Escassez de talentos, pressões salariais, conflitos entre empregadores e trabalhadores, privacidade, ameaças na cadeia de abastecimento, sustentabilidade e cibersegurança. Para o IBM Institute for Business Value, estes serão os maiores desafios que os líderes deverão enfrentar em mais um ano de incertezas. E, para os melhor combater, as organizações têm de reduzir o tempo entre a percepção e a acção
POR HELENA OLIVEIRA

“O caos dos primeiros anos da década de 2020 obrigou os líderes a agirem rápida e decisivamente, tendo acelerado a inovação e forçado as organizações a transformarem-se mediante formas até então inimagináveis. E a verdade é que aquelas que não se adaptaram ao ritmo acelerado e à forma como o trabalho sofreu disrupções várias ficaram agora para trás”. 

Em 2023, e de acordo com a análise realizada pelo IBM Institute for Business Value (IBV), o ponto de referência para os líderes deverá passar por uma resposta rápida aos eventos e perturbações que vão decerto continuar a espreitar este novo ano. Se já é sabido que a incerteza e a complexidade são cada vez maiores, à medida que as ameaças se materializam em múltiplas frentes, as organizações têm de reduzir o tempo entre a percepção e a acção. Os líderes precisam de uma inteligência meticulosa e concreta para se esquivarem aos obstáculos à medida que estes forem surgindo, os quais serão vários e de grande dimensão. 

Para se prepararem, e de acordo com o IBV, os executivos devem tentar antecipar o futuro, reflectindo sobre várias questões. Será que uma recessão global está ao virar da esquina? Será que os acontecimentos climáticos extremos continuarão a causar uma devastação generalizada? Será que os conflitos geopolíticos irão sofrer um abrandamento ou as batalhas já existentes deslocar-se-ão para frentes totalmente novas? 

Para o IBV, o “como” e o “onde”, bem como os eventos que acabam por se sobrepor, terão implicações de longo alcance para as empresas a nível global. 

Por exemplo, não é de todo claro por quanto tempo a guerra na Ucrânia continuará a perturbar as cadeias de abastecimento, a pool de talentos e as operações comerciais. Ademais, e em simultâneo, à medida que as organizações têm de enfrentar velhas e novas batalhas, devem também conseguir lidar com as pressões dos custos causados pela inflação. 

Em Outubro de 2022, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu que a inflação global atingiria um pico de 9,5% no terceiro trimestre de 2022 – e são muitos os economistas que receiam que os preços continuem a aumentar mais do que seria expectável. Todavia, e de acordo com vários economistas e com as principais organizações económicas – como o próprio FMI ou o Banco Mundial – provavelmente o pior já deverá ter passado, apesar não existirem dúvidas que a inflação continuará a pesar no bolso de milhões de cidadãos em 2023, devendo, contudo, registar uma queda lenta ao longo do presente ano.

Ao mesmo tempo, as empresas esforçam-se por atingir objectivos de sustentabilidade mais exigentes, os quais requerem colaboração entre vários tipos de ecossistemas. Em 2022, os CEO globais nomearam a sustentabilidade como o principal desafio que as suas organizações deveriam enfrentar durante os próximos dois a três anos – tema que surgia apenas em sexto lugar em 2021. Além disso, os consumidores, que dão prioridade a produtos e marcas alinhados com os seus valores, representam agora o maior segmento de compradores (44%).

Como as perturbações provocam mudanças em praticamente todas as frentes, os líderes têm de saber seguir em frente. Devem responder estrategicamente às ameaças e escolher as suas batalhas com sensatez. Para ajudar os executivos a estabelecer as prioridades certas, o IBV identificou algumas tendências-chave que, acreditam, irão influenciar o panorama empresarial em 2023, as quais o VER partilha com os seus leitores.

Escassez de talentos e pressões salariais paralisam o crescimento

Os empregadores de todo o mundo continuam a lutar para preencher as vagas em aberto, prevendo-se que 85 milhões de postos de trabalho fiquem por preencher até 2030. A consultora de gestão Korn Ferry estima que este défice de mão-de-obra poderá traduzir-se em cerca de 8,5 mil biliões de dólares em receitas anuais não realizadas no mesmo período de tempo.

