Quando a economia corre atrás da competitividade, “a ideia nasce da necessidade”, defende em entrevista o presidente da APEE, que lançou a primeira edição do Reconhecimento PRÁTICAS RS, cujas candidaturas estão abertas até 28 de Fevereiro. O projecto vai distinguir as organizações pelas suas políticas e modelos de boa governação, em várias categorias, com o objectivo de valorizar o mérito de quem, efectivamente, “cria valor para os seus stakeholders e contribui para o desenvolvimento sustentável”
POR GABRIELA COSTA 

O Reconhecimento PRÁTICAS RS é uma iniciativa lançada recentemente pela Associação Portuguesa de Ética Empresarial (APEE), que vai distinguir a implementação de políticas e modelos de governação sustentáveis em organizações públicas e privadas, com ou sem fins lucrativos, com boas práticas em Responsabilidade Social.

Reconhecer aquelas que assumem a responsabilidade sobre os impactos das suas decisões e actividades, criando valor para os seus stakeholders e contribuindo para o desenvolvimento sustentável, dinamizar esta temática entre o tecido empresarial português, e valorizar o trabalho já realizado pelas organizações portuguesas são os objectivos deste projecto que atribui o Reconhecimento PRÁTICAS RS a organizações com práticas de referência, em nove categorias: Direitos Humanos; Trabalho Digno e Conciliação; Ambiente – Redução de Impactos; Ambiente – Água e Energia; Mercado; Comunidade; Voluntariado; Partes Interessadas e Comunicação.

O projecto, cujas candidaturas estão a decorrer até ao próximo dia 28 de Fevereiro, garante às organizações distinguidas vantagens como a utilização do Selo Práticas RS em materiais de comunicação, a divulgação das organizações pela APEE e a sua participação em apresentações de boas práticas, ou o seu reconhecimento público, “traduzido em vantagem competitiva, capacidade de atrair e reter talentos e credibilidade e reputação junto da comunidade” (investidores, banca, media, fornecedores, clientes e demais partes interessadas, esclarece a Associação).

Mário Parra da Silva, presidente da APEE
Mário Parra da Silva, presidente da APEE

Em entrevista ao VER, o presidente da APEE, Mário Parra da Silva, adianta que as expectativas para esta primeira edição incidem em “começar bem, fazer bem e reconhecer bem”, até porque se trata de “um projecto de médio e longo prazo”, cujas pedras basilares são “a confiança e a credibilidade”.

Numa altura em que se espera a apresentação da nova Estratégia Europeia de Responsabilidade Social e a publicação do Plano Nacional de Responsabilidade Social, Parra da Silva acredita que a primeira “terá mais envolvimento das partes interessadas e de políticas públicas e prevê-se mais exigente na prestação de contas”, mas alerta que é preciso avaliar “a distância do documento à prática”. Sobre o programa Nacional, diz, “espero pouco”.

Como nasceu a ideia de lançar a iniciativa Reconhecimento PRÁTICAS RS, com vista a distinguir organizações socialmente responsáveis e impulsionar boas práticas de gestão no tecido empresarial português?

A ideia nasce da necessidade. Na nossa economia competitiva, e que pretende exportar cada vez mais, todo o factor de diferenciação conta. Quem o faz deve ter uma forma de evidenciar o seu empenho positivo, e é perfeitamente legítimo que o valorize.

Não se faz Responsabilidade Social para “ficar bem na foto”, mas o reconhecimento público é útil para a organização e estimula outras a seguir-lhe o exemplo, o que também é bom para a comunidade.

Que relevância assume essa distinção para a disseminação de modelos de boa governação e boas práticas, entre as empresas públicas e privadas nacionais?

Na nossa opinião será muito relevante, porque será amplamente divulgada e pela abrangência dos parceiros da iniciativa no mundo empresarial. O Reconhecimento Práticas RS conta com o apoio da CIP, da CCP, da AIP e do IAPMEI, para já. Acresce a Fundação Montepio e aguardam-se outros apoios institucionais.

Não temos dúvida de que chegaremos a muitas organizações (empresas, IPSS, administração pública, autarquias, associações, etc.) e que isso contribuirá decisivamente para a disseminação dos bons modelos. Mas continuará a haver muito trabalho para fazer e outras iniciativas para apoiar.

Quais são os critérios de avaliação para a atribuição do “certificado” Reconhecimento PRÁTICAS RS, nas várias categorias?

O modelo de avaliação assenta em três etapas e três diferentes avaliações. A primeira etapa é a da ”qualificação”, ou seja, a admissão ao processo de reconhecimento. É realizada pelo conselho técnico da APEE e não tem qualquer custo. Se a entidade não estiver em condições de qualificação, a APEE propõe melhorias e a candidatura fica em stand by. Se reunir as condições mínimas, o processo de candidatura é enviado para auditoria por entidade competente, sujeita ao pagamento dos custos de participação.

[pull_quote_left]“Não se faz Responsabilidade Social para ‘ficar bem na foto’, mas o reconhecimento público é útil para a organização e para a comunidade”[/pull_quote_left]

A candidatura, instruída com o relatório de auditoria, será então avaliada por um júri, constituído por cinco personalidades independentes, oriundas da academia, da administração pública e de uma empresa de referência. O júri decidirá o reconhecimento, sem apelo. Não haverá ordenação das entidades a quem o reconhecimento for outorgado, as quais serão listadas por ordem alfabética.

