A era do desenvolvimento sustentável, as consequências económicas das alterações climáticas, a ascensão dos robots que nos roubarão postos de trabalho, o caminho para o pós-capitalismo e a liderança empresarial em que “todos importam” consistem nas sugestões literárias para a época estival. Porque mesmo em tempo de descanso é importante não esquecer que vivemos rodeados de complexidade(s) e que mais vale prevenir do que remediar

POR HELENA OLIVEIRA

The Age of Sustainable Development
Jeffrey D. Sachs

30072015_PaginasDoMundo1
Considerado como um dos mais reputados economistas do mundo no que às questões do desenvolvimento sustentável dizem respeito, Jeffrey D. Sachs, o director do Earth Institute da Universidade de Columbia, onde também é professor, oferece uma brilhante e acessível análise exactamente sobre a necessidade global de se atingir um equilíbrio entre o desenvolvimento económico e a sustentabilidade ambiental.

Apelidando-a de “a maior e mais complexa luta jamais enfrentada pela humanidade”, Sachs guia-nos, nesta obra, nos “enrodilhados” e interligados desafios que a compõem, como a pobreza, o excesso de população, a extinção das espécies, a sobreexploração dos oceanos, a urbanização, a mobilidade social e as alterações climáticas, afastando-se das habituais narrativas repletas de jargão e de ideias (mal) feitas que tentam explicar este gigantesco e intrincado tópico.

O especialista sublinha que o desenvolvimento sustentável é, mais do que qualquer outra coisa “um exercício de resolução de problemas”, apelando a uma abordagem holística e a novas ideias que possam produzir “sociedades prósperas, inclusivas, sustentáveis e bem governadas”.

Sachs explica a história do desenvolvimento económico mundial, os factores que “ajudam” a que alguns países sejam mais pobres que outros (tais como muitas regiões insulares de África), a ciência das alterações climáticas, de que forma é que os progressos tecnológicos contribuíram para o esgotamento da pesca em alto mar, o “negócio inacabado” da mobilidade social e a necessidade cada vez mais urgente de se apostar em tecnologias sustentáveis e numa maior produção agrícola (especialmente na África subsaariana e do sul). E, para cada um destes grandes tópicos, o autor oferece detalhes e histórias com humor acompanhadas por gráficos, mapas e fotografias que conferem sólidos argumentos à sua escrita.

Adicionalmente, o autor analisa cada um destes desafios tendo em conta o contexto dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável, formulados em 2012 na Conferência do Rio +20, os quais irão ser formalmente adoptados ainda este ano. Sachs garante ainda que as soluções são exequíveis e economicamente acessíveis, apesar da oposição forte que se continua a fazer sentir graças aos interesses instalados e à inacção dos governos.

Um livro imprescindível para as gerações presentes que pretendem deixar um planeta habitável, mais justo e equitativo para as gerações futuras.

Climate Shock: The Economic Consequences of a Hotter Planet
Gernot Wagner & Martin L. Weitzman

30072015_PaginasDoMundo2Por muitas que sejam as evidências, os estudos, os apelos e as provas científicas, as discussões em torno dos perigos das alterações climáticas continuam a ser, em mais círculos do que aqueles que seriam desejáveis, emocionais, carregadas de valores culturais e até explicadas biblicamente. Assim e para que passem a fazer parte integrante das políticas nacionais e globais, é urgente que o mundo comece a discuti-las através da linguagem prática – e eficaz – da segurança e da gestão de risco. Se encaradas através de uma lente mais económica, o dinheiro necessário para as mitigar no curto prazo – através de mecanismos como o preço nas emissões de carbono, o investimento em energias limpas ou os fundos de preservação das florestas – poderá transformar-se num tópico mais “compreensível” para uma classe alargada de líderes.

Este é o argumento escolhido pelos dois economistas que assinam este livro, os quais optaram por analisar as alterações climáticas comparando o aquecimento global com outros riscos e perigos enfrentados pela humanidade.

Gernot Wagner, economista sénior do Environmental Defense Fund e Martin L. Weitzman, professor de Economia na Universidade de Harvard, começam por apresentar um cenário em que uma catástrofe global – definida por um eventual aumento nas temperaturas médias de seis graus – tem cerca de 10% de possibilidade de vir a ocorrer. E sublinham que mesmo metade desse valor provocaria na Terra mudanças irrevogáveis, para as quais fizeram cálculos aproximados.

