Há cerca de cinco anos que o analista e cientista político Ian Bremmer tem vindo a alertar para um crescente esvaziamento da liderança global, o qual contribui para uma maior e mais perigosa fragmentação mundial. Com os riscos geopolíticos a superarem as preocupações económicas e financeiras, 2016 poderá ser o ano em que se cumpre o anunciado “G-Zero”. E, pela primeira vez em 70 anos, a Europa volta a estar no “olho do tornado”, com consequências bem mais graves do que aquelas que poderíamos imaginar
POR
HELENA OLIVEIRA

“Estamos actualmente a viver num mundo G-Zero, onde nenhum país ou bloco de países possui a alavancagem politica e económica – ou a vontade – para prosseguir uma verdadeira agenda internacional. O resultado será um conflito intensificado no palco internacional em torno de questões vitalmente importantes, tais como uma coordenação macroeconómica internacional, uma reforma regulatória financeira, políticas de comércio e alterações climáticas”.

Este excerto, publicado em 2011 na revista Foreign Affairs e que iria dar origem ao livro Every Nation for Itself: Winners and Losers in a G-Zero World, publicado no ano seguinte por Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group, (e sobre o qual o VER fez um artigo), poderia ter sido escrito hoje. É que, depois de cinco anos a alertar para a inevitabilidade deste G-Zero, eis que Bremmer parece ter, e infelizmente, razão. O relatório que a reconhecida firma de consultoria em riscos políticos globais publica anualmente começa por recordar isso mesmo – “(…) o G-Zero chegou em pleno e o desaparecimento da ordem geopolítica liderada pelos Estados Unidos irá acelerar em 2016”.

[pull_quote_left]Tudo indica que será o Velho Continente a sofrer as maiores dores em 2016, tanto ao nível dos custos económicos, como de vulnerabilidade em termos de segurança e ainda de curto-circuitos políticos, que colocarão em causa muitos dos princípios que deram origem à União Europeia[/pull_quote_left]

Se a visão do reconhecido cientista político norte-americano acabaria por ser premonitória, Bremmer não conseguiu prever, contudo, nem a escalada do terrorismo protagonizada pelo autoproclamado Estado islâmico, nem o fluxo crescente de refugiados, dois temas que foram aquecendo ao longo do ano que passou e que, de acordo com todos os analistas – e com os nossos próprios olhos – serão “escaldantes” no ano que agora começou.

Para já, tudo indica que será o Velho Continente a sofrer as maiores dores em 2016, tanto ao nível dos custos económicos, como de vulnerabilidade em termos de segurança, já para não falar num “curto-circuito” político que começa no “ataque” a Schengen, passa pelo aumento do populismo e dos nacionalismos de direita e pode terminar na erosão completa de muitos dos princípios que deram origem à própria União Europeia. Para piorar ainda mais a situação, os Estados Unidos estão preocupados com as suas eleições presidenciais, a China com a sua expansão e situação económica, a Rússia com seu papel “descontrolado” na Síria e o Médio Oriente com a sua crescente destabilização. Ou, como questiona Bremmer: “quem tomará nas suas mãos a liderança da destruição do Estado islâmico, a estabilização do Médio Oriente, a contenção do fluxo de armas perigosas, a mitigação das alterações climáticas e a gestão dos riscos internacionais para a saúde pública?”. Para o analista político, a resposta é “ninguém”.

A verdade é que as quatro maiores economias do mundo – Estados Unidos, China, Japão e Alemanha – estão decididamente relutantes em aceitar responsabilidades na gestão de todas estas crises. Ou, como argumenta o analista e cientista político, nenhum país está com vontade de apagar os incêndios que aumentarão em extensão em 2016, simplesmente porque ninguém acredita ter o poder para arcar com os custos e riscos que os mesmos acarretam. E será esta ausência de liderança global que contribuirá para que 2016 seja um ano perigosamente tumultuoso.

O VER leu o relatório preparado pelo Eurasia Group e sintetiza alguns dos principais riscos identificados, em particular aqueles que nos são mais próximos e que maiores consequências poderão ter nas nossas vidas.

A aliança “esvaziada” e os novos alinhamentos de interesses

14012016_OGZeroNum mundo repleto de emergências, a liderança conta e muito. E dado que longe vão os tempos em que o mundo era liderado pelas potências mundiais que formavam o G7, tanto a nível económico como geoestratégico, o principal problema que hoje se coloca ao grupo alargado que faz parte do G20, é o facto de serem “muito mais a concordarem com muito menos”, como escreve Bremmer na coluna que assina assiduamente na revista Time. Quando fala no G-Zero, o que o cientista político pretende dizer é que os membros que compõem agora as 20 maiores potências mundiais não partilham os mesmos valores e prioridades, nem a nível político, nem económico. Ou, por outras palavras, nenhum deles tem uma visão comum para o futuro.

