Years of Living Dangerously, vencedora do Emmy para melhor série documental em 2014, tem como principal objectivo desmistificar as várias causas e consequências das alterações climáticas, apostando em actores de Hollywood, reputados jornalistas e cientistas, em conjunto com líderes políticos e empresariais. Todavia, o seu ponto mais forte é a humanização desta temática, a qual é representada por histórias reais de pessoas que personificam eventos tão díspares como a guerra, a pobreza, o desemprego ou a desigualdade
POR
HELENA OLIVEIRA

Afirmar que as alterações climáticas têm todos os ingredientes para se transformarem num bom guião para uma série televisiva parece, à primeira vista, um pouco forçado. Como encontrar o drama, os heróis, os vilões, as ligações entre acontecimentos aparentemente desconectados, o peso do passado a interferir no presente e no futuro, o mistério, o terror, a tristeza e as demais características que mantêm o espectador agarrado ao ecrã? Na verdade, não é preciso muito, na medida em que a realidade é, geralmente, muito mais cruel que qualquer ficção.

Mas e como o tema é ainda encarado por muitos como “coisa de cientistas”- logo, aborrecida – e, por outros tantos, como mais uma teoria da conspiração – logo, negada -, o planeta continua a sofrer ameaças que comprometem seriamente o seu futuro e os seus habitantes continuam, calmamente, a viver as suas vidas, como se nada tivessem a ver com a máxima defendida por 97% dos especialistas climáticos, a qual reza que “a actividade humana é a principal causadora do aquecimento global”, uma das principais consequências do fenómeno global do clima.

Seguindo uma premissa similar à de “se Maomé não vai à montanha, a montanha vai até Maomé”, figuras de Hollywood – entre actores, produtores e realizadores – juntaram-se a jornalistas reconhecidos, os quais, por sua vez, entrevistaram cientistas, políticos, líderes empresariais, representantes de organizações não-governamentais, pessoas “comuns” e outros, que os guiaram para locais afectados por eventos climáticos extremos, pela pobreza, pela desflorestação, pela desemprego ou pela guerra.

Se é de drama e de personagens o mais reais possíveis que o público em geral precisa para não mudar de canal, então Years of Living Dangerously, vencedora de vários prémios, entre eles o prestigiado Emmy para melhor série documental em 2014, obedece a todos estes requisitos.

Em exibição no canal Odisseia, às quartas-feiras (o 1º episódio foi para o ar dia 28 de Janeiro), a série reuniu unanimidade entre a crítica norte-americana que a classificou como “imprescindível”, como “a estreia mais importante do ano” ou ainda como “o documentário sobre alterações climáticas mais ambicioso de sempre”, talvez numa alusão à primeira incursão documental sobre o tema, graças à qual o ex vice-presidente norte-americano Al Gore acabou por ganhar um Prémio Nobel da Paz, devido ao muito falado e também polémico documentário “Uma Verdade Inconveniente”.

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Sem retirar o mérito a Al Gore, o qual, quer se goste quer não, foi pioneiro a alertar e a convencer o mundo (ou uma parte dele) da catástrofe iminente provocado pelo aquecimento global, a série Years of Living Dangerously tem a dose certa de celebridades que em muito contribuem para “agarrar” os espectadores: começando por Harrison Ford, numa espécie de regresso à figura de Indiana Jones quando, logo no primeiro episódio, visita a floresta indonésia e explica as preocupantes implicações da desflorestação e da plantação massificada de óleo de palma como forma de alimentar o apetite voraz e global do mundo face às inúmeras aplicações deste produto; passando pelo “Terminator” e ex-governador Arnold Schwarznegger (também produtor executivo da série, em conjunto com o realizador de Avatar, James Cameron e com o produtor de Ocean’s Eleven, Jerry Weintraub) que se junta a uma equipa de bombeiros de elite que arriscam as suas vidas para combater os terríveis incêndios que, todos os anos aumentam em “força destruidora” e em extensão, devido ao aquecimento global; ou ainda a também estrela de Hollywood, Matt Damon, que através de um programa de voluntariado no Haiti, explora as emergências em termos de saúde pública decorrentes de ondas de calor mais frequentes, intensas e longas, as quais matam mais americanos do que todos os fenómenos naturais combinados, como os tufões, terramotos, tornados ou cheias e que causam problemas associados com a desidratação, sendo igualmente responsáveis por nascimentos prematuros.

