Bill Gates pode ter um ego maior do que a sua inestimável fortuna. Mas a verdade é que já tem lugar cativo na história da filantropia global. A sua fundação é a maior do mundo e o impacto que já gerou na vida de milhões de pessoas é inigualável. O homem que se reinventou – deixando a cadeira dourada da Microsoft – reinventa também a filantropia, a qual denomina agora como catalítica…
POR HELENA OLIVEIRA

Bill Gates é, sempre foi e muito provavelmente sempre será uma pessoa que não gera consensos. Se ganhou muitos inimigos na altura em que a Microsoft reinava sozinha no mundo do software, a verdade é que desde que se dedica, quase a tempo inteiro, a tentar resolver alguns dos problemas mais prementes do mundo, outros inimigos tem colecionado. Genial para uns, vaidoso e egocêntrico para outros, o segundo homem mais rico do mundo (no ranking da Forbes de 2013, continua atrás de Carlos Slim, com uma riqueza líquida avaliada em 67 mil milhões de dólares) é também conhecido como o homem que se reinventou a si mesmo ao mesmo tempo que reinventou também a filantropia.

© Bill & Melinda Gates Foundation

Em 2008, enquanto orador convidado do Fórum Económico Mundial, em Davos, Gates apresentou um manifesto no qual apresentaria o seu conceito de capitalismo criativo. Cinco anos mais tarde, e ao ser convidado para gerir a edição de Dezembro da revista Wired, Gates apresenta o seu plano para melhorar o nosso mundo e fala em filantropia catalítica. Mas afinal, que mais quer o homem mais rico da América, o segundo mais rico do mundo e o mentor da maior fundação da história da humanidade?

Numa entrevista recente realizada pelo Financial Times, Bill Gates assume-se como um tecnocrata, mas não acredita que será a tecnologia a mudar o mundo. Ou, para se ser mais preciso, não acredita que esta possa solucionar uma rede complexa de problemas inter-relacionados e muito “emaranhados” que afectam os mais vulneráveis da humanidade: a disseminação de doenças no mundo em desenvolvimento em conjunto com a pobreza e a ausência de oportunidades que continuam a marcar a vida de tantas pessoas. A ideia de que, actualmente, todos os multimilionários da área da tecnologia têm uma visão de como a tecnologia pode mudar o mundo é, para o filantropo e homem de negócios veterano, encarada como um certo sarcasmo, ou não tivesse ele vastos anos de experiência sobre ambas as áreas em causa.

De acordo com a peça escrita pelo Financial Times, o novo consenso existente entre os milionários techies é o de que a Internet constitui uma força inevitável para o desenvolvimento social e económico, sendo a conectividade um bem social em si mesmo. E foi esta visão que parece ter inspirado Mark Zuckerberg a delinear um plano que coloque online os cinco mil milhões de pessoas que ainda não desfrutam do mundo virtual, um esforço apelidado pelo patrão do Facebook como “um dos maiores desafios da nossa geração”. E quando Gates é questionado se uma ligação de Internet pode ser mais importante do que encontrar uma vacina para a malária, não consegue esconder a sua irritação: “uma prioridade ou uma anedota?”, responde com sarcasmo.

Sendo assim e dado que um dos primeiros sonhos deste homem enquanto fundador da Microsoft foi o de colocar um computador em cada mesa, o que aconteceu à sua visão, igualmente tecnológica, que agora parece descartar? O seu plano publicado na revista Wired pode responder a algumas destas aparentes incongruências.

