Quando um multimilionário americano afirma que não são os capitalistas nem as empresas que criam emprego, mas sim a classe média, isso é… motivo para ser censurado? Para o curador do TEDx, ChrisAnderson, a resposta é sim. Todavia, quando o assunto toca na eterna questão da desigualdade de rendimentos, não há nada que impeça a disseminação do tema. Que, obviamente, anda a correr pelas inúmeras estradas do mundo digital
POR HELENA OLIVEIRA

Tem como slogan “Ideias que merecem ser disseminadas” e sempre se assumiu como um grupo sem fins lucrativos que existe exactamente para dar voz aos anónimos com boas ideias e aos poderosos que as querem divulgar. Estamos, como já o leitor deverá ter adivinhado, a falar do fenómeno global TED, a que o VER já fez, por várias vezes, referência, e cuja pedra basilar é a de que não existe força mais pujante para a mudança no mundo do que uma ideia poderosa. Liberdade intelectual e um apertado controlo de qualidade são condições sine qua non para que as palestras, mais conhecidas por “talks”, sejam publicadas no website do TED, sob o crivo do empreendedor dos media, Chris Anderson que, desde 2001, se tornou no seu curador.

Todavia, existe uma ideia que os organizadores do TED decidiram, recentemente, não disseminar, ou melhor, não publicar, no seu website por ser demasiado controversa: a noção de que o aumento das desigualdades sociais é prejudicial para a América (e, por arrasto, para as demais economias) e que os ricos (leia-se milionários) deveriam pagar mais impostos. Ora e como o curador do TED deveria ter antecipado, o vídeo da mesma foi publicado no YouTube e tornou-se viral, bem como a polémica. Afinal, o autor da palestra controversa é o multimilionário Nick Hanauer, capitalista de risco e o primeiro investidor não familiar da Amazon e, no seguimento do famoso movimento Occupy Wall Street,  que deu rosto aos “99 por cento” versus o 1% que detém uma fatia de 40% da riqueza do país, as suas palavras não caíram muito bem. A palestra de Hanauer vai ainda mais longe, quando este defende que é a classe média, e não os inovadores abastados, como ele próprio, que são os verdadeiros “criadores de emprego” nos Estados Unidos.

A publicação, ou não, da talk de Hanauer foi tema de discussão nos últimos meses. Tudo começou a 1 de Março último, dia em que Hanauer foi convidado para falar na TED University Conference e, logo a seguir à sua palestra, os organizadores do TED afirmaram-se entusiasmadíssimos para a publicar. Mas e quase em simultâneo, a filantropa Melinda Gates tinha também tocado num assunto delicado numa outra TED talk: a exortação ao acesso de contraceptivos no mundo em desenvolvimento. No início do mês de Abril, o curador Chris Anderson fez referência, em alguns emails enviados aos demais organizadores, e também a Hanauer, que não queria divulgar a palestra deste último ao mesmo tempo que a de Melinda Gates. E, a 6 de Abril, também num email, escreveria que a palestra de Hanauer “se posicionava talvez entre as mais politicamente controversas palestras que tinham sido proferidas e que teremos de ter muito cuidado relativamente à altura em que a devemos publicar”. O curador acrescentava ainda que “já temos a palestra de Melinda Gates pronta a ser publicada”.

No início de Maio, Chris Anderson acabou por informar Hanauer que tinham decidido não publicar a sua palestra.

Na mesma altura, o NationalJournal pediu uma entrevista a Anderson sobre os motivos que o levaram a considerar uma palestra sobre a desigualdade mais politicamente controversa do que, por exemplo, a proferida por Melinda Gates no que respeita à contracepção. Num email, a resposta do curador foi a seguinte: “Muitas das palestras proferidas nas conferências TED não são publicadas. Só colocamos online uma por dia no TED.com e existe um conjunto acumulado e não publicado de palestras fantásticas provenientes de todo o mundo. Não comentamos publicamente os motivos que nos levam a publicar ou não uma determinada palestra. Não nos parece justo para os oradores envolvidos. Contudo, temos uma política que evita palestras que sejam ostensivamente partidárias ou as que recebem rácios de audiência medíocres”. Anderson viria ainda a acrescentar, uns dias mais tarde, que o facto de os Estados Unidos estarem a meio de uma campanha eleitoral iria sublinhar a natureza política da palestra, para além de que “muitos gestores de negócios e empreendedores se sentiriam insultados” por alguns dos argumentos de Hanauer. Apesar de o TED ser conhecido por não ter pruridos em publicar muitas palestras muito mais controversas do que esta, a decisão final foi a que já se sabe, o que não impediu muitos meios de comunicação de a resgatar e de a tornar potencialmente  mais popular do que se realmente tivesse sido publicada no lugar que lhe competia. A revista The Atlantic publicou-a na íntegra, juntou-lhe os slides e o YouTube fez o resto.

