Chama-se “AI for Accessibility” e foi apresentada há duas semanas na Build Conference, o evento anual da Microsoft. A iniciativa, no valor de 25 milhões de dólares, visa envolver programadores, universidades, organizações não-governamentais e inventores na criação de novas soluções baseadas em inteligência artificial que sirvam para aumentar a independência e minorar o sofrimento dos mais de mil milhões de pessoas que possuem algum tipo de incapacidade. Com um historial de sucesso nesta área, a aposta cada vez mais forte neste segmento tem também o cunho pessoal do CEO Satya Nadella, que convive com o drama da deficiência todos os dias
POR HELENA OLIVEIRA

“Deveríamos estar a perguntar não só o que podem os computadores fazer, mas também o que devem fazer”, Satya Nadella, CEO da Microsoft

O CEO do American Council of The Blind utiliza o Seeing AI numa base diária. Esta applançada em 2016 pela Microsoft utiliza a câmara do smartphone para identificar e descrever tudo à sua volta, sejam pessoas, cenários, objectos ou mesmo textos. Com o SeeingAI, e sendo invisual, Eric Bridges consegue ajudar o seu filho Tyler, de três anos, a fazer os trabalhos de casa. Eric utiliza a apppara fazer um scandas tarefas de Tyler, o que lhe permite rever o trabalho realizado pelo filho. Com esta aplicação, Tyler consegue completar as suas tarefas – e estabelecer novas relações com o seu pai, as quais há dois anos exigiam a assistência de uma pessoa provida de visão.

A Organização Mundial de Saúde define a incapacidade como uma “deficiência (…), um problema na função ou estrutura do corpo; uma limitação das actividades em termos de desempenho social (…)”.

Neste sentido, a deficiência não é apenas um problema de saúde, mas e como afirma Jenny Lay-Flurrie, surda, Chief Accessibility Officer da Microsoft, é também um “desajustamento entre um indivíduo e o seu ambiente”.

Tendo em conta que existem mil milhões de pessoas com algum tipo de incapacidade no mundo – a denominada maior minoria de todas –, apostar em soluções tecnológicas que ajudem um sétimo da população a ser mais independentes e a minorar o seu sofrimento não só é “fazer o bem”, como é um excelente plano de negócio. Para a Microsoft, e como afirma lay-Flurrie, num artigo da Fast Company, faz todo o sentido: “este é um mercado enorme e sinto-me sempre muito irritada quando somos denominados como uma minoria quando existem mil milhões de pessoas no mundo com algum tipo de incapacidade”.

Há dez anos que Lay-Flurrie é responsável pelo Microsoft’s Disability Group e a sua dedicação à “inclusividade” é partilhada pelo CEO Satya Nadella, muito graças também à sua história pessoal, na medida em que o seu filho nasceu com paralisia cerebral. Por outro lado, as tecnologias inspiradas na inclusão são crescentemente necessárias para fazer frente ao gigantesco desemprego que grassa neste segmento, que é o dobro face ao das pessoas sem deficiência. E se é verdade que a Microsoft sabe explorar, e muito bem, a sua marca em torno da inclusão, os analistas concordam que não é apenas uma questão de marketing. A título de exemplo, a empresa fundada por Bill Gates tem uma linha telefónica dedicada às incapacidades, para qualquer dos seus produtos, a qual recebe 300 mil chamadas por ano de clientes que precisam de assistência. E que a recebem.

Desta forma, não foi muito grande a surpresa quando, na Build Conference deste ano, que decorreu entre 7 e 9 de Maio, a Microsoft tenha anunciado uma nova iniciativa, intitulada “AI for Accessibility”, no valor de 25 milhões de dólares e com a duração de cinco anos. Apesar de o montante ser uma gota de água numa empresa que chegou aos 8,6 mil milhões de dólares de lucro o ano passado, o modelo da iniciativa tem todas as condições para multiplicar não só os milhões nela investidos, como o impacto que a define. Tal como aconteceu o ano passado com o lançamento da iniciativa AI for Earth, um programa que visa aplicar a inteligência artificial no desbloqueio de soluções para questões urgentes para o nosso planeta como o clima, água, agricultura e para a biodiversidade, um modelo similar será lançado para a área da acessibilidade e que, ao longo de cinco anos, colocará ferramentas de inteligência artificial nas mãos de especialistas que acelerem o desenvolvimento de soluções inteligentes que possam beneficiar o maior número de pessoas com deficiência em todo o mundo.

