Em final de ano, contam-se as vendas e reconhece-se o mérito. Ou porque são best-sellers ou porque fazem parte dos rankings elaborados por editoras, meios de comunicação prestigiados ou consultoras, os melhores livros de não ficção enchem as prateleiras virtuais ou físicas, e é sempre difícil optar por um em detrimento do outro. Fomos à procura de “repetentes” nessas mesmas listas e entreabrimos páginas que nos falam da “era do capitalismo da vigilância”, de “nove mentiras” da gestão, das 21 cartas que Charles Handy deixa aos seus netos, do poder da empatia num mundo fracturado e da tensão existente entre Estado, mercados e comunidades. A escolha agora é sua.
POR HELENA OLIVEIRA

The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power

Shoshana Zuboff

Com um grande poder vem uma grande responsabilidade. O ditado é antigo, mas ganha uma relevância particular na era digital, onde os pensamentos, desejos e esperanças das pessoas podem ser gravados e analisados por gigantes da tecnologia que, na generalidade dos casos, operam livres de qualquer supervisão democrática. Nesta situação, quem tem acesso à informação pessoal dos indivíduos e que instituições têm a autoridade para decidir relativamente à mesma? E quem decide que instituições têm essa mesma autoridade?

Estas são algumas das questões que a professora de Harvard, Shoshana Zuboff, tenta abordar no seu mais recente livro, no qual apresenta ao leitor um novo modelo económico – o “capitalismo da vigilância”, o qual, teme, poderá ter consequências graves para os direitos futuros dos indivíduo e para a sua privacidade pessoal. Mas o que é este “capitalismo da vigilância”? No seu centro encontra-se a recolha constante de “excedentes comportamentais” por parte das grandes empresas tecnológicas, os quais se traduzem nos dados em excesso armazenados pelas pesquisas online e pelo histórico de browsing. Quando os utilizadores de internet indicam um “like” numa publicação, quando fazem uma compra ou descarregam uma aplicação, quando ouvem música, vêem um filme – toda esta informação é, como sabemos, gravada. E, seguidamente, estes dados são analisados para padrões preditivos, os quais são depois associados a anúncios publicitários, com produtos e serviços a serem dirigidos aos utilizadores. Por seu turno, as empresas de tecnologia alargam rapidamente a sua esfera de acção, encontrando outras formas de adquirirem cada vez mais dados. E, mascarados de personalização de produtos, as casas inteligentes, os telefones inteligentes, os relógios inteligentes e os carros inteligentes são igualmente usados para extrair mais informação comportamental acerca dos seus utilizadores.

Para a autora, este novo capitalismo “insulta a dignidade humana”, e é “uma forma de tirania que se alimenta das pessoas”, manipulando-as e/ou controlando-as, consistindo numa arquitectura global de modificação de comportamento que “ameaça a natureza humana no século XXI tal como o capitalismo industrial desfigurou o mundo natural no século XX”.

Zuboff analisa as consequências dos avanços do capitalismo da vigilância provenientes de Siicon Valley em todos os sectores económicos, com vastas quantias de riqueza e poder a serem acumuladas em novos “mercados comportamentais futuros”, onde as previsões sobre o nosso comportamento são compradas e vendidas e onde a produção de bens e serviços é subordinada a novos “meios de modificação comportamental”.

E com pouca resistência por parte da lei e da sociedade, a autora acredita que o capitalismo da vigilância está em vias de dominar a ordem social e moldar o futuro digital. Se nada for feito para o deter. Uma leitura actual e que nos ajuda a reflectir seriamente sobre o mundo digital em que vivemos.

Nine Lies about Work: A Freethinking Leader’s Guide to the Real World

Marcus Buckingham & Ashley Goodall 

Acredita que as pessoas se importam com a empresa para a qual trabalham? Está convencido que a equipa que lidera precisa de feedback? Pensa que as pessoas têm potencial? O equilíbrio entre vida pessoal e profissional é o que mais conta? Se respondeu afirmativamente a alguma destas questões é porque acredita nas verdades “absolutas” do mundo do trabalho. Verdades estas que cresceram e se transformaram num lugar-comum. Mas que são falsas, pelo menos de acordo com o autores deste livro.

