A ideia de que uma empresa já não deve apenas gerar lucro para os acionistas, ideia esta defendida por Milton Friedman está ultrapassada e vencida. Pelas pesquisas que apresentamos no livro Capitalismo Consciente Guia Prático , demonstramos que quando uma organização se foca em gerar valor para todas as partes interessadas e afetadas, os resultados financeiros são até sete vezes maiores do que a média de desempenho do mercado, em prazos de 15 a 20 anos
POR THOMAS ECKSCHMIDT

A mensagem que veio do World Economic Forum de Davos este ano não é novidade. É apenas o jargão que está a ser usado que é novo: “Stakeholder Capitalism”. E o que é isso?

Stakeholder é um conceito de que identifica as partes interessadas e afetadas por um negócio ou organização. O Capitalismo de Stakeholders contrapõe-se ao tradicional capitalismo que somente estava focado nos acionistas, a ponto das escolas de negócios ensinarem que o único objetivo de qualquer empresa era gerar lucro para os acionistas.

Vários movimentos que emergiram com força no início deste século já abordavam a ideia de que o capitalismo estava desequilibrado, e que era necessário considerar os demais stakeholders na geração de resultado: temos o capitalismo consciente do qual lidero a aplicação prática com a publicação do Conscious Capitalism Field Guide (Harvard) e que fala sobre “integração dos stakeholders”; o “Shared Value” (valor partilhado) de Michael Porter também destaca a necessidade de se gerar valor para todos os envolvidos e não somente para os acionistas; a Economia Circular que repensa o capitalismo a ponto de incluir o stakeholder “meio ambiente” de forma sistémica na sua abordagem de geração de valor e até o Tripé da Sustentabilidade, que surgiu no século passado, já abordava essa ideia de uma forma mais simplista (apenas três stakeholders, acionista-económico, social-comunidade, e meio ambiente).

De qualquer forma, a ideia de que uma empresa já não deve apenas gerar lucro para os acionistas, ideia esta defendida por Milton Friedman (Prémio Nobel da Economia) está ultrapassada e vencida. Pelas pesquisas que apresentamos no livro Capitalismo Consciente Guia Prático (Editora Voo), demonstramos que quando uma organização se foca em gerar valor para todas partes interessadas e afetadas, os resultados financeiros são até sete vezes maiores do que a média de desempenho do mercado, em prazos de 15 a 20 anos.

As práticas de um capitalismo consciente já vêm de longa data. Podemos até dizer que ele sempre existiu e desde que o ser humano começou a empreender. O ato de empreender é um ato de servir, de buscar melhorar algo. Melhorar um serviço, um produto ou mesmo a nossa vida ou, para os mais altruístas, melhorar o mundo. O que acontece então durante essa jornada que nasce com uma boa intenção e acaba por focar-se apenas em resultado financeiro?

Isso não é exclusividade de poucos, pois é muito fácil perder-se nessa jornada. Uma decisão para alcançar resultados de curto prazo coloca-nos numa ciranda de correr atrás do próximo atalho. Outra pegadinha é quando focamos no ego ao invés de focarmos no ecossistema. Quando um líder trabalha para o bónus, a valorização das suas ações ou opções, naturalmente perde o olhar para melhorar algo, preocupando-se apenas em melhorar o saldo de sua conta bancária. O que significa que o foco nos stakeholders não funciona isolado de outros fundamentos básicos de um capitalismo do bem.

Isso faz-nos retornar aos cinco princípios de um capitalismo mais consciente.

  • Toda a organização precisa de ter um propósito claro e praticá-lo nas relações com os diversos stakeholders e o propósito precisa estar presente em todas as decisões, no desenvolvimento das inovações e em todos processos internos e relacionamentos externos;
  • Toda a organização precisa de ter um líder que trabalha para servir, para expandir o propósito e não expandir o saldo de sua conta corrente; o olhar sistémico do líder garante que o propósito esta a ser aplicado de forma a alavancar uma geração de valor para todos os envolvidos;
  • Toda a organização necessita de uma cultura responsável para que os valores e os rituais perpetuem a intenção do líder que criou a organização e o seu propósito, fazendo com que todos os stakeholders se comportem em prol desta causa maior,
  • Toda a organização precisa de reconhecer a interdependência do sistema, pois sem clientes, fornecedores, funcionários, comunidades, meio ambiente, acionistas e outros, nenhuma empresa existiria. O fato de reconhecermos esta interdependência e criarmos canais de comunicação entre os diversos stakeholders, permite-nos inovar de maneira mais eficiente, crescer de forma mais estruturada e gerar valor em múltiplas dimensões e múltiplas conexões: chamamos a isso ganha6 (ganha-ganha-ganha-ganha-ganha-ganha). Onde as transações deixam de ser utilitárias e passam a ser sistêmicas, potencializando as conexões e interdependência do sistema, e,
  • Toda a organização precisa de gerar diferentes formas de valor. O valor financeiro é o combustível que move todo o sistema, mas os valores sociais, emocionais, culturais, ambientais, espirituais, tecnológicos e assim por diante, precisam de ser gerados constantemente. Estes valores não financeiros são como energia potencial acumulada para ajudar a passar por momentos difíceis e converterem-se em valor financeiro sempre que possível (mais vendas, mais lucro, melhor eficiência, maior efetividade e assim por diante).