A filantropia tem a força de um imperativo moral
Escrito na primeira pessoa, o artigo de Bill Gates publicado na revista Wired começa pela sua mais recente obsessão: a dos fertilizantes. E porquê? Porque, de acordo com as suas próprias palavras, duas em cada cinco pessoas que vivem no planeta na actualidade devem as suas vidas à explosão da produtividade agrícola – a verdadeira, a seu ver, Revolução Verde – tornada possível pelo uso dos fertilizantes. Como qualquer outra obsessão, a de Gates parece ser exagerada se tomada como um exemplo singular. Mas o que dá corpo ao seu plano para melhorar o mundo, dá igualmente significado à forma como passou a entender o trabalho filantrópico que desenvolve. Sigamos o raciocínio. Esta explosão agrícola retirou centenas de milhares de pessoas da pobreza extrema em todo o mundo. E o mesmo aconteceu com outro tipo de inovações que não são comummente elencadas como a tal. Como escreve, cerca de 40% da população mundial está viva porque, em 1909, o químico alemão, chamado Fritz Haber, conseguiu sintetizar o amoníaco (imprescindível para a produção dos fertilizantes); um outro exemplo é o facto de os casos de poliomielite terem decrescido 99% nos últimos anos, não porque a doença se “erradicou a si mesma”, mas porque Albert Sabin e Jonas Salk inventaram a vacina para a pólio e o mundo inteiro fez um esforço colectivo para a administrar em grande escala.

© Bill & Melinda Gates Foundation

O que Gates pretende explicar, com estes dois exemplos, é que uma das suas actuais prioridades é pensar no progresso de inovações que realmente melhoram as vidas das pessoas, tal como os fertilizantes ou as vacinas para a poliomielite o fizeram. E se a tecnologia pode ser fantástica, não é através dela que se chega às pessoas com necessidades mais prementes, pelo menos no período de tempo suficiente para realmente se fazer a diferença. E é esta distinção entre inovação e tecnologia que parece marcar a diferença no seu pensamento da actualidade, reflectido exemplarmente na forma como, em conjunto com a mulher Melinda, gere as prioridades da fundação de ambos.

Mas não só. Se a esmagadora maioria dos milionários não sovinas encara a filantropia como mais uma marca do seu status social, para Gates, a sua filantropia tem a força de um imperativo moral, como assegura na entrevista ao Finantial Times. “A decisão para mergulhar em causas como a de tentar evitar a morte de crianças no mundo em desenvolvimento ou melhorar a educação nos Estados Unidos foi o resultado de cálculos éticos muito cuidadosos”, afirma.

E, pese embora as críticas que continua a ser alvo, principalmente no que diz respeito ao seu ego megalómano, a verdade é que tem obra feita para mostrar e demonstrar que é um filantropo diferente dos demais.

A enorme confiança que depositava num movimento de filantropia gerado pelo já famoso Giving Pledge, anunciado publicamente em Junho de 2010 – Gates foi capa da revista Fortune com o amigo e também multimilionário Warren Buffett devido ao compromisso de honra assinado por um conjunto de milionários que juravam doar, no mínimo, 50% da sua riqueza para ajuda filantrópica, em vida ou depois da morte –  tem vindo a esmorecer. É que apesar de terem dinheiro para gastar neste mundo e no outro, a maioria dos milionários não abre mão da sua fortuna para financiar causas com e do futuro. Gates e Buffett têm tentado angariar mais servidores para a sua causa mas, três anos passados, o número de multimilionários signatários não ultrapassa os 114. As constantes investidas tanto na Ásia como na Europa para convencer os seus pares a doarem parte da sua fortuna para causas sociais têm-se revelado um fracasso (por acaso, o jovem Zuckerberg é um dos mais recentes signatários do Giving Pledge).

Todavia, a obra desenvolvida pela Fundação Bill e Melinda Gates está já inscrita na história da filantropia e decerto perdurará em muitos anos vindouros. De acordo com várias contabilizações realizadas, é quase certo que Bill Gates tem, neste momento, o poder de afectar, positivamente, é claro, a vida de mais pessoas do que qualquer outro indivíduo em toda a história da humanidade.

De acordo com o Finantial Times, a Fundação que lidera em conjunto com a mulher, lançada em 1997, e pela qual Gates trocou a cadeira de CEO da Microsoft, liberta, todos os anos, cerca de quatro mil milhões de dólares, o equivalente a cerca de metade do orçamento global gasto pelo governo dos Estados Unidos em saúde no ano de 2012, superior ao orçamento da UNESCO e ainda aos de vários países em desenvolvimento. A maior parte deste dinheiro é utilizado no sentido de melhorar a saúde e lutar contra a pobreza nos países em desenvolvimento, com projectos de longo curso, metas avaliadas e, acima de tudo, com impactos visíveis no seu cumprimento. É que apesar de Gates ter agora uma enorme experiência no terreno, passando grande parte do seu tempo a viajar e a “penetrar” nos locais mais pobres do mundo, o homem que ofereceu ao mundo a “primeira revolução dos computadores”, não deixou de ser também um homem de negócios, com métodos de gestão comprovadamente eficazes e sem medo de arriscar em novos empreendimentos.

