Meus caros, assim não dá. Não há paciência. Se passados 20 anos ainda estamos às voltas com os “três pilares” é porque não fomos longe e, muito menos, normalizamos a sustentabilidade. Apenas a banalizámos, encaixotámos e canibalizámos ao defender a ideia de que há três sustentabilidades todas iguais, com uma mais igual do que as outras
POR NUNO GASPAR DE OLIVEIRA

Há cerca de 10 anos, o internacionalmente reconhecido jornalista e colunista do NY Times Thomas Friedman referia-se ao dilema da necessidade da entrada dos Estados Unidos numa ‘Economia Verde’ (lembram-se de como esta estava na moda, antes de ser circular, às bolinhas ou outra coisa qualquer que há-de vir nas ágeis asas de um futuro guru?) como sendo, acima de tudo, um problema de percepção do que seria a sua integração silenciosa na economia ‘normal’, com a famosa frase “You’ll know the green revolution has been won when the word ‘green’ disappears”, ou seja, a revolução estará completa quando a palavra ‘verde’ deixar de ser necessária, dada a transformação do business as usual em qualquer coisa nova e plenamente funcional.

E eu penso que Friedman tinha aqui um ponto de vista muito relevante, não fosse o homem um triplo prémio Pulitzer. A normalização da sustentabilidade já tarda, custa-me a acreditar que ainda tenha que estar em conferências onde distintos oradores nos explicam que “a sustentabilidade são três pilares e etc., e que só funciona se houver, acima de tudo, sustentabilidade económica e blah blah blah….”. Meus caros, assim não dá, não há paciência, se passados 20 anos ainda estamos às voltas com pilares, não fomos longe e, muito menos, normalizamos a sustentabilidade, apenas a banalizamos, encaixotámos e canibalizamos ao defender a ideia de que há três sustentabilidades todas iguais, com uma mais igual que as outras.

Já percebemos, as empresas são empresas e vão continuar a ser empresas, vão ter no seu modelo de negócio a geração de riqueza, de várias formas, sendo uma delas a geração de lucro para os accionistas que investiram capital financeiro. Já a remuneração dos ‘accionistas’ que entraram com capital social que permite às empresas operarem num clima de paz, estabilidade social, licença para operar, trabalhadores qualificados, estabilidade familiar e legitimidade social não tem sido brilhante.

A remuneração dos ‘accionistas’ ambiente, biodiversidade e ecossistemas, essa tem andado pelas ruas da amargura, pois normalmente a transferência de capital faz-se em sentido único, com a normalização da ‘tragédia dos comuns’ a corresponder a dias felizes no mercado de capitais, e a apropriação privada de bens e serviços públicos ambientais, climáticos e ecológicos a ser vista frequentemente como uma inevitabilidade do sistema, sendo que o seu reconhecimento seria complicadíssimo para o negócio, e os efeitos negativos desta transferência de capital natural, sob a forma de poluição, perda de biodiversidade, degradação ecológica e alterações climáticas são ‘elegantemente’ vistas como ‘externalidades’, porque são difíceis de medir, complicadas de entender e nada facilmente capturáveis pela ‘bottom line’. Mas será que tem de ser assim?

Afinal o que é isso do capital natural e como é que a sociedade e as empresas podem integrá-lo na sua ‘revolução verde’ de forma a normalizar a sua perceção e gestão?

Vamos então tentar responder aqui, de forma sumária e softcore, porque, honestamente, o que não faltam por aí são excelentes livros e artigos sobre o tema, e eu estou apenas a tentar pôr o tema de uma forma ligeira e que seja ‘normalizável’. Então, gostava de explorar convosco quatro perguntas sobre o capital natural:

  • O que é?
  • Como se avalia?
  • Como se gere?
  • Como se materializa na economia?

Vamos então explorar três dimensões onde me parece relevante entender o papel do capital natural: território, empresas (obviamente) e sociedade (ainda mais obviamente).

Então, sobre o território. Aqui, saliento a importância de entender a significância ecológica do mesmo, quer seja pela interpretação da ocupação e uso do solo, quer pela importância funcional das estruturas biofísicas como rios, montanhas, florestas e áreas agrícolas e mesmo parques giros para passear e ir fazer desporto, entre outras, que nos permitem ter uma ideia de quais os valores naturais, como espécies, habitats e recursos naturais, possam existir.