Como escreve a strategy+ business, Nine Lies Abut Work é um livro que engana. No início, parece uma espécie de guia da contradição de alguns dos truísmos da gestão. Mas acaba por ser algo ainda mais subversivo, transformando-se num ataque escondido à disciplina da gestão no seu todo. E, “à medida que se vai avançando nas suas páginas, percebemos que estas ‘nove mentiras’ surgiram porque cada uma delas satisfaz a necessidade de controlo da organização”, afirmam os autores Marcus Buckingham, responsável de Pessoas e Performance no ADP Research Institute, e Ashley Goodall, vice-presidente de liderança e inteligência de equipas da Cisco.

Os autores expõem a desconexão existente entre as formas de trabalho que consideramos funcionarem melhor e aquelas que nos são impostas pelas empresas, examinando as práticas que as organizações utilizam para exercer controlo e impor a uniformidade. Práticas estas que, a seu ver, se tornaram comummente aceites como válidas, mas que acabam por falhar no que respeita a maior produtividade ou ao aumento da motivação dos trabalhadores.

Através de histórias envolventes e de análises incisivas, os autores revelam que existem verdades essenciais da liderança eficaz, as quais são imediatamente reconhecidas pelos líderes do “pensamento livre”. Por exemplo, que é a força e a coesão das equipas que mais interessa, e não a cultura da empresa; que nos devemos concentrar menos no planeamento do “topo para as bases” e mais em oferecer às nossas pessoas informação de confiança e em tempo real; que em vez de tentarmos alinhar os objectivos das pessoas com os da organização, devemos sim alinhar o seu sentimento de propósito e significado ou que as pessoas não querem feedback constante, mas sim atenção relevante.

Por cada “mentira aceite”, os autores contrapõem com uma outra “verdade”, oferecendo uma nova visão da gestão que é significativamente diferente da que é praticada na maioria das organizações. A obra de Buckingham e de Goodall figura em várias listas dos melhores livros de 2019 para a categoria de gestão.

21 Letters on Life and Its Challenges

Charles Handy

O formato familiar de se deixar cartas às futuras gerações – neste caso endereçadas aos seus netos – consiste no veículo perfeito para o filósofo social e especialista em gestão, Charles Handy, e do alto dos seus 87 anos, transmitir o seu testemunho e conhecimento de uma vida a analisar o mundo em mudança. Nesse percurso em que testemunhou a forma como a tecnologia transformou tantas vidas mediante vias imprevisíveis, concentra-se também numa questão que nunca muda: o que significa ser humano.

Handy continua a ser um dos gigantes do pensamento contemporâneo. Os seus livros sobre gestão – em particular Understanding Organizations e Gods of Management – alteraram radicalmente a forma como vemos os negócios, ao mesmo tempo que o seu trabalho sobre questões e tendências mais alargadas – tal como Beyond Certainty The Second Curve, mudaram também a nossa percepção relativamente à sociedade e que vivemos.

No seu novo livro, Handy olha para o futuro e apresenta-nos os desafios e as oportunidades enfrentadas pelas próximas gerações. Como irão as pessoas lidar com a mudança num mundo onde as velhas certezas já não se aplicam? Que objectivos devem os mais jovens estabelecer para si próprios? Como irão encontrar propósito e realização para as suas vidas?

No estilo de escrita que lhe é muito próprio, Handy continua a mostrar-se desanimado com as organizações impessoais e preocupado com os riscos tecnológicos vindouros. E o seu desalento é ainda maior face à “fusão” da gestão (a qual, acredita, deve estar reservada às “coisas”) com a liderança (das pessoas), sentindo-se igualmente inquieto com as “distorções e abusos” do sistema capitalista baseado nas “corridas de cavalos” no que respeita a clientes e recursos. Analisando também o mundo do trabalho, explica por que motivo “gestão” é um termo ilusório e por que razão as grandes empresas não estão preparadas para atrair e reter a próxima geração de talento a não ser que compreendam que as pessoas não são, simplesmente, recursos humanos.

Todavia, é erróneo apelidar esta obra como um livro de gestão. Apesar de conter um conjunto alargado de conselhos práticos, é muito mais pessoal e filosófico do que as memórias que escreveu em 2006. E está também escrito em tom de optimismo. Como escreve, a felicidade – e no sentido aristotélico da auto-realização – é “ter algo em que trabalhar, alguma coisa por que esperar e alguém para amar”. E é esta mensagem que deseja transmitir aos seus netos, exortando-os a procurar a “semente dourada” do potencial que toda a gente possui.

