A economia circular não é apenas um conceito teórico e utópico, mas antes um modelo económico que pretende estimular os cidadãos a procurarem as variadas utilidades de um único bem, reutilizando-o. Para além disso, e de acordo com o WBCSD, o mesmo assume-se como uma oportunidade para muitas empresas, com benefícios em termos de eficiência e atracção de novos clientes. Num estudo recente, a organização apresenta dez recomendações, feitas às empresas, para que estas possam aderir à economia circular, tornando-se assim mais sustentáveis
POR
MÁRIA POMBO

Afastando-se da ideia de “pegar-usar-deitar fora” – característica dos tradicionais modelos económicos – a economia circular pretende exactamente aproveitar todos os recursos e as múltiplas utilidades que os objectos podem ter, dando-lhes uma nova vida e transformando-os. Trata-se de um modelo económico que tem a capacidade de se regenerar e alimentar a si próprio, como um verdadeiro círculo. No fundo, o desafio que a economia circular lança é o de olhar para cada objecto de variadas perspectivas e pensar nas suas mais diversas utilidades, de modo a utilizá-lo ao máximo e evitar o desperdício – um exercício que poderá ser o “salva-vidas” do planeta, dada a escassez, cada vez mais notória, dos recursos existentes.

Os mais cépticos poderão pensar que este conceito se traduz na mera reciclagem ou separação de resíduos, mas a verdade é que vai muito para além disso, assumindo-se até como uma oportunidade para que muitas empresas possam inovar, quer em termos de processos de produção quer no que respeita ao desenvolvimento de novos produtos, tornando-se assim mais eficientes, ao mesmo tempo que protegem o planeta. De acordo com o World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), as inovações que permitem a reutilização de recursos tornam as empresas menos dependentes de outras organizações e de bens escassos, aumentam a sua eficiência, e estimulam o fabrico de novos produtos e serviços, atraindo mais consumidores.

Num estudo publicado recentemente e denominado de “The new big circle”, a organização revela que a transição para a economia circular poderá significar, em 2030, um crescimento estimado do Produto Interno Bruto (PIB), a nível mundial, na ordem dos 4,5 triliões de dólares, trazendo ainda inúmeros benefícios e poupanças em termos de habitação, vestuário e alimentação. Este crescimento é ainda mais importante quando se prevê que, também em 2030, o número de pessoas aumente para 8,5 mil milhões – mais 16% de cidadãos, face a 2015, que precisam de casa, comida e roupa para vestir – sendo necessário recorrer a fontes sustentáveis de produção de bens, em nome da sobrevivência do planeta. É que reduzir a utilização de recursos em apenas 1% pode significar, por ano, uma poupança de 840 milhões de toneladas de metais, combustíveis fósseis e biomassa, traduzindo-se também em mais 39,2 triliões de litros de água disponíveis.

Para além dos benefícios para o planeta, o documento do WBCSD – que contou com a participação de 78 líderes empresariais, pertencentes a diversas indústrias – revela que muitas empresas já começam a aderir à economia circular devido às suas inúmeras vantagens em termos de negócio. A larga maioria (97%) dos inquiridos considera que a economia circular ajuda as organizações a serem mais eficientes e competitivas em áreas como a investigação, o desenvolvimento de produtos e os processos de produção.

Complementarmente, 96% consideram que este modelo económico é importante para o sucesso futuro e a longo prazo da sua empresa e 61% assumem que, através deste, conseguiram auto-financiar projectos, sem necessitarem de recorrer a investidores externos ou outras formas de angariação de fundos. Para além disso, 51% dos respondentes revelam que a realização de actividades no âmbito da economia circular já deu lucro às suas empresas.

O estudo indica ainda que 44% das empresas compram materiais que são regenerativos ou reciclados, 47% recolhem e reciclam produtos e materiais em fim de vida, 41% das organizações produzem bens sem desperdícios eficientes em termos de recursos, e 32% já desenham produtos recicláveis e reutilizáveis.