Nesta perspetiva, importa considerar quais as opções atuais e futuras que existem para o uso da biodiversidade, ecossistemas e recursos naturais, biológicos e geológicos, de forma a proporcionar um equilíbrio entre o usufruto público, atual e futuro, e a apropriação privada dos bens e serviços de uma forma equilibrada, que não leve à sua exaustão ou transformação depreciativa, e assim alegrar o fantasma da pobre da Elinor Ostrom, que nos mostrou de forma clara o destino que nos espera se mantivermos a ‘tragédia dos comuns’.

Quanto às empresas, a questão é ainda mais crítica. Isto se definirmos empresa como uma entidade constituída por pessoas e capital (financeiro, intelectual, tecnológico e, muitas vezes, até político) em que o objetivo é gerar valor para a sociedade e retribuir o investimento em capitais feito pelos seus investidores e partes interessadas.

Assim, a dimensão do capital natural deverá ser ajustada à cadeia de valor expandida, para além dos limites da empresa e mesmo dos seus fornecedores e clientes – a física assim o obriga -, pois num sistema isolado, a transformação de matéria e energia em formas secundárias e com a produção de resíduos faz aumentar a entropia, mas fiquemos por aqui…

Para a empresa, este desafio representa igualmente enormes oportunidades de eficiência, uso responsável, geração de legado e inovação de base biológica, ecológica e mesmo climática, podendo mesmo envolver um número considerável de partes interessadas neste processo de transição ou transformação. Por sua vez, em termos de negócio, esta estratégia poderá originar um profundo efeito ‘detox’ da cadeia de valor, e gerar novos produtos e serviços que estimulam uma recuperação ‘verde’ e beneficiam do restauro pela via de uma economia de base natural.

Quanto à sociedade, onde estamos, eu e você que me está a ler, como legítimos representantes, as dimensões de bem-estar, lazer, segurança alimentar, capacidade de adaptação às alterações climáticas e de resiliência a riscos naturais (incluindo os causados pela ação humana, bem-vindo ao Antropoceno) são absolutamente inalienáveis e fundamentais para a garantia de direitos e liberdades.

A salvaguarda dos bens e serviços comuns proporcionados pela natureza passa pela definição clara de regras de partilha de gestão e co-responsabilização entre agentes públicos e privados, e da nossa participação no usufruto e valorização, incluindo a manutenção de opções futuras de uso para as gerações vindouras, ou mesmo o restauro de stocks e fluxos de bens e serviços com base na biodiversidade, ecossistemas e recursos naturais biológicos e geológicos. Ou seja, a chave, para mim e para si, e para a demais sociedade, poderá bem passar pela criação de valor partilhado, salvaguarda e fomento de opções futuras e a promoção de meios, ferramentas e instrumentos que valorizem, de forma tangível e material este uso partilhado e parcimonioso.

Em suma, estamos a chegar ao fim do artigo e a minha editora gosta que me despache com qualquer coisa concreta (obrigado Helena), por isso, aqui vai. Sobre o capital natural:

O que é? Uma forma elegante de ligar a ecologia à economia, sem pilares a atrapalhar a vista.

Como se avalia? Para além dos recursos naturais, considera o valor da biodiversidade – funcional e com alto valor de conservação – e os serviços dos ecossistemas que criam mais opções de desenvolvimento progressivo que resulte na melhoria do bem-estar e aumento das opções futuras

Como se gere? Como outro qualquer capital, deve ser definido um valor base, calcular o seu estado atual e tendência evolutiva, com e sem projetos e políticas, e determinar melhor qual a causa-efeito da sua gestão pelos agentes públicos e privados.

Como se materializa na economia? Através da geração de opções de bens e serviços, públicos, privados e mistos, que originam produtos, serviços e um ambiente de prosperidade e segurança.

Proposta: e se passarmos a olhar para o território como um banco, as empresas como investidores e a sociedade como beneficiários?

Naturalmente elementar, não vos parece?

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