O que têm em comum uma country manager de uma multinacional, um administrador de um grupo de grandes dimensões e um director de jornal? Todos os dias são obrigados, enquanto gestores de pessoas e de situações adversas, a cruzar os seus valores pessoais com os desafios profissionais que, como sabemos, nem sempre se equilibram harmoniosamente. Alexandra Machado, Pedro Guerreiro e Rui Diniz narram as suas diferentes perspectivas que convergem num ponto comum: não é possível deixar as convicções e valores pessoais à porta do local de trabalho
POR HELENA OLIVEIRA

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Vera Pires Coelho
EMPRESÁRIA
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Coube à empresária Vera Pires Coelho moderar o último painel do Congresso “amor ao próximo como critério de gestão”, cujo objectivo foi o de ouvir testemunhos diversos, de pessoas com responsabilidades igualmente diversas e confrontá-las com este critério a partir da sua experiência pessoal.

Assim, Alexandra Machado, country manager da Nike em Portugal, o director do Jornal de Negócios, Pedro Guerreiro e Rui Diniz, administrador do Grupo José de Mello, foram convidados a falar das suas responsabilidades e valores pessoais, da forma como lidam com os seus “próximos” no local de trabalho, a confessar os mais complexos desafios que sentem na relação entre si mesmos e os outros, o que entendem por lealdade à organização e se alguma vez foram “obrigados” a agir contra as suas consciências. Questões complexas colocadas por Vera Pires Coelho, que deram origem a uma conversa rica em conteúdo e fértil em material para posterior reflexão.

O chamamento de Alexandra Machado
Alexandra Machado assume-se, antes de tudo mais, como católica e, por isso mesmo, é chamada a seguir o mandamento do amor ao próximo, acreditando que o mesmo gera, nas organizações, uma inegável maior produtividade.

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Alexandra Machado
NIKE

Depois de 10 anos na multinacional norte-americana Nike, a gestora que também é desportista, admitiu as diferentes fases que foi percorrendo no que respeita à integração da sua fé em conjunto com a sua vida profissional. Alexandra Machado afirma encarar o amor ao próximo com uma lógica de serviço e, quando inquirida sobre os desafios que foi enfrentando ao longo desta caminhada, elencou o facto de só conseguir servir quem conhece, sendo para isso imprescindível fazer uma papel de “escuta” a todos os stakeholders, confessou nem sempre ter sabido escutar o que devia e assumiu uma correlação directa entre a forma como conhece as pessoas e as faz crescer. E, quando afirma que, devido ao cargo que até agora desempenha, possuir o poder da informação adicional (a qual não chega a todos) exige uma maior responsabilidade, o desafio é o de “servir motivações individuais e levá-las à convergência comum”. Ora, numa multinacional que possui uma gestão centralizada, esta tarefa torna-se hercúlea, sendo que aqui a palavra-chave é influenciar, o mais que pode, o processo de tomada de decisão, “pois o que eu digo tem de ser consistente com o que eu faço”.

Um desafio que a gestora reconhece não ser somente seu, mas de todos os líderes. “Dado que muitas vezes somos chamados a implementar políticas que não são de amor”, Alexandra afirma fazer um esforço para as compreender, e decidir, seguidamente, se as mesmas vão ao encontro dos valores que não abre mão. E travá-los, se preciso for. A responsável da Nike Portugal sublinhou igualmente que conta com o papel fortíssimo que a oração tem na sua vida e que, por vezes, é necessário provocar a ruptura. “Sinto-me chamada para um projecto pessoal, ou seja, este critério de amor ao próximo tornou-se pessoal, e sei que servindo os outros, vou crescendo em conjunto com eles”, diz, sublinhando que ao invés de perguntar o que quer, opta por questionar para o que é que é chamada.

Já no que respeita à lealdade, que considera importantíssima no contexto das organizações, Alexandra Machada não deixa, contudo, de assumir que em primeiro lugar é leal a Deus e, de seguida, entrega a sua lealdade ao chamamento que lhe é imposto. E é por isso que, depois de 10 anos na multinacional norte-americana, a profissional está a preparar-se para deixar a Nike para seguir o seu chamamento: “vou largar algo de que gosto, mas sinto-me chamada para um projecto pessoal”.

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Pedro Guerreiro
JORNAL DE NEGÓCIOS
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O editorial de amor de Pedro Guerreiro
Todos o conhecemos, através da sua escrita contundente, clara e muitas vezes genial, mas foi sobre a parte “invisível” do trabalho de um director de jornal que Pedro Guerreiro iniciou a sua história. Com a confessa estranheza de estar no “lado oposto” ao que está habituado, enquanto moderador ou entrevistador, o director do Jornal de Negócios considerou não merecer a pena falar do seu trabalho, que é público, deixa rasto e cujo histórico pode ser consultado, mas sim dar a conhecer o que significa gerir cerca de 60 pessoas, um organismo vivo que habita “num ambiente de tensão, indisciplinado, caracterizado pelo caos nas agendas quotidianas que são ditadas pela actualidade, onde se discute e há lugar a zangas, mas principalmente a perdões”.