De acordo com os autores, um aumento catastrófico da temperatura representaria entre 10% a 30% de custos na produção económica global, ou cerca de 7 a 22 triliões de dólares (tomando o ano de 2013 como exemplo). Estes custos estariam associados aos investimentos maciços em infra-estruturas industriais necessários para ajudar o planeta a fazer uma complexa transição para uma nova era climática, em conjunto com soluções para se lidar com um aumento significativo do nível das águas dos mares. A quantificação em termos de perdas de vidas humanas, do reino animal e dos ecossistemas consiste num exercício ainda mais difícil de prever.

De acordo com estas probabilidades, e considerando as astronómicas somas de dinheiro em causa – um argumento com mais peso do que os demais – os autores oferecem análises puramente económicas para investimentos “com sentido”que permitem abordar as alterações climáticas a curto e médio prazo.

O problema é que continua a ser difícil convencer as pessoas a assegurarem-se contra uma possibilidade, principalmente quando não a consideram iminente e, em casos mais graves, nem sequer real. Os autores dão um exemplo no mínimo caricato: os líderes globais mais facilmente convencidos serão para construírem um sistema de detecção e deflexão de um asteróide que possa vir a atingir a Terra, do que em investir em políticas ambiciosas que sirvam para reduzir os impactos das alterações climáticas, mesmo sabendo-se que estas são “globais”, de “longo prazo”, “irreversíveis” e “preocupantemente incertas”.

Todavia, o livro em causa não foi escrito para convencer os “não-crentes”, mas sim para munir os líderes empresariais, políticos, economistas e decisores globais que parecem ainda estar comodamente sentados à espera de uma abordagem puramente racional e financeiramente convincente para agirem. Sendo assim, é hora de se levantarem e pôr mãos à obra.

Rise of the Robots: Technology and the Threat of a Jobless Future
Martin Ford

30072015_PaginasDoMundo3Como se já não bastasse o enorme desemprego que afecta a Europa e também o resto do mundo, e a ascensão das máquinas – ou dos robots – num futuro muito próximo (e já mesmo no presente) promete vir a roubar muitos postos de trabalho (ainda) ocupados por humanos. Se são muitos os que ainda acreditam que a revolução tecnológica da actualidade terá efeitos similares à revolução industrial do século XIX – a qual eliminou muitos postos de trabalho, mas criou outros tantos para poder satisfazer as necessidades trazidas pelas inovações de uma nova era – o reconhecido empreendedor de Silicon Valley, Martin Ford, não está, de todo, optimista.

Para o autor deste livro, à medida que a tecnologia continuar a acelerar e as máquinas começarem a tomar conta delas próprias, as pessoas serão, crescentemente, um “bem descartável”. Sublinhando que a inteligência artificial já iniciou a sua marcha para tornar alguns “ bons empregos” em tarefas obsoletas, de que são exemplo vários serviços administrativos, tarefas jornalísticas e até funções de programação de computadores, Ford argumenta que a substituição destas tarefas “humanas” por robots e software inteligente é uma inevitabilidade. E, à medida que assistimos a tanto progresso, os empregos dos trabalhadores de colarinho branco e azul acabarão por se evaporar, asfixiando, ainda mais, as famílias da classe baixa e média. Em simultâneo, os agregados encontram-se “sob assalto”, com custos explosivos nomeadamente no que respeita a duas grandes indústrias – a da educação e a dos cuidados de saúde – as quais, até agora, ainda não foram completamente transformadas pelas tecnologias de informação. Sem quaisquer paninhos quentes, Martin Ford alerta para um desemprego de proporções astronómicas, em conjunto com o aumento (ainda mais vincado) das desigualdades e da insegurança económica.

Os argumentos de Ford são ainda mais assustadores e preocupantes, na medida em que não estão, de todo, envoltos em qualquer tipo de histeria ou exagero gratuitos, obedecendo apenas uma reflexão clara e prática da realidade que nos cerca. Para o autor, as soluções que têm vindo a ser aplicadas para lidar com a disrupção tecnológica, em especial as que visam mais formação e mais educação, não irão funcionar e é necessário decidir, agora, se pretendemos um futuro mais igualitariamente próspero ou níveis catastróficos de desigualdade e insegurança económica.

