A ACEGE pretende desafiar os líderes empresariais a empreender um caminho que, em conjunto com as famílias dos seus colaboradores, seja transformador no combate à pobreza. Para tal, será utilizado, no interior das empresas, o “Semáforo”, uma ferramenta que visa sinalizar – a verde, amarelo e a vermelho – um conjunto de situações que contribuem para a existência e perpetuação, em muitos casos, deste estado de vulnerabilidade. “Tornar visível o invisível”, “tornar possível o impossível” e “tornar acessível a quem precisa” são as três fases de um projecto que, acreditamos, ajudará a mudar o rumo deste flagelo persistente e ao qual, enquanto líderes empresariais, não podemos fechar os olhos, optando por o ignorar
POR JOÃO PEDRO TAVARES

Neste tempo tenho vindo a ser interpelado e a tomar consciência sobre os verdadeiros desafios que nos tocam enquanto empresários e gestores. Com o privilégio de assumirmos cargos e responsabilidades de liderança, deveremos fazer-nos estas perguntas: “o que está ao meu alcance transformar? Como poderei contribuir para um mundo melhor? Até onde vai esse mundo que tenho à minha responsabilidade?”. Ou ainda, “dos problemas que subsistem no mundo, na nossa sociedade, ao nosso redor, o que me toca fazer? Tenho-me responsabilizado para lá das minhas atribuições primárias? Porque não o faço?”.

E há um tema que tem vindo a ganhar maior consciência e muito espaço no meu coração e que é o combate à pobreza. Reconheço que não é um tema de capa, tão destacado como a marquise do Ronaldo, ou que mereça o mesmo destaque que os golos da seleção. É um tema que nos deveria envergonhar, em particular se reconhecermos que mais poderia ser feito ou que dispomos de maiores capacidades ou competências para melhorar a situação. Esta maior consciência que tem vindo a maturar no meu coração foi-se alargando com a encíclica do Papa Francisco, Fratelli tutti e, mais recentemente, com o estudo publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS).

Portugal tem uma sociedade que produz pobres. Desde logo, na origem, 44% dos portugueses vive em situação de potencial pobreza, o que é um valor demasiado elevado para não nos questionarmos. Isto significa que a nossa sociedade precisa de rever profundamente o modelo económico e social, mas também o educacional, em que assenta. Não precisa de umas melhorias ou de uma bazuca de dinheiro, nem de contrair mais divida pois também é sinal de pobreza viver de mão estendida como nos habituámos a fazer. Precisa de uma transformação mais profunda que pode levar várias gerações, mas que é um caminho que necessita ser feito, com determinação, perseverança e objetividade. Os portugueses são um povo de enormíssima qualidade e valor, solidário, bem formado, e que merece muito mais. Mas não é a isso que me sinto desafiado neste momento.

Com as múltiplas ajudas sociais – na grande maioria, pensões e subsídios, a cargo do Estado – os níveis de potencial pobreza e exclusão social baixam para 23%, o que é ainda elevado e nos coloca na cauda da Europa. São mais de 2,4 milhões de portugueses que vivem nesta situação, o que nos faz continuar na análise dos grandes números, com enorme diversidade de situações. A reação mais imediata seria dizer, “já pago impostos – que não são poucos – para que o Estado resolva a situação e por isso não tem a ver comigo”. O estudo recentemente publicado pela FFMS trouxe uma análise mais profunda na caracterização das situações de pobreza, não se limitando à frieza dos números, mas dando-lhes rostos, através da narrativa de historiais reais, o que resultou em um olhar mais próximo e humano sobre o tema.

Mas, voltando às perguntas iniciais que me interpelam, sinto-me pessoalmente responsável por 30% destas pessoas, na medida em que são as que trabalham. Sabendo que a sociedade assiste a muitos do que se encontram em pobreza (não os retirando dessa situação, mas melhorando e aliviando apenas as suas vulnerabilidades, como sejam idosos, crianças, deficientes, desempregados, famílias monoparentais), existem ainda cerca de 800 mil portugueses que trabalham e se encontram em situação de pobreza, seja por vínculos precários, por não se encontrarem em pleno trabalho, entre outras situações.

É sobre estes que nos cabe uma responsabilidade particular, enquanto líderes empresariais, tendo em conta que sabemos que estas situações não se resolvem através de um mero despejar de dinheiro, mas sim por uma tentativa de transformação “por dentro”, a partir das famílias, e tendo em conta que:

  • não há pobres, mas famílias pobres;

  • é obrigatório proteger a família sabendo que há muita pobreza escondida e situações de pobreza que vão para lá das insuficiências monetárias;

  • é obrigatório devolver à família o papel essencial, determinante e ativo dentro da sociedade. A família é a célula de maior solidariedade, inclusão e apoio que existe numa sociedade e, como sabemos, tem vindo a perder a centralidade da sua importância.

Nesse sentido, enquanto ACEGE, queremos desafiar os líderes empresariais a empreender um caminho que, em conjunto com as famílias dos seus colaboradores, seja transformador no combate à pobreza.

Numa primeira fase, queremos “tornar visível o invisível”, ou seja, reconhecer e sinalizar situações de colaboradores com famílias pobres. Iremos utilizar como ferramenta o “Semáforo” precisamente para “semaforizar” (em verde, amarelo e vermelho) seis grandes grupos de avaliação: acesso a recursos financeiros, dignidade na habitação, acesso a cuidados de saúde, acesso à educação e cultura, inserção comunitária e capacidade de auto-estima e motivação. Garantir-se-á a protecção a todos os participantes e, mediante as necessidades, promover-se-á uma rede de assistência e ajuda, através de instituições que estejam no terreno. Esta segunda fase foi denominada “tornar possível o impossível”, por conhecimento e sinalização das situações que carecem de apoio especifico e activação de meios direccionados para a transformação. Cabe sempre à família um papel importante na transformação, a qual contará com o apoio necessário nesse sentido.

No estudo da FFMS foi sinalizado um dado preocupante e que é: quem entra em pobreza prolongada tem dificuldade em sair desse estado, e é precisamente a inversão desta situação que sonhamos, pretendemos e queremos que venha a suceder. A terceira fase será precisamente “tornar acessível a quem precisa” disseminando este programa e aprendizagem o mais possível. O efeito de rede é determinante e é nesse sentido que pretendemos caminhar, fazendo mais com os recursos que temos disponíveis, partilhando-os e tornando-os mais efectivos.

Assim, devemos colocar-nos na interpelante parábola do Bom Samaritano (merecedora de um capítulo específico na encíclica Fratelli Tutti) e questionarmo-nos sobre o papel que queremos assumir enquanto líderes empresariais: passar ao lado e virar o olhar? Ou intervir, ajudar, apoiar, mudar de rumo, partilhar o que tenho e, no regresso, verificar o resultado? Somos eficientes e sobre-capacitados na criação de valor. Que o sejamos também na bondade dos gestos, na disponibilidade dos recursos, no contributo para um mundo melhor. Dito isto, como seria escrita a parábola do Bom Gestor?