Emprego, quotidiano e relacionamentos

Na Build Conference, e na apresentação da nova iniciativa, o presidente da Microsoft, Brad Smith, contextualizou o estado actual das ferramentas de acessibilidade que já “ integram” inteligência artificial e abriu uma janela para o futuro que se avizinha. Afirmando que estamos já a testemunhar o que a IA pode fazer pelas pessoas com deficiência, tendo em conta as soluções que já comercializa para as ajudar a ouvir, ver e raciocinar com uma precisão surpreendente, Smith falou também dos esforços que a empresa está a ultimar em soluções mais avançadas como a transcrição em tempo real de voz para texto, serviços de reconhecimento visual ou funcionalidades de texto preditivas, alguns deles já existentes. Os avanços em inteligência artificial similares a estes, e tendo em conta esta nova iniciativa, oferecem um enorme potencial para que as pessoas com deficiências de visão, audição, cognição, aprendizagem, mobilidade ou saúde mental possam beneficiar dos mesmos em três cenários específicos: emprego, vida quotidiana e relacionamentos humanos.

Ainda de acordo com o presidente da Microsoft e em todo o mundo, apenas uma em cada 10 pessoas com incapacidade tem acesso a tecnologias e produtos de assistência/apoio. Assim, e ao tornar as soluções de IA mais amplamente disponibilizadas, o gigante tecnológico acredita que estas poderão ter um impacto substancial nesta importante comunidade.

Explicitando que esta nova iniciativa será gerida pela equipa de Acessibilidade – liderada por Jenny Lay-Flurrie -, a ideia é continuar o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos três anos por programadores e engenheiros de toda a empresa, expandindo a sua missão para fornecer um novo nível de ferramentas e de apoio para programadores de todo o mundo.

Ou seja, o programa AI for Accessibility irá levar a cabo esta missão de acordo com três níveis. O primeiro será através do financiamento sob a forma de capital semente a programadores, universidades, organizações não-governamentais e inventores, para que façam uma primeira abordagem de IA focada na criação de soluções que irão criar novas oportunidades e auxiliar pessoas com incapacidades no trabalho, na vida quotidiana e na sua forma de se relacionar com os outros.

[su_youtube url=”https://youtu.be/R2mC-NUAmMk” width=”660″ height=”220″]Seguidamente, a Microsoft identificará os projectos que se afigurem como mais promissores, aumentando o seu investimento em tecnologias e em especialistas em IA da “casa” para que a sua escala possa crescer. E por último e à medida que a IA e o design inclusivo estiver “pronto” para fazer parte das ofertas da empresa, a Microsoft trabalhará com os seus parceiros para incorporar as inovações de inteligência artificial nas suas plataformas de serviços para permitir a outros maximizar o acesso às suas ofertas.

Um casaco cheio de tecnologia

Complementar à ideia que a deficiência é um “desajustamento entre um indivíduo e o seu ambiente”, Jenny Lay-Flurrie, e talvez por ela própria sofrer de uma capacidade, afirma que a ideia não é substituir os cães-guia, as bengalas ou os intérpretes, mas sim considerar a tecnologia como mais uma ferramenta. E, em particular, a Microsoft tem como um dos seus principais objectivos ajudar as pessoas com deficiência a arranjar e a manter um trabalho.

Como também declarou à Fast Company, a Microsoft quer permitir que “as pessoas tenham escolha, diversidade, e que possam ir atrás daquela entrevista de emprego com um casaco cheio de tecnologia que as possa ajudar”. Dando o exemplo de uma colega, igualmente surda, que chegou atrasada à Build Conference, Lay-Flurrie explicou que graças à ferramenta de transcrição exibida num ecrã próximo dela, rapidamente conseguiu recuperar o que tinha perdido. Esta ferramenta de transcrição da Microsoft possibilita que os utilizadores surdos captem as conversas em tempo real, transcrevendo-as, o mesmo acontecendo com o Microsoft Translator, o qual representou um enorme investimento para a empresa e que está a ter resultados cada vez melhores nas inúmeras línguas que já o integram.