© Bill & Melinda Gates Foundation

O valor da vida é igual para toda a gente
A premissa acima mencionada pode ser considerada também como o ponto de partida para uma filantropia com mais “sentido” que Gates afirma praticar. Pois embora o valor de uma vida X seja exactamente igual ao de uma vida Y, a verdade é que o mundo funciona como se existissem vidas de “primeira” ou vidas de “segunda”. No artigo que assina na revista Wired, e onde conta como chegou a este tipo de filantropia em particular, Gates afirma que com 30 e poucos anos (tem agora 58) e numa altura em que gozava já de uma fortuna imensa gerada pela Microsoft, se sentiu responsável pelo tão falado “dar de volta à sociedade”. Leitor compulsivo, Gates interessou-se em particular e na altura, pelos relatórios governamentais, nos quais descobriu que uma das áreas que estava a sofrer um desinvestimento maior era a da pesquisa científica básica. E a sua primeira ideia foi a de criar um instituto que apoiasse as mentes mais brilhantes do mundo em diferentes áreas da pesquisa científica.

Todavia, esta ideia começou a florescer numa altura em que fez uma viagem a África, com a mulher Melinda, em 1993. E quando ambos viram, pela primeira vez, o que significava viver em pobreza extrema, foi exactamente nesse momento que “começaram a ser educados no que respeita aos problemas que afectavam os mais pobres do mundo”.

Em 1996, o pai de Gates enviou-lhe um artigo do New York Times, que versava sobre os milhões de crianças que morriam de rotavírus [umas das principais causas de diarreia grave em lactentes e crianças], uma doença que não matava as crianças dos países desenvolvidos. E, em simultâneo, um amigo enviou-lhe um relatório do Banco Mundial sobre desenvolvimento, o qual explicava, com detalhe, os problemas das doenças que mais afectavam as crianças nos países pobres.

Estes eventos conjuntos obrigaram-no a repensar muitos dos pressupostos que até aí o guiavam sobre o que significava “desenvolvimento”. “Sou fã devoto do capitalismo”, assegura. “O capitalismo é, sem dúvida, o melhor sistema jamais divisado para transformar o auto-interesse no interesse de todos. Este sistema é igualmente responsável por muitos dos maiores avanços que melhoraram as vidas de milhares de milhões de pessoas”, acrescenta. Mas, o capitalismo, por si só, não consegue abordar as necessidades dos muitos pobres, “o que significa que a inovação estimulada pelo mercado pode, na verdade, aumentar o fosso entre ricos e pobres”.

A visita que fez em 2009 a uma favela em Durban, na África do Sul, contribuiu ainda mais para solidificar a ideia do fosso crescente já mencionado. Quando percebeu que, na favela em causa, que albergava largos milhares de pessoas, os esgotos eram a céu aberto, Gates afirma ter sido confrontado com “uma humilde chamada de atenção para quem considerava que as canalizações modernas eram um dado adquirido”. E, entretanto, percebeu que 2,5 mil milhões de pessoas no mundo não tinham acesso a condições sanitárias, um problema que contribuía para a morte de 1,5 milhões de crianças por ano.

Apesar da ajuda proporcionada pelos países ricos servir para salvar a vida de muitos pobres dos países desenvolvidos, a sua incapacidade e desinvestimento em termos de pesquisa e inovação para estes grupos vulneráveis era mais do que insuficiente. Avessos ao risco, devido à avidez por parte dos seus opositores políticos para explorarem potenciais fracassos, desistem de financiar a inovação. E o mesmo acontece com as empresas. Assim, Gates e Melinda começaram a identificar estas áreas de desinvestimento e elegeram as que funcionariam de base para a sua aventura filantrópica, a qual foi denominada por ambos como filantropia catalítica.