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O VER resume de seguida o essencial da palestra censurada de Hanauer e da discussão que se lhe seguiu sobre a questão da desigualdade dos rendimentos e o declínio da classe média, uma realidade nos Estados Unidos, mas também por terras lusas. E será o leitor a julgar a pertinência da sua publicação ou censura.

“Um consumidor ‘normal’ cria mais postos de trabalho do que um capitalista como eu”

É absolutamente espantoso a forma substancial de como uma ideia pode influenciar a sociedade e as suas políticas. Considerem a seguinte:

Se os impostos dos mais ricos aumentarem, a criação de emprego declinará.

Esta ideia é uma profissão de fé para os republicanos e raramente desafiada pelos democratas, tendo influenciado sobremaneira o ambiente económico da actualidade.
Mas, por vezes, as ideias que damos como certas estão completamente erradas. Durante milhares de anos as pessoas acreditavam que a Terra era o centro do universo. Não é e um astrónomo que continue a acreditar nesta ideia é um mau astrónomo.
Da mesma forma, um decisor político que acredita que são os ricos e os seus negócios os verdadeiros ‘criadores de empregos’ e que, devido a essa razão, não devem ser taxados, é um mau decisor político”.

Até aqui, as palavras não parecem ser de todo incendiárias. Como comentava a Time num artigo esta semana, a tese básica de Hanauer – que sustenta que o crescimento económico é, em larga medida, estimulado pelo consumo – é familiar a qualquer pessoa que tenha estudado os princípios básicos da economia. Vejamos a mesma mais em pormenor.

“”Fundei ou ajudei a fundar dúzias de negócios e, inicialmente, contratei imensas pessoas. Mas se ninguém tivesse a capacidade de comprar o que tínhamos para vender, todos os meus negócios teriam fracassado e todos esses postos de trabalho ter-se-iam evaporado.

E é por isto que afirmo, com confiança, que as pessoas ricas não criam emprego, nem as empresas, pequenas ou grandes. O que conduz a mais emprego é um ‘ciclo de vida’, uma espécie de ciclo de reacção entre consumidores e negócios. E apenas os consumidores podem colocar em movimento este ciclo virtuoso de aumentar a procura e, por conseguinte, a contratação de trabalhadores. E, neste sentido, um consumidor normal da classe média é muito mais um criador de emprego do que um capitalista como eu.

Qualquer pessoa que já tenha gerido um negócio sabe que contratar mais pessoas é um recurso capitalista de último caso, algo que só fazemos quando o aumento da procura por parte do consumidor assim o exige. Neste sentido, denominarmo-nos como criadores de emprego não só é desadequado, como desonesto”.

Mais uma vez, as afirmações de Hanauer não chocam ninguém e representam apenas um facto central da economia. Na verdade, a recusa por parte de negócios lucrativos em voltarem a contratar [nos Estados Unidos] é uma das razões devido à qual a criação de novos postos de trabalho continuar anémica de há uns bons anos a esta parte. Todavia, é nos parágrafos que se seguem que surge a conclusão de Hanauer que pode ofender os ricos (e os republicanos).

“As nossas políticas actuais estão viradas ao contrário. Quando se tem um sistema fiscal no qual a maioria das isenções e as taxas mais baixas beneficiam os mais ricos, tudo em nome da criação de emprego, o que acaba por acontecer é que os ricos ficam mais ricos.
Desde 1980, a quota de rendimentos para os americanos mais ricos mais do que triplicou, ao mesmo tempo que as taxas de impostos efectivas declinaram quase 50%.
Se fosse verdade que taxas mais baixas de impostos e mais riqueza para os ricos conduziriam a uma maior criação de emprego, então hoje estaríamos afogados em empregos. Mas e como sabemos o desemprego e o sub-emprego continuam em níveis elevadíssimos”.