A sua definição de um bom jornalista não passa pela grandeza da agenda de contactos, mas sim “pela sua ética profissional e valores pessoais”. “Temos muito poder nas mãos, mas que não é nosso” – afirmou, a propósito da enorme responsabilidade que tal implica e acrescentando que “esse poder, para o bem e para o mal, é usado todos os dias” e que, quando usado para o mal, pode destruir pessoas. “Porque eu também tenho inimigos”, e através da narração de dois episódios pessoais que comprovam a assimetria entre a relevância do que é escrito/dito para o jornalista e para o entrevistado, Pedro Guerreiro diz ter aprendido uma lição de humildade, para além de, às suas próprias custas, ter percebido “que até os canalhas têm mulheres, filhos e pais”.

Todavia, foi sobre a equipa que dirige que o director teceu as mais preciosas considerações, sem antes enunciar o que é crucial para um bom jornalista ou, neste caso em particular, para um director de jornal: ter pessoas que sejam bem formadas e que saibam distinguir o certo do errado. Relativamente à cultura que vigora no jornal que dirige, e para além da ética, Pedro Guerreiro afirmou, com manifesto orgulho, que “o que se trabalha naquela redacção é imenso e existe uma entrega total”.

No que respeita à palavra amor, o director do Negócios confessou tê-la usado, de forma consciente e pela primeira vez, há pouco mais de um ano e como título de um dos seus editoriais, por ocasião da revolta dos egípcios na praça de Tahir: “A humanidade gira toda sobre o amor e a fome”. A frase, “pedida emprestada” a Anatole France [escritor francês e laureado com o Nobel da Literatura em 1921], concedeu “liberdade” a Pedro Guerreiro para utilizar a palavra “amor” muito mais vezes a partir de então.

Quanto ao choque entre os seus valores e o que é obrigado a ver todos os dias – uma das perguntas formulada por Vera Pires Coelho – Pedro Guerreiro afirma que “todos os dias me choco, não só relativamente aos meus valores pessoais, como aos que são universais”.

E, no que respeita às pressões diárias que os jornais sofrem todos os dias, “dizer não é a única forma”. Mas e quando tem qualquer tipo de dúvida, a fórmula é sempre a mesma e absolutamente eficaz: olhar para a fotografia dos filhos que tem lugar especial na sua secretária. Decerto, com muito e muito amor.

Rui Diniz, o administrador que não pendura os valores no cabide
Para Rui Diniz, o desafio é garantir que o amor próximo não se esgote enquanto critério de gestão, mas que seja um critério de vida. Não só para católicos, mas para todos. E apesar de não considerar esta “tarefa” fácil, que nos leva a falhar todos os dias, a mesma oferece uma exigência permanente, em conjunto com enormes doses de reflexão e humildade. Assim, e tal como no desporto, é tudo uma questão de exercício: quanto mais vezes treinamos, mais musculatura ganhamos e, por consequência, mais “fit” ficamos.

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Rui Diniz
GRUPO JOSÉ DE MELLO

O administrador do Grupo José de Mello, que afirma que, como católico, é constantemente chamado a colocar em prática este mandamento do amor, afirma igualmente que não faz sentido pendurar o mesmo, em conjunto com o casaco, no cabide da empresa. Pois usar deste critério não implica qualquer tipo de trade-off, na medida em que é convergente com os demais critérios de gestão das nossas empresas.

Enfatizando que o mesmo deve ser encarado a longo prazo – seja com clientes, colaboradores e fornecedores – para garantir que os frutos futuros amadureçam, Rui Diniz garante igualmente que, apesar de este ser um desafio pessoal, é muito mais fácil de concretizar se o fizermos em equipa. Sentir que não estamos sozinhos é, para o administrador, absolutamente crucial. Daí ter igualmente referido a sua presença nos denominados grupos “Cristo na Empresa” [uma iniciativa recente, vocacionada para o enriquecimento pessoal dos associados da ACEGE e que, a partir de pequenos grupos de reflexão e partilha mensal, procura aprofundar e concretizar os valores e critérios propostos pela Doutrina Social da Igreja no contexto da vida profissional de cada um], o que torna tudo muito mais fácil, opinião igualmente partilhada por Alexandra Machada, que também faz parte de um destes grupos.

Rui Diniz chamou ainda a atenção para o facto de que alguns dos melhores líderes atingiram o sucesso porque usaram deste critério, o que é diferente de usarem o mesmo critério para atingirem o sucesso.

Enumerando os valores com que mais se identifica – o carácter da organização, a defesa do que está certo mesmo quando não seja proveitoso para a mesma, não existirem limites para fazer mais e melhor e dar espaço às pessoas para serem elas próprias – o administrador do Grupo Mello confessa também que, sobretudo em grandes organizações, agir contra a nossa consciência é, por vezes, uma realidade. Defender e garantir que a nossa opinião é ouvida é essencial, tal como saber escutar, influenciar e continuar a tentar. Sempre.