Parcerias entre a Comissão Europeia, organizações públicas e privadas, escolas, empresas e fundações. Foi com esta estratégia que o Ano Europeu do Voluntariado atingiu nota máxima em Portugal, produzindo “um efeito dinamizador e multiplicador, a nível nacional, regional e local”. Em hora de balanço, a coordenadora nacional do AEV 2011, Elza Chambel, destaca a importância “da complementaridade no desenvolvimento das políticas sociais” e a preocupação que presidiu ao Plano de Acção, para que “as acções contempladas não tivessem os seus efeitos restringidos ao presente mas pudessem também, influenciar o futuro”
POR GABRIELA COSTA

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2011 foi um ano difícil mas que contou, em Portugal como nos demais países da Europa, com o trabalho voluntário de milhares de pessoas, que deram apoio a inúmeras causas sociais, minorando assim as desigualdades que tendem a agudizar-se com a crise socioeconómica. Na realidade, e como sublinha em entrevista ao VER a presidente do Conselho Nacional para a Promoção do Voluntariado (CNPV) e coordenadora nacional do AEV 2011 em Portugal.

O Voluntariado é, antes de mais, um instrumento de coesão social e luta contra a pobreza e exclusão social. Nesse sentido, a recentemente anunciada criação de um Plano Nacional de Voluntariado, “que catalise o esforço nacional em prol de causas e contribua para um país mais coeso, menos desigual, tendo em conta o papel dos voluntários”, nas palavras de Elza Chambel, vem ao encontro da estratégia desenvolvida ao longo de todo o ano, no âmbito do AEV: acções baseadas “na complementaridade e nas parcerias assumidas”, com o objectivo de gerar um “efeito dinamizador e multiplicador, quer a nível nacional, quer a nível regional e local”.

Tendo sempre em conta que os voluntários são “pessoas comuns mas que realizam coisas extraordinárias, gratuitamente, com total disponibilidade e competência”, fazendo assim a diferença, como faz questão de sublinhar. E que, portanto, merecem uma legislação a nível comunitário e nacional “mais harmoniosa e adequada”, capaz de “favorecer e incentivar as práticas de voluntariado, fundamentalmente de proximidade, de forma a fortalecer a coesão social a todos os níveis”, apela Elza Chambel.

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De que importância se revestiu, na sua opinião, a proclamação de 2011 como o Ano Europeu do Voluntariado e da Cidadania Activa, no difícil contexto socioeconómico que a Europa atravessa?
A proclamação de 2011 como o Ano Europeu das Actividades Voluntárias que Promovam uma Cidadania Activa pretendeu proporcionar à Comissão Europeia a oportunidade de fazer um balanço do Voluntariado na EU, e de alargar sua contribuição para a sociedade. Isto porque o Voluntariado traduz os valores fundamentais de justiça, inclusão e cidadania sobre os quais a acção da Europa se baseia.

Que balanço faz do AEV em Portugal, comparativamente às acções desenvolvidas pelos restantes países europeus?

Assumimos como estratégia para o Ano Europeu do Voluntariado 2011 a aposta na complementaridade e em parcerias assumidas entre a Representação da CE, a sociedade civil, ao nível de organizações públicas e privadas, escolas de todos os graus de ensino, empresas e fundações. Esta estratégia teve um efeito dinamizador e multiplicador, quer a nível nacional, quer a nível regional e local.

Estabelecemos igualmente um relacionamento muito positivo com a comunicação social, também pelo facto de a Presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento do AEV ser a jornalista Fernanda Freitas.

Do Plano de Acções nacional realizado ao longo do ano, que iniciativas destaca e poquê?
Em Portugal, estabelecemos um Plano de Acção – cingido pelos constrangimentos financeiros conhecidos – norteado pela preocupação de que as acções contempladas não tivessem os seus efeitos restringidos ao presente mas pudessem, também, influenciar o futuro.

