As empresas têm um papel essencial na retoma económica do País. Quem o diz são não só os líderes empresariais, mas também os dirigentes de topo das mais representativas organizações do Terceiro Sector, para quem é necessário encontrar uma relação de custo/eficácia social, para garantir a oportunidade de decidir o futuro

POR GABRIELA COSTA

O tão aclamado alinhamento das estratégias de sustentabilidade com as estratégias de negócio faz-se com boas doses de visão e coragem. Mas, em conjuntura de crise e de sobrevivência para muitas empresas, onde fica a responsabilidade social de empresários e gestores? Como questiona um dos líderes contactados para este Especial, será esta um artigo de luxo para usar apenas em tempo de bonança económica? Bem pelo contrário, é em momentos como o que o País atravessa que a RS ganha maior acuidade, e que o imperativo ético da gestão mais necessário se torna.

Os empresários não podem resolver os graves problemas com que a economia e a sociedade portuguesa se confrontam. Mas podem – e devem – contribuir para atenuar o crescente sofrimento social, pois é essa a sua “obrigação indeclinável”, num país onde grassa a pobreza, a exclusão social e o desemprego.

“O alinhamento das estratégias de sustentabilidade com as estratégias de negócio faz-se com boas doses de visão e coragem” .
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Trata-se, pois, de uma luta que exige uma nova consciência social, uma consciência colectiva. E, se este momento de mudanças e de transformações profundas coloca as pessoas e as famílias perante situações para as quais não estavam preparadas, o desafio que se coloca às empresas é o de encontrar uma relação de custo/eficácia em termos sociais que tenha um contributo significativo na comunidade. Ou, especialmente no caso das organizações da sociedade civil, o de encontrar novas estratégias para (re)inventar a solidariedade, passando das acções terapêuticas às preventivas, e das consequências às causas.

É preciso apostar na diferenciação e no trabalho em rede, apoiando a Economia Social a partir de paradigmas como a cooperação, a participação política, a iniciativa voluntária ou a sustentabilidade financeira da gestão. É preciso, acima de tudo, não desistir de prosseguir e, até, reforçar as estratégias de sustentabilidade em 2012, pois só estas permitem pensar no médio e longo prazo, criando um espaço de inteligência prospectiva que abre a porta a inovações e ideias que evoluem para novas práticas de gestão.

Como reflectem os testemunhos compilados neste Dossier, os dirigentes de algumas das mais representativas estruturas do Terceiro Sector, o maior desafio de hoje é não desistir de preparar o futuro. Para ganharmos a oportunidade de o decidir.

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Fernanda Pargana, secretária geral do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável – BCSD Portugal
“O BCSD Portugal desenvolve a sua actividade na firme convicção de que as empresas irão liderar o caminho para o desenvolvimento sustentável. Porquê as empresas? Porque são elas que têm os meios, o conhecimento e, muito importante, a motivação para, em parceria com os vários agentes da sociedade, acelerar de forma eficaz a concretização das políticas para o desenvolvimento sustentável.

A motivação advém do facto de que aqueles que arriscaram implementar a inovação neste campo, são também quem se destacou positivamente e conseguiu criar e conquistar novos mercados e geografias, representando hoje histórias de sucesso empresarial.

O BCSD Portugal está ciente de que as empresas devem ter um papel essencial na retoma económica do País. Foi por isso que lançou o tema no seu evento de referência anual, realizado em Setembro último: “Mudar o rumo: o que podem as empresas fazer pela sociedade?”. A presença de alguns dos mais importantes líderes empresariais nacionais é testemunho do seu real compromisso e envolvimento na concretização destes objectivos. Estamos, por isso, confiantes de que vamos ajudar a dar passos essenciais na direcção de um maior bem-estar social”.

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Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa
“Na Carta Encíclica Caridade na Verdade, Bento XVI previne: ‘a crise obriga-nos a projectar de novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas e a encontrar formas de empenhamento, a apostar em experiências positivas e a rejeitar as negativas. Assim, a crise torna-se ocasião de discernimento e elaboração de nova planificação. Com esta chave, feita mais de confiança que de resignação, convém enfrentar as dificuldades da hora actual’.

