Os quatro mil milhões de pessoas que, em todo o mundo, vivem com menos de quatro dólares diários, são os destinatários da organização sem fins lucrativos Revolution Design, que apostou no cruzamento de experiências dos seus principais membros para o difícil processo de “identificar uma necessidade e criar a melhor solução”: conhecimento do terreno, engenharia high tech e competências em design. Desconhecida ainda do mercado, a incubadora R-DEV promete dar que falar
POR HELENA OLIVEIRA

“A principal questão não é desenvolver tecnologia, mas causar impacto”. A frase é de Krista Donaldson, CEO, desde 2009, da Design Revolution ou D-REV, uma firma de design e tecnologia, sem fins lucrativos, cujo objectivo principal é melhorar as condições de saúde dos cerca de 4 mil milhões de pessoas que, em todo o mundo, vivem com menos de quatro dólares por dia.

Um projecto ambicioso, sem dúvida, mas que conta já com duas inovações a serem comercializadas em algumas comunidades do mundo em desenvolvimento: um dispositivo, baptizado de Brilliance, para tratar recém-nascidos com icterícia severa e uma prótese para os amputados acima do joelho, o ReMove Knee.

© Revolution Design

A organização, fundada em 2007 por Kurt Kuhlman, um tecnólogo, e pelo empreendedor e inventor Paul Polock, da International Development Enterprises, só a partir de 2009 é que começou a colocar em prática o turbilhão de ideias que tinha em mente. Foi nessa altura que Krista Donaldson assumiu o cargo de CEO, no qual tem oportunidade de aplicar o seu valioso e multidisciplinar currículo. Com formação em engenharia de design, foi investigadora da KickStart International e trabalhou com a mais famosa firma de design do mundo, a IDEO. Antes de aceitar o actual cargo, Donaldson trabalhou também no Departamento de Estado norte-americano, em políticas económicas e na reconstrução do sector eléctrico do país.

A organização, que espera ser financeiramente auto-sustentável em 2017, trabalha ou já trabalhou em países como a Índia, Nepal, Uganda, Quénia, Tanzânia, Nigéria, Sri Lanka, Botswana e Iraque e, para o seu sucesso, é crucial as parcerias que estabelece com as comunidades locais onde quer ver implementados os seus inovadores produtos.

Do protótipo à penetração no mercado
Conferencista convidada nas famosas TED talks, Krista Donaldson insiste em traduzir a palavra “inovação”, uma das mais utilizadas nos ambientes de empreendedorismo social, mas que nem sempre faz jus ao seu verdadeiro significado. Para a CEO da D-REV, é inegável que o enfoque deva ser exercido no impacto, e na não na inovação técnica em causa, acrescentando que o que geralmente fica de fora é o contexto para estas inovações. “De que forma, exactamente, é que um produto inovador pensado num laboratório ocidental irá funcionar num hospital rural do Malawi ou numa pequena maternidade da Índia? Que componentes de substituição irá precisar? Como é que será mantido sem técnicos competentes? Funcionará em caso de corte de energia? O que acontece quando ficar sem bateria?”

A resposta a estas perguntas faz parte da gestão da inovação produzida pela Design Revolution. E Donaldson recorda igualmente que, quando chegou à organização na qual agora é CEO, a maior necessidade que existia era a de diminuir o denominado “vale da morte”, ou seja, o espaço que medeia o protótipo e a sua entrada no mercado: um caminho que exige um sério investimento na compreensão das cadeias de fornecimento, dos players já estabelecidos e dos parceiros potenciais, sem esquecer o terreno, as barreiras e as soluções já existentes, ou seja, tudo o que liga um produto aos seus utilizadores.

Dando o exemplo do Brilliance, o dispositivo de fototerapia que saiu dos laboratórios da Stanford University School of Medicine (parceira da D-REV) e que trata a causa número um de internamento dos recém-nascidos, a icterícia severa, Donaldson sublinha que é importante perceber, para o sucesso da comercialização de alguns destes produtos inovadores, que os utilizadores nem sempre são os clientes. Neste caso em particular, os utilizadores são os médicos e os enfermeiros, sem esquecer os bebés, mas o comprador é, muitas vezes, alguém diferente, como por exemplo, o ministério da Saúde. Para a CEO, perceber esta dinâmica é crucial para qualquer empreendimento social.

