Fruto de uma reflexão e partilha ao longo de três anos, o confronto entre amor e economia foi publicado em livro, intencionalmente escrito para ser lido por líderes empresariais que prezam o valor do tempo. Assumindo que não foi fácil escrever sobre dois mundos aparentemente desconexos, o autor, António Pinto Leite, fala do diferente feedback que tem recebido – do entusiasmo à indiferença -, não deixando, porém, de reafirmar que o valor económico do amor é tema de discussão nos meios académicos e empresariais e, por conseguinte, de investigação científica
POR HELENA OLIVEIRA

.
.
© DR
.

Como foi “crescendo a semente” para começar a reflectir/escrever sobre um tema tão ousado como o “o amor como critério de gestão”?
O meu livro foi fruto de um acontecimento, no dia 17 de Abril de 2009, conforme descrevo no primeiro capítulo. Deparei-me, de surpresa, com uma frase de um livro que retirei ao acaso da estante: «O centro vital da ética cristã é o amor». Nunca tinha pensado nestes termos, media a ética pelos conceitos de seriedade e de responsabilidade. Estranhei não me lembrar de ter ouvido falar assim. Nunca tinha visto o amor associado à ética e, ainda menos, à ética nos negócios. Nem a Igreja usa a palavra amor quando aborda a vida empresarial. Compreendi que tinha sido confrontado: havia que colocar o amor e a economia frente a frente.

A palavra “amor” ser dita nos negócios, com todos os seus riscos e equívocos, fazia toda a diferença. Senti algum pudor em falar assim, confesso, mas a ética libertária, que impede que algo de importante dentro de mim fique por assumir, ajudou. O resto foi com Deus.

Teve, desde o início do processo, a ideia de que este tema poderia ser transformado em livro – com o objectivo de partilhar os seus argumentos, contagiando gestores e decisores – ou começou por ser uma pura reflexão pessoal que foi gradualmente evoluindo?
Logo na altura formei a ideia de escrever um ensaio sobre o tema. Senti-me agitado, mesmo na minha tradicional racionalidade. O ensaio tinha que ser breve para que os líderes empresariais o lessem. Ao longo destes últimos três anos fui partilhando a ideia com muitas pessoas, sobretudo no âmbito da ACEGE, cujo papel tem sido fundamental. Também fiz conferências sobre o tema, em meios académicos, em meios empresariais, em meios católicos. Guardei sempre a sensação de que se tratava de um choque, de uma surpresa, mas um choque positivo, uma surpresa boa. No fundo, as pessoas reagiam como eu próprio reagi quando li a frase: isto – e só isto – faz sentido, mas como harmonizar a gestão empresarial e a economia com o amor?

O livro não era fácil de escrever. Primeiro, porque era preciso manter os dois mundos, o do amor e o da economia, ligados pela tensão racional. Era preciso perceber, eu próprio queria perceber, como se conjuga o amor na economia, como factor de desenvolvimento e não como sentimentalismo lindo mas ruinoso. E, como cristão, queria entender como Deus olha para a economia, no fundo, como olha para a nossa civilização, desde que se levanta até que se deita.

Em segundo lugar, não é fácil falar de amor no mundo dos negócios, sobretudo a homens e entre homens. As mulheres aderem espontaneamente ao tema, os homens nem sempre. Até por isso me pareceu essencial escrever, dar ao tema uma âncora, um ponto de partida fixo.

Sinto-me obrigada a citar a opinião de João César das Neves, quando fez uma “revisão” do seu livro e que diz: Parte de um princípio simples: ‘o centro vital da ética cristã é o amor” (p. 23), ideia que repetidamente revolucionou o mundo e não perdeu eficácia ou vigor em 2000 anos. Só que Pinto Leite está a escrever para gestores actuais, que não podem perder tempo com poesias. O seu desafio é levar o princípio à prática sem negar nada dessa prática ou desvirtuar a inspiração. Até o laconismo das 84 páginas cumpre as exigências de administradores ocupados” . Laconismo de 84 páginas num tema tão complexo de implementar, ou pelo, contrário, na simplicidade é que pode estar o ganho?
O comentário do João Luís César das Neves encheu-me de esperança. Parece que escrevemos o livro em conjunto, de tal modo ele encontrou os pontos nucleares da minha reflexão. Ele tem razão: o laconismo das 84 páginas foi intencional. Faço parte da tribo da liderança empresarial e um livro como este ou é breve – lê-se em duas horas – ou não é lido. A dimensão do texto não é importante para explicar um conceito, o importante é dizer o essencial e só o essencial. O D. Manuel Clemente, quando apresentou o livro no Porto, em Serralves, disse uma coisa que me agradou muito: o livro não tem uma palavra a mais. Sei que tem muitas palavras a menos, mas já é bom que não tenha palavras a mais.

