A atmosfera é multifactorial. É um sistema caótico e as previsões que se fazem na actualidade nada têm a ver com as que se efectuavam há 30 ou 40 anos. Há mais modelos, mais indicadores, melhores leituras de satélite, mais estações, melhores estações e mais gente dedicada ao clima. Sabe-se agora muito mais do que em meados do século XX. E tratando-se deste sistema caótico, há muitas possibilidades meteorológicas, mas o consenso científico assegura-nos que há alterações climáticas antropogénicas. É difícil escapar ao tribunal das provas físicas
POR PEDRO COTRIM

O tempo que faz é sempre tema de conversa e será sempre um dos tópicos sagrados em qualquer ocasião. Se pensarmos num dia particularmente feliz da nossa vida, bem nos lembramos do tempo que fazia. Do mesmo modo para um dia triste.

Tivemos cheias em Dezembro, sobretudo nas zonas mais densamente povoadas do país. A situação caótica vivida em Lisboa e no Porto bem ilustra a necessidade de planeamento urbano adequado e a necessidade absoluta de gestão ambiental. Por outro lado, não houve dias frios neste Outono/Inverno. Nevou na Serra da Estrela apenas numas três ou quatro ocasiões. São indicadores péssimos.

Sabemos que um ano não faz o clima, mas as normais climatológicas acomodam as mudanças e bem mostram o que tem sucedido nos últimos anos. E este mês de Dezembro entrou para a história da meteorologia como o mais quente desde que há registos.

Nas cidades do litoral ainda não precisámos de cachecóis. A média das mínimas foi absurdamente elevada, sendo, em alguns casos, bastante superiores à que verificam em pleno Verão. As médias de Dezembro de 2022 foram inéditas: Bragança teve +6° C de média das mínimas e +11° C na média das máximas, valores perfeitamente ajustáveis ao  Porto para o mesmo mês. As médias de Dezembro, de uma forma geral, foram iguais às normais climatológicas de Março ou Abril, o que bem revela a magnitude desta estranheza. E tem tudo a ver com Alterações Climáticas?

A atmosfera é multifactorial. É um sistema caótico e as previsões que se fazem na actualidade nada têm a ver com as que se efectuavam há 30 ou 40 anos. Há mais modelos, mais indicadores, melhores leituras de satélite, mais estações, melhores estações e mais gente dedicada ao clima. Sabe-se agora muito mais do que em meados do século XX. E tratando-se deste sistema caótico, há muitas possibilidades meteorológicas, mas o consenso científico assegura-nos que há alterações climáticas. É difícil escapar ao tribunal das provas físicas.

Há dois anos houve neve no Alentejo e noutras zonas a cotas baixas do país. Pouco frequente, mas absolutamente normal. Há poucos anos nevou no litoral e em anos recentes consecutivos nevou em Lisboa. Também nada de muito extraordinário. Sabemos desde a escola que Portugal se encontra na zona temperada do Hemisfério Norte. A latitude média é de 40 graus, estando quase a meio caminho entre o Pólo Norte e o Equador. A resposta servirá, certamente. Aliás, nas nonas litorais leste dos continentes, nomeadamente da América e da Ásia, o gelo e a neve chegam muito mais a sul que na Europa. A circulação nas latitudes médias é Oeste-Leste, que deposita na East Coast e na China os ventos do Alberta, do Minnesota e da Sibéria. À Europa chega, dum modo geral, o ar do Atlântico. Salva-nos dos Invernos terríveis, mas traz-nos muita precipitação ocasionalmente muito concentrada no tempo. Houve efectivamente cheias gravíssimas no nosso país e continuará a haver (a imagem é das cheias de 1967 na zona de Algés e pertence ao arquivo da Câmara de Oeiras).

Mas ocorre um fenómeno recente impulsionado pelas Alterações Climáticas: o aquecimento do Árctico. Com o aquecimento do Árctico, aumenta a instabilidade do jet stream polar, que origina deslocamento do famoso vórtice polar. E o vórtice polar tem especial apetência pela América do Norte e o seu formato em «V» que se estendo quase até lá acima. O bom do vórtice, em vez de água amena, prefere terra firme fresquinha. Ora aí está tudo.

Houve um Dezembro gélido nos Estados Unidos, como todos vimos. Em Denver, a temperatura baixou de +6° C para -12° C em cinco minutos. Houve cidades com diferenças de trinta graus celsius de um dia para o outro. Nevou à latitude do Saara Ocidental ou da Madeira ao nível do mar. As iguanas da Florida entraram em hipotermia e caíram das árvores. No interior dos EUA e do Canadá estiveram cinquenta graus abaixo de zero.

O ar polar atravessou a América e chegou ao litoral. Foi-se dissipando pelo Atlântico e a corrente do Golfo trouxe instabilidade à Europa. Não é aritmética porque, como já se disse, a atmosfera é multifactorial, mas os dois eventos estarão relacionados. Houve também ar do Saara a aproveitar o fluxo das depressões para subir pela Europa, e no dia 1 de Janeiro estiveram vinte graus positivos em zonas em que a norma climatológica nos diz que a média anda à volta dos zero graus. Os polacos ficaram abesbílicos.

Na zona dos Alpes houve mínimas de +17°, superiores às de muitas cidades portuguesas em Agosto. Foi, nas palavras de alguns especialistas, o evento meteorológico mais extremo desde que há registos.

Por aqui as barragens encheram-se. Não é o clima ideal haver três meses de seca e depois um dilúvio, mas foi o que sucedeu.

Há classificações meteorológicas para o clima de Portugal. Temos a sorte de não viver noites tórridas como sucede no litoral do Mediterrâneo – as afamadas «noites tropicais», em que a mínima não baixa dos 20°, são a excepção, não a norma. Em Julho de 20200 percebemos o que é viver com várias consecutivas e não nos agradou. Tivemos também vários dias consecutivos com máximas de quarenta graus nos vales do Tejo e do Douro, o que era impensável há uns anos. E agora temos um Inverno com sabor a Primavera e solo nu onde costuma haver neve abundante.

Por norma, no Inverno, que, meteorologicamente, começou no dia 1 de Dezembro, temos fluxo de oeste e superfícies frontais. Em Portugal, a neve cai ocasionalmente acima dos 400/500 metros de altitude e com grande frequência acima dos 800/900. Este ano a cota não terá baixado dos 1600 metros. Quando há fluxo de leste, habitualmente fica um frio de gelar ossos, mesmo nas cidades litorais. Nada disso se viu ainda, apenas este baldear de água dos céus.

É o mundo do futuro. Imprevisível, como sempre, mas os cientistas bem advertem que Londres terá o clima de Barcelona daqui a vinte anos. Se assim for, como estará o resto do mundo?

Pedro Cotrim

Editor

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