Fazem duras críticas às motivações – pouco éticas – dos líderes empresariais. Anseiam viver num mundo em que as empresas contribuem activamente para a sociedade e para o ambiente, e ajudam a resolver alguns dos seus problemas mais graves (como as alterações climáticas e o terrorismo). Defendem a partilha dos lucros por todos os stakeholders e consideram que a procura de riqueza não deve ser a principal preocupação das organizações. Estes são os millennials da actualidade, de acordo com um estudo recentemente publicado pela Deloitte e que revela um preocupante aumento de pessimismo face às organizações em que trabalham e aos líderes que as gerem
POR MÁRIA POMBO

Os millennials sentem-se desconfortáveis e pessimistas em relação ao futuro. A fragmentação política e social, em conjunto com o crescimento da Indústria 4.0 (que está relacionada com a robotização, a internet das coisas e a inteligência artificial), tem vindo a alterar o modo de viver e trabalhar, levando muitos jovens a sentirem-se inseguros em relação ao que pode estar por vir. E se muitos consideram que os líderes empresariais deveriam colocar o lucro no mesmo patamar que outras questões – como a mitigação das desigualdades sociais e a promoção da sustentabilidade ambiental – poucos são aqueles que se podem dar ao luxo de afirmar que, nas organizações onde colaboram, essas preocupações são reais, fazendo com que a maioria se sinta desmotivada e procure novas empresas para trabalhar.

Estas são as principais conclusões do “2018 Deloitte Millennial Survey”, apresentado recentemente. O documento revela quais são os pontos de vista e as motivações de cerca de 10 mil jovens da geração millennial (ou Y) e de 1800 jovens que fazem parte da geração seguinte, a Z, residentes em 37 países.

Contrariamente ao que se tem vindo a concluir em edições anteriores, os jovens que participaram nesta edição não se sentem optimistas, sendo, ao invés, estes os piores resultados desde 2014. Apenas 48% (contra 65% apurados na edição do ano passado) acreditam que as organizações têm um comportamento ético, e apenas 47% (face a 62% de há um ano) consideram que os líderes empresariais estão empenhados em melhorar a sociedade. Seguindo a mesma lógica, para três quartos dos inquiridos, as empresas estão muito focadas nos seus projectos e muito pouco na sociedade em geral, e perto de dois terços pensam que as organizações não têm outra ambição para além do lucro.

[quote_center]Em 2014, 65% dos millennials acreditavam que as suas empresas se comportavam eticamente. Em 2018, apenas 48% mantêm essa crença[/quote_center]

A larga maioria (mais de 80%) dos inquiridos sente que o sucesso das empresas deveria contar com outros indicadores para além das questões financeiras. Mas os millennials não são ingénuos e sabem que os lucros são fundamentais para o sucesso e a continuidade de um projecto, mas consideram que ter um impacto positivo na sociedade, criar produtos e serviços inovadores, melhorar a vida das pessoas através da criação de emprego e desenvolvimento profissional, e promover a inclusão e a diversidade no local de trabalho deveriam ser objectivos tão importantes quanto a criação de riqueza.

Na verdade, as áreas que os jovens identificam como fundamentais nas organizações onde trabalham – que são a criação de lucro, a promoção da eficiência e produção e a venda de bens e serviços – são aquelas que, para os próprios, têm uma menor relevância, tendo um peso muito menor do que a criação de emprego e a promoção de uma sociedade melhor.

E não pensemos que esta visão é partilhada apenas pelos millennials recém-chegados ao mercado de trabalho: esta também é a opinião dos membros mais “seniores” da geração Y (mesmo daqueles que já ocupam cargos de liderança nas organizações), os quais defendem que deveria existir um melhor equilíbrio entre a procura de lucro e a criação de outros valores (mais relacionados com questões sociais e ambientais).


Sociedade, tecnologia, diversidade e inclusão

As grandes empresas são aquelas que, para os inquiridos, têm a maior capacidade de ajudar a resolver diversos problemas (sociais, ambientais e económicos), podendo ter um papel fundamental em áreas como a educação, a estabilidade económica e a cibersegurança. Interessante é concluir que a opinião dos jovens acerca das alterações climáticas se alterou face a edições anteriores: se estas foram, em tempos, uma preocupação pouco relevante para os inquiridos, actualmente as mesmas constituem um problema de enorme relevância, mas também de difícil resolução, a par do terrorismo, afectando essencialmente os países em desenvolvimento e necessitando da intervenção das grandes organizações.

Sem surpresas, o desenvolvimento tecnológico é outra característica que os jovens apreciam, tendo demonstrado apreço pelas organizações que se estão a adaptar à Indústria 4.0 e a preparar os seus colaboradores para as mudanças que a mesma irá (ou já começou a) provocar.

A par da inovação tecnológica, a diversidade e a inclusão são igualmente características que os mais novos apreciam nas organizações. Todavia, tanto os millennials como a geração Z acreditam que a maioria dos líderes empresariais não está verdadeiramente empenhada em criar culturas inclusivas: dois terços dos inquiridos consideram que a maioria fala de diversidade e inclusão apenas “para ficar bem”, defendendo que deveria existir legislação que “obrigasse” as organizações a promoverem verdadeiramente a diversidade no local de trabalho.