Assim, planeámos a replicação da ” Volta do Voluntariado” (iniciativa emblemática do AEV 2011) em diversos distritos e nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, bem como a realização de um Seminário sob o título ” O Voluntariado nos Países do Mediterrâneo – Uma Identidade Cultural “, e a produção de um documentário televisivo de cerca de cinquenta minutos sobre voluntariado, passível de ser exibido na íntegra ou em excertos, em diferentes iniciativas. Levámos ainda a cabo a realização de dois estudos académicos de investigação sobre dois assuntos relevantes: a actualização do Estudo sobre o Voluntariado em Portugal, realizado há dez anos atrás, por iniciativa do Conselho Nacional para a Promoção do Voluntariado, com a colaboração do Instituto de Ciências Sociais da Faculdade de Lisboa, e um outro que permitirá avaliar o funcionamento dos Bancos Locais de Voluntariado.

Já são conhecidos os resultados destes dois estudos de investigação?
Os estudos encontram-se em fase de elaboração, prevendo-se que os seus resultados estejam disponíveis até ao final do primeiro trimestre de 2012.

“O Voluntariado traduz os valores fundamentais de justiça, inclusão e cidadania sobre os quais a acção da Europa se baseia” .
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Em que medida contribuiu este Plano para “influenciar o futuro”, como refere? As várias comunidades e empresas envolvidas no AEV estão hoje mais despertas para a importância do Voluntariado, enquanto gerador de capital humano e social?
O facto de, a partir da realização da primeira Volta do AEV (que teve lugar em Fevereiro, em Lisboa, tendo sido visitada por mais de seis mil pessoas), termos realizado mais 21 Voltas em todo o país, incluindo as Regiões Autónomas, concedeu uma muito maior visibilidade aos voluntários e às suas acções e chamou a atenção para a complementaridade e importância do voluntariado no desenvolvimento das políticas sociais portuguesas.

Como avalia a criação de um Plano Nacional de Voluntariado, recentemente anunciado pelo Ministro Pedro Mota Soares?
Como já referi, a nossa estratégia para o AEV baseou-se na complementaridade e nas parcerias assumidas, pelo que me parece de interesse o desenvolvimento de um Plano Nacional de Voluntariado que catalise o esforço nacional em prol de causas e contribua para um país mais coeso, menos desigual, tendo em conta o papel dos voluntários, pessoas comuns mas que realizam coisas extraordinárias, gratuitamente, com total disponibilidade, competência e alegria e assim fazem a diferença. Aliás, o slogan do AEV 2011 é: ” Sê Voluntário! Faz a diferença”.

Defende que “é necessário que os Estados Membros modernizem e agilizem as políticas e infra-estruturas, em ordem a que um número crescente de pessoas possam ser voluntárias, de diferentes formas e em diferentes momentos da sua vida”. Julga que o Voluntariado, que envolve Estado, empresas e sociedade civil, carece ainda de proximidade às pessoas?
Os voluntários são essenciais no apoio a pessoas em situação vulnerável e contribuem quotidianamente para o reforço da coesão social, a nível nacional e a nível europeu. Os voluntários são pessoas de causas e podem dar seguimento a estas causas durante todo o seu percurso de vida. Contudo, mostra-se necessário que a legislação a nível comunitário e nacional seja mais harmoniosa e adequada, para favorecer e incentivar as práticas de voluntariado, fundamentalmente de proximidade, de forma a fortalecer a coesão social a todos os níveis.

De que modo irá o legado do AEV persistir ao longo do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, um objectivo já anunciado?
O Voluntariado, para além de instrumento de coesão social e luta contra a pobreza e exclusão social, é também um instrumento potenciador do envelhecimento activo, pois permite o exercício de competências adquiridas durante a vida e a sua colocação ao serviço da comunidade: pode ser exercido por mais velhos e mais novos, em muitos casos de forma conjugada, e deverá ser, em meu entender, exponencialmente desenvolvido e reforçado no próximo ano.

Gabriela Costa

Jornalista