Um dos 12 temas que integram a urgência de uma “nova economia” que o Papa Francisco pretende discutir com jovens de tudo o mundo está relacionado com o binómio “Energia & Pobreza”. Da denominada pobreza energética – definida pela União Europeia como uma situação em que um agregado familiar ou um indivíduo não possui recursos para aceder aos serviços básicos de energia – à transição para energias alternativas que sejam limpas e renováveis, sem esquecer a responsabilidade social não só das empresas como dos cidadãos, são várias as questões que obrigam à reflexão e cujas respostas encerram uma enorme complexidade. Mas, e apesar de o caminho a trilhar ser longo, o desafio tem de ser aceite
POR DIOGO BONVALOT

Cancelado que foi o encontro presencial de jovens de todo o mundo para se reunirem em Assis, mantém-se o desafio lançado pelo Papa: inspirados por São Francisco de Assis, (re)imaginar uma economia baseada no amor. Com a coordenação da ACEGE Next, em conjunto com a preciosa orientação de vários professores de Economia e Gestão, continuamos a trilhar o caminho inicialmente proposto que nos conduzirá até ao evento digital a ter lugar entre 19 e 21 de Novembro próximo.

Depois de uma primeira fase, e no seguimento da proposta de formação dos professores responsáveis, com reflexões e interpelações para nos confrontarmos com temas nem sempre aprofundados no nosso quotidiano, fomos ganhamos ferramentas para os podermos explorar melhor. Divididos em várias villages, cabe a cada grupo preparar e apresentar os temas que integram a “Economia de Francisco”, sendo que o meu ficou com a responsabilidade de abordar a temática “Energia & Pobreza”.

Em conjunto, estas duas palavras suscitaram mais questões do que à partida poderíamos esperar. Actualmente e como é sabido, o nosso paradigma económico assenta no “crescimento infinito”, do qual resulta um aumento constante de necessidades energéticas e dos custos inerentes à sua produção. Desta forma, será possível criar um futuro no qual a energia não seja fonte de divisão ou poluição e que inclua as comunidades mais vulneráveis? Como sabemos, a exploração energética segundo o paradigma actual apresenta várias lacunas. A produção de energias fósseis, que ainda representam uma larga maioria do consumo, é comprovadamente prejudicial ao ambiente, e põe em causa não só a saúde do nosso planeta, a nossa casa comum, como a subsistência das gerações futuras. Contudo, o custo acrescido de novas soluções de produção e de armazenamento de energias limpas, bem como a falta de estímulos à mudança, tornam-se grandes entraves à adopção de um modelo energético mais sustentável e justo para todos.

Esta falta de justiça evidencia-se de várias formas: por um lado, os países mais dotados de recursos energéticos naturais, em especial os fósseis, e por a sua extracção e tratamento serem mais baratos, têm um processo de crescimento económico comparativamente mais fácil, quer seja pela acrescida dotação energética das suas indústrias, quer pela simples transacção de recursos energéticos, largamente procurados a nível mundial. Por outro lado, a injustiça não é apenas uma questão geográfica e de dotação natural, mas também intergeracional. A exploração destes recursos tem efeitos nefastos para o ambiente, comprometendo a qualidade de vida e saúde das gerações futuras, bem como o desenvolvimento económico dos países de baixos rendimentos, muito dependentes da disponibilidade energética e que poderão não ter os recursos necessários ao seu progresso.

Para abordar este tema, dividimo-lo em três vértices de um mesmo triângulo, por se tocarem entre si:

  • Pobreza Energética
  • Transição Energética
  • Responsabilidade Social

A pobreza energética assume-se como o mais premente dos três. Um número significativo de famílias e não só em países remotos ou em vias de desenvolvimento, como também em países ditos desenvolvidos e bem próximos de nós, sofrem de significativas carências energéticas. No entanto, é nos países em vias de desenvolvimento, menos dotados de infra-estruturas, que mais necessidades energéticas ficam por suprir. A falta de luz eléctrica é, provavelmente, a mais problemática, na medida em que, e por exemplo, dificulta em grande medida o estudo ou o trabalho quando deixa de haver luz solar. Para colmatar esta falta, as famílias acabam muitas vezes por recorrer à combustão de biomassa, o que não só representa uma enorme custo no seu orçamento – que nem todos conseguem suportar -, como poderá ter repercussões negativas na saúde humana. E mesmo nos países desenvolvidos, ainda que com expressões diferentes, este é um problema ainda muito presente. A incapacidade das famílias em aquecer ou arrefecer convenientemente as suas casas resulta não só num constrangimento ao seu bem-estar, como apresenta repercussões na saúde a longo prazo, podendo, em casos extremos, ser mesmo fatal.