Recordando que a parceria transatlântica consistiu na mais durável e significativa aliança dos últimos 70 anos, Bremmer, em conjunto com o presidente do conselho de administração do Eurasia Group, Cliff Kupchan, escreve neste mesmo relatório que esta está cada vez mais enfraquecida e “oca”.

[pull_quote_left]Nenhum país está com vontade de apagar os incêndios que aumentarão em extensão em 2016, simplesmente porque ninguém acredita ter o poder para arcar com os custos e riscos que os mesmos acarretam[/pull_quote_left]

Para os autores, e estando esta realidade no radar há já bastante tempo, foram três as tendências por excelência que mais contribuíram para que a mesma se instalasse e se reafirmasse. Em primeiro lugar, a mudança na ordem geopolítica mundial na qual a equação Oriente versus o Ocidente deu origem à “ascensão dos diferentes”, com a China e outros mercados emergentes a criarem um conjunto de ameaças muito mais diversificado e complexo para as democracias avançadas. Em segundo lugar, a emergência do unilateralismo americano, enquanto orientação política, tanto por parte da administração Bush, como da do próprio Obama (apesar das suas diferenças inequívocas), apoiada por novas áreas de diplomacia coerciva – a vigilância e a ‘armamentização’ da finança – trazidas para a luz da ribalta por Edward Snowden. E, por último, a fraqueza estratégica da Europa, com os seus líderes demasiado ocupados a lidar com uma série de crises políticas e económicas.

Bremmer e Kupchan afirmam ainda que a política externa, apesar de ocupar lugar principal na campanha eleitoral norte-americana, é completamente omissa no que respeita às relações transatlânticas, o que leva a crer que os Estados Unidos irão privilegiar o seu “umbigo”, com enfoque no seu próprio futuro político. Por último, os autores do relatório estão convictos que pouco há a fazer no que respeita ao destino próximo da Europa: dividida, vulnerável e em estado de insegurança máxima, o Velho Continente terá ainda, para além dos enormes desafios que está já a enfrentar, que contar com tendências “egoístas” no que respeita a novos alinhamentos levados a cabo pelas suas três mais poderosas potenciais. A saber:

  • Uma “aliança” entre o Reino Unido (que poderá também protagonizar, este ano, a tão temida “Brexit”) e a China, na qual o interesse económico fala mais alto do que tudo o resto. Na medida em que os líderes britânicos estão preocupados com a forma de pagar as suas necessidades de infra-estruturas depois de a austeridade ter feito encolher os seus orçamentos, os esforços de Cameron e companhia para se juntarem ao Asian Infrastructure Investment Bank ficam assim explicados, numa tentativa de mostrar a Beijing que os britânicos podem ser os seus melhores e mais úteis amigos. Mesmo que para tal tenham de fechar os olhos a questões de direitos humanos, a minorar as suas preocupações relativamente à partilha de tecnologia ou a temáticas mais delicadas como a segurança ou a própria democracia;
  • Uma outra entre a França e a Rússia, por questões de segurança, na medida em que o governo francês enfrenta a maior ameaça terrorista em solo europeu e tem também a mais agressiva política militar no Médio Oriente e no Norte de África, vendo Putin – e a sua liderança militar sem “constrangimentos” – como a melhor aposta para a Europa no que respeita a “estancar a hemorragia” dos migrantes sírios. O relatório chama a atenção para o que se passou depois dos ataques em Paris, em que Hollande optou por requerer um capítulo de segurança europeia colectiva do Tratado de Lisboa – pela primeira vez na história – em vez de se virar para a NATO, o que tornaria muito mais difícil, se não mesmo impossível, colaborar com a Rússia;
  • E, por último, a aliança, por razões políticas, entre a Alemanha e a Turquia, defendida por Merkel, dado que esta já percebeu que a sua política de “porta aberta” só funcionará se a vaga crescente de refugiados não se transformar numa onda gigantesca. Tal significa trabalhar em conjunto com o governo de Ancara, que tem no seu território mais de 2 milhões de refugiados sírios. O apoio expresso por Merkel para uma integração “rápida” da Turquia como membro da União Europeia funciona como uma espécie de moeda de troca, visto que em termos económicos, é mais “barato” apoiar os refugiados em território turco. Ao mesmo tempo, e com as constantes pressões internas e externas que a chanceler tem sofrido face à sua política “pró-aceitação de refugiados”, este partilhar de responsabilidades poderia conferir uma folga à Alemanha [vale a pena recordar que, quando o relatório foi publicado, nem os recentes incidentes em Colónia, nem o atentado em Istambul tinham tido lugar].