Em 2011, Hanauer afirmou ter pago uma taxa efectiva de impostos na ordem dos 11%. Ao se posicionar no escalão mais elevado de um grupo elitista de americanos, os que pertencem ao tão falado 1%, são muitos os economistas que esperam que ele, em conjunto com os demais da sua classe de empreendedores, estimulem a próxima grande vaga de crescimento. Tal como muitos ricos que subiram do nada, Hanauer desenvolveu a sua própria teoria de como curar a economia. E ao negar que são os inovadores e os homens de negócios que criam emprego, coloca o destino da economia nas mãos da classe média, ao mesmo tempo que apela a um maior nível de impostos pagos pelos mais endinheirados. “Quando a classe média prospera, as empresas crescem e contratam, e os seus proprietários lucram”, afirma.

De acordo com um dossier que o NationalJournal tem vindo a preparar, pesquisas recentes provenientes de um leque alargado de especialistas suportam esta inversão económica. Este trabalho tem vindo a demonstrar que a prosperidade de longo prazo da América está posta em causa simplesmente porque a classe média está em sérias dificuldades e os super-ricos estão a saltar fora. Para um conjunto de economistas, o alargamento da desigualdade de rendimentos conduziu a América para a Grande Recessão e é este mesmo fosso que está a evitar o regresso da retoma. Assim, as evidências sugerem não só que o argumento de Hanauer está correcto, como ilustram que os Estados Unidos precisam de uma classe média vibrante para voltarem ao crescimento. E não estão sozinhos nesta contenda.

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A erosão das classes médias
De acordo com o Better Life Index, estudo divulgado na terça-feira pela OCDE e que avalia o bem-estar em 36 países, o fosso entre ricos e pobres em Portugal está cada vez mais acentuado: 20% da população rica a ganhar seis vezes mais do que os 20% mais pobres. Já para não falar que a denominada “classe média portuguesa” corre sérios riscos de “baixar” de categoria, sendo nela também que recai a maior factura da crise. Assim e apesar de serem realidades incomparáveis [a dos Estados Unidos com a de Portugal], a erosão da classe média e os efeitos nefastos que este desgaste possui no crescimento é um elemento comum a muitas economias, não sendo de todo inoportuno aparecer no centro do discurso censurado de Hanauer e, por conseguinte, no presente artigo. Mais a mais, e apesar de ser significativo o número de economistas e políticos conservadores que afirmam que a desigualdade não é má para o crescimento, podendo até ser benéfica, a história contradiz os seus argumentos. Um estudo publicado em 2000, pelo economista William Easterly, do Banco Mundial, intitulado “The Middle Class Consensus and Economic Development”, comprovou que países com classes médias alargadas gozam de níveis mais elevados de crescimento e rendimento, em conjunto com uma ampla variedade de benefícios na saúde tais como taxas de mortalidade infantil baixas e esperança de vida alargadas. Num paper divulgado em 2011, os economistas do FMI Andrew Berg e Jonathan Ostry estudaram o crescimento económico das nações ao longo da História e concluíram que “períodos alargados de crescimento são robustamente associados a mais igualdade na distribuição de rendimentos”.

Apesar de nunca ser fácil definir o conceito de “classe média”, atentemos na interpretação proposta pelos economistas Heather Boushey e Adam Hersch. “Uma família da classe média possui alguma segurança financeira”, escrevem, “seja um bom emprego com seguro de saúde e plano de reforma, ou algumas poupanças no banco para alguma emergência ou para enviar um filho para a faculdade ou até para ajudar um membro da família a iniciar o seu próprio negócio”.

Mas e independentemente de esta definição ser ou não correcta, a verdade é que a erosão da classe média é uma realidade. E perturbadora. De acordo com o trabalho efectuado pelo NationalJournal, os rendimentos médios dos agregados norte-americanos não apresentaram crescimento nos últimos 30 anos, sendo que cada uma das três últimas recessões contribuiu para o evaporar de um número significativo de empregos de competências médias que asseguravam às famílias um bom rendimento, em fábricas ou centros de serviços a clientes ou, nos anos mais recentes, nos serviços do Estado ou nas escolas. O economista David Autor, do MIT, chama a este fenómeno o “esvaziamento” dos empregos americanos, com alguns (poucos) trabalhadores de competências médias a encontrarem formação para postos mais exigentes e bem pagos, e os restantes a serem empurrados para trabalhos mal pagos ou a engrossarem as listas de desempregados. Uma realidade que também os portugueses conhecem e que é expressa nos mais preocupantes números de desemprego das últimas décadas.