Na Build Conference foi igualmente a “transcrição ao vivo”, na qual a Microsoft está a trabalhar há anos, que se apresentou como uma excelente novidade. Como conta um correspondente da CNET presente na conferência, foi exibido um programa que consegue identificar pessoas em reuniões, transcrever o que estas dizem e até “extrair” pontos da própria conversação que devem ter seguimento. Se esta ferramenta pode beneficiar muita gente pertencente à comunidade de pessoas com deficiência, será e por exemplo, a há muita esperada “8ª maravilha” para os jornalistas. Ou seja, e como já referido, todos estes programas e serviços podem ter benefícios adicionais para um conjunto alargado de pessoas e não apenas para o seu target específico.

De acordo com um analista presente na conferência anual e também citado pela CNET, “as pessoas com incapacidades são geralmente ignoradas no que respeita aos avanços tecnológicos, mas a Microsoft considera-os uma área-chave para competir com a Google, a Amazon ou a IBM”, as quais também estão a trabalhar nesta área em particular.

Já o presidente Brad Smith, que encara o desenvolvimento das ferramentas de IA como um contributo essencial para a independência e para a empregabilidade deste segmento populacional, sublinha que as ofertas da Microsoft não são apenas dirigidas a surdos ou a invisuais, mas também a outro tipo de incapacidades como o autismo, a Doença de Parkinson ou o autismo.

Por exemplo, a empresa já criou um motor “usável ou vestível” concebido para percepcionar a experiência de tremores sentida pelos doentes de Parkinson. Ao “tremer na posição oposta”, este “colete” permite a execução de tarefas simples tal como a assinatura do nome ou o agarrar numa chávena de café. Uma outra novidade que está a fazer furor, já apresentada o ano passado pelo grupo da Xbox da Microsoft, é a funcionalidade Copilot, que permite às pessoas utilizarem dois controladores para jogarem com apenas uma personagem. O Copilot foi um enorme sucesso para pais e miúdos pequenos poderem jogar em conjunto. Este ano a grande novidade foi o denominado Xbox Controller, criado exclusivamente para pessoas com certos tipos de deficiência, com botões gigantes e opções como a utilização de uma espécie de “palhinhas” que os paraplégicos podem colocar na boca e, através do seu sopro, jogarem também.  O Adaptative Controller pode ainda ser customizado de acordo com a deficiência em causa.

O objectivo comum a todas estas inovações é oferecer às pessoas com incapacidades uma vida quotidiana e profissional o mais igualitária possível, fazendo da inclusão uma parte ubíqua dos seus produtos. Adicionalmente, e como reforça Lay-Flurrie, “conceber produtos através da lente da deficiência abre novas avenidas para a inovação humana que nos ajuda a todos”.


Zain, o filho que transformou Nadella

“Um dia estava sentado à espera que o meu filho saísse de mais uma cirurgia e percebi que todo o equipamento que me rodeava era Windows. Na altura só pensei: hey, espero bem que funcione!”. No seu livro “Hit Refresh: The Quest to Rediscover Microsoft’s Soul and Imagine a Better Future for Everyone” o CEO da Microsoft fala também da sua vida pessoal e familiar, em particular do seu filho Zain. E o mesmo aconteceu na GeekWire Summit de 2017, onde partilhou de que forma o nascimento do filho, talvez mais do qualquer outra coisa na sua vida, fez dele o homem que é hoje. Como quaisquer pais à espera do primeiro filho, Nadella e a sua mulher Anu partilhavam toda a excitação comum de quem vai ter um filho pela primeira vez. Mas tudo mudou na noite em que Zain nasceu. Depois de sofrer uma asfixia in-utero, o bebé nasceu com paralisia cerebral. Hoje e como escreve Anu Nadalla, mulher de Satya, num ensaio sobre a sua experiência, “Zain é hoje um jovem de 21 anos charmoso e bonito, que adora passar tempo com a sua família, tendo uma paixão pela música. Sofre de paralisia cerebral e de tetraplegia espástica e é quase cego. Já passou por um sem número de intervenções médicas e outras se seguirão. Mas mesmo nos momentos mais vulneráveis, Zain demonstra uma enorme resiliência e força, o que me inspira”.

O relato da mulher de Nadella vai ao encontro da forma como o CEO da Microsoft olha para as soluções que a sua empresa desenvolve. Obviamente que não é a sua história pessoal a responsável pelo trabalho que a Microsoft exerce nesta área, mas também é certo que quando algo nos toca directamente, o nosso empenho – e porque somos humanos – é maior. E sob a liderança de Satya Nadella, a Microsoft fez da inteligência artificial uma das suas principais prioridades.