Sinto que no meio desta pandemia, descobrimos, melhor dizendo, tropeçámos, naquelas que são algumas das soluções para a insustentabilidade social, ambiental e no fundo, cultural, do nosso percurso. Descobrimos em comum que alguns caminhos são possíveis que sempre nos disseram não o ser – a solidariedade europeia, a vizinhança na grande cidade, a mobilização em torno de um perigo comum, o repúdio pelas mensagens de divisão social, a mudança rápida de hábitos de vida
POR PEDRO BARATA

Não é a primeira vez que me pedem para escrever um artigo para ilustrar as questões de sustentabilidade por ocasião do Dia Mundial do Ambiente. Eterno optimista e atento às evoluções mais recentes de diferentes indicadores ambientais, mesmo em tempos de pandemia, seria sempre gratificante escrever sobre a revolução tecnológica que se prepara nas áreas da energia e dos transportes e que permitem perspetivar rápidas alterações nesses domínios.

Mas depois desta pandemia, e em particular das sequelas que estamos a viver, não no plano ambiental, mas no plano social e económico, parece-me cada vez mais um pouco curta a prospectiva que se baseia apenas nos sinais de que uma alteração fundamental como o tele-trabalho ou a “tele-escola” possam permitir uma redução importante das emissões. Ou então comparar essas reduções com os mais dos que esperados aumentos de emissões derivados da utilização intensa dos serviços de “take away”, ou outros. Não que estes assuntos não sejam importantes, mas permitam-me salientar aquilo que, a meu ver, está mais em risco para a sustentabilidade das nossas sociedades e que a pandemia pôs claramente a nu: as desigualdades no acesso e gestão da coisa comum, ou se quisermos, o fim do “fim da política”.

Eu sou filho do final da década de 60, tive a infância marcada pelo 25 de Abril, mas sobretudo pela marcha quase inexorável de um certo liberalismo económico, personificado em Thatcher e Reagan, e, com dez anos de atraso e alguns problemas de tradução, em Cavaco Silva, entre nós. Ainda fui a tempo de estudar a Lei do Enquadramento dos Sectores e experienciar as primeiras privatizações. Mas sobretudo, experienciar a emergência de uma nova classe, aqui como “lá fora”, assente sobre novos valores. Os novos acrónimos: os JEEP “jovens empresários de elevado potencial”, os novos “novos ricos”, a financialização da economia. Tendo estudado com professores de uma muito diferente linha política da minha – Alfredo de Sousa, ou Pinto Barbosa – mas dos quais percebi o intenso gosto pela defesa da “res publica”, assim como dos valores éticos atendentes – seja pela sua educação católica, seja pela devoção a uma causa maior, notei em muitos dos meus colegas de formação, ou nos novos académicos, a falta de uma cultura “mais espessa” e mais “profunda”. Esta nova cultura é uma cultura internacional, – uma cultura do sucesso, em qualquer área, mas em particular, na económico-financeira, que despreza efetivamente a necessidade de outros saberes – lembro-me perfeitamente de um assistente de cadeira congratular-se com o fim da cadeira de “Sistemas Económicos Comparados”, leccionada por um dos históricos, com o argumento de que não havia necessidade de ter mais “teóricos” na nossa sociedade. Não importa que o leccionador da cadeira em causa fosse Xavier Pintado, um dos homens mais cultos com quem tive o prazer de entabular magras conversas na licenciatura. O assistente em causa é hoje alguém com funções de governação.

É este “Weltanschaung”, para usar uma expressão mais cara, que ainda domina as nossas elites, aqui e pela Europa. Elites que têm da concepção da construção europeia uma visão pragmática, sem idealismo. Elites para quem o bem comum é mesmo a soma dos bens individuais, com honrosas excepções. Mas mesmo nessas honrosas excepções, como sejam os clássicos bens públicos: os serviços públicos, a iluminação, o saneamento básico, prevalece sempre o indivíduo como a medida da bondade política, a mor das vezes num incipiente utilitarismo algo bacôco.

Mas na organização do nosso ideal comum, esta visão e os valores que a sustêm, prevalecem. O herói social não é o cientista ou investigador (década de 40/50), não é o engenheiro do “ferreirismo” (década de 60), não é nem mesmo o economista da década de 70 e 80 (lembremo-nos como Cavaco Silva tinha uma aura especial por ser doutorado em economia por York, por exemplo). O herói passou a ser o financeiro – os Mike Millken, quando degeneram, mas os banqueiros à nossa escala – os Ulrich, os (novos) Espírito Santo. Mais tarde e mais próximo de nós, o herói é agora sobretudo o empresário bem-sucedido – pouco importa o que ele faça, diga-se. Até porque é inerentemente assumido que se ele é bem-sucedido, então ele está a fazer um bem social. É a consagração do Belmiro (a quem nos habituamos pelo nome pessoal) ou do Américo Amorim, entre muitos outros.

E eis-nos chegados a 2020, com uma longa passagem pela crise financeira maior desde os anos 30, e confrontados com uma pandemia, associada à realização gritante da aceleração da crise climática (estão 25º na Sibéria do Norte neste momento). Ao fim de três décadas de desigualdade crescente. E o que nos podem dizer os nossos heróis? De repente e a propósito disto,… nada.

É neste momento crucial que se deixam de bater palmas pelos financeiros, pelos economistas ou pelos empresários. Batem-se em vez disso pelos enfermeiros, pelos professores, pelos médicos, pelas empregadas de limpeza e pelo pessoal de recolha do lixo, de repente guindados à posição de soldados da linha da frente de uma guerra sem tréguas ao inimigo comum. De repente, a comunidade científica, feita em muitos casos de gente que pedincha todos os dias por uns direitos mínimos associados às suas magras bolsas, ou a comunidade artística, a qual nos dá, a todos, um assomo de alma durante o longo confinamento, são admirados e aplaudidos. As reivindicações de sempre parecem de repente mais justas. E o empresário, esse herói social de antes, tem mais do que nunca, justificar o contrato social que lhe permite a sua actividade – são as empresas de calçado ou de moldes que rapidamente se mobilizam para o fabrico de EPI ou de ventiladores em falta, são as novas plataformas de “crowdfunding” que se mobilizam para o empreendedorismo social (vocábulo novo linguístico horrendo mas útil para designar o que sempre foi pensado como filantropia ou trabalho social).

Não sei se desta experiência única e irrepetível conseguiremos contrariar trinta anos de domínio de uma certa visão tecnocrática dos desafios sociais. Sinto, contudo, que no meio desta pandemia, descobrimos, melhor dizendo, tropeçámos, naquelas que são algumas das soluções para a insustentabilidade social, ambiental e no fundo, cultural, do nosso percurso. Descobrimos em comum que alguns caminhos são possíveis que sempre nos disseram não o ser – a solidariedade europeia, a vizinhança na grande cidade, a mobilização em torno de um perigo comum, o repúdio pelas mensagens de divisão social, a mudança rápida de hábitos de vida.

As emissões de dióxido de carbono? Essas caíram. Não sei se continuarão a cair ou se irão voltar à sua tendência de então. Sei que não resolvendo a quebra de valores humanistas dos últimos trinta anos, dificilmente arrepiaremos caminho.