As IPSS têm contribuído decisivamente para atenuar os efeitos penosos dessas dificuldades, empenhando-se directamente com as pessoas na superação das suas carências. Mas também a elas se lançam decisivos desafios: reforçar os princípios e dinamismos da Economia Social, apostando numa formação socioeconómica baseada na relação; cooperar para um novo modelo de governação, a vários níveis, sem esquecer o das próprias IPSS e o das nossas vidas, combatendo o desperdício, o luxo desmesurado, aquilo que é inútil; fazer emergir valores genuinamente humanos para que a solidariedade se torne cultura, investindo na educação para os valores; contribuir para a consciência de que os bens materiais possuem um valor social, exigido pelo princípio do seu destino universal; trabalhar em rede para construir em conjunto as soluções que todos precisam.

A luta contra esta crise exige uma nova consciência social. Porque o combate à crise tem que ser de toda a sociedade e não apenas de alguns. Se assim for, a capacidade para influenciar as decisões políticas reforçará, decisivamente, o empenho dos governos em cumprir compromissos assumidos”.

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Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS)
“O momento actual, de mudanças e de transformações, coloca as pessoas e as famílias perante situações que não previam e para as quais não estavam preparadas. O crescimento do desemprego, a insuficiência de rendimentos, o envelhecimento da população, a não fixação das populações no interior, a crise dos subúrbios urbanos e o ressurgimento do fenómeno dos sem-abrigo caracteriza a realidade dos nossos tempos.

Falamos das situações de pobreza, mas também de exclusão social, em que as pessoas são “atiradas” para a periferia da sociedade, ficando impedidas de participação na vida social e com acesso restrito ao poder, mesmo aos organismos de proximidade. Falamos nas situações de exclusão em que as pessoas ficam sem Vez, mas também ficam sem Voz.
A par disto, e não menos preocupante, assistimos a um processo crescente de desagregação das famílias, a uma crise de valores, de confiança, de auto-estima e também a uma crise de esperança. O desafio é encontrar novas estratégias para (re)inventar a solidariedade, passando do terapêutico ao preventivo e das consequências às causas.

Vários paradigmas são simultaneamente novos – na melhoria constante de serem continuados -, e actuais, porque são já os que procuramos prosseguir: cooperação para potenciar a acção; definição de medidas políticas simplificadas, integradas, transversais, coerentes, participadas e eficazes, que reduzam as proporções da dependência dos grupos sociais excluídos; promoção da solidariedade familiar; novas redes de parcerias com o envolvimento das Instituições de Solidariedade e das outras famílias da economia social, dos agentes económicos e das autarquias; valorização do voluntariado; e, não menos importante, sustentabilidade financeira na gestão. Neste último aspecto, importa ter em atenção que uma resposta social, para ser sustentável, deverá ter em conta a sua qualificação através de uma gestão profissional, dos objectivos em que se baseia, da transparência dos processos e, no caso das IPSS, do exercício da solidariedade”.

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Luís Barbosa, presidente nacional da Cruz Vermelha Portuguesa
“Numa primeira fase, as questões de responsabilidade social e sustentabilidade começaram por ser “moda”. Os empresários aderiram porque a ideia era nova e simpática. Actualmente, e regra geral, as empresas têm uma atitude voltada para o marketing, publicidade e imagem. Estes aspectos falam-lhes à alma e, não há dúvida, têm impacto. Esta posição não se deve pôr de parte e a atitude da empresa não tem de ser ‘low profile’.

No entanto, e na área da responsabilidade social, o desafio que se coloca às empresas é o de encontrar uma relação de custo/eficácia em termos sociais que tenha para a comunidade um contributo significativo. É o desafio de garantir que as iniciativas têm profundidade.

Não é apenas a “aparência” que conta, mas sim a profundidade que se atinge. Deve existir um equilíbrio entre uma boa imagem e os resultados sociais. No caso de algumas empresas, esse equilíbrio já foi encontrado, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

A responsabilidade social das empresas não é diferente de tudo o resto que tenha a ver com a gestão empresarial do dia-a-dia. Assim, esta área deve ser vista como um produto do contributo para a comunidade, que tem de ter a mesma garantia de qualidade e eficácia de toda a actividade empresarial.”

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Nuno Fernandes Thomaz, presidente do Conselho de Administração do Fundo de Investimento Bem Comum
“Uma empresa é mais do que uma fornecedora de bens ou serviços. Os que lideram responsavelmente a vida de uma empresa devem querer que ela seja um respeitável e respeitado membro da comunidade. E como o pode ser? Adoptando uma cultura na qual, para além dos valores económicos, se defendam os valores da justiça, da solidariedade, do respeito e da equidade, da dignidade humana.