Para além da presença de outras caras conhecidas do grande ecrã, os políticos também abundam nos nove episódios desta série documental: do pouco convincente Ministro das Florestas da Indonésia, Zulkifi Hasan, ao secretário de Estado norte-americano John Kerry, passando pelo governador de New Jersey, Chris Christie que se recusa “a reconhecer o papel que as alterações climáticas tiveram na ampliação dos impactos” provocados pelo “super-furacão” Sandy, fechando em beleza, no último episódio, com uma entrevista feita ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Mas longe de viver apenas das celebridades de Hollywood ou dos políticos deste mundo, o documentário funciona como um excelente “explicador” dos impactos globais que o planeta está a sofrer devido às alterações climáticas, e das suas inimagináveis, em muitos casos, consequências, tão bem representadas pelo princípio que reza que “o bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque”. Só que em vez de este “efeito borboleta” servir para definir, de forma simplista, a Teoria do Caos, no caso das alterações climáticas, pode-se falar em caos, mas não em teorias. O clima está a mudar e as provas estão à frente dos nossos olhos.

Seca, Síria, fé e ciência

Tal como em qualquer outra série que cumpre os requisitos de fidelizar os espectadores, o documentário Years of Living Dangerously não se esgota em nenhum dos seus episódios, apesar de cada um deles focar, em particular, as diferentes ameaças a que o planeta está sujeito via alterações climáticas.

Mas é a humanização da problemática que melhores resultados parece gerar. Como afirmou o próprio Arnold Schwarznegger – que sempre defendeu que esta temática não pode ser considerada como “liberal ou conservadora” – “penso que o movimento ambiental só pode ser bem-sucedido se formos simples, claros e se o conseguirmos transformar numa história humana”. Acrescentando que a ideia é contar histórias “de humanos” na série documental em causa, o ex-governador da Califórnia sublinha ainda que “os cientistas nunca conseguiriam despertar a mesma atenção comparativamente à que é despoletada pela indústria de entretenimento”. E quanto à utilização de actores na série, James Cameron refere também: “não utilizámos as nossas celebridades como especialistas ‘falantes’, na medida em que eles não são cientistas climáticos, mas apenas cidadãos preocupados, inteligentes e curiosos que também estão à procura de respostas, funcionando como jornalistas”.

Tal como referiu a revista Newsweek, a utilização de “repórteres-celebridades” serviu para “dar luz a uma temática sobre a qual a maioria dos espectadores não quer saber”.

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Para além das celebridades, a série ganha também um interesse redobrado devido aos jornalistas reconhecidos que investigam, há já vários anos, as alterações climáticas, em conjunto com as suas causas e consequências. É o caso de Thomas Friedman (entre outros), repórter no The New York Times, vencedor, por três vezes, do Pulitzer e autor de vários livros, entre eles alguns best-sellers – The Lexus and the Olive TreeThe World Is Flat , Hot, Flat, and Crowded e Longitudes and Attitudes, os três primeiros sobre globalização e o mais recente sobre o impacto da ameaça terrorista no mundo. Friedman, que é também reconhecido pelo seu trabalho de investigação em termos ambientais, é um dos “personagens” que mais atenção desperta, logo no primeiro episódio, no qual tenta estabelecer uma ligação – aparentemente incoerente – de como a seca prolongada na Síria está profundamente relacionada com a guerra civil que neste país se desenrola desde 2011.

Adicionalmente, o documentário mostra também a velha “guerra” entre fé e ciência, nos quatro cantos do mundo. A história de Katharine Hayhoe, por exemplo, cientista atmosférica reputada , directora do Centro de Ciência Climática da Universidade do Texas e devota cristã, conduz-nos às várias estratégias – assentes na simplicidade – que esta mulher da ciência utiliza para explicar aos que negam as alterações climáticas – acreditando que estas são a “vontade de Deus” – que elas existem e que só com os esforços de todos as poderão travar ou mitigar.

A série conta ainda com os co-criadores Joel Bach e David Gelber, produtores do programa líder de audiências “60 minutos”, com os cientistas Joseph Romm e Heidi Cullen, enquanto consultores climáticos, os quais contribuem também para conferir a credibilidade e precisão necessárias a uma produção deste calibre. Todavia e mais uma vez, o ponto mais forte desta série documental reside no facto de tentar responder às muitas questões que o público em geral gostaria de ver respondidas.

A não perder. Mesmo.

Nota: Vale a pena visitar o website do projecto e assistir ao trailer da série documental 

Helena Oliveira

Editora Executiva