O que gostava de destacar nesta pequena discussão é que Portugal sobreviveu à primeira crise [de 2008] e também vai sobreviver à segunda. Sim, é verdade que uma parte considerável do nosso tecido económico não aguentou. Sim, é verdade que as empresas que sobreviveram passaram por bastantes dificuldades e que muitos portugueses foram apanhados nos famosos despedimentos coletivos. Mas também é verdade que nos reinventámos. Portugal tornou-se uma “nação start-up”
POR FERNANDO FRAGA

Se há uma coisa que a crise económica nos mostrou é que nada está garantido. Aquele cliente que já tenho há anos e todos os meses faz uma encomenda recorrente? Se calhar fechou. O parceiro que pega no meu produto e o exporta para os EUA? Talvez já não consiga continuar a enviar. O distribuidor que coloca o meu produto no cliente final? Como tem menos clientes vai ter de devolver metade da frota automóvel e já não consegue fazer o trabalho. De facto, o COVID-19 veio criar alterações profundas nas empresas portuguesas!

Agora proponho um exercício: releia o parágrafo anterior pensando não na crise provocada pelo COVID-19, mas sim na crise económica de 2008. Continua a fazer sentido, certo? Apesar de algumas diferenças óbvias (a crise de 2008 foi estrutural e a atual é provocada por uma crise sanitária, a crise de 2008 sentiu-se maioritariamente num número limitado de países e a atual é global, etc) existem vários pontos comuns entre ambas as crises económicas e, se não soubermos de qual delas estamos a falar, quase que se podem confundir uma com a outra.

O que gostava de destacar nesta pequena discussão é que Portugal sobreviveu à primeira crise e também vai sobreviver à segunda. Sim, é verdade que uma parte considerável do nosso tecido económico não aguentou. Sim, é verdade que as empresas que sobreviveram passaram por bastantes dificuldades e que muitos portugueses foram apanhados nos famosos despedimentos coletivos. Mas também é verdade que nos reinventámos. Portugal tornou-se uma “nação start-up”. Demos margem a novos negócios para crescerem e prosperarem. Apareceu uma nova geração de empreendedores que tornaram Portugal ainda mais competitivo. Não estou com isto a dizer que a crise de 2008 não foi grave nem que valeu a pena. O que estou a dizer é que existem oportunidades em todas as crises e a crise económica provocada pelo COVID-19 não vai ser excepção.

Durante o período de confinamento os empresários portugueses já mostraram ter uma capacidade de adaptação única face às adversidades. Tivemos empresas da indústria alimentar que, do dia para a noite, adaptaram os seus processos produtivos para desenvolver álcool gel. Outras ligadas ao vestuário que rapidamente começaram a produzir máscaras. Com muito pouco tempo de avanço conseguimos fazer autênticos milagres na transformação das empresas à realidade do COVID-19 e do confinamento, mas agora falta o principal: conseguirmos preparar essas mesmas empresas para o pós-COVID-19 e para as novas realidades de mercado.

Já aguentámos o sprint, mas será que vamos aguentar a maratona? O país mudou e não vai voltar atrás. A confiança nas lojas online saiu reforçada e o e-Commerce ganhou mercado. Ter online meetings passou a ser normal, seja com parceiros do outro lado do país ou do outro lado da rua. Muitas das cadeias de distribuição sofreram enormes alterações e são vários os produtores que durante o confinamento passaram a vender diretamente ao cliente final. Com tantas alterações, apenas as empresas que se conseguirem adaptar a esta nova realidade é que irão conseguir sobreviver.

Na Acredita Portugal apoiamos todos os anos mais de 10.000 projetos empreendedores a estruturarem-se e desenvolvemos mais de 1.000 planos de negócio. Graças a parceiros como o Banco Montepio, Brisa, KCS iT e Águas de Gaia já apoiámos mais de 100.000 projetos e, através de uma parceria com a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, desenvolvemos duas incubadoras de empresas nas quais apoiamos os melhores empreendedores da zona norte, contribuindo para o crescimento económico e diminuição do emprego na região.

Como resposta ao COVID organizámos a MAP Virtual Week, uma semana virtual em que participaram mais de 120 empresas e se inscreveram mais de 2.500 portugueses para discutir diversos tópicos relacionados com o empreendedorismo. Tudo isto são números que anunciamos várias vezes com orgulho, mas, dado que estamos numa época especial, deixem-me partilhar também convosco outros números: por um lado, os anos em que tivemos um maior número de inscrições nos nossos programas de apoio aos empreendedores foram 2013 e 2014, quando Portugal atingiu também o maior número de desempregados provocados pela crise. Por outro lado, os despedimentos coletivos atuais provocados pela nova crise económica já superam os da crise económica anterior.

Se pudermos utilizar o número de inscrições no nosso concurso como uma referência do número de novas iniciativas, podermos presumir que este fenómeno se irá repetir e que nos próximos anos iremos deparar-nos com uma nova vaga de empreendedores e empresários – muitos deles vindos dos despedimentos e das empresas que não se vão conseguir adaptar às novas realidades – prontos para ajudar Portugal a sair da crise e a recuperar o desenvolvimento económico que tantos nos custou no passado a adquirir.

A verdadeira questão é: o que podemos fazer para ajudar estas iniciativas? Como podemos garantir que se tornam empresas de sucesso e se preparam já para as próximas crises que venham a surgir? Será que temos simplesmente de aceitar que de vez em quando as crises vão mandar a economia portuguesa abaixo e não há nada que possamos fazer? Ou será que está na hora de investirmos com mais força na capacitação dos empresários portugueses e garantir que estão mais preparadas para quando a próxima crise aparecer? Estamos num momento único da história e vai ser a resposta que dermos a estas perguntas que irá definir o Portugal que teremos amanhã.

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