos habituar a que a nossa temperatura seja medida em espaços públicos, a fazermos esfregaços nos aeroportos, a termos de viajar em voos reservados para diferentes grupos de passageiros, a sermos obrigados a cumprir um conjunto de regras apertadas nos transportes públicos, a não nos podermos cumprimentar com um aperto de mão e a esquecer o quão bom é um abraço.

Mas isto será apenas o início. E se na maioria das demais catástrofes, a retoma ocorre algum tempo depois – seja o fim da terra que treme ou o ciclone que perde a sua força – e a ameaça diminui, seguida pelo enterrar dos mortos e o voltar a cuidar dos vivos, até que a sociedade volte ao normal, a crise do coronavírus seguirá, certamente, uma trajectória muito diferente. O ensino e o trabalho reger-se-ão por novas regras, poderá ser obrigatória a adopção de viseiras faciais que protejam toda a cara para assistir a eventos desportivos ou a concertos, experiências colectivas relacionadas com as artes só serão possíveis depois de seguidos rigorosos protocolos de saúde, a ida a museus, teatros ou cinemas terá de ser marcada com antecedência, o número de mesas nos restaurantes e esplanadas terá de ser reduzido cumprindo as distâncias de segurança, ao passo que os menus deverão ser descartáveis, os serviços religiosos terão de se reinventar e visitar a família ou o amigos deixará de ser um acto espontâneo, mas antes cuidadosamente planeado.

No fundo, novas expressões de amor, companheirismo e relacionamentos humanos serão testados e nem toda a gente conviverá de bom grado com as novas regras, com outros tantos a evitarem, talvez de forma mais reflexiva do que intencional, qualquer tipo de contacto com o seu próximo.

Sim, é verdade que o mundo não poderá continuar com trancas à porta, que a economia precisa de ser reanimada e que nós próprios, para bem da nossa saúde mental, precisamos de retomar as vidas que deixámos em suspenso.

Mas entre a pressão para que tal aconteça o mais rapidamente possível, há que imperar a cautela e o bom senso, em conjunto com a aprendizagem de lições que nos estão a ser veiculadas por outros países e regiões que já iniciaram este novo caminho. Depois de nos escondermos do vírus, virá o dia em que teremos de o enfrentar. Mas, para isso, é crucial ganharmos a confiança necessária de que existem condições para abrirmos a porta e não deitarmos tudo a perder.


OMS: “O pior ainda está para vir”

O alerta é dado, e mais uma vez, pelo director-geral da Organização Mundial de Saúde, numa conferência de imprensa ocorrida na passada segunda-feira. Apesar de não ter especificado exactamente o que significa “o pior”, Tedros Adhanom Ghebreyesu sublinha a ideia de que apenas uma pequena proporção da população mundial – entre 2% a 3% – parece ter desenvolvido os anticorpos necessários para combater a doença, mesmo em áreas que foram seriamente afectadas pela mesma, o que significa que a imunidade é preocupantemente baixa.

Mary van Kerkhve, especialista em doenças infecciosas e uma das responsáveis pelo trabalho que a OMS está a desenvolver no que respeita à Covid-19, acrescentou que os dados preliminares sugerem que existem muito menos pessoas infectadas do que aquilo que se esperava. Apesar dos estudos serológicos apresentarem ainda erros e limitações, é certo que “uma vasta gama da população permanece ainda susceptível”, o que significa “que o vírus vai continuar a atacar”. Mary van Kerkhve acrescenta ainda que estes números demonstram o quão vital é, para os países que se preparam para aliviar as medidas de distanciamento social, fazerem-no de “forma lenta, escalonada e controlada, assegurando que os sistemas devem estar preparados para detectar os casos, isolar o vírus, seguir as cadeias de transmissão e ter locais apropriados para que as pessoas recebam os cuidados necessários”.


1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns, excelente este artigo, aborda assuntos fundamentais e que infelizmente não são apresentados nos meios de comunicação generalistas.

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