Escrito de forma crua e absolutamente desapaixonada – o que contribui ainda mais para aumentar o seu impacto – The Rise of Robots infere que a humanidade não tem um futuro risonho à sua espera, a não ser que muito se venha a alterar. Como alternativa e para evitar um colapso social fatal, Ford identifica um sistema que começa a ser tema em debate em vários países – ao qual o VER irá dedicar um artigo em Setembro – e que tem a ver com o “rendimento básico incondicional” – que será alvo de uma experiência-piloto em Utrecht, na Holanda, já no próximo ano e que em Portugal tem também já várias vozes aderentes. Para o autor, as forças do mercado livre e as exigências dos consumidores (bem patentes já no número de armazéns crescentemente automatizados da Amazon, por exemplo) tornarão impossível, e dentro de menos tempo do que o que julgaríamos possível, continuar a empregar números alargados de seres humanos.

Que futuro para as gerações que se seguem?

PostCapitalism: a Guide for our Future
Paul Mason

30072015_PaginasDoMundo4Na senda de vários movimentos, activistas, ensaios e literatura de ordem variada que clamam pela necessidade de um “pós-capitalismo”, o jornalista e editor de Economia do Channel 4, Paul Mason, acabou de lançar mais uma acha para esta fogueira animada por contributos crescentes.

Tal como aconteceu com o feudalismo há cerca de 500 anos, a substituição do sistema capitalista por um pós-capitalista será acelerado por choques externos e moldado pela emergência de “uma nova espécie de seres humanos” e de uma economia que se pautará por novos valores e comportamentos. Este é a crença fundamental do autor, a qual tem origem em três grandes alterações veiculadas pelas tecnologias de informação de há 25 anos a esta parte.

A primeira, e já enunciada no livro acima sugerido, tem a ver com a redução da “necessidade” do trabalho, tornando cada vez menos claras as fronteiras entre este e o tempo livre, em conjunto com um enfraquecimento visível dos laços que o mantiveram ligado, até agora, aos salários. A próxima vaga de automação, assegura o autor, actualmente “adiada” devido ao facto de a nossa infraestrutura social ainda não ser capaz de arcar com as suas consequências, irá reduzir, de forma gigantesca, a quantidade de trabalho necessária – não só em termos de subsistência, mas também no que a uma vida decente e digna para todos diz respeito.

A segunda está relacionada com o facto de a informação estar a corroer a capacidade dos mercados para estabelecerem preços de forma adequada. Ou seja, porque os mercados têm como base a escassez, sendo que vivemos, em simultâneo, numa era em que a informação é cada vez mais abundante. Os mecanismos de defesa dos mercados, afirma o autor, têm tendência para formar monopólios – de que são exemplo os gigantes da tecnologia – numa escala nunca vista nos últimos 200 anos. Todavia, estes não se manterão para sempre. Ao se construírem modelos de negócio e ao se partilharem valorizações com base na captura e privatização de toda a informação socialmente produzida, estes colossos da tecnologia estão também a edificar um edifício corporativo frágil às custas de uma das mais básicas necessidades humanas: a de se utilizar as ideias livremente.

Por último, Mason alerta para o facto de estarmos a assistir ao erguer espontâneo da produção colaborativa: bens, serviços e organizações que estão a surgir e que já não respondem ao que ditam os mercados ou as hierarquias da gestão. Para o autor, o maior produto de informação do mundo – a Wikipedia – é feito por voluntários, de graça, e está a abolir crescentemente o mercado das enciclopédias e a despojar a indústria da publicidade de um valor anual estimado em 3 mil milhões de dólares. Oferecendo outros exemplos, como as novas moedas – de que é exemplo a virtual Bitcoin – aos bancos de tempo, ao vasto número de pessoas que estão a alterar os seus comportamentos, a descobrir novas formas de propriedade e de crédito, em conjunto com maneiras completamente distintas de fazer negócios, o autor afirma que estamos numa era “contrária” ao capitalismo corporativo tal como o conhecemos.

Ao contrário do pessimismo de Martin Form acima referido, Mason está, contudo, muito optimista. E a sua crença – bem expressa neste livro – é a de que das cinzas da recente crise financeira se erguerá uma economia global mais justa e sustentável. Visionar um caminho para além do capitalismo, defende, já não é um sonho utópico. Pelo contrário, esta é a primeira vez, na história humana em que, equipados com uma compreensão vasta do que em torno de nós se passa, é possível prever e moldar, em vez de simplesmente reagir, a mudanças sísmicas. Será?

