Filmado para alertar para a crescente problemática do bullying, o documentário The Bully Project, que estreou recentemente nos Estados Unidos, ficou famoso por razões contrárias aos desejos dos seus responsáveis. Como tinha linguagem obscena, a entidade responsável por classificar os filmes por idade nos EUA, atribuiu-lhe inicialmente um “R” (proibido para menores de 17 anos). Valeu-lhe uma petição online que chegou ao meio milhão de pessoas. Agora, jovens a partir dos 13 anos – a média de idades de quem mais perpetra e sofre de assédio desta natureza – podem ser tocados por um documentário que, para bem de todos, deveria ser obrigatório
POR HELENA OLIVEIRA

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Em 2012, 13 milhões de crianças e jovens norte-americanos serão vítimas de bullying na escola, no autocarro, na rua, em casa, fazendo desta a mais comum forma de violência juvenil no país.

Três milhões de alunos faltam à escola por mês porque se sentem inseguros.

Mensalmente, são 280 mil os estudantes fisicamente agredidos nas escolas secundárias.
Um em cada quatro professores fecha os olhos a este tipo de comportamentos e só intervém em 4% dos casos.

Em cada sete minutos existe uma criança/jovem a ser vítima de bullying nos recreios das suas escolas.

77 por cento dos estudantes norte-americanos afirmam já ter sido vítimas de alguma forma de agressão mental, verbal ou física.

Os números acima apresentados, e que ilustram a realidade norte-americana, deviam ser suficientes para alertar pais, educadores, professores e cidadãos no geral para a temática do assédio escolar, termo mais conhecido por bullying. Já comummente utilizado na língua portuguesa para descrever actos de violência, física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (do inglês bully – valentão) ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia e sendo executados numa relação desigual de poder, a temática do bullying e outras que acabam por lhe estar associadas, tem vindo a emergir na sociedade de forma gradual, mas com contornos já diferentes.

Em Portugal, e apesar de não existirem estatísticas actuais, o tema tem vindo a ser ocasionalmente discutido, especialmente quando a comunicação social dá conta de algum acto mais mediático que, à hora dos telejornais, entra pelas casas adentro, choca os espectadores, provoca alguma discussão nos dias que se seguem e termina, invariavelmente, por morrer à custa de outras notícias que rapidamente tomam o seu lugar. Mas e com a aprovação, em 2011, da proposta de lei que passou a considerar a violência escolar como crime e que adopta uma moldura penal semelhante à que é utilizada para os crimes de violência doméstica e de maus tratos – neste caso, os menores de 16 anos ficam sujeitos a medidas tutelares educativas enquanto os mais velhos podem levar penas de prisão entre um e cinco anos – o debate tem vindo a fazer-se, não sem dúvidas relativamente à eficácia e até pertinência desta criminalização. E, como em todos os debates desta natureza, associações de pais, de professores, psicólogos e demais pensadores nem sempre estão de acordo. É, contudo, um caminho que terá de continuar a ser trilhado e que, na desestruturação social em que Portugal se encontra, deverá merecer especial atenção.

Nos Estados Unidos e com a estreia do documentário The Bully Project, realizado por Lee Hirsh, ele próprio outrora vítima de bullying, o realizador teve como objectivo personalizar esta temática, seguindo a vida de cinco famílias tocadas pela sua crueldade que, em dois dos casos retratados, culmina no suicídio de dois jovens, de 11 e 17 anos.

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© DR
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Cada um dos jovens aqui retratados é atacado devido a uma razão diferente – o novato na escola, o gordo, o estranho, o diferente – mas a mensagem é que o seu sofrimento, ilustrado por entrevistas confessionais e pela câmara que os segue ao longo do filme, é algo suficientemente universal para que lhe seja dada a atenção devida.

Para já, o documentário poderá ter ficado para a história devido a uma controvérsia prévia ao seu lançamento nas salas de cinema, apesar de os seus responsáveis pretenderem, obviamente, deixar outro tipo de legado. A polémica instalou-se com a decisão por parte da Motion Picture Association of America (MPAA) ter considerado o filme inadequado para jovens com menos de 17 anos e o ter inicialmente classificado de “R” (Restricted). E tudo porque em qualquer acto de bullying (ou na linguagem quotidiana dos que falam inglês), a famosa palavra inglesa de quatro letras que começa por F, é das mais utilizadas. Ora, se o principal objectivo do filme seria o de chamar a atenção para a problemática que envolve, em particular, miúdos entre os 11 e os 17 anos, a audiência que mais necessidade teria de o ver e apreender, ficaria de fora. A guerra para alterar a classificação do filme foi iniciada por uma jovem de 17 anos, Katy Butler, também vítima de bullying quando era mais nova e que iniciou uma petição online para forçar a MPAA a alterar a sua decisão. A petição online não só ganhou quase meio milhão de assinaturas, como ainda o apoio de figuras públicas como Justin Bieber, Demi Lovato, Johnny Depp e Ellen Degeneres.

