Promete ser mais um best-seller do ex-vice presidente norte-americano. Em The Future, Al Gore identifica seis forças emergentes que, a seu ver, estão já a reformular o mundo em que vivemos. O homem que desperta ódios e paixões tem razão quando afirma que estamos a ser acometidos por mudanças sem paralelo. E apesar da sua interpretação das mesmas não ser sempre linear, ou de fácil leitura, vale o esforço. No mínimo, obriga-nos a pensar
POR HELENA OLIVEIRA

“A civilização humana chegou a uma bifurcação na longa estrada percorrida até agora. E um de dois caminhos possíveis tem de ser escolhido. Ambos conduzem-nos para o desconhecido. Mas um leva-nos no sentido da destruição do equilíbrio climático, do qual dependemos, ao esgotamento de recursos insubstituíveis, que nos sustentam, à degradação de valores humanos singulares e à possibilidade da civilização tal como a conhecemos chegar ao seu fim. O outro leva-nos ao futuro”.

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É assim que Al Gore termina a sua mais recente incursão na escrita, num novo livro publicado a semana passada nos Estados Unido e que lhe já valeu as habituais críticas por parte dos que o odeiam e os elogios de quem continua a nutrir uma enorme consideração pelo ex-vice presidente dos Estados Unidos. Em The Future, Al Gore identifica seis forças emergentes que, a seu ver, estão já a reformular – com tendência para se agudizarem nas décadas seguintes – o mundo em que vivemos.

Em termos gerais, e depois de oito anos de pesquisa e reflexão, o ex-vice presidente dos Estados Unidos, num mix de história, ciência e também de senso comum, apresenta e desenvolve os seis maiores desafios que a humanidade enfrenta, ao mesmo tempo que oferece algumas receitas possíveis para se lidar com os mesmos. As forças ou desafios emergentes identificados não constituem nenhuma grande surpresa, sendo que o mérito do livro reside na articulação que Gore faz entre os mesmos.

Dado que o mundo em que vivemos está crescentemente integrado e envolto numa teia de complexidades, para além de apresentar uma mudança cada vez mais célere, os seis factores ou temas identificados por Gore incluem:

  • Trabalho: o movimento laboral do ocidente para o oriente (outsourcing) e a tendência, cada vez mais visível, da substituição do trabalho humano por aquele que é efectuado por máquinas (robosourcing);
  • Comunicações: a ascensão da Internet que deu origem a uma proliferação “selvagem” da informação a par da capacidade que a população mundial tem para se conectar, de forma instantânea e de acordo com um conjunto de propósitos, sem esquecer o alcance crescente da Internet por parte dos países em desenvolvimento;
  • Poder: o ciclo do poder está a sofrer também uma mudança de direcção, do ocidente para o oriente e, mais preocupante para Gore, dos governos nacionais para players de dimensão mais pequena, como empresas e corporações, mas também para players perigosos como grupos de terroristas e de guerrilha;
  • Demografia: o aumento, sem precedentes, da população mundial, em conjunto com os movimentos internos e externos;
  • Biotecnologia: a manipulação crescente do ADN não só para produzir novos organismos com características singulares, mas também novos materiais e combustíveis;
  • As alterações climáticas, com particular enfoque para o aumento das temperaturas a nível global decorrente das emissões em crescendo de CO2, bem como outros efeitos climáticos.

O VER resume, de seguida, a visão de Gore para o “futuro”.

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Da Earth Inc. à Global Mind
Para Al Gore, a globalização económica crescente conduziu à emergência do que ele denomina como Earth Inc. – uma espécie de entidade holística integrada com relacionamentos novos e diferentes no que respeita ao capital, ao trabalho, aos mercados de consumo e aos governos nacionais e que está a resultar num crescendo de desigualdade. “O capital move-se em todo o mundo à velocidade da luz”, escreve, acrescentando que as empresas estão a investir centenas de milhões de dólares somente para estarem mais próximas dos super-computadores e de cabos de fibra óptica mais eficientes. Esta Earth Inc. é também uma nova ordem transnacional marcada pelo “robosourcing”, o qual afecta não só o trabalho manual, mas também a área dos serviços, e que ameaça privar uma ampla proporção da população mundial de emprego remunerado. Este robosourcing, uma espécie de máquinas devoradoras de empregos, irá colocar uma pressão significativa no mercado de trabalho.

