Poupar, reciclar, reutilizar, reinventar são verbos que gradualmente começam a fazer parte do léxico de um número crescente de empresas. O sector têxtil e o do calçado não fogem à regra e são cada vez maiores as apostas em gerar retorno ao mesmo tempo que se reduz o impacto ambiental, muito negativo nestas indústrias em particular. Se a sustentabilidade está na moda – e ainda bem – é bom que a moda se junte também a esta cruzada sustentável
Por MÁRIA POMBO

Se algo positivo existiu depois de o mundo ter sido abalado pela crise financeira global que deflagrou em 2008, foi um aumento significativo de consciencialização, por parte dos cidadãos e das empresas, de que nada é garantido. E o mesmo acontece com os recursos do planeta. Fugindo à tendência que caracterizou a sociedade de consumo e materialista ao longo das últimas décadas, o mundo parece estar a acordar, gradualmente, para a necessidade de poupar, reciclar, reutilizar e, no que às empresas diz respeito, reinventar os seus modelos de negócio, em busca de novos mercados que possam juntar o útil ao agradável, gerando retorno, ao mesmo tempo que contribuem para minorar os prementes desafios ambientais de um planeta quase “esgotado”.A indústria têxtil e a do calçado encontram-se entre os vários sectores que estão a mudar o seu “mindset” e a ajustá-lo aos desafios e oportunidades dos imperativos da sustentabilidade. Desta forma, e para além da aposta na reciclagem de materiais e em várias formas de tornar “novo” o que era “velho” , a preocupação em utilizarem materiais mais resistentes e duradouros, fugindo à tendência dos últimos anos – em que tudo era efémero e substituível – é cada vez mais uma realidade.

Para além do factor “poupança”, o reaproveitamento de peças que antes se deitavam fora é uma forma de não sobrelotar os aterros, principalmente quando falamos em colas e materiais perigosos que levam décadas a decomporem-se, contribuindo assim para a não-poluição ambiental.

Adicionalmente associada à reciclagem de materiais, estão a surgir novas indústrias, como a da utilização de desperdícios de certos alimentos, de que é exemplo particular a pele de peixe. Esta é uma forma de aproveitar as sobras de peixe que antes eram usadas para alimentar animais, ou que não eram simplesmente utilizadas, convertendo-as em acessórios e peças de vestuário. As características da pele do peixe, nomeadamente a sua flexibilidade e textura, permitem criar objectos semelhantes aos que já existiam em couro (provenientes de outros animais), sendo uma alternativa a este material.

Como afirma Laura Storm, directora executiva do think thank dinamarquês Sustainia, dedicado à sustentabilidade, “o método de fazer couro a partir de pele de peixe já existe há muito tempo e tem sido usado essencialmente por pessoas com poucos recursos”. No entanto, o interesse crescente por esta técnica transformou-a numa “solução moderna” de reaproveitamento, como poderemos perceber mais à frente neste artigo.

A reciclagem, nomeadamente de roupa, acessórios e sapatos, não é uma novidade. No entanto, a procura de mecanismos de inovação, que tornem mais sustentável a indústria da moda, tem crescido de forma veloz. Longe da ideia de que “o vintage está na moda”, surgem ideias e projectos que dão a materiais usados uma vida completamente nova.

13112014_ModaNadaSePerdeTudoSeTransformaA sustentabilidade está na moda e a moda começa a tornar-se sustentável
Suzy Amis Cameron, ex-modelo e actriz, e activista na área do ambiente, usa a metáfora dos aviões a jacto para explicar a forma como estamos a correr contra o tempo para reverter os estilos de vida pouco sustentáveis das últimas décadas. Um dos seus primeiros projectos nesta área foi o lançamento, em 2009, do “Red Carpet Green Dress”, um concurso de design a nível mundial, que continua a existir e que promove a criação de vestuário sustentável para a noite dos Óscares.

A mulher do realizador de Avatar, James Cameron, que se dedica a diversos projectos na área da moda sustentável defende, no entanto, que os seus objectivos não se esgotam apenas na criação de “vestidos bonitos” e glamourosos, próprios da famosa passerelle vermelha, considerando, ao invés, que a sustentabilidade é particularmente importante na “roupa todos os dias”. Por esse motivo, está a criar uma linha de roupa amiga do ambiente e a preços acessíveis a “qualquer carteira”.