Em segundo lugar, a transição energética, é possivelmente o desafio mais complexo a enfrentar. Como podemos passar de um modelo de exploração económica alicerçado e muito dependente de matérias fósseis para energias alternativas que sejam limpas e renováveis? Sendo evidente que a segunda opção será menos perniciosa para o ambiente, o que não é tão evidente é de que forma é possível fazer-se esta transição para métodos de exploração menos aprimorados, à partida financeiramente menos eficientes, e com elevados custos de transição. Para qualquer conhecedor da encíclica Laudato Si, a resposta deverá ser bastante imediata. O amor ao próximo, ao que herdará a nossa “casa comum”, deve superar qualquer custo de transição, financeiro ou de outra ordem. Porém, esta visão não agrada nem aos decisores de muitos governos nem às grandes empresas energéticas.

Por fim, a responsabilidade social, que toca a todos de uma forma muito directa. Felizmente é cada vez mais generalizada a consciência de que as empresas, especialmente as do sector da energia, têm a capacidade de transformar o actual paradigma com novas soluções e modelos de negócio, chegando a mais pessoas através de tarifas mais acessíveis ou disponibilizando infra-estruturas em zonas mais carenciadas. As soluções são inúmeras e seguramente estão longe de estar esgotadas.

Feito este levantamento, ergue-se o grande desafio – tentar dar algumas respostas a tão importantes perguntas. Com a dupla consciência de que a energia é absolutamente necessária ao desenvolvimento, mas que o seu consumo não pode aumentar infinitamente, partimos do seguinte mote: From the Green Deal to a “Social” Green Deal. O trabalho já desenvolvido pela village internacional “Energy & Poverty” inspira-nos com projectos admiráveis, por exemplo, em zonas mais remotas do Brasil e com respostas muito prementes e actuais às questões da pobreza energética. É importante ainda sublinhar que os países desenvolvidos têm, e obviamente, um papel preponderante na resposta a estas necessidades.

Começando pelo primeiro ponto – Pobreza Energética – e mesmo que não seja possível trabalhar directamente no terreno com as comunidades mais carenciadas, existem já bons exemplos de como é possível a criação de soluções à distância. A empresa sem fins lucrativos d.Light é uma excelente prova disso. Aproveitando as capacidades de investigação e desenvolvimento dos países mais desenvolvidos, desenha soluções de utensílios eléctricos como lanternas, painéis solares ou geradores a preços que não são proibitivos para as comunidades mais pobres, ao mesmo tempo que implementam unidades produtivas no seio dos países a que se propõem servir, como a Índia, o Quénia ou o Uganda, fomentando duplamente o desenvolvimento e o investimento nos mesmos.

Quanto à Transição Energética, e apesar da complexidade das soluções e processos estarem além das nossas competências, podemos, contudo, falar enquanto consumidores, não esquecendo a responsabilidade que recai sobre nós. A simples decisão de consumir apenas produtos ou serviços de empresas que se mostrem comprometidas com a preservação dos recursos, ainda que esse consumo tenha para nós custos acrescidos, poderá ser o estímulo necessário para fazer com que os produtores se alinhem com os nossos valores. E, particularmente enquanto gestores, somos chamados a fazer parte da transformação das empresas em que trabalhamos, a partir do seu interior, e a disponibilizar ao mercado e aos consumidores a informação que comprove este mesmo compromisso.

Em relação à Responsabilidade Social, não podemos esperar que a iniciativa parta apenas das grandes empresas. É estimulante ver que muitas empresas já se preocupam com as emissões das suas frotas, ou com as emissões de gases com efeito de estufa das suas unidades industriais ou com o consumo excessivo de água nos seus processos produtivos, mas individualmente temos também como missão sermos socialmente responsáveis, seja em grandes feitos, como também nos pequenos hábitos.

Como já esperávamos, percebemos que há ainda um longo e complexo caminho a percorrer. Muitas perguntas se levantaram na preparação e durante a discussão deste tema e foram muito poucas as respostas definitivas. Mas, apesar destas dificuldades, foi possível chegar a um consenso: por muito difícil que seja este tema, por muito injusto que seja o modelo actual, e por muito trabalho que esteja por fazer, não temos que esperar por ninguém. Seja em grandes projectos ou em pequenas acções no nosso quotidiano, com as nossas famílias e amigos, a responsabilidade de cuidar da casa comum é de todos. E podemos começar já hoje.

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