Em Setembro de 2022, existiam 10,7 milhões de vagas de emprego nos EUA – quase o dobro do número de americanos que se encontravam à procura de trabalho. E tanto na Europa como em Singapura, as taxas de ofertas de emprego mais do que duplicaram desde 2020. 

Esta enorme incapacidade de preencher postos de trabalho está a limitar as oportunidades de crescimento e a intensificar os efeitos da inflação. A falta de qualificações está também a aumentar as exigências salariais à medida que os investimentos em talentos se encontram estagnados.  

Em 2022, a pesquisa realizada pelo IBV demonstrou que 56% dos entrevistados mencionaram que um melhor salário seria mais importante do que qualquer outro factor de envolvimento com a empresa. E 38% dos CSCO (sigla em inglês para Chief Supply Chain Officers) afirmaram que a inflação salarial causou perturbações significativas nas cadeias de abastecimento nos últimos dois anos. Todavia, e pelo menos nos Estado Unidos, estima-se que o aumento de salários não ultrapasse os 4% em 2023, o que representa cerca de metade da taxa de inflação em 2022.

Dois terços dos trabalhadores querem estabelecer um acordo com os empregadores para definir as suas modalidades de trabalho

Como seria de esperar, a flexibilidade é também uma prioridade máxima para 2023, visto que mais de um em cada três (35%) empregados afirmou que não se candidataria a um emprego que não oferecesse a possibilidade de trabalhar remotamente pelo menos a tempo parcial. 

No entanto, 77% das empresas que actualmente oferecem acordos de trabalho híbrido planeiam alterar as suas políticas em 2023. Das empresas contactadas, 40% afirmaram que irão exigir que os empregados trabalhem no escritório quatro dias por semana e 13% planeiam trazer de volta os empregados a tempo inteiro.

Como os trabalhadores querem manter o que modificou para melhor as suas vidas nos últimos três anos – e porque são muitas organizações que, mesmo com provas dadas, resistem à mudança – a lealdade dos trabalhadores está também a diminuir. Nos EUA, o envolvimento dos trabalhadores caiu para 61% em 2022, continuando a tendência descendente verificada em 2021.

A nível global, e num universo de 16,350 auscultados, o estudo do IBV apurou que 69% dos empregados declararam que o trabalho que fazem é mais importante do que a empresa para a qual trabalham e cerca de metade (52%) trabalhou para o seu último empregador apenas quatro anos ou menos. 

A privacidade e a personalização complicam as relações com os clientes 

De acordo com um outro estudo realizado pelo IBV em Fevereiro de 2022 e intitulado “Os consumidores querem tudo”, as visões futuristas raramente se traduzem em realidade. Apesar de estes visionários e inovadores “acertarem” em algumas coisas, a forma como a tecnologia muda as nossas vidas é decidida pela multidão. O fracasso do Google Glass é um exemplo disso mesmo. Embora os óculos inteligentes tenham sido uma constante na ficção científica desde os anos 80, uma combinação única de privacidade e preocupações estéticas impediu a tentativa da Google de tornar esta visão uma realidade. E quase uma década mais tarde, as empresas ainda continuam a lutar tendo em mente este objectivo. Mas a verdade é que há muito a ganhar com a tecnologia imersiva, caso esta seja utilizada correctamente. Neste momento e por exemplo, estima-se que o mercado do metaverso tenha um crescimento anual de 39% entre 2022 e 2030.

Para aproveitar ao máximo esta oportunidade, as organizações precisam de oferecer experiências inovadoras que captem a imaginação e construam relações duradouras com os clientes, abordando com sucesso as suas preocupações de segurança e privacidade. A segurança é crítica à medida que a experiência do cliente se torna mais imersiva e as actividades de compras se estendem por diferentes plataformas digitais.

Em 2022, a Cisco apurou que 43% dos consumidores dizem ser incapazes de proteger as suas informações pessoais, sendo a falta de transparência dos dados a principal causa, com quatro em cada cinco destes indivíduos a afirmarem que não conseguem descobrir o que as empresas estão a fazer com os mesmos. No total, 37% dos consumidores trocaram de marca para proteger a sua privacidade. E este número sobe para 68% na Índia, 43% na China e 47% no México.

