É multimilionário e consta da lista das 20 pessoas que mais dinheiro doaram no mundo para causas sociais. E o seu trabalho na filantropia é non-stop. Primeiro, a fundação com o seu nome e dedicada ao empreendedorismo, de seguida a criação de um estúdio de cinema que apenas aceita guiões com mensagens sociais e, por último, um fundo global para abordar, de forma célere, as mais prementes problemáticas globais. Jeff Skoll gosta de contar histórias e a sua vida dava um belo filme
© Stanford Social Innovation Review
Adaptado por HELENA OLIVEIRA

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Uma das paixões de Jeff Skoll é contar histórias. Algo que começou na adolescência, na altura em que sonhava ser um escritor e inspirar as pessoas na resolução dos maiores problemas do mundo. Skoll fez um desvio nesse caminho – mudando-se de Toronto para Silicon Valley, onde conheceu Pierre Omidyar e se tornou no primeiro empregado e presidente da eBay. O desvio, todavia, foi afortunado, pois permitiu-lhe voltar às suas antigas paixões numa escala que jamais poderia ter imaginado.

Skoll deixou a eBay com vários milhares de milhões de dólares mais rico e, desde então, tem doado grande parte desse dinheiro. De acordo com as estimativas da revista Forbes, Skoll já doou 1,2 mil milhões de dólares, o que o coloca no mesmo patamar do clube de elite que integra as 20 pessoas, ainda vivas, que mais dinheiro doaram no mundo (ao lado de Bill Gates, Li Ka-shing e Carlos Slim),

A primeira aventura filantrópica de Skoll foi a Skoll Foundation. Desde a sua fundação, em 1999, que o seu papel tem sido crucial para o apoio e popularização do empreendedorismo social. Por um lado, a sua actividade tem sido tradicional, no sentido em que apoia, financeira e logisticamente, centenas de empreendedores sociais. Mas, por outro, rege-se pela originalidade, através da narrativa de histórias – um programa sofisticado para popularizar o empreendedorismo social que inclui a produção de documentários no programa NewsHour, da PBS, emissões na National Public Radio, a par de longas metragens em parceria com o Sundance Institute, com o Social Edge blog e com o Skoll World Forum.

Não satisfeito com as histórias que se contavam através da sua Fundação, em 2004 Skoll não resistiu a Hollywood e criou a Participant Media, um negócio com a missão de criar entretenimento que abordasse questões sociais. A ambição de Skoll é criar e distribuir um conjunto de media para audiências em todo o mundo mas, e até à data, a empresa tem sido melhor sucedida na criação de filmes em inglês. Considerando os constrangimentos inerentes a produzir apenas filmes que despertem as consciências sociais, o registo de êxitos da Participant é notório – Contagion, The Help, Syriana, An Inconvenient Truth e dúzias de outros filmes.

Em 2009, Skoll criou o Skoll Global Threats Fund, com o objectivo de responder, de forma célere, aos problemas mais prementes que ameaçam a saúde e estabilidade do mundo. A Fundação, liderada pelo antigo director executivo da Google.org, Larry Brilliant, utiliza um conjunto de ferramentas para abordar questões como as alterações climáticas ou o conflito no Médio Oriente.

Na entrevista que concedeu à Stanford Social Innovation Review, a qual o VER traduz, Skoll discute a forma como o trabalho da Skoll Foundation tem vindo a evoluir ao longo do tempo, o que faz da Participant Media um estúdio de cinema tão bem sucedido e por que motivo decidiu criar o Global Threats Fund.

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© DR / Jeff Skoll
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Quando embarcou na filantropia, existiam, neste meio, pessoas que o inspiravam ou alguém que elegeu para lhe dar conselhos?
Um dos meus modelos, na altura em que estava a iniciar a Fundação, foi John Gardner. Ele era presidente da Carnegie Corporation e enquanto Secretário para a Saúde, Educação e Bem-estar por altura do mandato do Presidente Lyndon Johnson [1963-1969], deu início aos programas Great Society nos anos de 1960. Quando a fundação estava ainda no seu inicio, Sally Osberg, [presidente da Skoll Foundation] e eu pedimos a John que nos desse alguns conselhos sobre como sermos realmente eficazes e diferenciadores. E o John disse: “apostem em pessoas boas que façam coisas boas”. E esse conselho transformou-se no nosso mantra. Na verdade, acabou por se traduzir na nossa missão de trabalharmos com empreendedores sociais, que realmente são pessoas boas que fazem coisas boas.

Então, quando deu início à Skoll Foundation, não era suposto o seu enfoque ser para os empreendedores sociais?
Não, pretendia concentrar-me em arranjar oportunidades para melhorar comunidades em todo o mundo. Nos primeiros anos e antes da Sally se ter juntado a nós, era eu que liderava a fundação, a tempo parcial, arranjando financiamento para diferentes organizações. E foi quando olhámos para trás e avaliámos esses financiamentos iniciais, percebendo quais é que tinham funcionado e por que é que tinham funcionado, que começámos a destilar a ideia do empreendedorismo social como uma nova e crescente força no mundo.