Que tipo de feedback tem tido por parte de quem já leu o seu livro?
O feedback quando é explícito é sempre tocante. A maioria das reacções são muito entusiasmadas e esse entusiasmo é muito interpelativo. Recebo também análises muito interessantes sobre o tema e pistas para outros autores. Recebo muitos silêncios interiorizados. Também tenho o feedback da indiferença. Mas não estranho que assim seja. O penúltimo capítulo do livro chama-se «O deserto», porque não perco a lucidez: «Com este critério, estou ciente, chegámos ao deserto». O deserto é uma fatalidade, como é um desafio. E para um cristão que está focado na eternidade é um imperativo aceitar o deserto e o seu desafio.

Como presidente da Associação Cristã de Empresários e Gestores, que planos tem esta última para semear e enraizar esta ideia nos gestores vossos associados?
O ciclo de 2012/2013 terá Amor e Economia como referência. Haverá muitas sessões por todo o país para debater o tema, haverá reflexões aprofundadas no âmbito dos grupos ‘Cristo na Empresa’. Será publicado até final do ano o livro com as intervenções sobre o amor como critério de gestão que foram feitas no congresso de Junho. O meu livro foi circulando por todos os bispos portugueses e muitos sacerdotes, como será o livro do congresso. Conto voltar a participar em debates universitários, em meios empresariais e em meios católicos. Conto que muitos associados da ACEGE, pessoas de primeiro nível, se disponibilizem para participar nesse tipo de debates. Gostaria de conversar sobre o tema com sectores sindicais.

O livro será traduzido para inglês e enviado às congéneres internacionais da ACEGE. É essencial que a palavra amor não seja escondida quando se trata de economia, sobretudo nos meios católicos, cuja responsabilidade é ainda maior.

Estou a analisar a distribuição do livro no Brasil e em Angola, assim como enviarei a versão inglesa para as principais universidades estrangeiras. O valor económico do amor é um tema de investigação científica.

Como vislumbra a possibilidade de existirem empresas nacionais, não necessariamente geridas por gestores católicos, a integrarem e praticarem esta ideia na sua missão corporativa, visto que é (ou devia ser) uma mensagem universal?
O amor não é um exclusivo católico, é a essência e vocação de todo o ser humano. O cristianismo não tem o monopólio da lei natural. Este conceito ético e de gestão – o de tratarmos os outros como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar deles – é património natural de todos os homens e mulheres de boa vontade que estão em missões de liderança empresarial.

Uma última pergunta: o que pretende dizer quando escreve que deve existir “uma modificação genética do conceito de lucro”?
Esse foi um dos pontos teóricos mais difíceis da minha investigação. O lucro consiste no retorno financeiro dos capitais investidos. Ora, o amor como critério de gestão seria, a meu ver, inviável, se eu concluísse que determinaria, por definição, o colapso desse fundamental da economia que é a maximização do lucro. A solução foi encontrada na compensação que eu próprio e tantos outros procuramos para os capitais que investimos: para além do retorno financeiro, muitos investidores procuram outro tipo de retorno – ou seja, de lucro – para o capital que investem: procuram também compensação de natureza não material. Procuram retorno e compensação em oferecer salários elevados, em proteger as gerações futuras, em ajudar a comunidade, em fazer pessoas felizes, etc. Tudo isto é procurado por muitos investidores como retorno do capital investido. A modificação genética do conceito de lucro significa defini-lo de outro modo: lucro é o retorno, de ordem material e imaterial, que compensa adequadamente aquele que investe o seu capital numa empresa, no quadro da definição de interesses e motivações que o próprio investidor tem e estabelece. A noção de lucro imaterial parece-me uma ideia inovadora e transformadora e merecedora de investigação científica, quer porque permite actuar nas motivações dos investidores com o que isso pode trazer de progresso e de justiça, quer porque exige a redefinição das métricas do sucesso empresarial.

Helena Oliveira

Editora Executiva