[quote_center]Mais de 80% dos inquiridos consideram que o sucesso das empresas deveria ser avaliado não tendo como foco principal o lucro[/quote_center]

A este respeito, importa ainda esclarecer que os jovens consideram que a diversidade é uma ferramenta que permite melhorar a performance das empresas, principalmente quando a mesma existe também nos cargos de liderança. Os inquiridos que trabalham em organizações onde a diversidade existe consideram que os seus líderes ajudam os colaboradores a serem mais éticos e criativos, e que promovem o desenvolvimento de talentos e a inteligência emocional de toda a equipa. Este é o motivo pelo qual 69% dos inquiridos que trabalham sob liderança de equipas heterogéneas consideram que o seu trabalho é estimulante e motivador (contra 43% que são liderados por equipas homogéneas). Complementarmente, 78% dos jovens que trabalham em ambientes de diversidade e pluralidade afirmam que as suas empresas estão fortemente empenhadas em gerar riqueza, demonstrando assim que é possível ter lucro e contribuir activamente para uma sociedade melhor e mais inclusiva.

Importa ainda esclarecer que os jovens olham para a diversidade como um conceito bastante lato: para eles, este não significa apenas ser tolerante em termos de género, raça ou etnia, mas também reconhecer e aceitar cada pessoa como um ser individual, dotada de diferentes ideias e formas de pensar.

E se, em anos anteriores, os inquiridos demonstraram ser “a favor” das empresas mas assumiram esperar mais dos líderes, este ano, o sentimento favorável deteriorou-se devido ao facto de os millennials se aperceberem que os seus desejos não estão, de facto, a ser atendidos. Para além de terem uma opinião negativa acerca dos líderes empresariais (cuja acção tem um impacto positivo apenas para 44% dos jovens), os millennials fazem igualmente duras críticas aos líderes políticos. Neste sentido, apenas 19% dos inquiridos consideram que a acção dos líderes políticos tem um impacto positivo, contra 71% que afirmam que o seu impacto é negativo.

Para os autores do documento, esta opinião negativa deve ser encarada como uma oportunidade para os gestores, os quais têm agora a possibilidade de ir ao encontro das expectativas dos mais novos, assumindo-se como agentes de uma mudança positiva.


Millennials, desanimados, insistem que o lucro não é tudo

De acordo com o documento, o modo como os jovens encaram as empresas diz muito acerca do tempo que pretendem trabalhar nelas, ou seja, acerca no seu nível de lealdade para com os seus actuais líderes. Neste sentido, 43% dos millennials e 61% dos jovens da geração Z esperam deixar de trabalhar na mesma empresa dentro de dois anos, sendo que apenas 28% dos jovens Y tencionam permanecer durante mais de cinco anos no mesmo lugar.

Estes são trabalhadores que precisam de bons motivos para continuar a trabalhar nas suas actuais organizações, necessitando de ter razões que compensem, a longo prazo, a sua permanência no mesmo local de trabalho. E de uma coisa não existem dúvidas: as organizações que apenas perseguem o lucro não cativam os mais novos.

[quote_center]Os jovens pedem aos líderes que tenham um papel activo na resolução de problemas a nível mundial e que equilibrem a obtenção de lucro com a promoção de uma sociedade melhor[/quote_center]

Todavia, no topo da lista das motivações dos millennials estão as recompensas monetárias. Esta ambição, que parece ser contrária à ideia de que o lucro não deve ser uma prioridade para as organizações, está em linha com a ideia de que os empregadores devem “partilhar a riqueza”, criando bons trabalhos e dando aos seus trabalhadores a possibilidade de terem uma vida melhor. A mesma reflecte a vontade, partilhada pela maioria, de inverter a tendência de baixa natalidade, demonstrando vontade de criar condições para que os seus filhos possam ter uma vida confortável. Já para os jovens Z, e ainda em começo de carreira, as questões financeiras surgem em segundo lugar, logo depois do desejo de fazerem parte de uma “cultura positiva no local de trabalho”.

A flexibilidade e as oportunidades de aprendizagem contínua são outros dois factores que cativam o interesse de ambas as gerações. Para estes jovens, flexibilidade é sinónimo da confiança que os seus líderes depositam em si, e aqueles que a têm revelam ser mais empenhados, produtivos e satisfeitos com o trabalho.

A gig economy (caracterizada por contratos de curta duração, em part-time ou em regime de freelance) surge como uma alternativa viável para aqueles que pretendem abandonar as suas empresas dentro de dois anos, já que a mesma lhes permite ter uma maior liberdade e flexibilidade ao mesmo tempo que proporciona um rendimento por vezes superior ao que é conseguido com um trabalho a tempo inteiro.

A formação é outro motivo que atrai os jovens. Neste sentido, as empresas que proporcionam formação aos seus trabalhadores têm, para os jovens, mais valor, sendo que 73% daqueles que pretendem permanecer na mesma empresa durante cinco ou mais anos afirmam que as organizações onde trabalham incentivam a participação em variados cursos, ao longo do tempo. Adicionalmente, mais de um terço assume que as competências interpessoais são essenciais para o sucesso, a longo prazo, das organizações, mas são apenas 26% aqueles junto de quem estas competências são estimuladas – a par com aptidões de foro ético, motivacional, e relacionadas com o pensamento crítico e com a criatividade.

As conclusões desta análise permitem afirmar, sem margem para dúvidas, que os millennials se sentem desapontados com as prioridades – pouco éticas, na sua perspectiva – dos líderes empresariais, sendo clarividente que as organizações mais bem-sucedidas são aquelas que estimulam um bom ambiente de trabalho e o desenvolvimento de talentos. Os jovens pedem aos líderes que tenham um papel activo na resolução de problemas a nível mundial, que equilibrem a obtenção de lucro com a promoção de uma sociedade melhor, e que construam empresas mais inclusivas e flexíveis.

Para os inquiridos não existem dúvidas: as empresas devem partilhar a sua riqueza com todos os stakeholders, sejam eles colaboradores ou as comunidades nas quais operam.

Mária Pombo

Jornalista