Grandes apostas e o luxo de se poder fracassar
Gates explica o que entende por filantropia catalítica. “Funciona de forma similar à dos mercados privados: investe-se para se ter retornos elevados”, mas existe nela uma diferença substancial. “Na filantropia, o investidor não precisa de ter qualquer benefício”, explica. “Privilegiamos uma dupla abordagem: 1) estreitar o fosso para que os avanços para os ricos possam atingir o mundo dos pobres de uma forma mais célere e, 2) direccionar de forma mais eficaz o QI mundial no sentido de divisar soluções para os problemas que o mundo pobre enfrenta”.

Gates tem consciência dos desafios que tal abordagem representa. “Quando se trabalha numa economia que vale triliões de dólares, qualquer esforço filantrópico acaba por ser relativamente pequeno”, diz. “E se se pretende ter um grande impacto, é necessário alcançar um ‘ponto de alavancagem’, sendo que uma das formas para o encontrar é procurar um problema ao qual nem os governos nem os mercados estão a prestar atenção”.

E foi assim que Bill e Melinda Gates decidiram o âmbito da sua fundação: a nível exterior  – apostando, por exemplo, em várias “doenças das crianças” – dado que as vacinas para as mesmas custam menos de 25 cêntimos ou financiando a pesquisa sobre a malária; e, a nível interno, a procura de uma nova abordagem para a educação nos Estados Unidos.

Como se pode ler no Finantial Times, Gates parece saborear, mais do que tudo, os desafios ao “business as usual”, aplicando-lhes uma dose de pensamento deveras ambicioso. E foi este o mesmo estímulo que o levou a repensar as abordagens “familiares” da filantropia tradicional, empregando o seu dinheiro na perseguição urgente de soluções para grandes problemas em vez de seguir o curso dos seus pares multimilionários e limitar-se a passar cheques que, por muito chorudos que sejam, servem apenas para colocar “pensos rápidos” nos problemas e não os resolver de origem.

© Bill & Melinda Gates Foundation

Gates é, sem dúvida, um homem de grandes ambições. E, segundo o Finantial Times, o instinto que o faz abanar a complacência e desafiar a preguiça intelectual não lhe traz muitos amigos. “Colocar a sua fortuna pessoal e reputação na aposta da erradicação de uma doença tem contribuído para o multiplicar de acusações de vaidade – um caso de ‘ego-filantropia’ que pode distorcer os objectivos quando os super-ricos são confrontados com a sua abordagem”.

Erradicar uma doença, como aconteceu com a Organização Mundial de Saúde, quando declarou, em 1980, que a varíola tinha sido erradicada, é algo que fica para a história. Assim, financiar e organizar uma segunda erradicação iria elevar a Fundação Gates ao pódio enquanto a mais significativa caridade privada no mundo da saúde global. E dar início às próximas doenças da lista a serem varridas do planeta, a começar pela malária.

Se o plano é ambicioso? É, com certeza. E se Bill Gates pode ser acusado de vaidade e egocentrismo, que o seja. Afinal, ele pretende apenas combinar os avanços da ciência com uma consciência global emergente, e utilizar esta “nova ferramenta” para realmente melhorar o mundo. Essa é a sua receita e os valores astronómicos que a suportam são mais do que evidentes: a Fundação Bill e Melinda Gates emprega actualmente 1194 pessoas; a alocação de activos para donativos cifram-se nos 40,2 mil milhões de dólares e, desde o início da fundação, o financiamento de projectos já ultrapassou os 28 mil milhões de dólares. Mais ainda, a Gates Foundation está programada para “sobreviver” pelo menos mais 20 anos a seguir à morte dos seus fundadores e, como acima mencionado, doar mais de metade da sua fortuna pessoal em vida e em testamento faz igualmente parte do compromisso de Bill Gates para mudar o mundo.

Assim, e por muito ambicioso que seja, tem sido essa ambição a salvar milhões de crianças no mundo em desenvolvimento, a conferir vidas mais dignas aos pobres e a dar passos gigantescos no mundo da ciência. Vitórias mais do que suficientes para lhe conferir, desde já, um lugar de prestígio na história da filantropia.

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