Ao fim de seis anos a promover a criação de vestuário sustentável, a ambientalista considera que este é um tema que leva tempo a entrar na consciência das pessoas. No entanto, não desiste de trabalhar arduamente e de procurar formas e mecanismos de alertar o público para esta causa.

Uma outra iniciativa que pretende reduzir o impacto ambiental da indústria têxtil surgiu em 2013 pela marca sueca H&M. Chama-se Garment Collecting Initiative e tem o objectivo de limitar a quantidade de tecido que, continuamente, chega aos aterros sanitários. A ideia, a longo prazo, é encontrar uma forma de reutilizar e de reciclar toda a fibra têxtil, dando-lhe uma nova vida.

A actual tecnologia de reciclagem de têxteis usados é ainda rudimentar e limitada ao processo mecânico de fibras como o algodão e a lã. O grande problema deste mecanismo é o facto de estas fibras encolherem e perderem qualidade, sendo necessário juntar sempre uma percentagem virgem das mesmas.

Segundo Cecilia Brännsten, gestora de projectos globais da H&M, apenas 20% do algodão reciclado consegue ser aproveitado sem comprometer a qualidade das peças. A responsável explica, no entanto, que a marca está a seguir atentamente o desenvolvimento tecnológico, com o intuito de um dia ser possível reciclar todo o desperdício desta indústria. “Temos esperança de que, num futuro breve, o desenvolvimento de diferentes técnicas e tecnologias de reciclagem de tecido permitam a confecção de fibras recicladas com a mesma qualidade das fibras virgens, ou ainda melhor”, declara.

Tal como Suzy Amis Cameron, a iniciativa da H&M pretende que a moda ecológica seja uma realidade acessível a todos os clientes. Mais do que levar os clientes a optar por este tipo de vestuário, Cecilia Brännsten realça que a marca ambiciona inspirá-los “a ver nas roupas velhas um recurso e não um pedaço de lixo”.

Esta preocupação com a moda sustentável não é, no entanto, exclusiva da indústria têxtil. Também no sector do calçado é possível inovar de forma ecológica. As borrachas e as colas utilizadas para a produção de calçado constituem um enorme desafio para o ambiente, na medida em que levam várias dezenas de anos a decompor-se.

Para Shahin Rahimifard, responsável pelo Centre for Smart, na Universidade de Loughborough, o qual se dedica às tecnologias de reciclagem e de reutilização de materiais, bem como ao fabrico sustentável, um dos principais desafios da reciclagem, neste sector, é o facto de os sapatos conterem materiais como couro, borracha, tecido, metais e outros materiais, os quais são muito difíceis de “separar”. Para resolver este problema, o professor, em conjunto com a sua equipa, desenhou uma série de máquinas capazes de transformar sapatos em pequenas partículas, separando assim os diferentes materiais. Desta forma, e apesar de esta não ser a solução mais eficaz, o seu contributo para o ambiente é positivo, na medida em que estes materiais podem ser usados noutro tipo de indústrias como a da construção.

E é a busca de soluções mais eficiente que muitos profissionais deste sector têm procurado. A LYF (Love Your Footprint) é uma marca especializada em calçado reciclado a qual, para além de manter a qualidade dos materiais novos, dispensa cola e outros fixadores. A sua técnica patenteada possibilita que os diversos componentes dos sapatos sejam montados e desmontados e dêem origem a novos sapatos. A tecnologia usada no seu fabrico permite que as diversas partes permaneçam juntas, como se de peças de Lego se tratassem, sem perigo de se separarem durante a marcha. Desta forma, o seu promotor garante que, para além de oferecerem conforto, estes sapatos “combatem” o desperdício, uma vez que o calçado é todo reaproveitado.

Algumas marcas, como a Nike, a Gucci e a Vivo Barefoot, defendem que a preocupação dos fabricantes de calçado sustentável deve estar focada no “fim do ciclo de vida do produto”. Assim, ao produzirem sapatos mais resistentes e duradouros, os quais permitem às pessoas utilizarem-nos durante mais tempo, previnem a chegada de muitos deles aos aterros ou, pelo menos, contribuem para atrasar significativamente esse processo. O responsável pela área da sustentabilidade da Nike afirma, inclusivamente, que “não existe um ‘fim de vida’ quando falamos em inovação sustentável”.