É óbvio que o crescimento económico de uma empresa é fundamental, já que o seu desenvolvimento é condição essencial da sua sustentabilidade, e esta é condição essencial do cumprimento das suas responsabilidades presentes e futuras. Mas esse crescimento não é um fim em si mesmo, antes um meio para atingir o objectivo primordial de toda e qualquer empresa: o Bem Comum de todos os que com ela estejam envolvidos.

Ora, em tempo de crise e de sobrevivência para muitas empresas, onde fica a responsabilidade social de empresários e gestores? Será esta um artigo de luxo para usar apenas em tempo de bonança económica? Bem pelo contrário, é em tempo de crise que a responsabilidade social ganha maior acuidade, e que os valores permanentes sobre os quais ela assenta maior peso adquirem, em sede de imperativo ético de gestão.

Mas podem os empresários resolver todos os problemas, e bem graves são, da nossa economia e da nossa sociedade? Não, mas podem – e devem – contribuir, dentro do maior ou menor universo da sua actividade empresarial, para atenuar esses problemas, diminuindo o enorme sofrimento social existente. E essa é obrigação indeclinável, num país onde grassa tanta pobreza, onde a exclusão social é tão grande e a chaga do desemprego não para de aumentar.”

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Conceição Zagalo, presidente da Direcção do GRACE – Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial
“Desafio e oportunidade são dois fundamentos indispensáveis quando o tema é a sustentabilidade empresarial, de que tanto depende o desenvolvimento sustentável. Os desafios são gigantes, sabemo-lo. As alterações climáticas, a perda de biodiversidade, a globalização, a pobreza, o crescimento populacional e a degradação do ambiente são riscos sérios que marcam a agenda do século e que impactam o desempenho das organizações que façam questão de continuar a existir e a prosperar.

A solução? Pois bem, voltamos a mais um desafio. Talvez o maior de todos e o mais fácil de ultrapassar. Apenas precisamos de boas doses de visão e coragem. Falamos pois do tão aclamado alinhamento das estratégias de sustentabilidade com as estratégias de negócio. Chama-se a isto transformar riscos em oportunidades, chama-se a isto Gestão Responsável.

Que oportunidades? Oportunidades para reduzir custos prosseguindo a eficiência. Oportunidades para construir e manter relações consistentes com fornecedores e clientes. Oportunidades para criar um ambiente de trabalho que atrai e retém talento. Ou ainda para conquistar licença social para operar, que só a comunidade concede. E não são estas as oportunidades capazes de passar uma “valente rasteira” à fragilidade sentida na nossa economia?

Posto isto, resta-me colocar desafios e oportunidades na mesma equação e fazer contas. E é de uma soma aritmética que resulta o valor partilhado que faz prosperar sociedades, o planeta, e as próprias empresas”.

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Pedro Líbano Monteiro, director de Novos Negócios e Apoio ao Conselho do Montepio Geral
“Na actual conjuntura, o grande desafio que se coloca ao Montepio é o da aposta na diferenciação e na contínua afirmação enquanto instituição da Economia Social criada por pessoas e para as pessoas. Acreditamos que só atingiremos os nossos objectivos se trabalharmos lado a lado com as instituições da Economia Social e com os empreendedores. Para tal, fomentamos parcerias, construímos redes de cooperação e aprofundamos relações. Exemplo disso é o protocolo que firmámos com o Ministério da Solidariedade e Segurança Social, a CNIS, a União das Mutualidades Portuguesas e a União das Misericórdias Portuguesas, e que nos permitiu disponibilizar uma linha de crédito exclusivamente dedicada à Economia Social.

Apoiar o sector social da economia, desenvolver o microcrédito, trabalhar em parceria, impulsionar ainda mais o voluntariado empresarial são, entre tantos outros, objectivos a que nos comprometemos, determinados a contribuir para o bem-estar dos nossos associados e clientes e, por igual, para o desenvolvimento do País”.

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Nathalie Ballan, partner da Sair da Casca
“Para que serve uma estratégia de sustentabilidade ou de responsabilidade social em 2012? Permite pensar no médio e longo prazo, criar um espaço de inteligência prospectiva, abrir a porta a inovações, a ideias que nascem e se desenvolvem em novas práticas de gestão, produtos ou serviços que permitem mitigar impactos ambientais,  ter um consumo mais sustentável ou, ainda, gerar uma maior equidade social. Qual é o maior desafio? É este: não desistir de preparar o futuro. E qual é a maior oportunidade? Idem: preparar o futuro. Decidir o nosso futuro.

Quanto às principais prioridades, destaco as que são inerentes ao lema do Rio+20, o qual integra a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza.”

Gabriela Costa

Jornalista