O crescimento das empresas com base numa relação mais estreita com os novos consumidores, a redução dos custos de fabrico e dos materiais de produção, a redução do consumo de energia e de emissão de CO2, e a diminuição dos riscos através do aumento da segurança nas cadeias de produção foram as principais vantagens da adesão à economia circular que os gestores apontaram.

Economia circular nas organizações sim, mas como?

Após as entrevistas aos gestores, o WBCSD identificou diversos factores e práticas com sucesso, os quais deram origem a dez recomendações para implementar a economia circular. No fundo, são dez dicas que podem ser úteis às empresas que estão agora a aderir a este modelo económico, mas também àquelas que já aderiram mas pretendem aprofundar a sua abordagem, tornando-se ainda mais sustentáveis.

Interagir e relacionar-se com os stakeholders externos é a primeira recomendação, tendo em conta que são estes que influenciam e ditam o crescimento das empresas e o rumo que estas devem seguir. Para metade dos inquiridos estes são até o grupo que exerce a maior influência na sua empresa. Entre os diversos agentes externos encontram-se os consumidores, as agências governamentais e as empresas reguladoras, as Organizações Não-Governamentais (ONG) e representantes de organizações locais, os investidores e os fornecedores de matérias-primas. Importa referir que a influência destes stakeholders varia muito de indústria para indústria: na construção, por exemplo, as empresas reguladoras têm uma influência muito maior do que os fornecedores, mas isso não é a regra para outros sectores de actividade.

[quote_center]É preciso educar os colaboradores para a importância da economia circular, implementando uma verdadeira “cultura circular” nas organizações[/quote_center]

Garantir um forte e consistente apoio da administração das empresas é a segunda recomendação dada pelo WBCSD, considerando que os órgãos de gestão são os stakeholders internos mais importantes e aqueles que definem as iniciativas que irão ser realizadas no âmbito da economia circular. Neste sentido, e como já foi referido em cima, 61% dos participantes na análise referem que as suas empresas conseguiram financiar internamente os seus projectos, sem necessitarem de recorrer a fontes externas de financiamento, sendo, para isso, necessária a aprovação e o apoio dos órgãos de chefia.

A terceira recomendação, que poderia ser a primeira por ser tão simples e básica, remete para a importância da definição de “economia circular”. Neste sentido, cada empresa deve definir e comunicar o que significa, para si, este conceito, apresentando as estratégias para o implementar e seguir. De acordo com a análise, 49% das empresas incorporaram a economia circular nas suas estratégias de sustentabilidade e 42% adoptaram-na como parte da sua estratégia corporativa, existindo apenas 7% de empresas que optaram por criar uma estratégia independente.

Quantificar ambições específicas e desenvolver uma actividade comercial no âmbito da economia circular é a quarta recomendação. Neste sentido, os autores do estudo revelam que 81% das empresas que têm uma estratégia circular, também têm uma actividade que a suporta. Tendo em conta que implementar a economia circular é um processo que pode ser dispendioso, na fase inicial, o mesmo está normalmente relacionado com a vontade de concretizar algo e atingir um objectivo: chegar a novos consumidores, fortalecer a relação com os clientes habituais ou entrar em novos mercados são algumas das principais ambições que motivam as empresas a aderir a este modelo económico.

Educar os colaboradores para a importância da economia circular, mudando o seu mindset de “cadeias de valor” para “ciclos de valor” e levando esta visão para o seu dia-a-dia (além-empresa), é a quinta recomendação do WBCSD. Neste sentido, pretende-se que seja implementada uma verdadeira “cultura circular”, na organização, promovendo a reutilização de bens e a escolha de materiais mais sustentáveis. Implementar a prática da reciclagem, promover uma vida mais duradoura dos produtos, mesmo que estes tenham diversas funcionalidades ao longo do tempo, e envolver os colaboradores na definição de uma estratégia mais verde, dando-lhes abertura para sugerirem actividades e projectos que podem ser postos em prática, são algumas das estratégias que podem ser utilizadas para captar o interesse dos trabalhadores, facilitando a implementação da economia circular nas organizações.