Por outro lado, os líderes também precisam de ser capazes de distinguir entre uma moda passageira e a “next big thing”. Fazer apostas inteligentes que possam impulsionar o crescimento sustentável começa pela compreensão do que é que os consumidores realmente querem dos produtos que compram e das marcas que apoiam. Por exemplo, os clientes querem que as suas experiências de compra fluam sem problemas entre os espaços físicos e digitais. As compras híbridas, nas quais as pessoas utilizam tanto os canais digitais como físicos são agora, e de acordo com a investigação do IBV, o método de compras com um crescimento mais rápido, sendo igualmente o preferido de mais de um em cada quatro (27%) consumidores globais. Este número salta para os 37% no que respeita aos pertencentes à Geração  Z e 38% para os Millennials – sendo que todas as previsões apontam para que continue a aumentar. 

Uma convergência de ameaças na cadeia de abastecimento exige uma resiliência contínua

O que é preciso para resistir a uma tempestade que parece não ter fim? Flexibilidade, engenho e uma rede de parceiros de grande alcance, responde o IBV.  As empresas apoiaram-se fortemente nestas aptidões em 2022, uma vez que os conflitos geopolíticos, a falta de mão-de-obra e as catástrofes naturais criaram insuficiências em todos os sectores. E as empresas tiveram de ser criativas para garantir o acesso a produtos e materiais – desde semicondutores a medicamentos e leite – que estavam perpetuamente em escassez. 

Em 2023, os líderes esperam que as rupturas na cadeia de abastecimento continuem a ameaçar a continuidade das suas empresas. A investigação da IBV revelou que nos próximos dois a três anos, os CSCO globais consideram que os factores macroeconómicos e ambientais constituam as principais forças externas com maior impacto nas suas organizações.

As catástrofes naturais, por exemplo, forçaram os líderes a repensar os seus modelos de cadeia de abastecimento. Só nos EUA, por exemplo, registaram-se desastres desta natureza no valor de 19 mil milhões de dólares por ano nos últimos três anos, comparativamente a uma média de cerca de três milhões anuais na década de 1980. 

Estes eventos climáticos extremos podem destruir vínculos chave das cadeias de abastecimento, potencialmente paralisando as empresas que deles dependem. O mesmo se aplica às perturbações geopolíticas. Em 2022, a guerra na Ucrânia levou empresas de todo o mundo a reconsiderar os seus ecossistemas parceiros. Uma em cada três CSCO afirma ter começado a trabalhar com fornecedores em novos países ou regiões nos últimos três anos, sendo igualmente expectável que esse número continue a aumentar.

Muitos líderes empresariais estão também a remodelar as suas cadeias de abastecimento para mitigar a crescente ameaça das alterações climáticas. Quase 50% das COSC prevêem que as iniciativas de sustentabilidade irão alterar substancialmente os seus modelos de cadeia de abastecimento nos próximos dois a três anos, com 38% dos executivos entrevistados a esperar mudar os seus fornecedores com base nos seus perfis de sustentabilidade e  32% a planer transformar as práticas de aprovisionamento no sentido de reduzirem as emissões, a poluição e os resíduos nos próximos três anos. 

As estratégias de sustentabilidade têm não só de ser realistas, como criarem impacto

As empresas precisam de fazer grandes progressos para atingir novos objectivos de sustentabilidade em 2023. À medida que entram em vigor regulamentos mais rigorosos, as organizações terão de medir o seu impacto ambiental de forma clara e precisa para gerir a sua execução e cumprimento. A nova Directiva da UE sobre Relatórios de Sustentabilidade Empresarial (CISE) exigirá que 50 mil empresas revelem informações mais detalhadas sobre a sua pegada ambiental, estimando-se que estas regras entrem em vigor entre 2024 e 2028.