Ou em suma, todos estes interesses contribuem em força para que as relações transatlânticas deixem de constituir o papel decisivo de outrora para a definição das principais prioridades tanto para os Estados Unidos, como para a Europa que, de forma crescente, estão a optar por seguir cada um o seu caminho. A percepção de valores similares e a sua importância para o mercado livre global estão em erosão contínua, dando origem a uma ordem muito mais difusa e com denominadores cada vez menos comuns. Menos hegemonia e uma coligação cada vez mais enfraquecida serão características vincadas em 2016.

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Uma Europa cada vez mais fechada sobre si mesma

Graças à resiliência indubitável dos europeus, a grande ameaça que, há cinco anos, assombrou a vida económica e social da Europa acabou, com muitos custos, é certo, por ser (mais ou menos) ultrapassada. Mas em 2016, com um conjunto de ameaças muito mais diversificado e complexo, e sem um sentido “comum e partilhado de crise” necessário para uma acção colectiva concertada, a Europa ver-se-á a braços com fardos verdadeiramente pesados. A crise financeira que ainda paira na Grécia, os desejos independentistas da Catalunha ou o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia seriam, noutra altura, motivo de maior preocupação na Europa, mas a verdade é que comparativamente aos demais problemas que a assolam, estes afiguram-se como “menores” e geríveis.

[pull_quote_left]A percepção de valores similares – na Europa e nos Estados Unidos – e a sua importância para o mercado livre global estão em erosão contínua, dando origem a uma ordem muito mais difusa e com denominadores cada vez menos comuns[/pull_quote_left]

Basta que se adicione à equação milhares de refugiados e actos terroristas, medo e ódio crescentes, e o terreno para extremismos e para a ascensão da direita nacionalista aumenta em fertilidade. A erosão do Estado de direito e as ameaças que pairam sobre a integridade dos acordos de Schengen compõem um ramalhete já de si suficientemente espinhoso.

De acordo com os autores do relatório, o risco começa no topo e tem igualmente a ver com questões de liderança. Na medida em que Angela Merkel surgiu, no ano que passou, como a grande defensora de uma “Europa aberta”, depois de ter liderado, de forma consistente, a crise financeira de 2008, nem o facto de ter sido considerada como “Pessoa do Ano” pela revista Time (valha este titulo o que valer) contribuiu para que não começasse a perder o brilho, em particular no último trimestre de 2015. O apoio extraordinário que conferiu ao abrigo dos refugiados está a valer-lhe cada vez menos seguidores internos e externos, o que está a minar a sua posição política, interna e externamente, e a criar uma alteração profunda na forma como a Europa está a interagir consigo própria e com o resto do mundo.

[pull_quote_left]A questão dos refugiados permanecerá como “o”grande desafio para o Velho Continente, o mesmo acontecendo com o medo crescente face ao Estado Islâmico. O que significa também que as divergências nacionais face à manutenção de uma “Europa sem fronteiras” se intensificarão em 2016[/pull_quote_left]

Bremmer e Kupchan argumentam que a vulnerabilidade de Merkel deixa a Europa com menos capacidade para responder colectivamente a qualquer que seja a crise que enfrente, esperada ou não, e que o ressentimento contra a Alemanha por parte de outros Estados-membros da UE aumentará de tom, o que diminuirá igualmente o próprio capital político europeu. Obviamente que a questão dos refugiados permanecerá como “o”grande desafio para o Velho Continente, o mesmo acontecendo com o medo crescente face ao Estado Islâmico. O que significa também que as divergências nacionais face à manutenção de uma “Europa sem fronteiras”, duas décadas depois do Acordo de Schengen, se intensificarão em 2016. Para os autores do relatório, uma “Europa cerrada” significa, em primeiro lugar, que o continente se está a fechar sobre si mesmo e, em segundo, que os vários países que compõem o seu território estão a voltar costas “entre si”.

O ressurgimento em força de uma nova vaga de populismo – já presente em países como a Suécia, a Dinamarca, a Hungria ou a Polónia, entre outros – disseminar-se-á um pouco por todo o continente, prevêem também os analistas. A Frente Nacional em França ou o Partido Alternativo, de extrema-direita, na Alemanha, continuarão a somar adeptos e, em ambos os países (com grandes probabilidades de contágio a outros) a nuvem escura do extremismo irá forçar os partidos estabelecidos ou a rectificarem as suas plataformas políticas ou a sofrerem consequências perigosas.