Everybody Matters: The Extraordinary Power of Caring for Your People Like Family
Bob Chapman & Raj Sisodia

30072015_PaginasDoMundo5“Toda a gente quer fazer melhor. Mostre-lhes a sua confiança. Os líderes estão em toda a parte. Encontre-os. As pessoas atingem metas variadas, de pequena ou grande dimensão, todos os dias. Celebre-as. Algumas pessoas gostariam que as coisas fossem diferentes. Escute-as. Toda a gente importa. Mostre-lhes que assim é”.

Com lançamento previsto apenas para o início de Outubro, o presente livro promete ser um recordista de vendas. Por um lado, porque o tema, por mais “ingénuo” que pareça, está a ganhar adeptos em muitas das empresas que prometeram fazer bem o bem, e ainda melhor. Por outro, porque é escrito por uma dupla de sucesso: Bob Chapman que, em 1997 e em conjunto com Barry-Wehmiller, foi pioneiro em abordar uma estratégia de liderança radicalmente diferente das demais, a qual contribuiu para que a sua empresa se tenha reerguido de tempos difíceis com níveis elevados de moral, lealdade, criatividade e performance de negócio; e Raj Sisodia, co-autor do best-seller Conscious Capitalism: Liberating the Heroic Spirit of Business, sobre o qual o VER já escreveu.

A Barry-Wehmiller, a bem-sucedida e rentável (valorizada em 1,7 mil milhões de dólares) empresa de equipamentos e soluções de engenharia da qual Chapman é CEO sempre rejeitou a ideia de que os seus empregados são simples “ocupadores de funções”, que podem ser manipulados, “geridos” com paus e cenouras e descartados se os superiores hierárquicos assim o entenderem. Na verdade e ao contrário, a Barry-Wehmiller demonstra, todos os dias, que cada pessoa interessa ou, melhor, que todas as pessoas interessam, tal como acontece numa família. E assegura que este sentimento não é apenas mais uma frase feita para embelezar uma qualquer declaração de missão, mas antes a pedra basilar do seu sucesso.

O argumento é simples: se durante tempos difíceis as famílias se unem ainda mais, fazem sacrifícios em conjunto e partilham a dor, seja ela qual for, o mesmo poderá fazer uma empresa. “Se um familiar perde um emprego, a família não despede os seus filhos” é uma das analogias eleitas pelos autores. E foi exactamente essa a abordagem que a Barry-Wehmiller adoptou quando estalou a recente Grande Recessão e as receitas da empresa caíram a pique ao longo de pelo menos dois anos. Em vez de despedimentos massivos, os dois co-fundadores encontraram formas criativas para cortar custos, de que é exemplo o pedido que fizeram a vários dos seus trabalhadores para tirarem um mês de férias não remunerado. Entre outras estratégias praticadas, o resultado cifrou-se num reerguer da empresa, pós período recessivo, com a moral das “tropas” mais elevada do que nunca.

Se a primeira reacção a este tipo de liderança ou de gestão é de cepticismo, a verdade é que os autores argumentam que fazer parte de um local de trabalho excepcional no qual o objectivo é que toda a gente se sinta parte integrante de um processo de confiança e carinho “geral”, é meio caminho andado para o seu sucesso, para além de que o processo de contágio em prol do bem de todos acaba por ser norma.

Assim, Chapman e o co-autor Sisodia demonstram de que forma é possível, a qualquer organização, abraçar esta abordagem, rejeitando as traumáticas consequências dos despedimentos, das regras desumanizadoras e das culturas hipercompetitivas. Assim que se deixar de tratar os trabalhadores como meras funções, o envolvimento destes crescerá substancialmente, abrindo caminho para que estes partilhem o que têm de melhor e colocando os seus talentos ao serviço de um futuro partilhado, asseguram. Os empregados desinspirados deixarão de sentir que o seu trabalho não tem significado e os que têm por hábito levar as suas frustrações profissionais para dentro das suas casas, deixarão de o fazer. Adicionalmente, garantem também os autores, deixarão de existir funcionários a contar os minutos que faltam para a jornada laboral terminar.

O livro conta a história, real, de Chapman para encontrar o seu “chamamento”, e mergulha nos bastidores da empresa que criou, narrando diversos episódios protagonizados pelas suas equipas de trabalhadores que com carinho, empatia e inspiração conseguiram atravessar uma altura de tempestade e reencontrar a bonança. Porque até as histórias empresariais em tempos de recessão podem ter um final feliz.

Helena Oliveira

Editora Executiva