Os “liberais” estão na moda e são cada vez mais odiados. São referidos como os “liberais do capitalismo”, como aqueles que esquecem os seres humanos devido à concentração egoísta no seu bem-estar individual. Nos dias que correm, tal egoísmo tem vindo a estar associado ao Estado – que apenas quer diminuir a dívida, custe o que custar – e às grandes empresas, que evitam pagar aos seus fornecedores o mais possível
POR SOFIA SANTOS*

Independentemente do egoísmo que possamos pensar que cada Homem tem, existem evidentemente alguns princípios na sua natureza que fazem com que o Homem se interesse pela fortuna dos outros ficando feliz pela felicidade de outrem, não ganhando nada com isso, a não ser o prazer de ver essa mesma felicidade” (Adam Smith).

Actualmente os “liberais” estão na moda e são cada vez mais odiados pela população em geral. São referidos como os “liberais do capitalismo”, como aqueles que esquecem os seres humanos devido à concentração egoísta no seu bem-estar individual.

Nos dias que correm, tal egoísmo tem vindo a estar associado ao Estado – que apenas quer diminuir a dívida, custe o que custar – e às grandes empresas, que evitam pagar aos seus fornecedores o mais possível, entre outros abusos inexplicáveis numa sociedade saudável.

Todos fomos ensinados nas escolas de economia e de gestão, que o gestor deve maximizar o lucro, aumentar a produtividade, reduzir os custos, enfim… ser implacável. Normalmente os gestores (leia-se gestores em Portugal, pois nos países desenvolvidos não é bem assim) são pessoas muito ocupadas, que se encontram no último andar do prédio ou na sala mais afastada da porta de entrada. É muito difícil reunir ou falar cinco minutos com elas, têm sempre a agenda cheia, mesmo antes de a consultarem, é sempre tudo complicado, atendem o telefone dez vezes numa conversa de quinze minutos, e quando conseguimos finalmente conversar, têm de sair rapidamente pois existiu uma urgência.

São pessoas que foram ensinadas a pensar que um bom gestor é aquele que é rígido, que não mostra sentimentos, muito menos humanismo e coração. Foram ensinadas a pensar que só sendo distantes conseguem manter o respeito dos seus subalternos e conseguem fazer com que estes se sintam intimidados, e isso os leve a produzir. Infelizmente, esta é a realidade de muitas empresas em Portugal. Felizmente existem excepções.

Os gestores foram ensinados a gerir números, e por acaso lá existem pessoas, que são uma chatice de gerir. Mas sem elas, esses números não surgem e a produtividade não sobe. Foi assumido que se todos os gestores, e de certa forma todas as pessoas, agissem no seu próprio interesse egoísta, conseguiríamos criar riqueza que seria distribuída pelo mercado a toda a sociedade, e assim surgiria a mão invisível de Adam Smith, o Liberal de referência.

Mas Adam Smith defendia que o Homem tinha um carácter de “simpatia natural” pelo mundo e pelo outro, o que o levava a ter comportamentos sentimentais, sentindo-se feliz por ver a felicidade do outro. Adam Smith afirmou também que o Homem tem a consciência que lhe permite realizar processos de auto-crítica. Ao seguirmos a nossa consciência, acabamos por promover a felicidade humana. Segundo Smith, as leis, as punições e as recompensas criadas em sociedade pelo Homem pretendem alcançar essa felicidade humana, mas elas nunca podem ser tão consistentes, imediatas e efectivas como a consciência Humana e as regras de moralidade geradas por natureza.

Será que o Homem Português perdeu a sua consciência? Será que o Homem político e o Homem gestor, com responsabilidades acrescidas, se esqueceram que têm o dever de dar o exemplo? Será que os mais abastados perderam a sua consciência de forma mais imediata? A quantidade de notícias que ouvimos sobre corrupção, conflito de interesses, dualidade entre os argumentos e a prática, leva-me a pensar que em Portugal se perdeu todo e qualquer senso de consciência. Mas se perdemos essa consciência, o que somos? Animais a tentar a todo custo salvar a pele? Mas não compreendemos que assim vamos levar o sistema à falência?

Portugal enfrenta muito mais do que uma crise estrutural económica. Como muitos dizem, enfrenta uma crise de identidade profunda que consiste no facto de o país ainda ser gerido por aqueles que em tempos pensaram que poderiam mandar no país. Isso acabou! Já não se consegue ignorar a consciência porque simplesmente queremos. Já não se consegue manipular o país como em tempos ocorreu.

No entanto, o sistema está ainda muito cheio dessa matriz de pensamento e de abusos. Mas só posso acreditar que uma nova geração de pessoas estejam dispostas a dar o exemplo, a fazer o que “deve ser feito”, porque “isso é o seu dever”, porque sem uma sociedade em harmonia em que se protejam os mais desfavorecidos, jamais conseguiremos alcançar o desenvolvimento.

Portugal é um país Europeu com uma cultura de país subdesenvolvido. Precisamos que a nossa consciência nos ataque de novo. Precisamos de ter pesos de consciência fortes. Precisamos de ter de fazer o bem para conseguir dormir à noite. Isto não é ser parvo. Segundo Adam Smith, isso é ser Homem.

Para mais informações sobre a obra “Teoria dos Sentimentos Morais”, que foi publicada antes da “Riqueza das Nações”, consulte: http://www.adamsmith.org/the-theory-of-moral-sentiments/