E o que também percebemos foi o facto de que os primeiros empreendedores sociais que tínhamos apoiado precisavam de uma fundação com um estilo diferente, que fosse mais flexível, que tivesse um horizonte de longo prazo e que percebesse exactamente o que era ser um empreendedor. A maioria das fundações concedia apenas financiamentos de curto-prazo, exigia demasiados planos burocráticos e sobrecarregava o empreendedor social com muitos detalhes e dados.

Um dos aspectos que distinguiu a Skoll de outras fundações foi exactamente essa aposta na procura de pessoas “boas”, em vez de se concentrarem em questões particulares ou áreas programáticas.
No início eramos relativamente ambíguos no que respeitava às questões a considerar. Mas, ao longo do tempo, refinámos a nossa abordagem, através da criação de uma grelha de questões que considerámos prioritárias no mundo. O nosso critério para selecionar empreendedores sociais, particularmente nos últimos quatro ou cinco anos, estreitou-se sobremaneira. Na verdade, começámos a olhar para áreas específicas nas quais os empreendedores sociais estão a trabalhar. E, nos últimos dois anos, começámos igualmente a avaliar de que forma é que um conjunto de empreendedores sociais poderá, em conjunto, trabalhar na mesma área.

Mas fizeram essa alteração porque tinham um portefólio extenso o suficiente para agruparem os empreendedores sociais por área ou por considerarem ser mais eficaz um enfoque em menos áreas?
É mais o último caso. Quando começámos a olhar para os resultados atingidos por alguns dos empreendedores sociais com quem estávamos a trabalhar, considerámos que algumas das áreas poderiam ser periféricas. O que não significa que estes não estivessem a fazer um bom trabalho. Posso dar o exemplo de Luis Szarán, que é chefe de orquestra [maestro na Orquestra Filarmónica de Asunción, no Paraguai), e criou uma organização chamada Sonidos de la Tierra e começou a levar instrumentos e formação musical a pequenas cidades e aldeias no Paraguiai e em outros países da América Latina. É muito bonito ver grupos de jovens músicos a fazerem coisas boas. Mas, e num escopo mais alargado, se compararmos este projecto, por exemplo, ao de Mindy Lubber da Ceres e a sua capacidade para aproveitar os mercados financeiros em torno das alterações climáticas, sentimos que existia uma diferença no impacto geral no mundo. E foi assim que nos começámos a concentrar em questões mais abrangentes.

Está ainda concentrado nos empreendedores sociais ou está a financiar outro tipo de organizações e de agentes de mudança?
Sim, na verdade, temos vindo a fazer isso. O desenvolvimento incremental da nossa declaração de missão ao longo dos anos passou de investirmos, relacionarmos e celebrarmos empreendedores sociais para investirmos, relacionarmos e celebrarmos empreendedores sociais em conjunto com outros inovadores dedicados a solucionar os problemas mais prementes do mundo. O que descobrimos foi que os empreendedores sociais que trabalham sob sua conta e risco não seriam tão eficazes quanto poderiam caso tivessem outras pessoas a ajudá-los com o seu trabalho. Isso pode significar a necessidade de contactos com ministros governamentais, com grandes  empresas ou lidar com líderes de opinião ou académicos. Ainda consideramos os empreendedores sociais como o principal veículo, mas pretendemos colocar as diferentes peças do puzzle à sua volta para os ajudar a serem o mais eficazes possível.

Falemos de um outro projecto, a Participant Media. Foi uma jogada extremamente ambiciosa montar um estúdio de cinema…
Não discordo. Passei a maior parte do primeiro ano a perguntar se sabiam da existência de alguém que estivesse a criar uma empresa de media pró-social e, caso contrário, porque não? As primeiras reacções que recebi foram típicas, do estilo “A maneira mais segura para se ser um milionário é começar por ser multi-milionário e depois entrar na indústria do cinema”.

Todavia, e à medida que o tempo foi passando, as opiniões começaram a mudar. Falei com argumentistas, actores, directores, agentes, advogados e banqueiros, ligados à indústria, e perguntei-lhes do que mais se orgulhavam no trabalho que tinham feito até então. E a verdade é que todos tinham uma história de um filme que lidava com um assunto pelo qual tinham um cuidado especial, fosse petróleo, alterações climáticas ou cuidados de saúde. E isso revelou-se numa enorme descoberta porque percebi que se trabalhássemos em questões que preocupassem as pessoas, seria muito mais provável arranjar projectos melhores, tratá-los em conjunto de forma menos dispendiosa e ter o coração e a alma das pessoas que estivessem a trabalhar neles, provavelmente de uma forma muito mais forte do que se estivessem a trabalhar num filme de super-heróis.