© Revolution Design

Numa entrevista à NextBillion.ne, Donaldson afirma que para se desenvolver um projecto, é absolutamente imprescindível passar pelo menos duas semanas com as pessoas destinatárias do produto, no seu ambiente, e visitar dezenas, ou até centenas, de stakeholders. “Com o Brilliance, visitámos centenas de clínicas e hospitais e, na verdade, mudámos a nossa posição inicial, pois percebemos que a necessidade que tínhamos originalmente identificado não era o local mais prático para se começar a abordar os problemas e mortes causados pela icterícia severa”. Afirmando que, no mundo do design, estas diligências são denominadas de “procura de necessidades”, na procura tradicional em que a necessidade é centrada no utilizador específico, aspectos como a análise de mercado ou o estabelecimento de preço falham ou não são considerados na maioria das vezes. “Se existisse mis pesquisa nas fases iniciais do processo de design, veríamos muito mais impacto proveniente deste tipo de produtos”, assegura.

Assim, na Revolution Design, o processo de design inclui todo o ciclo de vida do produto: o design, a produção, a distribuição, o marketing, as vendas e a expansão no mercado. “É necessário saber aonde se quer ir e como é que se consegue lá chegar logo quando se começa”, diz Donaldson.

Impacto mínimo: um milhão de pessoas
As inovações da Design Revolution são todas geridas por pessoas que estão no terreno dos países com os quais trabalham, em vez de o serem por “gestores” que habitam os países que pensam que sabem quais as necessidades daqueles lugares longínquos que pertencem ao mundo em desenvolvimento. A ideia para o Brilliance, por exemplo, veio da parte de um médico que abordou um dos membros da organização. Já o ReMotion Knee, o acessível sistema de prótese acima mencionado, “saltou” de uma turma da universidade de Stanford, depois da Jaipur Foot Clinic na Índia (uma organização que fornece, gratuitamente, vários dispositivos e equipamento para pessoas com deficiências físicas) ter abordado a turma em questão e lhes ter dito que “precisamos de joelhos melhores”. Actualmente utilizado em duas clínicas indianas, a prótese já serviu mais de 3600 pessoas.

Questionada sobre se é a concepção de um produto que procura a necessidade, ou se é a necessidade que convida a uma solução, Donaldson admite que os seus projectos são provenientes de várias fontes. Todavia, a sua favorita é quando são os parceiros que os abordam com um problema entre mãos. “Queremos sempre começar por uma necessidade, mas o que acontece frequentemente é as pessoas virem ter connosco com a solução”, afirma, dando o exemplo da escassez de electricidade em muitas áreas rurais. “A luz é a solução, portanto procuramos a necessidade, seja o facto de alguém querer manter o negócio aberto até mais tarde ou as crianças que precisam de iluminação para fazer os seus trabalhos de casa, depois do sol se pôr. O que nós fazemos é tentar descortinar a verdadeira necessidade”, explica. “E porque temos uma abordagem com base no mercado, temos primeiro que determinar se existe mercado para este produto. Investigaremos o tipo de mercado existente, qual será o nível de preço, se é possível tornar o produto lucrativo e como funcionam as cadeias de fornecimento e os canais de distribuição. Ou seja, escolhemos os projectos com maior potencial para um impacto sustentável e escalável”, conclui.

© Revolution Design

Não se desviar da missão inicial da organização é igualmente algo que Krista Donaldson não descura. Quando avalia um projecto, questiona sempre: “este produto vai mesmo ajudar os que vivem com menos de quatro dólares diários?”. O que significa que se o “público-alvo” está num patamar mais elevado de rendimentos, de 10 a 15 dólares diários, por exemplo, é porque não está de acordo com os critérios. E, ter impacto positivo em pelo menos um milhão de pessoas é o objectivo mínimo de qualquer das inovações da Design Revolution que tem esperança e confiança que consiga lançar nestes mercados um novo produto em cada 18 meses.

O mais recente desafio da organização prende-se com os modelos de distribuição. Neste momento, a Design Revolution conta com dois membros seus no Quénia, que estão a estudar os canais de distribuição ali existentes. As questões como “temos de pagar tarifas?”, “quem devem ser os nossos distribuidores?”, “qual o nível de corrupção que podemos encontrar e até que ponto é que tal alterará o preço de custo?” ou “existe mesmo mercado para o produto?”, são essenciais quando se abordam novos mercados.

E, tal como Kirsten Donaldson deixa bem claro aos que com ela trabalham: “se não existe necessidade para o produto, não me dêem planos de distribuição”.