Os dramáticos desequilíbrios a todos os níveis e o lixo social gerado por sistemas de governo neoliberal continuam ainda a levar às ruas milhares de pessoas que se sentem terrivelmente maltratadas e violadas nos seus direitos e deveres. O drama de muitos, a sua morte e a austeridade terão sido em vão se a pobreza e as desigualdades se mantiverem. Não serão possíveis os valores de Abril sem um pós-capitalismo
POR HENRIQUE PINTO

Já com a recessão económica de 2003, mas com maior intensidade depois de 2008, se debatia com regularidade, no espaço público, a necessidade de abandonarmos antigos e actuais paradigmas para abraçarmos outros.

Os dramáticos desequilíbrios a todos os níveis e o lixo social gerado por sistemas de governo neoliberal, que mais do que apostar nas famílias e na construção de comunidades locais, desejaram tornar tudo e todos imunes à diversidade, ou à interdependência que caracteriza a natureza de tudo quanto existe, levaram e continuam ainda a levar às ruas milhares de pessoas que se sentem terrivelmente maltratadas e violadas nos seus direitos e deveres. Grupos, movimentos da sociedade civil, intelectuais, peritos de todo o mundo têm vindo a reflectir e a propor um pós-capitalismo que pudesse de alguma forma significar um regresso ao que aqui chamaria de virtuoso, ou seja à primazia dos “fins” sobre os “meios” e do “bom” sobre o “útil”.

A felicidade, reduzida ainda hoje à satisfação de necessidades e desejos, e a uma desenfreada e gananciosa procura e acumulação de riqueza, à qual, em tempo de crise económico-financeira, se seguiu a ditadura dos números e a chacina humana que dela foi resultando, exige, no entender de grupos tremendamente descontentes e indignados, que se pense e construa a partir da centralidade da pessoa humana, o que possa significar, para lá do arbitrário, viver bem, ter uma vida boa (ética), e uma moral, ou como devem tratar-se os outros, que o respeito próprio e a autenticidade de cada um implicam em si mesmos.

Temo, no entanto, que diante da ilusão de uma economia que parece dar sinais positivos de si, os inúmeros tempos de antena, artigos de jornal, seminários e workshops não tenham sido capazes, no final, de inaugurar um novo tempo, com novos paradigmas, capazes de colocar no centro de toda a governação o ser humano, o seu incondicional valor e dignidade para lá da economia, e os valores da liberdade, do trabalho, da habitação, da saúde, da protecção social, da educação e tantos outros, pelos quais o 25 de Abril de 1974, em Portugal, se tornou uma revolução urgente e necessária.

Se há 40 anos foi imprescindível dizer não ao fascismo e defender a vontade popular, o exercício da liberdade e a democracia, hoje, diante de um total desrespeito pelos valores de Abril, urge, por um lado, dizer não às partidocracias, aos parlamentos sem povo, aos interesses de famílias e grupos instalados no serviço publico, e por outro, recuperar e proteger o acesso a direitos e deveres básicos através de uma educação para a cidadania e cooperação, e de uma mais justa distribuição da riqueza que não encontrem nunca mais no empobrecimento, no desemprego, na perda de casa, da família, da comunidade, no abandono e na exclusão social, as criaturas humanas que habitualmente os colocam em risco e os violam.

Com o passado compreendemos o presente. E entre o tanto que nos é dado não perder do passado, como legado e aprendizagem, é que a sustentabilidade como prática responsável da liberdade só é possível em comunidade, pelo diálogo e cooperação.

Se até ontem, com um Estado essencialmente Providente, a vida, ainda assim sem comunidades estruturadas e fortes, era possível, hoje, a defesa de um Estado mais reduzido ou pequeno, e esvaziado de importantes funções sociais, sem que possa fazer apelo, no terreno, a comunidades robustas e inclusivas, tornariam a vida e o projecto de cada um muito difícil senão mesmo impossível. Mas ao paradigma que com coragem entende, por estes dias, substituir a competição pela cooperação e o nuclear isolado pela sua vivência em comunidade, nunca se poderia exigir a defesa de um em detrimento de outro.

Os valores de Abril, o que, pelo fazer da história, também hoje valorizamos, nomeadamente a sustentabilidade de uma nação como Portugal, precisam de um Estado infatigável e de comunidades da sociedade civil possantes, imbuídas de consciência política e práticas de cidadania.