E, caso este declínio continue, as pesquisas realizadas nos Estados Unidos apontam para os seguintes efeitos: estradas e pontes cairão na degradação; as universidades entrarão em guerra para licenciar estudantes e os preparar para o mercado de trabalho; os gastos dos consumidores cairão em flecha; os pequenos negócios irão fechar e serão muito, muito poucos aqueles que nascerão no seu lugar. Por fim, milionários como Hanauer serão confrontados com menos clientes e com um número bem menor de potenciais contratados.

Nas duas últimas décadas, a globalização transformou a América, e muitos outros países, numa sociedade de consumo exagerado – em que tudo se comprava e, especialmente, com dinheiro “emprestado” –  e este modelo colapsou com a crise financeira.

Para a generalidade dos economistas o que se segue é a economia da inovação. No caso dos Estados Unidos, os seus parceiros comerciais internacionais contarão com a vantagem de uma força laboral muito mais barata, com regulamentações muito mais permissivas, com uma maior abundância de recursos e, no caso da Índia e da China, com novos bandos de consumidores em rápido crescimento. Mas se os Estados Unidos continuarão a colocar no mercado produtos inovadores antes dos demais, sendo essa a sua vantagem competitiva, o que dizer de Portugal?

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Incubadoras dos empreendedores de amanhã
As pesquisas também apontam para que esta vantagem competitiva derive directamente da força da classe média, a começar pelo seu poder de compra. Os super-ricos não fazem o suficiente para estimular a economia. Quem o faz é a classe média. O que nos traz de volta ao ponto central da palestra censurada de Hanauer, e defendida por vários organismos: as famílias da classe média têm mais receita disponível do que as famílias de baixo rendimento, que compram apenas bens de primeiríssima necessidade e têm uma maior predisposição para gastar o rendimento disponível do que as famílias ricas. Como afirma o próprio Hanauer, ele e os seus amigos ricos, apesar das festas faustosas e dos aviões a jacto que os transportam para férias em sítios paradisíacos, não compram t-shirts, carros e refeições em restaurantes que sejam suficientes para fazer equivaler os gastos que ocorreriam se a sua fortuna fosse dividida entre milhares de famílias pobres. E vários são os estudos sobre o que os economistas denominam como “propensão marginal para o consumo” que apoiam esta teoria.

É por isso e mais uma vez que Hanauer defende que tem de ser a classe média a “puxar” o crescimento, pois é ela que investe em dois dos mais importantes motores da economia: nas infra-estruturas e no capital humano. São as classes médias que exigem boas estradas e boas escolas, exemplos que incentivam o funcionamento geral da economia. Ao contrário de Hanauer e dos seus amigos milionários, as famílias de classe média não viajam de jacto e não colocam os seus filhos em universidades elitistas. E é pouco provável que sejam os filhos dos milionários a ocuparem o lugar de futuros empreendedores. De acordo com dados da Ewing Marion Kauffman Foundation, sete em cada 10 empreendedores americanos provêm de classe média. E só um em 100 nasceu ou muito rico ou muito pobre.

Para os autores do trabalho em causa, as classes médias são as incubadoras dos empreendedores de amanhã, pois estas oferecem uma boa combinação de tempo, recursos e motivação para investir nas competências e para ascender na escala da inovação. As famílias pobres mais não podem fazer do que limitarem-se a tentar sobreviver, para que os seus filhos tenham alguma educação e, na melhor das hipóteses, possam vir a ter lugar nas universidades. Por seu turno, aos filhos dos ricos, habituados aos seus confortos extremos, poderá faltar o incentivo necessário para aumentar ainda mais a fortuna de família e para subirem a escada económica o que, de acordo com o estudo da Kaufmann, é o principal motivador para os empreendedores do futuro.

Ora, se os que estiverem dispostos a correr o risco são os filhos da classe média, o que acontecerá se esta continuar com o seu processo de erosão?

A economia encontra-se em muito maus lençóis quando miúdos que queriam ser médicos acabam a servir cafés ou quando uma jovem mulher que nasceu para ser professora acaba como baby-sitter, a ganhar uns trocos, enquanto espera que haja um lugar para si numa qualquer escola. E nos Estados Unidos, tal como em Portugal, a economia está a sofrer simplesmente porque as pessoas não conseguem realizar todo o seu potencial.

E esta é uma ideia que deveria, sem dúvida, ser disseminada.