The War for Kindness: Building Empathy in a Fractured World 

Jamil Zaki

O director do Stanford Social Neuroscience Laboratory, Jamil Zaki, está convicto que a empatia humana e a bondade são competências que se podem desenvolver. O que se assume como uma boa notícia numa sociedade em que todas as evidências apontam para uma acelerada diminuição da empatia, onde o isolamento e o “tribalismo” imperam. Esforçamo-nos (ou não) para compreendermos as pessoas que não são como nós, mas os sentimentos de ódio são fáceis de ocorrer. Com base em décadas de pesquisa clínica, em conjunto com experiências várias conduzidas no seu próprio laboratório, Jamil Zaki tenta descortinar as forças que têm impacto na nossa condição moderna. “As notícias não são boas”, escreve, acrescentando que a empatia tem vindo a decrescer continuamente, em particular ao longo do século XXI, com dados que comprovam que uma pessoa “média” em 2009 era menos empática do que 75% das pessoas em 1979.

O livro inclui, contudo, um conjunto de exemplos de indivíduos e grupos que têm vindo a inverter esta tendência. É o caso de um supremacista branco que, depois de ser pai, encontrou um novo sentido para a sua vida, o que lhe permitiu inverter os seus instintos negativos e até por vezes violentos. Em conjunto com um grupo de pessoas com ideias similares à sua, formou uma associação sem fins lucrativos denominada “Life After Hate” [Vida depois do Ódio], a qual tem como objectivo “trabalhar para retirar as pessoas do lugar negro que outrora habitavam”. De forma similar, um programa conduzido em prisões, e que se chama “Changing Lives Through Literature” [Mudar vidas através da literatura] ajuda os reclusos a tornarem-se mais empáticos através da leitura de romances cujas personagens principais tiveram que passar por momentos difíceis, tendo-os superado, os quais são seguidamente discutidos com o juiz que os sentenciou. Outros exemplos incluem a mudança de cultura por parte de agentes policiais em Washington para que exista uma diminuição da violência nas suas fileiras ou a formação de enfermeiras no sentido de aperfeiçoarem a sua empatia para que não sucumbam a situações de burnout. O livro inclui igualmente uma análise dos avanços tecnológicos, sublinhando as muitas oportunidades nas quais a tecnologia pode servir para melhorar os níveis de empatia. “The War for Kindnes” é uma inspiradora chamada à acção, sendo que o futuro da “saúde” da sociedade em muito poderá depender da aceitação deste desafio.

The Third Pillar: How Markets and the State Leave the Community Behind

Raghuram Rajan

Escrito pelo reconhecido professor da Universidade de Chicago, antigo economista-chefe do FMI e responsável até há pouco tempo pelo Banco Central da Índia, este livro consiste numa reflexão sobre o estado actual do mundo em que vivemos através da tríade composta pelos mercados, pelo Estado e pela comunidade A tese de Rajan é a de que os dois primeiros surgiram precocemente, muitas vezes em colisão, deixando o terceiro para trás. E, de forma interessante, os dois primeiros emergiram exactamente da comunidade, apesar de, agora, a dominarem.

O “terceiro pilar” do título é, assim, a comunidade na qual vivemos. Os economistas geralmente percepcionam a sua área de influência como a relação existente entre os mercados e o Estado, deixando as questões sociais para os outros. O que não só é uma miopia, afirma Rajan, como também um perigo. Toda a economia é socioeconomia, defende, na medida em que todos os mercados estão incorporados numa teia de relações humanas, valores e normas.

O livro é, na verdade, uma análise da reacção populista contra a globalização. E com uma fórmula para restaurar o equilíbrio entre o mercado, o Estado e a comunidade, sublinhando a ideia de que a comunidade e a sociedade civil têm de voltar a fazer parte do relacionamento com o primeiro. As comunidades locais, declara, constituem o antídoto certo para o descontentamento populista a que assistimos em vários locais do mundo na actualidade. E se olharmos para as mudanças de atitude face ao capitalismo, elas foram despoletadas – sendo daí que provém o populismo – por uma ausência de confiança nos negócios em particular. E esta tem continuado desde a crise financeira de 2008 e tem sido alimentada pelas preocupações relativa às alterações climáticas, pelas mudanças demográficas – e com os jovens particularmente zangados devido a questões não resolvidas – e pela tecnologia.

O livro oferece um enquadramento alargado para a compreensão de como estas três forças – Estado, mercados e comunidades – interagem, por que motivo teve lugar esta desagregação e como é possível encontrar um caminho de volta a um plano mais seguro e estável.