Mais flexível, mas mais fatigante. Maior empatia entre os colegas, mas menos ligações pessoais. Mais mentalmente desafiante, mas mais cansativo. Mais inclusivo, mas menos colaborativo. Estas são algumas das conclusões de um estudo “contínuo” que a Microsoft está a fazer sobre o trabalho remoto desde o início da pandemia
POR HELENA OLIVEIRA

Nos últimos quatro meses, o trabalho sofreu alterações drásticas e uma das questões que se coloca é se estas mudanças irão persistir no futuro ou se são apenas consequência dos tempos estranhos que se vivem. A Microsoft, e porque o tema interessa sobremaneira ao seu negócio, tem vindo a analisar a realidade do trabalho remoto desde o início da pandemia de forma a poder acelerar o desenvolvimento de produtos em áreas que, por excelência, possam ajudar os seus clientes a tirar o melhor partido possível deste novo mundo laboral.

Assim, publicou recentemente o seu segundo Work Trend Index , um relatório que combina o conhecimento já adquirido e proveniente de três fontes: as tendências identificadas na utilização das suas ferramentas pelos seus clientes, um inquérito realizado a mais de dois mil trabalhadores remotos em seis países – Reino Unido, Estados Unidos da América, Alemanha, Itália, México e China – e as conclusões de mais de 30 projectos de investigação internos que tentam analisar a experiência dos trabalhadores remotos da actualidade através de inquéritos, entrevistas, focus groups e estudos do cérebro humano. As conclusões deste Work Trend Index apontam para quatro grandes tendências que espelham significativamente a forma como um vírus invisível alterou subitamente a forma como encaramos o trabalho.

Ondas cerebrais revelam que a “fadiga das reuniões” é real

Tem vindo a ser motivo de discussão o facto de o trabalho remoto poder ser mais desafiante e cansativo comparativamente ao trabalho presencial. E é a este aspecto que os investigadores do Human Factor Labs da Microsoft têm dedicado a sua atenção nos últimos meses. À pergunta “é verdade que o trabalho remoto e as reuniões em vídeo esgotam mais o cérebro do que o trabalho presencial?”, a resposta, de acordo com a ciência, é um “sim”.

No Human Factor Labs, cujo objectivo é estudar a forma como os humanos interagem com a tecnologia, os cientistas têm vindo a realizar experiências para perceber de que forma o cérebro responde à colaboração remota através dos ecrãs dos computadores comparativamente ao trabalho presencial. Este estudo teve início ainda antes do deflagrar da pandemia e envolveu 13 equipas de duas pessoas cada para completarem tarefas similares em conjunto – “pessoalmente” e remotamente.

Os trabalhadores sujeitos à experiência em causa estiveram ligados a um electroencefelógrafo (EEG), um dispositivo que monitoriza as alterações das ondas cerebrais, permitindo o registo gráfico da actividade eléctrica no cérebro, concluindo que a colaboração remota encerra mais desafios do que a que é feita presencialmente. E, em termos mais específicos, os padrões das ondas cerebrais associados ao stress e ao excesso de trabalho foram muito mais elevados no trabalho remoto comparativamente ao trabalho presencial. Adicionalmente, a pesquisa revelou algo inesperado: se um par trabalhasse em conjunto de forma remota em primeiro lugar, as suas ondas cerebrais sugerem que se torna muito mais difícil trabalharem em conjunto presencialmente depois da experiência remota.

As conclusões do mesmo estudo apontam para duas importantes lições: num mundo que, tendencialmente, está a adoptar o teletrabalho, não só os trabalhadores remotos sentem que o mesmo é mais “mentalmente desafiante”, como aqueles que, gradualmente, vão regressando aos seus locais de trabalho, sentem maiores dificuldades em realizar o seu trabalho habitual face ao período pré-Covid.

Um segundo estudo revelou ainda que os marcadores das ondas cerebrais associados ao stress e ao excesso de trabalho são significativamente mais elevados nas reuniões virtuais comparativamente a outras tarefas como escrever emails, por exemplo. E, devido aos elevados níveis de concentração que são exigidos pelas reuniões em vídeo, a fadiga começa a dar sinais passados 30 a 40 minutos. A pesquisa sugere ainda que são vários os factores que conduzem a este estado de fadiga e stress: o facto de ser necessário um enfoque contínuo no “que se está a passar no ecrã” para extrair informação relevante e manter-se “envolvido”, a existência reduzida de sinais não-verbais que ajudam a avaliar quem está na sala e de quem é a vez de falar e a partilha de ecrã que mostra muito pouco sobre as pessoas com quem se está a interagir.

Para minimizar este fenómeno, a Microsoft sugere que se façam pausas regulares a cada duas horas para permitir que o cérebro “carregue as suas baterias”, limitar a duração das reuniões a 30 minutos e, no caso de estas terem de ser mesmo mais longas, ir-se fazendo pequenos intervalos.

A pandemia terá um impacto duradouro no trabalho

Tendo em conta toda a pesquisa realizada, um dos temas que se apresenta como mais consistente é a aceleração da “mistura” entre vida profissional e pessoal.

Mais de metade dos pais inquiridos (54%), afirmaram ser difícil equilibrar as exigências domésticas quando se está a trabalhar a partir de casa, com o fardo a ser mais pronunciado entre os millennials, bem como para os recém-chegados ao mercado de trabalho, ou seja, a geração Z. A explicação parece residir no facto deste primeiro grupo ter de cuidar de crianças pequenas e, o segundo, por constrangimentos económicos, ser obrigado em muitos casos a partilhar espaços de trabalho com parceiros de casa enquanto gerem o trabalho a tempo inteiro.

