… E a Menina dos Caracóis Dourados. Podia ser um conto do tipo ‘era uma vez’, mas, honestamente, cada vez acho menos piada a histórias mal contadas. E parece-me que não sou o único ser desta floresta desencantada a considerar que é chegada a altura de saber a verdade, custe o que custar e doa a quem doer
POR NUNO OLIVEIRA*

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* investigador no CIGEST e docente no ISG – Business & Economics School
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Era uma vez uma economia de capuchinho verde e vermelho que ia muito sossegada da sua vida pelos mercados fora quando de repente lhe apareceu um lobo que, aliás, mais parecia um pastor alemão com pronúncia da ex-DDR e lhe disse: “olha lá, não achas que já chega de andares a distribuir bolinhos de alheira e pastéis de robalo pelos teus amiguinhos enquanto a tua avó joga bridge com as suas amiguinhas público-privadas? Anda ali comigo fazer umas continhas, acho que está na hora de conheceres os três porquinhos, eles são especialistas em fitness e, a bem dizer, estás a precisar de uma boa dieta”.

Podia ser um conto do tipo ‘era uma vez’, mas, honestamente, cada vez acho menos piada a histórias mal contadas. E parece-me que não sou o único ser desta floresta desencantada a considerar que é chegada a altura de saber a verdade, custe o que custar e doa a quem doer. Então vamos a alguns pseudo-factóides que, espera o autor deste texto, vogarão algures entre os irmãos Grimm e o Conde de Lautréamont:

  1. A Segurança Social está cada vez mais parecida com a casinha de gengibre, feita de doces por fora e, por dentro, um verdadeiro crematório dos sonhos de jovens que ainda ousem perspectivar uma velhice suave e salvaguardada;
  2. O Ministério da Agricultura, Ambiente e Eteceteras fica ali mesmo, à direita da segunda estrela da manhã, a nossa Terra-do-Nunca, onde tudo parece que vai ficar bem, os bons vão ganhar e a Natureza vai ficar a salvo dos piratas. Graças à nossa versão da fada Sininho, Peter Pan vai largando a gravata para poupar no ar condicionado e incita-se os índios a retomarem as ancestrais artes da lavoura. Entretanto, as sereias vão prospectando petróleo e gás natural no lado Sul da ilha;
  3. Do lado do Ministério da Economia tardam em chegar os diamantes, parece que os anões andam meio perdidos em labirintos burocráticos e com fortes dores ‘qrénicas’ nas costas que os impedem de laborar a plena força. Também ajudava que as associações empresariais de anões mineiros se entendessem e cooperassem para criar mecanismos de gestão anti-desmoronamento e reformassem os canários que guardam as minas – já chega das mesmas cantigas de sempre e assobios para o ar;
  4. Gaspar, o Rei Mago dissidente, roubou a harpa mágica ao gigante que vivia lá em cima do pé-de-feijão e tenta embalar o vale sombrio, mas, por falta de arte ou preguiça em praticar escalas, engana-se frequentemente e, por lapso, salta uns quantos versos importantes e lá estraga a música. Também o que se podia esperar de um viciado em incenso, essa substância popularizada durante os tempos medievais da peste negra, usada para disfarçar o cheio a morte, sujidade e podridão?

Podia continuar, mas tenho a impressão que estou a chegar ao meu limite de violação de direitos de autor, e por muito que se democratizem os contos populares, há sempre puristas que defendem que as estórias devem sempre ser contadas da mesma maneira, uma e outra e outra e outra vez. Até todos acreditarmos.

“Nestes dias agitados em que a pobre capuchinho verde e vermelho tenta escapar das duras exigências do pastor-alemão arfante, resta-lhe a esperança de que tudo terá o seu fim” .
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Uma das minhas estórias favoritas é a de um filho de camponeses que nasceu a norte de Moscovo, na Rússia dos Czars nos idos de mil oitocentos e muitos, e que contribuiu para a maré vermelha que mudou o mapa do mundo político. O rapaz Nikolai, de apelido Kondratiev, cursou economia e, graças a uma curiosidade bem treinada, reparou que a História tende a repetir-se, entre óptimos e baixos, e que esses ciclos duram aproximadamente cinquenta anos e marcam as grandes mudanças do equilíbrio macro económico entre os povos da terra.

Parece que foi inspirado pela sua namorada de então, uma miúda de cabelos loiros e encaracolados que era particularmente chat… bem, digamos, exigente: nem muito quente, nem muito frio, nem muito grande nem muito pequeno. Desde que tinha andado a brincar na casa dos três ursos (os ursos russos sempre tiveram presença forte na história da humanidade), tinha reparado que, para ela, as coisas só estavam bem quando absolutamente perfeitas, em equilíbrio. Nikolai olhava para a sua musa e falavam sobre o tempo prazenteiro de um renovado Outubro soviete, onde só graças a uma perfeita distância do Sol, nem muito longe, nem demasiado perto, poderíamos ter um planeta tão confortável.

Mas, já dizia Sartre, a única coisa permanente na vida é a mudança, e Nikolai pensava e considerava, se tudo muda, como muda? Lentamente, aos olhos mediáticos de uma imprensa hiperventilante do século XXI. Mas de modo seguro e rápido, entre o perfeito e o imperfeito, através de ondas largas que colocavam tudo no seu sítio: nem muito quente nem muito frio, nem muito parado nem demasiado agitado.

Nestes dias agitados em que a pobre capuchinho verde e vermelho tenta escapar das duras exigências do pastor-alemão arfante, resta-lhe a esperança de que tudo terá o seu fim, e que surja logo um novo início económico que permita restabelecer a paz em Portuga-lá-lá-lândia. Mas desta vez, espera-se que a avozinha seja mais controlada nos seus cozinhados e jogatanas com as amigas. Capuchinho senta-se e olha para o Rio, que corre para lá do oceano azul e ousa sonhar verde. Alimentemos pois os seus sonhos e talvez possamos surfar na nova onda de Kondratiev.