A luta continuou e depois de o realizador ter concordado em editar algumas partes do filme (dificilmente, por causa da repetição exaustiva da “palavra F”), a MPAA deu autorização para que o o documentário fosse distribuído com a classificação PG13 (para maiores de 13 anos, mas com aviso explicito aos pais de que poderá conter material inapropriado).

De facto tolerável a problema social
Quando Hirsh decidiu fazer este filme, o que mais pretendia demonstrar era que o bullying é algo absolutamente inegável e irrefutável. Numa entrevista que concedeu ao The Huffington Post, o realizador afirmou sentir que a questão do bullying permanece envolta numa imensa neblina: São apenas insultos? Empurrões? São miúdos a serem miúdos? Pode ser encarado como um conflito mal resolvido? “O que eu pretendia era estar no mesmo mundo no qual muitos jovens se movimentam e lutam e ser capaz de deixar as suas histórias emergirem de forma incontestável”, afirmou.

Dissolver esta neblina que envolve um fenómeno cada vez mais comum e crescentemente cruel um pouco por todo o mundo foi, assim, o principal motivo que levou Lee Hirsch a documentar o terror infligido por miúdos a outros miúdos. E surge numa altura em que o bullying, um facto da vida há muito tolerado, começa a ser redefinido como um problema social. “Miúdos que se comportam apenas como miúdos” já não é uma resposta aceitável ao tipo de abusos físicos e psicológicos que podem não só perturbar significativamente, como terminar mesmo com a vida de muitos jovens, cujo único pecado é parecerem fracos ou estranhos aos olhos dos seus pares.

E se o documentário retrata vários episódios de bullying e os efeitos que este tem na vida dos próprios personagens, é igualmente sobre – e parte – da emergência de um movimento que pretende imprimir uma mudança radical na consciência de todos aqueles que testemunham o que ocorre quando indivíduos oprimidos e isolados, ajudando as vítimas a descobrir que não estão sozinhas e que podem iniciar o difícil caminho de mudarem condições ainda amplamente consideradas como normais. Bully conta a história da solidão destes miúdos mas também a resiliência por parte de alguns. Mas não chega.

Se a solidão e o isolamento constituem uma das mais penalizadoras consequências do bullying, ambas são também, em muitas situações, a principal causa para que estas situações ocorram, na medida em que, geralmente, são os jovens mais socialmente isolados os escolhidos para serem maltratados pelos seus pares. E, por um conjunto de razões demasiado complexas para serem listadas, são também os adultos que muitas vezes falham em proteger este segmento da população mais vulnerável.

Ao filmar várias histórias com enorme compaixão e tacto, Hirsch consegue, de forma inteligente, não fazer do documentário uma história típica entre bons e maus. O filme força os espectadores a confrontarem-se não só com a crueldade de miúdos específicos – que também têm os seus próprios problemas e, algures, espera-se, um lado bom – mas também opta por se concentrar na extensão mediante a qual essa crueldade está impregnada no sistema escolar e, por consequência, na sociedade enquanto um todo. Ou seja, a grande lição a retirar é que o bullying está intimamente ligado a sentimentos homofóbicos, a questões educativas e a situações de violência generalizada que existem para além dos muros das escolas.

A intenção de Hirsch passa igualmente por suscitar sentimentos e não para a construção de argumentos ou teorias. Daí que a sua audiência por excelência deva ser constituída por estudantes nestas idades mais críticas. Mas e idealmente, em conjunto com os pais. E com os educadores. E com todos os adultos que continuam a acreditar que “coisas de miúdos serão sempre coisas de miúdos”. Ou seja, por toda a sociedade. Um documentário que, em vez de ser classificado como inapropriado por ter algumas asneiras que toda a gente conhece e usa, deveria ser obrigatório. Em todas as escolas. Em todas as casas. Em qualquer lugar.

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Helena Oliveira

Editora Executiva