Os relatórios obrigatórios para a Task Force sobre Divulgações Financeiras Relacionadas com o Clima (TFCD) no Reino Unido e para a Security Exchange Commission (SEC) nos EUA irão aumentar igualmente a complexidade deste cumprimento. As partes interessadas continuarão também a exigir que os líderes estabeleçam objectivos que se estendam para além dos requisitos mínimos. À medida que as empresas traçam planos de grande alcance para atingir emissões líquidas zero e outros objectivos ambiciosos, cerca de metade dos CEO confessam sentir uma pressão directa dos parceiros do ecossistema, a par dos membros dos conselhos de administração e investidores para melhorar os resultados de sustentabilidade.

No entanto, as boas intenções ambientais de muitas organizações ainda não foram concretizadas. Num inquérito recente do IBV, abrangendo indústrias orientadas para a produção, 86% dos executivos afirmaram que as suas organizações têm uma estratégia de sustentabilidade em vigor, mas apenas 35% agiram com base nessa estratégia, com apenas um em cada três a ter integrado objectivos e métricas de sustentabilidade nos seus processos empresariais.

 Da mesma forma, os CEOs citaram o ROI e os benefícios económicos pouco claros (57%) e a falta de percepção dos dados (44%) como os maiores desafios para alcançar os seus objectivos de sustentabilidade. À medida que a sustentabilidade se torna uma componente central dos esforços de transformação, os líderes precisarão de tecnologia consolidada para os ajudar a fazer o rastreamento necessário e fazer avançar as suas prioridades estratégicas. De facto, 42% dos CIO afirmam que a sustentabilidade constitui uma área dentro da sua organização na qual a tecnologia pode ter o maior impacto ao longo dos próximos três anos.

A boa notícia é que os pioneiros tecnológicos – organizações que integraram com sucesso a sustentabilidade na sua transformação digital – viram as suas receitas crescerem mais rapidamente comparativamente à dos seus pares.

Os ciberataques continuarão a aumentar com prejuízos cada vez maiores para as empresas

Os códigos de encriptação, que são muito difíceis de decifrar, servem de espinha dorsal da economia cibernética. Mas o que acontece se essa espinha dorsal for quebrada? Até 2030, estima-se que os computadores quânticos poderão ser capazes de quebrar as protecções de segurança pública, as quais poderão depois levar entre cinco a 10 anos a serem substituídas. 

Para limitar a sua exposição ao risco, as empresas precisam de explorar novas abordagens no que respeita à cibersegurança. No entanto, devem também concentrar os seus recursos nas ameaças iminentes que enfrentam actualmente. As violações de dados custam agora muito mais dinheiro e têm um impacto mais forte do que nunca. Por exemplo, o custo médio de uma violação de dados nos Estados Unidos em 2022 foi de 9,44 milhões de dólares, o que é mais do dobro da média global que se situa nos 4,35 milhões de dólares. 

Por outro lado, a proliferação de dispositivos e serviços ligados entre si conheceu também uma enorme expansão. Os especialistas prevêem que o número de dispositivos activos com conexão IOT (Internet das Coisas) irá crescer para 14,4 mil milhões até ao final de 2022, reflectindo uma taxa de crescimento anual de 18%.

O número de vulnerabilidades relacionadas com dispositivos IoT cresceu 16% só em 2022, em comparação com uma taxa de crescimento de apenas 0,4% para todas as vulnerabilidades restantes. Os riscos colocados por falhas de segurança e novos vectores de ataque estão a ser agravados por uma falta de competências cibernéticas. Globalmente, as organizações enfrentaram um défice de força de trabalho na área da cibersegurança de cerca de 3,4 milhões de pessoas em 2022. Mais de metade (54%) dos executivos afirma que a falta de talento é um dos maiores obstáculos à resiliência cibernética da sua organização.

Por fim, é preciso ter em mente que o futuro da cibersegurança não tem tudo a ver com a mitigação dos riscos. Embora a evolução da tecnologia abra as portas a uma variedade de novas ameaças, ela também abre novas vias para o crescimento. De facto, dois em cada três executivos vêem agora a cibersegurança principalmente como um facilitador de receitas, em vez de um centro de custos.

Helena Oliveira

Editora Executiva

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