Cada entidade não poderá candidatar-se a mais de três categorias. O Reconhecimento será atribuído anualmente.

Que objectivos presidiram à eleição destas nove categorias, de modo a integrar as áreas que a APEE considera serem estratégicas para a criação de valor por parte das organizações, com as que são emergentes para o desenvolvimento sustentável, no actual contexto do País e da Europa?

É sempre difícil decidir que categorias são mais ou menos importantes, porque todas o seriam. Mas achámos que estas seriam mais significativas no actual contexto. Poderão, no futuro, ser complementadas ou mesmo, em alguns casos, substituídas por outras.

Mas neste momento as categorias escolhidas são, no nosso entender, muito importantes para entidades que efectivamente contribuam para o processo do desenvolvimento sustentável, que têm por objectivo caminhar para a sustentabilidade. Tal como a sustentabilidade é um alvo móvel, que se altera com a evolução das realidades tecnológicas, demográficas, políticas e sociais, assim o Reconhecimento evoluirá, conforme a nossa realidade o aconselhar.

Para além deste reconhecimento, de que outras vantagens beneficiam as empresas e organizações, ao participarem nesta iniciativa?

As entidades reconhecidas poderão utilizar o Selo Práticas RS e poderão extrair benefícios reputacionais do reconhecimento obtido. Outras vantagens virão adicionar-se. Por exemplo, estamos a abordar alguns bancos de alto nível para estudar formas de aproximação mais simples e valiosas entre a sua oferta e as entidades reconhecidas. Se pensarmos no programa europeu de “public procurement”, poderemos admitir que o Reconhecimento venha a pontuar em compras públicas ou outras. Podemos também prever que, no futuro, estas entidades sejam consideradas de menor risco em negócios ou financiamentos, melhorando a sua posição na cadeia de abastecimento. A iniciativa poderá ainda vir a facilitar auditorias por fornecedores.

Estamos na casa de partida. Vejamos como o projecto vai evoluir mas, acima de tudo, será essencial que o Reconhecimento seja respeitado e de confiança.

Com que tipos de projectos podem as organizações candidatar-se ao Reconhecimento PRÁTICAS RS, e que expectativas tem a APEE face ao nível de adesão por parte do tecido empresarial português?

As organizações candidatam-se relatando de forma documentada (ou documentável) as suas práticas concretas numa ou em mais categorias. Não é um reconhecimento prospectivo, mas sim retrospectivo.

As nossas expectativas para esta primeira edição não são ambiciosas. Pretendemos começar bem, fazer bem e reconhecer bem. Se o número for reduzido, assim será. Este é um projecto de médio e longo prazo, e a confiança e credibilidade são os principais objectivos. O Reconhecimento de Práticas RS é uma iniciativa ética, sujeito a um nível de exigência muito cuidadoso.

Que antevisão faz da implementação da nova Estratégia Europeia de Responsabilidade Social, e de que modo poderá o Plano Nacional de Responsabilidade Social contribuir para uma evolução sustentável dos modelos de negócio e de governação?

A nova estratégia europeia terá mais envolvimento das partes interessadas e de políticas públicas e prevê-se mais exigente na prestação de contas, com o alargamento de obrigação do relatório integrado e com uma maior abrangência da cadeia de valor.

[pull_quote_left]As organizações poderão utilizar o Selo Práticas RS, extrair benefícios reputacionais e serem consideradas de menor risco em negócios ou financiamentos[/pull_quote_left]

Virá estimular as estratégias colaborativas entre partes interessadas e entre entidades do mesmo sector, a diferenciação ou recompensa de mercado pelas condutas de negócio responsáveis, com maior estímulo à auto e co-regulação, e uma maior ênfase aos direitos humanos, com relevo para a inclusão, conciliação e igualdade de género. Terá um impacto directo nos modelos de negócio e governação, porque se anuncia que irá afectar compras públicas e estímulos ao investimento.

Veremos a distância do documento à prática.

Do Programa Nacional espero pouco. Este governo perdeu a oportunidade de o publicar em tempo útil e agora está já em final de mandato. Sabemos que a DGAE – Direcção-Geral das Actividades Económicas fez o seu trabalho, mas infelizmente o Ministério da Economia não conseguiu publicá-lo até ao momento.

De qualquer modo, destaco, neste Plano:

  • A necessidade de uma abordagem multistakeholder equilibrada, que contemple as perspectivas das empresas, dos parceiros não empresariais e dos estados membros.
  • A necessidade de clarificar melhor o que é esperado das empresas e de tornar a definição da UE consistente com os mais recentes princípios e orientações internacionais.
  • A necessidade de promover uma recompensa de mercado para condutas de negócio responsáveis, incluindo políticas de investimento e aquisição pública.
  • A necessidade de contemplar esquemas de auto e co-regulação, que são meios importantes para que as empresas procurem assumir a sua Responsabilidade Social.
  • A necessidade de promover a transparência da empresa em relação a aspectos sociais e ambientais do ponto de vista de todos os stakeholders, incluindo as próprias empresas.
  • A necessidade de dar maior atenção aos direitos humanos, que se tornaram um aspecto muito relevante da Responsabilidade Social das Empresas.
  • A necessidade de compreender o papel que a regulamentação complementar desempenha na criação de um ambiente mais propício a que as empresas assumam a sua Responsabilidade Social voluntariamente.
Gabriela Costa

Jornalista