Apesar de estas previsões terem tido início nos anos idos da Revolução Industrial, com o movimento dos Luddites (proveniente da personagem Ned Lud, um jovem que viveu no século XIX e que alegadamente terá destruído dois teares e cujo nome se tornou emblemático para os destruidores de máquinas) que protestavam violentamente contra a maquinaria introduzida nos têxteis e que foi a responsável por os substituir por trabalhadores com menos competências e de baixos salários, a verdade é que temos vindo a assistir, desde essa altura, a um sem número de disrupções no mercado de trabalho desde então. E, à medida que as máquinas vão ganhando novas competências, a probabilidade de originarem disrupções ainda mais drásticas é verdadeiramente elevada. Ou seja, se o outsourcing já constituía um problema complexo para a força laboral, o perigo proveniente desta substituição de trabalhadores por robots é muito mais significativo. “Ao contrário de outras alterações tecnológicas que tiveram lugar no passado e que criaram novos postos de trabalho – mesmo tendo em conta que estas exigiam a aprendizagem de novas competências – o robosourcing está a eliminar muitos postos de trabalho”, escreve.

A premissa escolhida por Gore para dar início ao seu livro é simples: “Uma das características mais marcantes dos tempos em que vivemos é o facto de estarmos a testemunhar múltiplas alterações históricas e revolucionárias em simultâneo”. Os negócios transnacionais, capazes de movimentar fluxos de capital de país para país – a tal Earth Inc. –  vão mais além do que a simples globalização da economia, pois as profundas interligações que têm nas actividades produtivas de todo o mundo dão origem a novos relacionamentos com o trabalho e com o capital, mas também com os recursos naturais e com os estados-nação. Gore acredita ainda que estamos a assistir ao emergir de uma civilização planetária, mas rejeita o facto de que a disseminação dos mercados globais e das comunicações mundiais funcionam para dissolver as barreiras culturais. A seu ver, esta não passa de um mero pressuposto ideológico.

Recordando não só as culturas que continuam a predominar, por exemplo na China e na Rússia, nas quais o autoritarismo permanece, Gore chama ainda a atenção para as “formas tóxicas de nacionalismo” que estão a ressurgir na Europa e que crescem lado a lado com a ideia alargada de integração. “Longe de uma liberalização económica que promove o universalismo, o resultado poderá cifrar-se num revivalismo das velhas divisões”, afirma.

No que respeita às comunicações digitais globais, nomeadamente à Internet e às revoluções nos computadores, Gore fala da emergência de uma “Global Mind”, que liga os pensamentos e sentimentos de milhares de milhões de pessoas, ao mesmo tempo que estabelece a conexão entre máquinas inteligentes, robots, sensores ubíquos e bases de dados. Entre os principais perigos que podem advir desta mente global, digital e electrónica, de destacar a vulnerabilidade da informação pessoal, em conjunto com a informação operacional das organizações, que pode ser “coleccionada” ou roubada por inúmeros players (por parte das empresas, dos governos ou de organizações criminais) e utilizada para propósitos nefastos.

Sem esquecer os benefícios inegáveis da revolução digital, nomeadamente o seu papel crucial para dar lugar a reformas e dar voz aos movimentos democráticos, Gore sublinha a sua vulnerabilidade relativamente a repressões violentas nos estados autoritários. O perigo de ciberataques a governos e empresas é, para o autor, um dos principais problemas desta revolução. E a solução principal a operacionalizar prende-se com novos medidas que assegurem a protecção da informação e a preservação da privacidade.

E qual a interacção resultante entre estes dois desafios? “O resultado da luta para redesenhar o futuro da humanidade, que está agora a começar, será determinado por uma competição entre a Global Mind e a Earth Inc.. Num milhão de teatros de guerra, a reforma das regras e dos incentivos nos mercados, nos sistemas políticos, nas instituições e nas sociedades será bem ou mal sucedida dependendo de quão rapidamente os indivíduos e os grupos comprometidos com um futuro sustentável ganhem força suficiente e competências para, em conjunto, expressar e alcançar as suas esperanças e sonhos de um mundo melhor”, escreve.

A reinvenção da vida e da morte
“Não existe nenhum outro período de mudança que se assemelhe, nem remotamente, àquele que a humanidade está prestes a experienciar. Já passámos por muitos períodos revolucionários de mudança, mas nenhum tão poderoso ou ‘grávido de gémeos fraternos’ – de perigo e oportunidade – como aquele que se começa a revelar”, escreve.

As revoluções na genómica, na biotecnologia, na neurociência ou na área das ciências da vida estão a transformar radicalmente os campos da medicina, da agricultura, da ciência molecular e dos combustíveis, colocando o controlo da evolução em mãos humanas. Na visão de Gore, estas transformações radicais não são, nada mais nada menos, do que a “reinvenção da vida e morte”. A revolução na engenharia genética, por exemplo, está a ultrapassar os limites existentes entre as espécies, sendo que a possibilidade de se “encomendar bebés por catálogo”, ou seja, escolher um “designer baby”, está a levantar questões éticas muito complexas.