Apesar desta necessidade de se cuidar dos filhos ao mesmo tempo que se trabalha remotamente poder ser temporária – algo que ninguém pode ainda garantir – as conclusões do estudo apontam também para diferenças sentidas em relação aos colegas de trabalho. Ou seja, 62% dos inquiridos afirmam que sentem agora maior empatia face aos seus colegas pois têm uma melhor percepção da sua vida em casa. Este sentimento assumiu-se como mais pronunciado na China e no México, onde 91% e 65% dos respondentes afirmaram sentir esta maior empatia, respectivamente.

Em alguns casos, a passagem para o trabalho remoto está a torná-lo também mais inclusivo. Mais de metade (52%) dos entrevistados afirma sentir-se mais valorizado ou incluído devido aos seus contributos nas reuniões pois agora todos se sentam na mesma “sala virtual”. Este sentimento mostrou ser mais pronunciado novamente na China (65%), mas também na Alemanha (57%). E, especificamente para quem usa o Teams da Microsoft, as mensagens por chat aumentaram 10 vezes entre o período de 1 de Março e 1 de Junho. Ou seja, este tipo de comunicação está a tornar-se também um canal cada vez mais utilizado para os trabalhadores partilharem as suas perspectivas.

O trabalho das “9 às 5” está a desaparecer rapidamente

No primeiro relatório realizado pela Microsoft, e com dados relativos ao período entre 1 e 31 de Março, o tempo médio utilizado pelos utilizadores do Teams aumentou para mais de uma hora. No relatório agora publicado, o conceito é explorado de uma forma mais intensa, questionando significativamente o tipo de horário que os trabalhadores estão a cumprir – que pouco ou nada tem a ver com o tradicional “9 às 5” – bem como com os próprios dias de trabalho. De acordo com os dados recolhidos, as pessoas estão a trabalhar mais frequentemente durante a manhã e ao final do dia, mas também durante os fins-de-semana.

Dando mais uma vez o exemplo do Teams, o estudo da Microsoft revela que as conversas por chat “fora” de um dia normal de trabalho, e no período entre as 8 e a 9 da manhã e as 6 da tarde e 8 da noite, aumentaram mais do que em qualquer outra altura do dia, entre 15% a 23%. O trabalho ao fim-de-semana está também em crescimento, com as conversas entre colaboradores a aumentarem mais de 200% aos sábados e domingos.

Em suma, esta “mistura” entre vida profissional e pessoal (ou doméstica, na medida em que o trabalho é feito em casa) está a assumir-se como uma tendência que veio para ficar.

Os escritórios físicos não irão desaparecer no futuro do trabalho

Inúmeros trabalhadores em todo o mundo passaram os últimos quatro meses a trabalhar remotamente. E à medida que as equipas se foram ajustando a esta nova realidade, são muitos os que questionam se os escritórios físicos passarão a ser uma realidade do passado. A pesquisa da Microsoft indica que o trabalho será, muito provavelmente, uma “mistura fluida” de colaboração presencial e remota.

Por exemplo, 82% dos gestores inquiridos esperam vir a ter políticas de trabalho remoto mais flexíveis no período pós-pandemia e 71% dos trabalhadores e gestores reportaram o desejo de continuarem a trabalhar a partir de casa pelo menos em part-time.

Todavia, nem tudo é positivo e são vário os pontos negativos associados com o trabalho a partir de casa. Cerca de 60% dos inquiridos sentem-me menos ligados aos seus colegas desde que o trabalho remoto passou a ser mais significativamente implementado. Na China, a percentagem atinge os 70%.

Adicionalmente, apenas 35% dos respondentes afirmaram ter “um escritório em casa”, ou seja, um espaço exclusivamente dedicado ao trabalho remoto. Desta forma, não é surpresa o facto de as distracções, as questões de conexão e a ausência de ambientes de trabalho ergonómicos surjam no inquérito como os pontos mais negativos do trabalho remoto. Para a Microsoft, este é um indicador de que, e apesar de o futuro do trabalho se afigurar como “o mais remoto de sempre”, o escritório físico – que tem benefícios em termos de maior conexão, espaços mais ergonómicos e mais oportunidades para a formação de laços sociais e para a união entre equipas – irá, muito provavelmente manter-se como “parte integrante” dos tempos vindouros.

Em termos gerais, esta mudança global para o trabalho remoto criou, em simultâneo, novas oportunidades, mas também desafios para o futuro das forças laborais. Do lado positivo, a circunstância singular de se poder trabalhar e aprender a partir de casa como se de uma “família se tratasse” deu origem a uma maior empatia entre os colegas e alterou sobremaneira as percepções, tanto dos gestores como dos empregados, no que respeita à ideia de que é possível fazer o mesmo trabalho remotamente. Complementarmente, tornou o trabalho também mais inclusivo para colaboradores remotos.

Por seu turno, o trabalho remoto poderá conduzir a horários de trabalho mais longos, à “fadiga das reuniões”e à ausência de ligações pessoais como as que acontecem espontaneamente nos corredores das empresas, as quais podem tornar mais forte a união entre a equipas e facilitar a colaboração. A inexistência de espaços exclusivamente dedicados ao trabalho em casa é também um dos factores negativos mencionados.

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