Dedicada à fraternidade e à amizade social, a nova encíclica do Papa conduz-nos, por entre vários caminhos, à revisitação da parábola do Bom Samaritano, a qual pode ser transposta para o contexto empresarial em que vivemos. Mergulhados que estamos nas nossas prioridades e contínuos afazeres, é fácil ignorar os que estão ao nosso lado, “caídos” e “feridos”, e a quem dificilmente devotamos tempo e compaixão. E é para contrariar, e nas palavras de Francisco, “os que estão de costas para o sofrimento”, que se propõe, mesmo entre muitas tensões, aplicar a Fratelli Tutti na nossa vida profissional
POR RICARDO ZÓZIMO

Como encíclica social, a Fratelli Tutti está dirigida a todos os povos de boa vontade. Assim, e por ser desenhada de forma a dialogar para dentro e fora da Igreja, as encíclicas sociais propõem uma chave de leitura assente na Doutrina Social da Igreja para temas da vida comum como a economia, gestão, política, justiça. Exemplo desta reflexão é a primeira encíclica social a Rerum Novarum, onde em 1891 o Papa Leão XIII se dedicava a discutir questões relacionadas com a revolução industrial e as indignas condições de trabalho a que os trabalhadores eram obrigados. Neste domínio, a encíclica Fratelli Tutti não é diferente e só para dar um exemplo mais próximo de gestores e economistas, o Papa Francisco usa a palavra economia 58 vezes ao longo do seu texto.

Mas sendo uma encíclica social, qual o seu significado para a vida nas empresas e para os seus respectivos locais de trabalho? Tendo em conta que a encíclica se foca na qualidade das relações sociais, gostava de refletir sobre este tema no nosso contexto profissional usando a leitura que o Papa propõe e convidando-nos a pensar. Sobretudo gostava de chamar a atenção para o segundo capítulo, no qual Francisco desenvolve uma grande reflexão sobre a atualidade da parábola do Bom Samaritano. A ideia é, desta forma, sublinhar duas considerações do Papa e transferi-las para o contexto empresarial.

A primeira grande ideia é sobre o que fazer quando alguém sofre nas nossas empresas. Neste caso em particular, o texto apresenta-nos um verdadeiro paradoxo ao distinguir entre o bem e o mal, o que é certo e o que é errado. O sacerdote, que deveria ajudar, não considerou digno perder o seu tempo com o seu compatriota, caído no chão, ignorando-o. Já o samaritano, sem obrigação de o fazer, ocupou-se dele e acudiu-o. Tenho a certeza que também na nossa vida empresarial somos chamados a gerir esta grande tensão sobre o que fazer quando temos nas nossas equipas pessoas que sofrem, pessoas que “caem”. Como atuamos e que mecanismos de compaixão temos ao dispor nas empresas que permitam lidar com o sofrimento são perguntas passíveis de ser formuladas neste contexto.

Indo mais além penso que também é importante realçar como a atenção pelos que sofrem nas nossas empresas está intrinsecamente ligada ao conceito de justiça no local de trabalho. Como podemos justificar ajudar os que estão caídos para bem da empresa/organização num contexto onde se acredita que cada pessoa deveria ajudar-se a si própria? O que o Papa nos propõe é que voltemos a olhar para este critério de justiça através da lente da dignidade humana e da vida como um todo. Tenho para mim que em termos empresariais todos nós já estivemos ou seguramente iremos estar à beira da estrada e fomos/seremos socorridos por colegas/amigos. Aquilo que Francisco nos convida a fazer é olhar para a justiça a partir da perspetiva da dignidade daqueles que estão à beira da estrada e restaurar essa mesma dignidade com critérios de compaixão.

O Papa termina esta reflexão sobre a parábola perguntando assertivamente “quem é o meu vizinho?”. Faço eco desta pergunta no nosso contexto empresarial. E proponho olhar para a questão no contexto de liderança empresarial. Em todos os países onde trabalhei sempre me deparei com o facto de existirem indivíduos em cargos de liderança que se sentem profundamente isolados e sozinhos. Muitas vezes lhes pergunto “com quem falas de coisas importantes?”. Ou, na linguagem da encíclica, “quem é o teu vizinho?” Para muitos a questão prende-se, sobretudo, com a falta de tempo para procurar vizinhos. Estes executivos com bom coração estão demasiado ocupados para procurarem e fazerem “vizinhos em Cristo”, vizinhos que os ajudem e suportem nas suas decisões profissionais.

Indo mais além, a encíclica convida a descobrir quem são os “vizinhos” da organização onde trabalhamos. Serão os vizinhos apenas aqueles trabalhadores que caem/estão à margem da organização ou existem outros? Como por exemplo como contribui a empresa/organização para o desenvolvimento de outras empresas da vossa rua/aldeia/cidade com quem porventura têm contacto regular. Numa linguagem mais ampla, estas perguntas consistem numa proposta para se repensar o contributo da organização para a sociedade em geral e, mais concretamente, para aqueles vizinhos que se posicionam nas margens e franjas do nosso contexto. Seguramente que esta tensão de viver para dentro ou viver em comunidade com os vizinhos é um bom ponto de partida para clarificar o papel da vossa organização no mundo.

Ao entrarmos nesta lógica da Fratelli Tutti deixo assim o convite para olharem de novo para a vizinhança e, porventura, “(re)unirem-se” com todos os vizinhos da vossa organização.

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