No que respeita à biotecnologia, o principal perigo enunciado por Al Gore é exactamente o facto de as descobertas e inovações que estão a ser realizadas, sejam introduzidas mais rapidamente do que a capacidade para se equacionar as suas implicações éticas e potenciais consequências negativas. Todas as revoluções que estão a ter lugar nestas áreas da ciência estão a reordenar a medicina e a produção alimentar. E, apesar de estarem a criar novas e promissoras possibilidades, como novos fármacos ou armas contra determinadas doenças, estão, em simultâneo, a abrir portas para se utilizar as doenças como armas, por exemplo. Para o autor, “um controlo activo sobre a evolução que está nas mãos de alguns indivíduos e organizações” é outro dos principais desafios a enfrentar pela humanidade.

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As experiências não planeadas com o planeta
“Só ao longo do último século, quadruplicámos a população mundial. Em perspectiva, foram necessários 200 mil anos para que a espécie humana atingisse os mil milhões, o mesmo número de pessoas que nasceram nos primeiros 13 anos deste século”. Gore reconhece também que o aumento do número de humanos é, sem dúvida, um dos grandes desafios globais com o qual a humanidade tem de lidar. “Com o crescimento populacional a atingir estes níveis, em conjunto com a industrialização mundial, a humanidade embarcou numa experiência não planeada com o planeta”, escreve.

E, quando a questão é demográfica, o principal perigo deste crescimento contínuo reside na quantidade astronómica de pressão colocada nos recursos naturais mundiais, o que irá conduzir, se entretanto nada for feito, ao esgotamento dos mesmos. Adicionalmente, a orientação económica “defeituosa” está a conduzir a humanidade para um crescimento insustentável no consumo, no esgotamento dos recursos estratégicos do planeta, seja nas terras aráveis, seja na água ou nas próprias espécies. E se a economia mundial está baseada no crescimento e nos resultados de curto prazo, a verdade é que não estamos a levar em linha de conta os custos de longo prazo subjacentes a este tipo de mentalidade. Enquanto algumas pessoas acreditam que a ciência arranjará uma solução para qualquer que seja o problema, o autor sublinha que a tecnologia nunca conseguirá substituir ou gerar água doce, por exemplo.

Refreando a vontade natural de afirmar “eu bem avisei”, o autor de “Uma Verdade Inconveniente” (e vencedor do Nobel da Paz, em conjunto com o Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas – IPCC) inclui, como seria de esperar, as alterações climáticas como outro desafio de grande magnitude a enfrentar.

Sublinhando a disrupção radical que está a ter lugar nos relacionamentos entre os seres humanos e os ecossistemas da terra, em conjunto com o início de uma transformação revolucionária nos sistemas de energia, na agricultura, nos transportes e na construção em todo o mundo, Gore recorda que 2012 foi o ano mais quente desde que há registos, pelo menos nos Estados Unidos, que metade das calotas de gelo no Pólo Norte desapareceu e que os danos provocados por fenómenos climáticos extremos atingiram os 110 mil milhões de dólares em prejuízos.

O homem que convenceu o mundo da catástrofe iminente do aquecimento global afirma que “estamos a ouvir a voz da mãe natureza a gritar muito alto”. “Todos os dias são expelidos 90 milhões de toneladas de poluição na atmosfera (o equivalente, em termos energéticos, a 400 mil bombas atómicas como a de Hiroshima), que é tratada como se fosse um esgoto a céu aberto”, diz. A juntar às secas e às cheias, “os eventos climáticos extremos que apareciam uma vez em cada mil anos, são agora visíveis todos os anos e em muitos locais”. E, independentemente das maquinações incessantes dos que negam o impacto das alterações climáticas, já não são necessárias mais bases científicas para o provar. Alguns que já aceitam a evidência sugerem que, em vez de uma tentativa para deter as actividades que mais contribuem para o aquecimento global, nos deveríamos adaptar ao processo à medida que ele se vai desenrolando. Mas para a visão de Gore, marcar passo não é de todo a solução: “ é o nosso mundo que está em causa. E não o próprio planeta. Este sobreviveria calmamente, embora com estados alterados, sem a civilização humana”.

Com défice de novidade são as soluções eleitas por Gore para mitigar os problemas inerentes às alterações climáticas: um apelo aos governos do mundo para que passem rapidamente à acção para reduzir as emissões de CO2, taxando-as e introduzindo um sistema de limitação e de comércio de licenças de carbono, bem como a introdução de subsídios para fontes de energia renovável, cancelando, em simultâneo, aqueles que existem para as corporações que se dedicam à produção de combustíveis fósseis. Dado que o presidente Obama incluiu, no discurso de tomada de posse, as alterações climáticas como um dos desafios no seu segundo mandato presidencial, pode ser que seja desta que os Estados Unidos levem finalmente a sério este problema.