Tendo em conta que tanto a França como a Turquia já sofreram os seus ataques terroristas ao “estilo do 11 de Setembro”, a verdade é que são expectáveis novos atentados, exacerbando ainda mais as divisões políticas, e também sociais. Ou em suma e ao contrário dos anos recentes, a economia europeia será o menor dos problemas do Velho Continente: o seu “significado alargado” em conjunto com o seu tecido social cada vez mais emaranhado serão, sim, as suas maiores preocupações.

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O Estado Islâmico e as respostas inadequadas ao seu combate

Não existem dúvidas que o Estado islâmico (EI) é, actualmente, a mais poderosa organização terrorista do mundo. Como também se espera que o mesmo alargará o seu alcance internacional – não na Síria nem no Iraque, onde já atingiu o seu “pico” – graças a mais de mil milhões de dólares em reservas financeiras, à mestria no domínio das redes sociais e às suas inegáveis competências para atrair um “fornecimento “ estável e contínuo de novos seguidores em todo o mundo.

Mas igualmente preocupante é o facto de as respostas internacionais face ao aumento desmesurado da sua influência estarem a ser inadequadas, mal orientadas e descoordenadas, contribuindo mais para o seu próprio benefício, do que para a sua fragilização ou erradicação. Pelo menos é a opinião manifestada pelos dois autores que, como seria obrigatório, incluem o EI como um dos mais prementes riscos para o ano que agora começou.

[pull_quote_left]Muito preocupante é o facto de as respostas internacionais face ao aumento desmesurado da influência do Estado islâmico estarem a ser inadequadas, mal orientadas e descoordenadas, contribuindo mais para o seu próprio benefício, do que para a sua fragilização ou erradicação[/pull_quote_left]

Bremmer e Kupchan consideram ainda que, na sua esmagadora maioria, a resposta sobre o que (mais) se poderá fazer para o travar em 2016 privilegiará soluções militares diversas, seja através de bombardeamentos, da utilização de forças especiais, de se armar a oposição ou de se enviarem tropas para combaterem no terreno. Mas, e como também todos testemunhamos, até agora, os resultados não têm sido muito animadores.

Certo é, para os autores, que as raízes do EI continuar-se-ão a estender bem além da Síria e do Iraque (para a Líbia, Afeganistão, Iémen e Mali), que as suas capacidades tecnológicas continuarão a permitir o seu funcionamento de uma forma muito mais descentralizada do que a da Al Qaeda e que as suas competências de recrutamento de novos seguidores em todo o mundo se manterão. De acordo com o relatório, os governos sunitas (e o Iraque) concentrarão os seus esforços mais em questões de segurança do que na liberalização ou em reformas económicas. Os preços em contínuo declínio do petróleo só irão piorar a situação, as respostas hostis da Europa à crise dos refugiados tornarão cada vez mais clara a realidade de que os desalojados sírios e outras populações “similares” serão crescentemente indesejadas no mundo ocidental, a ajuda humanitária permanecerá muito aquém das necessidades e serão cada vez menos os líderes dispostos a aceitar refugiados “adicionais”.

Desta forma, a ideia de que a ameaça do EI – mas também de outros grupos terroristas como a Al Qaeda, o Boko Haram e outros “novos” que surjam – aumentará ao longo de 2016 é, mais do que uma mera expectativa, uma inegável e fortíssima probabilidade. Os estados mais vulneráveis aos seus ataques continuarão a ser aqueles em que o EI “vê” razões explícitas para o serem – como a França, a Rússia, a Turquia, a Arábia Saudita e os Estados Unidos (neste caso em particular, no que respeita aos activos norte-americanos na região) – bem como os países com o maior número de muçulmanos sunitas política e culturalmente alienados como é o caso do Iraque, do Líbano, da Jordânia, do Egipto, da Turquia e de vários países europeus. Adicionalmente, e como a entrada da Turquia no conflito sírio tornará mais difícil que os jovens recrutados se juntem às fileiras do EI na Síria, o “convite” para que actos terroristas sejam perpetrados nos seus países de origem será também intensificado.

Retomando a questão do G-Zero e do contributo da ausência de uma liderança global para tornar 2016 um ano ainda mais tumultuoso do que aquele que o precedeu, Ian Bremmer afirma que apenas uma emergência “planetária” – numa escala ainda maior do que aquelas que temos vindo a testemunhar – forçaria um novo nível de cooperação mundial. “Poderá ser uma guerra, uma crise financeira, uma ameaça à saúde pública, um terrorismo catastrófico ou um desastre ambiental”, escreve na Time. Mas e se assim é, “que venha o diabo e escolha”?

NOTA: O relatório TOP RISKS 2016 pode ser lido na íntegra aqui

Helena Oliveira

Editora Executiva