Por seu turno, a marca de luxo Gucci tem já uma linha de calçado produzida a partir de bioplástico, um material biodegradável que surge como alternativa ao plástico “vulgar”. A Puma seguiu a mesma tendência, e em 2013 apresentou a sua colecção InCycle, com uma gama de sapatos, malas e vestuário biodegradáveis.

13112014_ModaNadaSePerdeTudoSeTransforma2Elites vestem Prada … de peixe
Como já anteriormente referido e também ligada ao calçado, mas não só, tem crescido uma indústria que se dedica a produzir peças de couro a partir da pele de peixe. O método já não é novo, mas tem atraído um número crescente de compradores e de fabricantes, e as possibilidades são tantas quantas as que a imaginação conseguir “desenhar”.

Com o brutal aumento da captura de diversos peixes, nos últimos anos, alguns fabricantes viram na pele dos mesmos uma oportunidade de negócio, considerando que os custos de produção são baixos e que os resultados são surpreendentes, fazendo face à exploração de alguns animais (como os bovinos) para produzir peças de couro.

Várias marcas, como a Prada, a Dior ou a Nike, já começaram a apostar neste sector. Umas optam pelo fabrico e comercialização de objectos pequenos, como capas de telemóveis, carteiras e porta-chaves, usando a pele de peixes de tamanho igualmente reduzido. Outras preferem diferenciar-se através da combinação de pele de várias espécies, que dão origem a artigos com diversas cores e texturas.

A flexibilidade deste recurso é uma das suas mais-valias para os produtores, assim como a oferta do mesmo, que tem, contudo, vindo a ser menor com o crescente aumento da procura. É possível inclusivamente afirmar que aquele que começou por ser um método usado pelas populações mais desfavorecidas de diversas regiões piscatórias cresceu de tal forma que as expectativas apontam para que se torne, em breve, um mercado de nicho, acessível apenas às elites endinheiradas, o que acaba por ser um contra-senso em matéria de sustentabilidade.

Contudo, a verdade é que são várias as partes que ganham com este negócio. Para o ambiente, as vantagens são diversas e bastante positivas, porque os materiais são feitos a partir de um recurso natural e biodegradável que antes era usado como alimento para alguns animais e para “inundar” aterros sanitários. Outra vantagem, para o ambiente, reside na redução das emissões de CO2 provenientes da exploração em massa (já referida anteriormente) de animais como as vacas e as ovelhas, os quais são responsáveis por percentagens enormes de emissões de gases, aumentando significativamente o preocupante aquecimento global.

A indústria piscatória está, assim, a transformar-se num foco de interesse crescente por parte de investidores, que a encaram como forma de obter lucro, o que se traduz numa significativa valorização da mesma. Por outro lado, os fabricantes conseguem ver reconhecido o valor dos seus produtos, considerando o interesse de um número crescente de pessoas interessadas em adquiri-los. Uma outra consequência positiva reside também no facto de várias universidades de todo o mundo estarem a ganhar estudantes particularmente interessados neste material, ao mesmo tempo que o consideram como uma nova garantia de sucesso profissional.

Os exemplos apresentados mostram o que já começou a ser feito no sector da moda para o tornar mais sustentável. No entanto, perante os resultados que se pretendem alcançar, ainda há muitos caminhos por onde passar e muitos terrenos por desbravar. Começar é bom, mas não chega.

Como afirma Alice Grahame, jornalista freelancer e especialista nas áreas da sustentabilidade e da inovação, “para se inverter o impacto negativo que o sector do calçado [e da moda em geral] tem no ambiente, este tipo de inovações tem de ser produzido em grande escala”. Alertando que existe ainda muito trabalho a fazer para se reduzir a utilização de químicos extremamente prejudiciais ao ambiente no processo de produção do calçado, Grahame está convicta que “ainda serão necessários 10 a 20 anos para que sapatos velhos recolhidos possam ser convertidos em produtos novos”. São, contudo, estes pequenos primeiros passos que poderão conduzir a um enorme salto para esta indústria em particular.

O mesmo acontece com o aproveitamento do algodão e da lã reciclados, anteriormente citados. Uma percentagem de 20% de reaproveitamento pode parecer pouco para merecer a atenção e o investimento dos fabricantes, mas se existirem muitos que por ela se interessem, o impacto poderá ser realmente positivo e compensador para o ambiente.

Mária Pombo

Jornalista

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