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Poder, capitalismo e democracia
Al Gore está preocupado com a “movimentação” dos círculos de poder militar, económico e político, que estão a sofrer modificações jamais vistas, pelo menos nos últimos 500 anos. De um sistema centrado nos Estados Unidos da América para múltiplos centros de poder emergentes, dos estados-nação para actores privados e dos sistemas políticos para os mercados, Gore menciona especificamente influência crescente da China e da Índia, ao mesmo tempo que afirma que o declínio norte-americano não constitui um processo auto-induzido que pode ser invertido por um qualquer acto nacional de boa vontade. “O que alterou irrevogavelmente a posição da América”, escreve, “foi a globalização, ou a emergência da China, Índia e de outros países no placo mundial”. E acrescenta: “a melhor hipótese de sucesso para redesenhar um futuro positivo e evitar a catástrofe é o restabelecimento da capacidade transcendente de liderança global por parte dos Estados Unidos”.

Um dos principais perigos desta deslocalização do poder reside, para Gore, na possibilidade de grupos de interesses privados ganharem ainda mais poder (em especial, as multinacionais) e marcharem contra os interesses e os valores dos cidadãos. O autor argumenta que as decisões políticas da América estão a sofrer de uma usurpação e paralisação por parte dos interesses corporativos e das elites ricas do país. E escreve que a “democracia e o capitalismo foram ambos ‘hacked’, que o Congresso “é agora incapaz de fazer passar leis sem a permissão dos lobbies corporativos e de outros interesses especiais que controlam as finanças das campanhas”. Ambos os partidos, afirma, tornaram-se tão dependentes dos lobbies que oferecem “enormes quantidades de dinheiro necessárias para comprar os anúncios televisivos para serem reeleitos, que a legislação de interesse especial promovida pelas indústrias mais activas na compra de influências – os serviços financeiros, as empresas de energia com base no carbono, as farmacêuticas e outras – pode contar com enormes maiorias bipartidárias”.

Os resultados, continua, “podem ser vistos nas crescentes desigualdades de rendimento e nas concentrações igualmente crescentes de riqueza, o que paralisa quaisquer esforços de reforma”. Esta paralisia é particularmente perigosa, diz, dados os desafios que a América enfrenta, desde o declínio do financiamento para a educação pública ao elevado e contínuo desemprego (um subproduto não só da crise financeira de 2008, mas também da globalização, do outsourcing e da automação de tarefas). Gore também se queixa do facto de “quase todas as notícias e programas de comentário político na televisão serem patrocinadas em parte, por empresas de petróleo, carvão e gás – não só durante as campanhas eleitorais, mas sempre – com mensagens concebidas para acalmar e reafirmar às audiências que tudo está bem, que o ambiente global não está a ser ameaçado e que as empresas de carbono estão a trabalhar diligentemente para o desenvolvimento acelerado de fontes de energias renováveis”. [esta passagem do livro tem valido fortes críticas a Al Gore devido à venda do seu canal de televisão – a Current TV – à Al Jazeera, o gigante de serviços noticiosos árabe, financiado pelo Qatar, o país recordista em emissões per capita e um paraíso para as indústrias de petróleo e gás ou seja, aquelas que Al Gore tanto demoniza].

De regresso aos sistemas da democracia e também do capitalismo, que são necessários para que a mudança aconteça, mas que “precisam de sofrer mudanças primeiro”, escreve: “possuímos duas poderosas ferramentas com as quais podemos moldar o futuro: a democracia e o capitalismo. Mas ambas estão a precisar de reformas”.

Insistindo na ideia de que a América tem de recuperar o controlo da democracia, “a qual já não opera da forma idealizada pelos ‘pais fundadores’(e cujos membros do Congresso se esqueceram que a sua missão é servir os melhores interesses do seu eleitorado), Gore defende igualmente que os mercados se encontram distorcidos pelo pensamento de curto prazo e por valores seriamente abalados [A sua visão de um novo capitalismo, sustentável, foi já publicada pelo VER].

Todavia e apesar de tantos desafios, Al Gore permanece optimista. “Acredito na natureza humana. De tempos a tempos, todos somos vulneráveis a incorrer em rotinas, a fazer escolhas de curto prazo, a concentrarmo-nos em trivialidades. Mas quando a ‘parada’ é alta, é também da nossa natureza estar à altura da ocasião”.

Odeie-se ou ame-se, o ex-vice presidente dos Estados Unidos tem razão quando afirma que estamos a ser acometidos por mudanças sem paralelo. E apesar da sua interpretação das mesmas não ser sempre linear, ou de fácil leitura, vale o esforço. No mínimo, obriga-nos a pensar.