Esses cinco fundamentos garantem que um capitalismo de stakeholders se mantenha de pé no longo prazo. As evidências de que precisamos de mudar a forma de operar vêm de longe, mas recentemente são mais evidentes.

  • Em 2017, o CEO da BlackRock, Larry Fink, na sua carta de final de ano aos CEO das empresas de capital aberto, destacou a necessidade das empresas terem planos sustentáveis de longo prazo, uma vez que os clientes da BlackRock estão com ele há mais de 20 anos e deverão continuar por muito mais tempo e não só até o final do próximo trimestre.
  • Em 2018, publicámos uma atualização do desempenho das empresas que aplicam os fundamentos do capitalismo consciente, demonstrando que maximizar o resultado para o acionista é perder valor, pois as empresas que otimizam o valor para todos interessados através dos cinco fundamentos do capitalismo consciente geram valor sete vezes superior ao da média das empresas na bolsa de valores em períodos de 15 a 20 anos.
  • Em 2019, 183 CEOs das maiores empresas dos Estados Unidos assinaram um manifesto que afirmava estarem focados na geração de resultado para todos os stakeholders ao invés de se manterem focados exclusivamente na geração de valor para os acionistas.

Só que no final do ano passado, 2019, estas mensagens acentuaram-se. A nova carta de Larry Fink já destaca uma exigência ainda mais forte, a de que as empresas devem regenerar, não apenas produzir resultado financeiro, e a temática levantada pelo Fórum Económico Mundial de Davos começa o ano de 2020 destacando a necessidade de uma abordagem diferenciada que eles denominaram de Capitalismo para os Stakeholders.

A realidade é que a ideia não vai ficar de pé ou não é sustentável sem os outros quatro fundamentos.

Posso focar em todos os stakeholders, mas a ideia perde força quando não existe uma causa maior por trás, não pode ser apenas para ganhar mais dinheiro por mais tempo. Qual é a causa de sua organização?

Posso focar em todos stakeholders, mas se os líderes ainda estiverem preocupados apenas com os resultados do trimestre ou dos seus bónus, o ego vai-se sobrepor ao ecossistema e o processo falha. Qual a causa que a sua liderança serve? A própria ou uma causa coletiva?

Posso focar em todos stakeholders, mas se eles não se focarem em algo maior transformando as nossas relações num movimento de transformação, não criaremos uma cultura para perenizar essa intenção. Quais são os valores que norteiam a cultura de sua organização? Quais são os rituais que envolvem e celebram o movimento que a sua organização está criando?

Posso focar na geração de resultado financeiro para todos envolvidos, mas é garantido na vida que vamos morrer um dia, vamos pagar impostos e também é garantido que passaremos por mais uma crise. Só valores não financeiros acumulados ao longo dos períodos de bonança nos asseguram uma jornada pelos momentos tempestuosos de crise. Você consegue perceber valores diferentes dos financeiros sendo gerados pela sua organização e pelos relacionamentos que ela cria?

Por fim, posso focar em todos stakeholders, mas efetivamente não fazer a coisa certa. Como você está escutando os seus stakeholders? Quais os canais para ouvi-los? Como respondemos às preocupações e ideias dos stakeholders?

Então, o capitalismo de stakeholders é mais uma ideia que, sozinha, talvez não fique de pé. É mais uma ideia sem mecanismos de implementação e prática. É mais uma ideia importante nesse processo de trazer o tema de mudança do sistema operacional do capitalismo que sempre foi extrativista, para um modelo mais cooperativo e colaborativo.

A intenção é que, de alguma forma, aqueles que estejam lendo isto tenham um momento de epifania, tenham um “Click” (C- causa, L- liderança, I-interdependência, C-cultura e K-valor) e comecem a jornada para transformar o seu negócio numa atividade mais consciente para melhorar as suas hipóteses de estarem em operação daqui a 10 ou 20 anos.

O mais interessante é que quando o capitalismo começou a potencializar-se com a ajuda da revolução industrial, surgiu uma força grande e contrária: o socialismo. Mas, ao mesmo tempo, diante destas duas forças tão antagónicas, há aproximadamente 200 anos surgia já o cooperativismo, onde os fundamentos do capitalismo consciente estão presentes, mas precisam de ser reforçados constantemente. As cooperativas de maior sucesso hoje em dia têm estes fundamentos muito presentes no seu dia-a-dia. O cooperativismo vem à frente do seu tempo há muito tempo.

Você está convencido que precisa mudar? Você está preparado para essa mudança? Você sabe por onde começar?

Conheça o livro Capitalismo Consciente Guia Prático, pois muitas das respostas estão detalhadas nesta Jornada de Negócios Conscientes proposta pelo livro.

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