A razão devido à qual esse tipo de filmes não estava a ser feito deve-se ao facto do sistema no qual se movem os estúdios não estar concebido para filmes mais curtos e orientados para determinada mensagem. E isso requeria um filantropo que dissesse: “estou disposto a custear filmes financeiramente arriscados porque a minha equação é diferente da vossa”. Não tem a ver com fazer dinheiro, mas sim com a quantidade de dinheiro que será aplicado nos projectos passíveis de criar mais bem social do que se eu simplesmente doasse dinheiro para uma ONG a trabalhar nessa área.

Tive a sorte de conhecer, nas primeiras reuniões, o Alan Horn, presidente, na altura, da Warner Brothers. Ele percebeu o que eu pretendia fazer e fomos muito afortunados em fazer três filmes em conjunto – Syriana, North Country e Good Night, and Good Luck – sendo que, muito provavelmente, nenhum deles teria sido feito se eu não tivesse entrado com o meu dinheiro.

E não poderia ter escolhido três melhores filmes para lançar a empresa. Todos eram socialmente relevantes, bem-feitos [10 nomeações para a Academia no seu conjunto] e que se saíram razoavelmente bem em termos de bilheteira.
Foi certamente muito útil, porque nos deram um a possibilidade de utilizar os nossos filmes como exemplos do que queríamos fazer, em vez de termos de nos referir a filmes de outras pessoas, como o Erin Brockovich.

E, para além de fazermos filmes socialmente relevantes, fizemos outras coisas diferenciadoras. Criámos campanhas de acção social em torno dos filmes. Com o Syriana, a dependência do petróleo. Trabalhámos com a NRDC [Natural Resources Defense Council] para migrarmos esta ideia dos ecrãs para os jornais, televisão e editoriais. Quando iniciámos estes programas de acção social, os estúdios com quem estabelecemos parcerias estavam muito cépticos. Não queriam que fizéssemos nada até ao lançamento do filme em DVD, pois temiam que as nossas mensagens entrassem em conflito com a mensagem de marketing do filme.

Ao longo do tempo, os estúdios familiarizaram-se com aquilo que estávamos a fazer e sentiram-se mais confortáveis, permitindo-nos fazer estas campanhas. Actualmente, quando fazemos um filme, o estúdio é o primeiro a pedir para enviarmos a campanha de acção social em torno do mesmo. Isso aumenta as audiências e, em particular, traz-nos uma audiência que é realmente apaixonada sobre o assunto tratado no filme.

Como é que seleccionam os filmes?
Procuramos sempre três critérios. É uma boa história, bem contada? É comercialmente viável ou apenas potencialmente viável em termos comerciais? E contar essa história fará mesmo a diferença para um alargado número de pessoas? Obviamente que existem muitos filmes com guiões brilhantes e um enorme valor comercial, mas sem qualquer tipo de mensagem social integrada. E esses temos que abandonar.

A Participant é uma organização filantrópica ou uma empresa lucrativa?

Começou por ser um projecto filantrópico com o objectivo de atingir um ponto de sustentabilidade suficiente para se tornar numa empresa de media global que não fizesse só filmes, mas também programas de televisão, música e todas as formas possíveis de entretenimento que pudessem imprimir diferença no mundo.

Para mim é filantropia, na medida em que não espero nenhum tipo de retorno financeiro para o meu bolso. Para as pessoas que trabalham na empresa é um negócio comercial. Mas preocupam-se e interiorizam  verdadeiramente a nossa missão.

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Gostaria que falasse também sobre o Skoll Global Threats Fund. Por que motivo formou este grupo em vez de o integrar na Skoll Foundation?
Esse foi um dos maiores debates que tivemos na Fundação ao longo dos últimos anos. Mas eu sempre defendi que existiam algumas questões chave no mundo que se estavam a transformar tão rapidamente que, caso não as abordássemos nos próximos cinco ou 10 anos, poderia ser um “fim de jogo”. E estes foram os cinco temas escolhidos: alterações climáticas, a paz no Médio Oriente, as armas nucleares, as pandemias e a água.

Considerámos que a abordagem a cada uma destas questões deveria ir além do enfoque tradicional da Skoll Foundation. O trabalho da Fundação com os empreendedores sociais tem uma visão de longo prazo. Tem a ver com a educação das raparigas em África ou com a criação de sistemas de irrigação na Índia, cujo impacto perdurará ao longo de muitos e muitos anos. No que respeita às ameaças globais, eu senti que não tínhamos tempo a perder e que precisávamos de encontrar formas diferentes de envolvimento. E também concordámos que estas questões exigiam um tipo diferente de competências daquelas que tínhamos na Fundação. Este tipo de questões, como por exemplo uma pandemia, pode aparecer de um dia para o outro e é necessário ter uma organização específica para lhes dar resposta rapidamente. E esse é o tipo de inovação que pretendemos imprimir.

Artigo originalmente publicado na Stanford Social innovation Review. Traduzido com permissão.

Helena Oliveira

Editora Executiva