Capacitar, colaborar, comunicar

Capacitar e envolver as diversas componentes e departamentos da empresa é a sexta recomendação apresentada no estudo. Se é certo que, numa fase inicial, a economia circular pode integrar a estratégia de sustentabilidade das organizações, também é certo que esta tem que estar presente na principal actividade da empresa, já que é esta que vai permitir a escalada e o crescimento das iniciativas realizadas neste âmbito. Contudo, a sustentabilidade não é uma competência isolada, mas sim uma forma de pensar e de estar, tendo impacto nas diversas actividades da empresa. Assim, as iniciativas promovidas no âmbito da sustentabilidade devem, progressivamente, ser adoptadas por todos os colaboradores, em todos os departamentos da organização, sendo esta a única forma de se adoptar uma verdadeira cultura circular.

A sétima recomendação – começar com a inovação do processo e passar depois para a inovação do produto e para a inovação do modelo empresarial – mais não pretende do que passar a ideia de que o processo de implementação da economia circular deve ser feito de forma progressiva e ponderada. Assim, e de acordo com o documento, as empresas devem começar pela mudança menos disruptiva e, após esta, devem começar a explorar novos produtos (ou oportunidades em produtos antigos). Por fim, e só depois da ideia de a economia circular estar bem consolidada, devem procurar a inovação do modelo empresarial, que é o passo mais difícil de dar e onde muitos líderes revelam dificuldades.

Colaborar com parceiros externos é a oitava recomendação do WBCSD e está relacionada com a ideia de que “sozinhos podemos ir depressa mas só vamos longe se formos juntos”. Neste sentido, o documento explica que, ao invés de tentarem produzir e comercializar tudo sozinhas, muitas organizações de sucesso estabelecem parcerias com agentes externos, como ONG ou outras empresas, com o objectivo de diminuir os custos e aumentar os benefícios, já que o desperdício de umas pode ser a matéria-prima de outras e os recursos podem ser partilhados, beneficiando todos os intervenientes. Os autores do documento explicam, assim, que encontrar os parceiros e fornecedores certos pode ser uma alavanca para o sucesso.

Se a economia circular promete melhorias em termos de sustentabilidade, competitividade e lucro, esta necessita de medidas e indicadores que possam demonstrar se a sua implementação está a ser bem-sucedida ou não. Deste modo, definir e alinhar indicadores-chave de desempenho (mais conhecidos por KPIs que, em inglês, são key performance indicators) para os objectivos traçados é a nona recomendação. Os KPIs não têm que estar relacionados especificamente com a economia circular, podendo, pelo menos num primeiro momento, ser mais gerais, e podem medir aspectos como o risco em termos financeiros e o impacto ambiental.

Fazer o bem e falar sobre isso é a décima e última recomendação do WBCSD. Quando as iniciativas são implementadas correctamente, criam verdadeiros benefícios sociais e empresariais, como processos eficientes, produtos e serviços atractivos e um maior património para a marca. E partilhar informações sobre as iniciativas e os produtos realizados no âmbito da economia circular pode atrair novos clientes, fortalecer as relações já existentes e satisfazer os investidores, que ficam a par do sucesso da empresa. Partilhar estas iniciativas pode trazer inúmeros benefícios às organizações, como o lucro (decorrente do aumento das vendas) e a credibilidade, tendo em conta que, actualmente, mais clientes e investidores procuram empresas que “fazem o bem”.

Estas são as dez recomendações feitas pelo WBCSD às empresas que pretendem aderir à economia circular. Note-se que são dicas muito generalizadas e que cada organização deve adoptar aquelas que mais se adequam ao seu sector e modelo de negócio. Independentemente da abordagem de cada organização ou gestor, uma coisa é certa: aderir à economia circular é uma oportunidade para salvar o planeta e muitas empresas, permitindo a expansão de negócios e a atracção de novos clientes.

Mária Pombo

Jornalista